História e Prosopografia



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Ferreira, Tania Maria Tavares Bessone da Cruz - UERJ/CNPq

História e Prosopografia



Renunciar à pessoa humana para escolher a generalidade da humanidade é renunciar ao ser vivo [...] renunciar à generalidade é renunciar à História. (Georges Poulet )1
Diante deste paradoxo proposto por Georges Poulet vou apresentar algumas reflexões a respeito do tema proposto para uma das conferências da nossa reunião da ANPUH-RJ: História e Prosopografia. Quero agradecer o convite para esta conferência e ao acaso que a tornou possível. Outros historiadores receberam antes o convite e pelos mais diversos motivos tiveram que declinar. Sou grata aos meus colegas pela lembrança de meu nome e credito o convite à pesquisa por mim desenvolvida para a dissertação de mestrado, realizada em fins da década de 70 e início da década de 80 na Universidade Federal Fluminense e que teve como base um estudo prosopográfico. A historiografia recente tem recuperado questões de biografia e biografias coletivas que passaram a freqüentar os títulos publicados por uma gama enorme de historiadores europeus, americanos e brasileiros. O próprio tema desta décima ANPUH reflete esta tendência.

A prosopografia ou biografia coletiva tem suas origens mais remotas em Políbio, mas aprofundou-se de maneira mais sistemática no século XIX e conheceu um período de grande dinamismo nos princípios do século XX. O aprofundamento de teorias políticas foi de grande importância para as abordagens possíveis bem como seus métodos e técnicas.



Neste contexto houve reflexos para os estudos históricos, sobretudo por influência de obras de história política desenvolvidas por autores ingleses e americanos. Nesta exposição vou desenvolver questões de uso desta metodologia focalizando a história do Brasil imperial. Mas antes tratarei em um pequeno histórico sobre a importância da prosopografia na historiografia contemporânea.

Quando, no inverno de 1971, foi divulgado pela Revista Daedalus o texto de Lawrence Stone, denominado Prosopography,2 muitos historiadores voltaram os olhos pare este tipo de abordagem. No entanto ela era antiga conhecida da historiografia inglesa da velha cepa. O mérito de Stone foi retomar reflexões sobre o método, qualificando-o de forma mais sistemática e concentrando-o como “a investigação das características básicas comuns a um grupo de indivíduos na história por meio do estudo coletivo de suas vidas”.3

A própria tradução para a língua portuguesa do termo prosopografia reveste-se de ambigüidades, à medida que a forma de dicionarização da palavra difere do sentido original em inglês. Por exemplo, no dicionário Koogan/Houaiss 4o termo é referente à descrição das feições do rosto, ou o esboço de uma figura; e o mesmo acontece no dicionário Aurélio, constituindo-se, portanto em um novo sentido quanto à maneira como é empregado pelos historiadores de língua portuguesa, que muitas vezes preferem o termo – biografia coletiva – à prosopografia.

Dentro da história política aparece como irmã da biografia, gênero que goza há dois milênios, no ocidente, de um sucesso paradoxal, às vezes duramente criticado como menor, confuso, duvidoso, às vezes elevado a um patamar mais glorioso, como capaz de recuperar o papel do indivíduo, ou como disse Phillipe Levillain5, destacar o irresistível fascínio que exerce um ser único, em meio a milhões, enraizado em determinado tempo e lugar.

O que dizer então das possibilidades sugeridas por Stone e que encontraram na década de 80 um movimento de renovação de biografias, mesclada pela crise do marxismo enquanto modelo teórico, o questionamento das ideologias dominantes, a renúncia a uma total inteligibilidade do real e a renovação do individualismo, pontos tão bem destacados por Levillain.6

