História e Providência Lucia Maria Paschoal Guimarães



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História e Providência
Lucia Maria Paschoal Guimarães1

Departamento de História

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

(...) Confiemos. Há uma lógica imanente: de tantas premissas de Grandeza só sairá grandiosa conclusão. Confiemos em nós próprios, confiemos no porvir, confiemos, sobretudo em Deus que não nos outorgaria dádivas tão preciosas para que as desperdiçássemos esterilmente. Deus não nos abandonará. Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos”.



(Afonso Celso, Petrópolis, 8 de setembro de 1900)

O historiador Charles-Olivier Carbonell2, na obra “Histoire et Historiens. Une mutation idéologique des historiens français 1865-1885”, ao inventariar as diversas vertentes da historiografia francesa no período em questão, adverte os leitores para a existência de uma grave lacuna, deixada pelos especialistas3. Desse absenteísmo nem os mais renomados estudiosos escaparam, a exemplo de Georges Lefebvre, Camille Julien, Louis Halphen e, vale acrescentar, mais recentemente, a dupla Guy Bourdé e Hervé Martin, responsáveis pelo compêndio “Les écoles historiques4. Segundo o Professor Carbonell, existe uma espécie de “conjuração de silêncio” 5, estabelecida pelos autores universitários, laicos e republicanos contra uma coalizão que reuniu um conjunto de historiadores e letrados de tendência católica e regalista. Neste sentido, Carbonell identifica a falta de uma análise apurada, a respeito do papel desempenhado pela “Révue des questions historiques”, que circulou entre 1866 e 1939, em torno da qual desenvolveu-se uma certa “escola católica”, responsável por uma “historiografia providencialista, ultramontana e legitimista”, sobretudo no último quartel do século XIX. 6.


Ao que tudo indica, aqui no Brasil, o mesmo tipo de conjura teria atingido um historiador, jornalista e poeta, membro da Academia Brasileira de Letras, católico fervoroso, agraciado com um título nobiliárquico pelo Vaticano. Refiro-me ao mineiro Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior (1860-1938), que por quase três décadas esteve à frente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1912-1938)7. Aliás, o Conde de Afonso Celso acabou tornando-se mais conhecido por uma contribuição sem maiores pretensões historiográficas: o livrinho “Porque me ufano do meu país”, que deu origem ao substantivo “ufanismo”, qualificado por ele próprio como um “ligeiro trabalho de vulgarização”, destinado ao público infantil e escrito para celebrar a passagem do quarto centenário do descobrimento do Brasil8.
Os trabalhos de historiografia brasileira, via de regra, passam ao largo da obra de Afonso Celso9. Sérgio Buarque de Holanda, na brilhante síntese “O pensamento histórico no Brasil nos últimos cinqüenta anos”, elaborada especialmente para o “Suplemento Cultura Brasileira” do jornal carioca “Correio da Manhã”, nem sequer mencionou o seu nome10. Apenas José Honório Rodrigues, no clássico “Teoria da história do Brasil” dedicou-lhe uma única referência, a propósito de uma breve comunicação, intitulada “O poder pessoal do Imperador”, apresentada no I Congresso de História Nacional, promovido pelo Instituto Histórico de Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1914 11.
Outros estudiosos, no entanto, citam-no com freqüência, a exemplo do filósofo João Cruz Costa, na “Contribuição à história das idéias no Brasil” e do literato Wilson Martins, na “História da inteligência brasileira12. O primeiro apoia-se na contribuição de Afonso Celso, “Oito anos de parlamento13, para descrever a trajetória dos postulados republicanos nos últimos tempos da monarquia14, enquanto que o segundo destaca o seu papel no panorama cultural do país, na difusão do ideário nacionalista durante a década 1910-1920, denominando-o de “chefe venerável do nacionalismo brasileiro15.

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior percorreu um caminho inverso daquele trilhado pela maioria dos intelectuais do final dos anos oitocentos. Estes, salvo raríssimas exceções, costumavam fazer da “república das letras” um atalho seguro, tanto para alcançar altos cargos na administração imperial, quanto para disputar um assento no Legislativo. Pertencente a uma família de políticos, mal deixou os bancos da Faculdade de Direito conquistou uma vaga de deputado pela Província de Minas Gerais. Liberal, arrojado e combativo, reelegeu-se por quatro vezes consecutivas (1881-1889). Abandonou a vida pública para seguir o pai, o Visconde de Ouro Preto – presidente do último Gabinete monárquico, que acompanhou o Imperador D. Pedro II no exílio na Europa, após a queda do regime.