É importante frisar que muitas das premissas da prosopografia são herdeiras de debates entre historiadores e cientistas sociais. Na apresentação do livro de Peter Burke, Veneza e Amsterdã – um estudo das Elites do século XVII, publicado em inglês em 1990 e logo em seguida traduzido pela Brasiliense em 1991, o historiador Edgard De Decca, na ocasião desta conferência presidente da ANPUH Nacional reconhecia, na introdução, o vínculo desta vertente historiográfica às ciências sociais. Destacou que os métodos estatísticos e quantitativos amplamente utilizados em pesquisas de opinião, mais especificamente em pesquisas baseadas em conjuntos uniformes de questões, aplicadas a grupos sociais pré-selecionados, passaram a ser importantes para os historiadores. Basicamente o método prosopográfico define um universo de pessoas a ser estudado e propõe um conjunto de questões sobre seu perfil e atuação, que incluem dados sobre nascimento e morte dos indivíduos, laços de casamento e parentesco, origens sociais e posição econômica herdada, local de residência, educação, montante das fortunas pessoais ou familiares, ocupação, religião, trajetória política, experiência profissional.7

Em muitos casos, no entanto, a tradição historiográfica falou mais alto que os estudos das ciências sociais, para os historiadores que produziram prosopografia. O citado Burke, por exemplo, refere-se a seu próprio estudo como herdeiro da tradição inglesa de pesquisas de biografias coletivas muito em voga nas décadas de 20 e 30 do século XX. Originalmente estes estudos pretendiam analisar em que medida a ação política escamotearia interesses específicos de indivíduos e grupos.

Esta abordagem, no entanto, ficou por demais exclusivamente vinculada às fontes utilizadas por estes historiadores. Muitas dessas fontes documentais eram mais abundantes quanto às atividades comerciais tais como a troca, transferência, compra e venda de propriedades e permitiram que as análises realizadas ficassem impregnadas da sistemática da própria documentação, isto é, deram ênfase a estes aspectos, diluindo outros. . Relacionando-se os estudos prosopográficos com este perfil à concepção de que a ação política destes indivíduos estaria carregada de interesses, limitados e personalistas, sobretudo quanto a questões de ordem econômica, as críticas se avolumaram. No entanto, apesar delas, a tradição apontava para grandes abordagens no gênero. Desde as primeiras décadas do século XX Sir Louis Namier e Sir Ronald Syme formaram gerações de historiadores ingleses afeitos ao método prosopográfico, com ênfase em estudos centrados nas elites que ficaram conhecidos posteriormente como membros da “Corporação Namier”.8

Mas esses sucessos não impediram críticas. As mais veementes centravam-se no fato destes estudos serem muito restritivos a grupos sociais privilegiados, o que reduziria as aplicações da prosopografia a determinados setores da sociedade, ou seja, a aqueles que de uma forma ou de outra produziram e criaram acervos documentais próprios, registrando feitos e atividades. Como o próprio Stone observou em seu texto divulgador, a aplicabilidade da prosopografia para as camadas populares se restringia a poucas parcelas das minorias, sobretudo aquelas que foram perseguidas ou que sofreram processos policiais ou legais. Através deste tipo de registro se teria acesso a determinados dados que tratavam de grupos minoritários, sob a ótica de censores, ou policiais de um sistema burocrático repressivo que estabeleceriam critérios próprios nas suas ações disciplinadoras, e nos seus registros. Esta seria uma das limitações do método, muito enfatizada e discutida na década de 80.

Os principais defensores da abordagem e o próprio Burke trabalham para comprovar positivamente este tipo de estudo, enfatizando que “os novos historiadores sociais tentaram combinar a atenção ao detalhe e o interesse por mudanças ao longo do tempo, próprias do historiador tradicional, com o interesse do cientista social por problemas, e, portanto, por comparações. Assim tendem a focalizar a história de grupos sociais particulares, em regiões específicas, durante um período maior que o de uma geração, de um século ou mais longo”.9

Os estudos de E. P. Thompson sobre a classe operária inglesa no começo do século XIX, a obra de Lawrence Stone sobre a nobreza inglesa (1558 a 1641), a de Elinor Barber sobre a burguesia na França no século XVIII, também a obra de Emanuel Le Roy Ladurie sobre os camponeses do Languedoc, dos séculos XVI e XVII, incorporando estudos de história quantitativa, são herdeiros da tradição de qualidade em produções prosopográficas.

No entanto é inegável que todos os historiadores que trilharam estes caminhos dialogaram também com as ciências sociais, incorporando métodos estatísticos e comparativos, baseados fundamentalmente em pesquisas de opinião. Também se debruçaram em temáticas inovadoras para buscar alternativas na história demográfica, e em estudos de grupos socais específicos e das relações entre eles. Na defesa do método Burke foi franco na sua argumentação, sobretudo para justificar seus estudos da elite, rendendo homenagem ao trabalho de Vilfredo Pareto (1916), mas relativizando: “Pareto saqueou a história para seus próprios fins; os historiadores bem poderiam usá-los para os seus objetivos”.10 E recorre à nomenclatura usada por Pareto para qualificar membros da elite em duas categorias: os "leões" ou militares e as "raposas" ou políticos, ou ainda "rentiers" ou "entrepreneurs". Outro que ele cita como responsável por dar uma nova vida, compaixão e imaginação, às hierarquias políticas foi C. Wright Mills (The Power Elite – 1956).

Sugere também a incorporação das conclusões de Robert A. Dahl para que o método pudesse ser aplicado de forma a atenuar questões muito amplas, que seriam prejudiciais a estudos deste tipo, enfatizando pontos que deixariam claras as relações alternativas entre história e biografias, sem, no entanto, definir uma hierarquia ou uma complementaridade entre elas.

Ora a separação entre história e biografia não é uma lei da natureza, mas uma herança da historiografia grega, que situava a História do lado dos acontecimentos coletivos e a biografia como um elemento à parte, incorporando-se a uma análise dos fatos e gestos de um indivíduo, cujo sentido era sugerido pelo autor. Todas as dificuldades inerentes à biografia individual e à biografia coletiva aparecem ao longo dos estudos, enfatizando aquilo que Paul Kendall chamou de "ofício – ciência – arte" do impossível.

Ao mesmo tempo textos de prosopografia procuraram, através de inquéritos que permitem a identificação exaustiva de elementos de um determinado grupo social, a reconstituição das suas trajetórias profissionais e sociais, tornando possível a exposição do sentido de suas ações que apareciam sempre relacionadas à solidariedades e conflitos, de índole diversa, como no recente livro de Manuela D. Domingos Livreiros de Setecentos. As perguntas básicas feitas pelos historiadores que decidiram trabalhar com prosopografia podem ser recolhidas das indicações de Peter Burke no mesmo Veneza e Amsterdã, já citado.





  • Qual a estrutura do grupo (grupos) examinado?

  • Como é feito o recrutamento destes grupos?

  • Quais são as funções políticas mais presentes entre os membros dos grupos?

  • Qual sua base econômica? Qual a origem de sua riqueza?

  • Qual o seu estilo de vida?

  • Quais as atividades e valores mais importantes?

  • Promovem apoio das artes (mecenato)?

  • Como são educados?

  • Como e porque sofrem mudanças no período que se está estudando?

O texto de Stone também colocou todas estas questões na mesa de discussão. Ao mesmo tempo, no Brasil, havia reflexões de diversos estudiosos que sublinhavam e se aproximavam destas novas abordagens. Na USP funcionavam cursos de pós-graduação que foram importantes pólos de estudos historiográficos. Não exclusivamente, pois na década de 70, instalou-se na Universidade Federal Fluminense um programa de pós-graduação em História, pioneiro no Estado do Rio de Janeiro, no qual fui mestranda. Muitos de nós professores de história na cidade do Rio de Janeiro não tínhamos a possibilidade de fazer pós-graduação em outros estados ou países, por questões pessoais, familiares e de trabalho, e esta nova oportunidade apareceu muito perto, em Niterói. Para desenvolver pesquisas e orientar professores que planejavam trilhar os caminhos da História havia historiadores brasileiros e numerosos professores visitantes convocados entre eminentes historiadores europeus e norte americanos. Em 1977 fui selecionada para este Mestrado e pude participar de toda a renovação que ela fomentou entre os colegas que por lá passaram. Depois de concluir muitos créditos, pois os Mestrados eram muito mais longos e duradouros que os atuais, apresentei uma dissertação que destacava em seu título o tema prosopografia. Procurava definir a situação sócio-profissional de uma parcela dos advogados brasileiros durante o século XIX, entre as décadas de 60 e 80, que exerciam suas funções no Município Neutro da Corte, Rio de Janeiro.