Retornando ao país, em 1892, dedicou-se à advocacia, ao magistério e às letras. Naquela mesma ocasião, ingressou no quadro de sócios efetivos do Instituto Histórico. Orador oficial durante quase dez anos, sucedeu ao Barão do Rio Branco no cargo de presidente perpétuo da “Casa da Memória Nacional”. Militante político na juventude, passou à militância religiosa na sua maturidade. Patriota extremado, o exame de sua trajetória de letrado permite detectar certos traços, que correspondem ao perfil de intelectual desenhado por Jacques Le Goff, para o final do século XIX, ou seja, homens cujas idéias combinavam escatologia, nacionalismo e romantismo16.
O Conde de Afonso Celso colaborou em diversos periódicos, a exemplo do Jornal do Brasil e da Revista Braziléa. Deixou um legado historiográfico significativo. Afora sete livros, onde contempla, sobretudo, o exame dos acontecimentos políticos do Segundo Reinado e a crônica do exílio de D. Pedro II, integram a sua produção numerosos discursos, biografias, necrológios e monografias editados na Revista do IHGB. Por ora, nesta breve comunicação, detenho-me somente na análise de uma pequena parte do material editado pelo Instituto Histórico. Pretendo focalizar a concepção providencialista de história desse autor que, embora esquecido hoje em dia, chegou a ser considerado como um dos “expoentes da mentalidade brasileira”, na categoria “civismo monárquico17.
As idéias desenvolvidas por um intelectual, mormente quando se trata de um discurso sobre a história, dificilmente podem ser apreendidas, sem levar em conta a sua percepção de tempo, à luz das suas esperanças, aspirações e desígnios. Ordenar apenas os acontecimentos passados com base nesses desígnios não basta. É preciso ordenar, também o futuro. Os acontecimentos, que à primeira vista se mostram como simples sucessão cronológica, adquirem, por essa via, o caráter de destino. Um destino previamente traçado, graças à régua e ao compasso da Providência.

Inspirado certamente em Bossuet18, Afonso Celso em sua retórica mostrava-se adepto de uma história racionalmente inteligível. Articulava a razão e a fé, para identificar com maior clareza os traços contínuos da vontade divina. Na sua percepção, a história se desenrola de maneira linear, seguindo uma lei de desenvolvimento geral. Todos os acontecimentos, pessoas e situações tomavam lugar relativamente a esse fluxo, do qual recebem, em definitivo, sua significação. A propósito dos sucessos do Barão do Rio Branco na demarcação das fronteiras brasileiras, por exemplo, ele afirma: “(...) No passado, nos velhos arquivos, encontrou Sua Excia as armas do seu triunfo”. Porém, trata de esclarecer logo adiante, que tais recursos somente não bastariam para resolver os intricados litígios dos limites nacionais. A atuação de Rio Branco, em última análise, só obteve êxito porque “(...) Permitiu-lhe a Providência que, deveras, materialmente, acrescentasse a terra cara...”19.


Em outros oportunidades, ele combinava a perspectiva de Bossuet com a visão catastrófica de Joseph de Maistre. Como o primeiro, acreditava que Deus se vale dos próprios homens para corrigir os homens. Como o segundo, supunha que a Providência se serve da punição expiatória para salvar a humanidade20. Respondendo às críticas dos jornais do Rio de Janeiro, diante da decisão do Instituto Histórico de levar avante o projeto de realizar o Primeiro Congresso de História Nacional, poucos meses depois do início da Primeira Guerra Mundial, argumentaria: “(...) Consterna-o a catástrofe que assoberba o Velho Mundo e vai, obedecendo às leis absconditas da Providência, fazer talvez retrogradar a civilização...”. Contra-ataca seus censores, ao afiançar que “(...) Mercê de Deus..., o trabalho é (...) tanto mais meritório quanto executado em meio a graves apreensões...”21. Conclui suas reflexões, salientando que apesar do conflito em curso, era preciso cuidar do amanhã e que as atividades desenvolvidas no Instituto durante o certame haveriam de ser profícuas às gerações vindouras.

A Providência, nessa concepção de história, faz-se presente em toda a parte. E mais, sempre se mostrando diligente e operosa. Donde se deduz que a causa primeira e as causas finais podem ser invocadas como razão de ser de todos acontecimentos e situações22. Assim, qual um oráculo, Afonso Celso arriscava suas previsões sobre o devir. Neste sentido, a sua saudação aos delegados estrangeiros, na cerimônia de abertura do Primeiro Congresso Internacional de História da América, em 1922, constitui-se num bom exemplo a ser salientado. A princípio, valendo-se de uma conhecida frase de Turgot, “A América é a esperança do gênero humano23, estabeleceu um nítido contraste entre a calmaria da situação política no hemisfério e a conflituosa marcha dos acontecimentos na Europa, no entre-guerras, para mais adiante vaticinar sobre o destino do continente americano:


(...) Torne-se o Novo Mundo o renovador do mundo; institua-se a paz americana (...) a paz com a antevisão da qual os anjos saudaram o natal do Messias... E na verdade cabe a América uma missão messiânica: a de evangelizar e estabelecer o direito, a justiça, a felicidade possível na terra; a de regenerar, sobretudo pelo exemplo, o gênero humano...”24