Para concluí-la foram necessárias muitas pesquisas documentais, mudanças de orientador e cursos extraordinários. As leituras da ainda tese de José Murilo de Carvalho foram fundamentais. A relação dos nomes dos advogados da cidade do Rio de Janeiro foi elaborada a partir da leitura do Almanaque Lammert, publicação da época, que entre outros registros, possuía um indicador das atividades profissionais, fornecendo a listagem inicial com nomes, endereços e títulos honoríficos, facilitando o levantamento das informações em dicionários biobibliográficos e fontes documentais como inventários, testamentos e escrituras.

Como a cidade do Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século XIX, era um importante centro de atividades burocráticas e políticas, os advogados formados pelas faculdades de Direito de São Paulo e Olinda/Recife aí se concentravam, exercendo em número significativo atividades profissionais.


Outra questão abordada foi o bacharelismo. Que não era um tema novo, pois fora estudado no Brasil tanto por juristas, quanto por historiadores e outros cientistas sociais, desde o século XIX. Representava alguns aspectos do excesso de funcionários burocráticos ou, como o chamava o Visconde Uruguai, "a chaga do funcionalismo"11, tida como um grande mal devorador de rendas. Porém, o tema vinha sendo trabalhado dentro de uma abordagem às vezes maniqueísta, isto é, tomando o fenômeno como responsável mais direto pelo empreguismo, às vezes excessivamente enfatizado, refletindo-se em estudos memorialistas, ou de reminiscências, enveredando pela explicação mais anedótica do fato.

A produção historiográfica contemporânea procurou liberar - se desses ranços e avançou, tanto em nível metodológico quanto teórico. As novas aproximações do bacharelismo produziram trabalhos que desvendaram estruturas complexas, com trabalhos de cunho monográfico que enfatizaram especificidades e características locais, tão caras à acumulação de informações, para realimentação das análises mais abrangentes.12

Essa produção historiográfica no Brasil possibilitou o aparecimento de obras que debateram a questão sob diversas nuances chegando a conclusões, que por sua diversificação permitem algumas observações. Por um lado temos posições como a de Maria Isaura Pereira Queiroz,13 que vê no bacharelismo uma extensão do domínio do latifúndio, sendo portanto o bacharel o continuador, nos centros urbanos, dos interesses dos senhores rurais. Do outro lado podemos citar a obra de Faoro, que também analisa o fenômeno compreendendo – o como expressão de uma burocracia estamentalizada:

Sobre as classes que se armam e se digladiam, debaixo do jogo político, vela uma camada político – social, o conhecido e tenaz estamento, burocrático nas suas expansões e nos seus longos dedos. Nação, povo, agricultura e comércio obedecem a uma tutela, senhora e detentora da soberania.14
A sugestão temática presente nesta obra foi de muita valia para o delineamento do tema do nosso trabalho. No entanto analisei os advogados fluminenses como um grupo social, uma parcela da sociedade que percebia sua função e importância dentro do processo político, econômico e administrativo, procurando estudá-los dentro do contexto de uma sociedade com o predomínio de uma economia fundamentada na produção do café, e com os contrastes da escravidão.

Uma outra alternativa bibliográfica de importante peso já foi mencionada, a obra de José Murilo de Carvalho, dentro do viés da presença marcante dos bacharéis, e sua participação abrangente na política imperial. Originalmente, tese de doutorado que defendeu nos Estados Unidos, nela o historiador utilizou também o método prosopográfico. Este estudo sobre as elites brasileiras, visto sob o aspecto político – jurídico, é uma obra de importância e que dialoga profundamente com as ciências sociais:



Em primeiro lugar, quando falamos aqui de elites, não nos referimos a grandes homens e às teorias que, à moda de Carlyle, procuram explicar os acontecimentos em função de sua atuação. Falamos de grupos especiais de elite, marcados por características que os distinguem tanto das massas como de outros grupos de elite. Em segundo lugar, em nenhum momento se dirá que esse elemento, por si só, pode dar conta da explicação de fenômenos tão complexos como os que se referem à formação do Estado Nacional.[...]o fato de se ser contra o monopólio das decisões por grupos minoritários, e creio que todos nós somos, não deve obscurecer o outro fato de que existem grupos minoritários que realmente têm influência decisiva em certos acontecimentos...15
No entanto minha dissertação se propunha a avaliar um universo de população/amostragem mais restrito que o de José Murilo de Carvalho, mas mantinha no bacharelismo uma ênfase importante. Tornou-se mais artesanal na medida que se limitou aos advogados e bacharéis do Município Neutro da Corte, tendo neste grupo uma oportunidade de testar hipóteses mais amplas, acumuladas pela historiografia nacional, tais como as afirmativas de que esses advogados representariam um segmento dos proprietários latifundiários defendendo na Corte seus interesses , ou que a burocracia por si só atraia indivíduos que buscavam nela uma sinecura, e mais ainda que seria a insatisfação desse objetivo que colocaria os bacharéis e advogados contra a autoridade imperial. Não foi, porém, apenas da historiografia nacional que emergiu a motivação para este tema, pois, tanto a historiografia americana quanto a francesa sugeriram o caminho para uma análise prosopográfica, associada à idéia do estudo de um grupo sócio – profissional.

As duas tendências contribuíram para este estudo. A historiografia americana, com base na análise prosopográfica, com ênfase na utilização de dados quantificáveis, foi um recurso importante para grandes volumes de informação, sobretudo para o levantamento de inventários, testamentos, escrituras que concentrei nas fontes do Arquivo Nacional.Outros métodos estatísticos foram incorporados, alguns já utilizados nos trabalhos dos historiadores Roderick e Jean Barman que nesta época pesquisavam e produziam textos sobre os advogados brasileiros e sua participação na política Imperial.16 Em finais da década de 70, procuravam realizar quantificações em documentos passíveis de fornecer dados numéricos, e a partir dos quais conseguiram organizar sofisticados quadros estatísticos apoiados em técnicas de programas de computadores, o máximo na época, e que fizeram minhas fichas coloridas parecerem para eles coisa de "chinês aposentado", como diz meu filho. Usavam já alguns recursos de programas da idade da pedra da informática denominados SPSS, MIDAS ou OSÍRIS, mas que pareciam o ápice da sofisticação tecnológica.

A crítica mais freqüente que alguns estudiosos fazem a esses tipos de trabalho é que eles se envolveriam mais no quantitativismo, abandonando análises e críticas, talvez fascinados pela possibilidade de uma argumentação ortodoxa baseada nos números.

O segundo caso, ou seja, a historiografia francesa veio atenuar essa crítica à medida que conseguiu conciliar os comentários quantitativos, baseados em técnicas estatísticas e de computação, a princípios qualitativos de análise, lançando mão inclusive da literatura como enriquecimento e que possibilitaria diminuir a aridez dos números.

Dentro desta perspectiva o simples levantamento prosopográfico não seria suficiente e a historiografia francesa nos sugeriu paralelamente a avaliação de inventários, testamentos, verbas testamentárias e escrituras, tal como na obra de Adeline Daumard. Esta historiadora veio, como professora visitante, dar um curso especial na UFF, ela que tinha participado da equipe de Ernest Labrousse, e centrado seus estudos nos pobres de vários quarteirões de Paris, em finais do século XVIII e início do XIX. Nesta ocasião segui seu curso e seus conselhos o que acrescentou importantes sugestões ao meu trabalho. Seus estudos sugeriram uma análise mais complexa, mais rica em fontes primárias e não só de quadros estatísticos: A utilização sistemática dos documentos qualitativos permite igualmente formular hipóteses verdadeiras em domínios onde a realidade é rebelde às reduções estatísticas.17

Ora, as fontes documentais de nossos arquivos se prestam maravilhosamente a estes estudos. Além disto, a análise de um grupo sócio – econômico era uma possibilidade significativa para testar hipóteses em nível de um trabalho monográfico onde se pretendia uma parcela do grupo total. A prosopografia apareceu então como uma conduta possível para analisar um grupo representativo da elite administrativa e política brasileira, no século XIX, não no seu aspecto de participação político – partidária, mas examinando, de um lado, critérios de distribuição de bens, a concentração de riquezas dentro dele e, por outro lado, os níveis e gêneros de vida dentro da dinâmica social, critérios esses, muito importantes como contribuição à análise sócio–profissional, como as que já foram pioneiramente desenvolvidas.