Convertido no motor da história, Deus seria constantemente nomeado, invocado e evocado em todas as reflexões desse intelectual, cujos discursos se constituem qual uma sucessão de orações e profissões de fé. Adepto da dúvida metódica e das regras da crítica, em meio a uma alentada síntese acerca das chamadas “tese” apresentadas no Instituto Histórico, por ocasião do Primeiro Congresso de História Nacional, ele encontraria uma brecha para manifestar o seu reconhecimento ao Criador, desta feita em virtude do bom desempenho acadêmico dos seus pares durante certame. “(...) Agradeçamos... Agradeçamos sobretudo à Aquele sem cujo beneplácito não se efetuam nem as grandes nem as pequenas causas...”, exclamava ele com entusiasmo25. Marcada por um Providencialismo racional, a concepção de história desenvolvida pelo Conde de Afonso Celso buscava conciliar ciência e fé.


1 Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo.

2 O historiador Charles-Olivier Carbonell, docente na Universidade de Montpellier e membro fundador da Comissão de História da Historiografia, filiada ao Comitê Internacional de Ciências Históricas, possui uma vasta bibliografia dedicada ao estudo das representações do passado. Ver, Storia della Storiografia, Milano, 1 (1): 3, 1982.

3 Charles-Olivier Carbonell, Histoire et Historiens. Une mutation idéologique des historiens français 1865-1885. Toulouse: Privat, 1976, p. 325.

4 Cf. Guy Bourdé & Hervé Martin, Les écoles historiques. Paris: Éditions du Seuil, 1983.

5 Charles-Olivier Carbonell, op. cit., p.326.

6 Idem, ibidem.

7Ver o verbete “Afonso Celso”. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Dicionário biobibliográfico de historiadores, geógrafos e antropólogos brasileiros; sócios falecidos entre 1921-1961; preparado por Vicente Tapajós & Pedro Tórtima. Rio de Janeiro: O Instituto, 1993, p. 16-17.

8 Afonso Celso, Porque me ufano do meu país. 4ª ed., Rio de Janeiro: Laemmert & Cia Editores, 1908, p.1.

9 Ver, por exemplo, José Roberto Amaral Lapa, Historiografia brasileira. A história em questão. Petrópolis: Vozes, 1976.

10 Sérgio Buarque de Holanda, “O pensamento histórico no Brasil nos últimos cinqüenta anos” . Correio da Manhã – Suplemento Cultura Brasileira, Rio de Janeiro, 15 de junho de 1951, p. 1-3.

11 José Honório Rodrigues, Teoria da história do Brasil: uma introdução metodológica. 5ª ed., São Paulo: Cia Editora Nacional, 1978, p. 154.

12 Ver João Cruz Costa, Contribuição à história das idéias no Brasil.(O desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolução histórica nacional. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. Ver, também, Wilson Martins, História da inteligência brasileira (1915-1933). São Paulo: Cultrix, 1978.

13 Afonso Celso, Oito anos de Parlamento - Poder pessoal de D. Pedro II. Reminiscências e notas. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1928.

14 Cf. João Cruz Costa, op. cit. p. 202 e 241.

15 Cf. Wilson Martins, op.cit. p. 191.

16 Jacques Le Goff, “Escatologia” In: Ruggiero Romano (editor), Enciclopédia Einaudi Memória-História, Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984, v. 1, p.448.

17 Wilson Martins, op.cit. p. 80.

18 Ver, Georges Lefebvre, La naissance de l’historiographie moderne. Paris: Flammarion, Éditeur, 1971, p. 97-98

19 Afonso Celso, “Discurso de saudação ao Barão do Rio Branco, proferido em 31 de janeiro de 1908.” Revista do IHGB, 71 (1): 430-431, 1908,

20 Cf. Georges Lefebvre, op.cit., p.225-226.

21 Afonso Celso, “Discurso de abertura, proferido em 07 de setembro de 1914”. Anais do Primeiro Congresso de História Nacional, Rio de Janeiro: IHGB, 1915, tomo 1, p. 85.

22 Cf. Charles Olivier Cabonell, op. cit. p. 326-327.

23 Afonso Celso, “Discurso na sessão de abertura do Primeiro Congresso Internacional de História da América, proferido em 8 de setembro de 1922”. Anais do Primeiro Congresso Internacional de História da América, Rio de Janeiro: IHGB, 1925, tomo 1, p. 43.

24 Idem, p. 44

25 Afonso Celso, “Discurso de encerramento, proferido em 16 de setembro de 1914”. Anais do Primeiro Congresso de História Nacional, Rio de Janeiro: IHGB, 1915, tomo 1, p.171.


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