Como já mencionei, outro ponto de partida precioso para o levantamento biobibliográfico foi o Almanaque Laemmert. Esta publicação da época contém informações administrativas, mercantis e industriais da Corte e Província do Rio de Janeiro. Traz também a relação nominal dos advogados do Rio de Janeiro, com seus respectivos endereços, e referências simbólicas, contendo os títulos de nobreza e graças honoríficas. Hoje há uma coleção digitalizada que está disponibilizada, completa, na internet, pela Universidade de Chicago, informação que obtive do amigo e professor da UFF, Theo Lobarinhas. Esses indicadores profissionais se tornaram uma fonte de informação básica para a identificação das pessoas que eram apenas bacharéis em Ciências Jurídicas, ou que efetivamente exerciam suas funções como advogados na Corte. Faço esta diferenciação, pois, ao lado de alguns nomes publicados vinha a menção – não advoga – o que configura a importância social de ser citado no Almanaque Laemmert; além disso, só este fato já permite outro tipo de diferenciação, também básica para o nosso trabalho: a existência formal e reconhecida do bacharel, ou seja, o advogado que não exercia a sua profissão, do advogado ou como chamaremos o advogado/magistrado, aquele que exercia duplamente a sua função, seja como profissional ou burocrata/político.

Em seguida foi feito um levantamento em dicionários biobibliográficos tendo novamente o cuidado de seguir a orientação contida na obra de Adeline Daumard, principalmente quanto à procura de fontes que nos fornecessem uma gama variada de informações sobre grupos sociais:



As informações fornecidas pelas diversas fontes que se encontram à nossa disposição são de extrema riqueza e de uma grande variedade. Elas podem, apesar disso, ser reagrupadas em torno de três temas: uma descrição das estruturas, uma análise dinâmica dos grupos sociais e, enfim, um estudo dos comportamentos coletivos.18
O primeiro passo tem por objetivo fazer uma análise concreta das condições materiais e da posição dos homens, ao mesmo tempo no seio do grupo social e no conjunto da sociedade ao qual se prende esse grupo. Para começar, trata – se, pois de estudar indivíduos formados na em camadas semelhantes da sociedade e considerados como membros de uma mesma coletividade. O melhor método para depreender os caracteres gerais da estrutura social consiste em tentar todos os critérios possíveis de classificação e reagrupamento de indivíduos, na medida, naturalmente, em que as fontes permitem. Assim, a repetição dos indivíduos do grupo de referência pode se fazer diferentemente segundo o critério escolhido: nível de fortunas ou dos bens, montante do aluguel ou número de compartimentos existentes na residência, tomadas como símbolos do nível de vida, importância da domesticidade, nível de instrução ou de cultura, características das responsabilidades exercidas na vida profissional ou por ocasião de funções gratuitas.

Tomando – se a situação acima como critério – base, podemos definir este trabalho como “primeiro – passo”, enquanto se procura realizar uma análise mais consistente das condições materiais e da posição dos homens, envolvendo também o conjunto da sociedade à qual se prendem os advogados do Município Neutro. Os dois grupos – de 1860 e de 1880 – são considerados como população - amostragem e as hipóteses levantadas inicialmente relacionavam a burocracia à necessidade de consolidação do Estado Imperial. Mas como essa mesma sociedade não permitia grandes perspectivas de mobilidade social, foi – se criando uma mentalidade ligada ao que chamei à maneira de Pierre Villar de “hidalguismo ibérico”, conceito que se fundamentava na geração de grupos privilegiados, originalmente na Espanha da era moderna, e que viam no serviço do Estado uma inserção na sociedade e uma série de possibilidades novas: prestígio, sinecura e outros benefícios.Esta inserção estaria prejudicada pela limitação dos segundogênitos que tinham como únicas opções o serviço militar ou a entrada par as fileiras do clero.

Essa hipótese relaciona-se ao já mencionado empreguismo, o nepotismo e o filhotismo, que eram características e presentes na burocracia Imperial, incorporando, portanto ao caso brasileiro a concepção sugerida por Pierre Vilar em seus estudos sobre a Espanha, na qual identificava as tendências de estagnação, e dificuldades de mudanças na sociedade espanhola, sobretudo a preferência pelos serviços estéreis (mar, burocracia e clero) estava relacionadas ao "hidalguismo", ou seja, que os herdeiros das famílias nobres, tanto os segundogênitos, como os primogênitos, consideravam vergonhoso o trabalho em algumas atividades que não as citadas, sendo qualquer outra tida como aviltante. Extrapolando esta afirmativa para o nosso contexto, procurei testar o seu grau de compatibilidade a partir de dados quantificáveis proporcionais à população estudada.

Uma outra hipótese estudada foi a possibilidade de que os advogados e bacharéis, como uma parcela significativa das classes dominantes, tinham sua importância expressa através de seu grau de riqueza, de suas possibilidades de ganhos, de investimentos ou de quaisquer símbolos exteriores de riqueza. Para isto consideramos suas propriedades urbanas, todos os bens materiais listados nos inventários, testamentos e escrituras cartoriais.

A idéia do uso de fontes tão diversificadas se prendeu a um fato de ordem prática: apesar do exaustivo levantamento documental, houve um desequilíbrio entre o número total desses documentos, isto é, cerca de 60 inventários, 108 escrituras, e outros 50 documentos diversos entre testamentos, petições e notificações, além da concessão de Graças Honoríficas e outros documentos avulsos, também analisados. Portanto a sistematização dos dados, e as respostas às perguntas básicas, exigiam uma extensiva pesquisa documental.

Uma outra vertente pesquisada foi sobre as origens familiares dos advogados e bacharéis que os vinculavam às elites econômicas e sociais, ou seja, aquelas camadas econômicas e sociais privilegiadas controladoras de capitais e propriedades numerosas, tanto rurais quanto urbanas. Mas tal recrutamento não seria originário apenas de pessoas pertencentes a elas, mas também a grupos médios, ou seja, profissionais liberais, pequenos e médios comerciantes, antigos funcionários públicos, que mesmo não sendo grandes proprietários, podiam arcar com o gasto representado por um curso universitário, buscando nos cargos e nos títulos fornecidos por estes um status novo, que envolvia novas relações sociais, vida política e opção profissional para suas famílias.

Ainda aqui os inventários e os documentos biográficos, na sua heterogeneidade, foram fontes valiosas para o estudo dos casos referentes aos advogados selecionados pelas listagens do Almanaque Lammert, pois preservam informações sobre propriedades, hábitos, costumes, estilos de vida, sendo fácil detectar mudanças de interesse tanto do ponto vista econômico, quanto de relações sociais ou novas inclusões entre os dois grupos.

Foi também a partir das listagens do Almanaque Lammert que o levantamento documental tornou-se possível, quer no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional, e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O total de advogados estudados ultrapassou o número de 300 (trezentos). Nem todos tinham processos e documentos arquivados, mas pelo menos em relação às verbas testamentárias, era muito freqüente encontrar – se informações.

As verbas testamentárias são mais uniformes e acessíveis do que os inventários, porque estes são profundamente heterogêneos em número de páginas, informações, conteúdos gerais, revelando – se, no entanto, muito ricas em relação às hipóteses. Isto exigiu que a orientação encontrada numa fonte levasse a procurar por outra, sendo possível obter um número significativo de dados. A utilização de recursos estatísticos para quantificação em algumas situações que se fez necessária, possibilitou a construção de gráficos e quadros de amostragem. Porém nem sempre se apresentava da forma desejada, e ás vezes não eram indicadores passíveis de sistematização, tendo sido encontrada a opção de contrapor diversos documentos como exemplificação de casos.

Uma citação de Georges Duby ajuda a condução do fio que às vezes se torna emaranhado:



O historiador deverá prestar atenção particular a essas pessoas que, por sua situação profissional, se encontram colocadas na frente do combate e que se revelam os principais agentes das forças de conservação, de resistência ou de conquista, os artesãos dos ajustamentos necessários. Trata – se igualmente de todos aqueles que se fazem porta – vozes de uma categoria social da qual freqüentemente não prevêem, seja por determinadas frustrações que o conduziram a romper com o grupo do qual se originaram, a abandoná-lo, atacá-lo, a se apoiar na sua luta em outros corpos sociais naturalmente antagônicos e a fortificar as posições ideológicas destes pela complementação de sua experiência e de seu saber, seja porque, trânsfugas de sua própria classe, se sensibilizaram pelas vantagens de uma carreira, como é o caso de inúmeros intelectuais que as camadas dirigentes colocam a seu serviço e que se tornam seus lacaios”.19
Estes foram meus caminhos para refletir e trabalhar sobre a abordagem prosopográfica. Espero que o termo prosopografia tenha adquirido um sentido mais simpático e tenha perdido um pouco do estranhamento suscitado, e que esta conferência possa despertar interesses para estudos de biografias coletivas.

Como vocês perceberam a problemática não é nova e o tema é muito rico. Recentemente voltou a ser saudado, tanto pelos anglo-saxões, que nunca deixaram de usá-lo, como pelos franceses e italianos, sobretudo por Giovanni Levi, em um número da revista dos Annales. Outro historiador que de alguma forma recuperou o método foi Daniel Roche no livro Le peuple de Paris (1981), descobrindo as leituras feitas por leitores anônimos e que me ajudou a escrever minha tese de doutorado. Mas isto já é outra história.



1 Citado por Arlette Farge. Lugares para a História. Lisboa: Teorema, 1999. p.129.

2 Lawrence Stone. Prosopography. In: Felix Gilbert & Stephen R. Graubard, (editores). Historical Studies Today. New York: W. W. Norton & Company, 1972, p. 107-140.

3 Idem, ibidem.

4 Koogan/Houaiss, enciclopédia e dicionário ilustrado. Abrahão Koogan (direção geral) e Antônio Houaiss (supervisão editorial). Rio de Janeiro: Seifer, 1999 p. 1310 e Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (org). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986 p. 1404

5 Cf. Phillipe Levillain. Os protagonistas da biografia. In: René Rémond (dir.) Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed. da Fundação Getúlio Vargas, 1996. p. 141-184.

6 Idem, ibidem. p. 141-184.

7 Ver como exemplos de pesquisa nesta linha Roderick Barman & Jean Barman. The Prosopography of the Brazilian Empire. Latin American Research Review. Washington D. C., 13 (2): 78-97, 1978. e de R. Barman. The Role of the Law Graduate in the Political Elite of Imperial Brazil. Journal of Inter-American Studies and World Affairs. Miami, 18 (4): 423-450, nov. 1976. Ou ainda do mesmo autor: Uma nobreza no Novo Mundo: a função dos títulos no Brasil Imperial. Mensário do Arquivo Nacional. Jun. 1973. P. 4-21.

8 Ver textos de Stone e Peter Burke já citados.

9 Peter Burke. Veneza e Amsterdã... no capítulo intitulado O estudo das elites.

10 Peter Burke. Op. cit. p. 16.

11 Visconde do Uruguai. Ensaio sobre o Direito Administrativo. p. 358, citado por José Murilo de Carvalho. A construção da Ordem: a elite política imperial. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1981, p. 129. Ver também Tobias Monteiro. Funcionários e Doutores. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. 1916.

12 Alguns autores que fizeram estudos nesta perspectiva para história do Brasil: Sérgio Adorno. Os aprendizes do poder. O bacharelismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. Roderick Barman. Brazil, The Forging of a Nation (1798-1852). Stanford: Stanford University Press, 1988. E ainda R. Barman A formação dos grupos dirigentes políticos do Segundo Reinado: a aplicação da prosopografia e dos métodos quantitativos à história do Brasil Imperial. RIHGB. Anais do Congresso do Segundo Reinado. Rio de Janeiro. 2: 61-86, 1984.

13 Maria Isaura Pereira de Queiroz. O mandonismo local na vida política brasileira. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976, p.185-194 e Raimundo Faoro. Os Donos do Poder. Porto Alegre: Ed. Globo. 1976.

14 Faoro, Op. cit. p. 387.

15 Carvalho. Op. cit. p. 20-21.

16 Ver textos já citados na nota número 7.

17 Adeline Daumard. Histoire economique et sociale de la France. Paris: PUF. 1975. Tome III, v. 2, passim. Adeline Daumard et alli. História Social do Brasil: teoria e metodologia. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 1984 e o texto Problemas e Métodos: da análise à síntese. Mimeo. 1978.

18 Daumard. Problemas de Métodos, p. 38-39.

19 Georges Duby. História social e ideologia da sociedade. In: Jacques Le Goff e Pierre Nora (dir). História : Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 134-136.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002


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