História e variação lingüística: um estudo em tempo real do imperativo gramatical em revistas em quadrinhos da



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História e variação lingüística: um estudo em tempo real do imperativo gramatical em revistas em quadrinhos da Turma da Mônica 

Carolina Queiroz Andrade (UnB/ CNPq – IC) carollwith@gmail.com

Fernanda Gláucia de Moura Melo (UnB/ UniCeub/ CNPq – IC) nandamouram@gmail.com

Maria Marta Pereira Scherre (UnB/ CNPq – PQ) mscherre@terra.com.br






Pronome

Imperativo afirmativo

Imperativo negativo

TU

Associado ao indicativo:

OlhA a Mônica ali!

Faz! PartE! DeixA!

Associado ao subjuntivo:

Não olhEs para trás!

Não FaçAs! Não partAs! Não deixEs


VOCÊ

Associado ao subjuntivo:

FaçA isso pelo seu pai!

OlhE! PartA! DeixE!


Associado ao subjuntivo:

Não façA isso!

Não olhE! Não partA! Não deixE!

Analisamos neste trabalho o uso do imperativo associado à forma indicativa ou à forma subjuntiva. A gramática normativa registra que deixA, partE e faZ, por exemplo, são formas do imperativo afirmativo, derivadas do presente do indicativo do pronome tu, sem o –s final. Registra também que falE, abrA e façA são formas imperativas derivadas do presente do subjuntivo do pronome você em construções afirmativas ou negativas, visualizadas abaixo.

No português brasileiro atual, deixA, partE e faz, por um lado, e deixE, partA e façA, por outro, são variantes do imperativo, que podem expressar pedido, solicitação, convite, súplica, aviso, conselho, sugestão, exortação ou ordem, em orações sem sujeito expresso, todavia, com pouca ou nenhuma relação aos contextos de ocorrência dos pronomes tu ou você. As orações imperativas do português brasileiro em uso, falado e escrito, evidenciam, assim, processo de variação que se afasta da norma codificada, por ser possível a alternância entre formas associadas ao indicativo ou ao subjuntivo em contextos exclusivos do pronome você, que é o caso do contexto discursivo dos diálogos da revista da Turma da Mônica do escritor e produtor paulista Maurício de Sousa.

Os dados analisados foram todos extraídos de 172 revistas da Turma da Mônica, publicadas num intervalo temporal de 35 anos. Analisamos um total de 3632 dados variáveis no singular, sendo 153 de estruturas imperativas na década de 70; 573 da década de 80; 637 da década de 90 do século XX, e 2.269 da década 00 do século XXI. O fundamental da análise levada a cabo é que há evidência de aumento claro de imperativo associado à forma indicativa, no contexto exclusivo do pronome você, em que, como já dito, a tradição só registra a forma imperativa associada ao subjuntivo: observam-se 7% na década de 70; 51% na década de 80; 57% na década de 90 do século XX; e 72% na década de 00 do século XXI, visualizados no gráfico 1 (ver também anexo 1, onde se encontram os totais de revistas analisadas por período e por personagem principal).

Gráfico 1 - Aumento do imperativo associado à forma indicativa, em revistas em quadrinhos da Turma da Mônica entre a década de 70 e a primeira década do século XXI



O gráfico 1 apresenta diferença significativa entre os extremos, revelando o aumento expressivo de 65 pontos percentuais num intervalo temporal de apenas 35 anos, o que se configura, em termos labovianos, como mudança em progresso, ou seja, mudança rápida que se observa no espaço de uma a duas gerações (Labov, 1981: 177). Observamos um comportamento quase linear nas décadas de 80 e 90, mas definitivamente gradual progressivo em relação ao crescimento do imperativo associado à forma indicativa ao longo dessas quatro décadas.

Ao observar o eixo temporal em função das décadas, verificamos que o salto mais expressivo ocorreu da década de 70 para a de 80, sendo 1985 o ano que mais contribuiu para este salto. Vimos que, na década de 70, mais precisamente nos anos de 1971 e 1972, temos o imperativo associado ao indicativo em cerca de 7% e, na década de 80, em cerca de 51%, mas, quando desmembramos a década de 80 em anos, verificamos que, em 1983, o imperativo associado ao indicativo é da ordem de apenas 18% e que, em 1985, este percentual se eleva para cerca de 56%. O resultado deste desmembramento pode ser visto no gráfico 2.
Gráfico 2 - Variação do imperativo associado à forma indicativa em revistas em quadrinhos da Turma da Mônica: foco nos anos da década de 80, com e sem os dados dos personagens Chico Bento e seus companheiros

Chegamos a pensar na hipótese de que o referido salto teria se dado em função da entrada, em 1985, dos dados do Chico Bento e demais personagens da área rural em nosso corpus, pois estes apresentam mais traços de oralidade, o que faz com que tenham uma maior percentagem de imperativo associado ao indicativo. Porém, como representa o gráfico 2, analisamos o corpus com e sem os dados dos personagens de área rural, presentes nas revistas do Chico Bento (com Chico e sem Chico no referido gráfico) e, como podemos verificar, o salto e o crescimento do imperativo associado ao modo indicativo se mantêm em ambos os casos.

Podemos ainda observar no gráfico 2 que, logo após o salto ocorrido entre 1983 e 1985, houve um momento relativamente estabilizador, como se fosse um período de acomodação do rápido crescimento em direção à variante associada ao indicativo. Acreditamos que, em virtude de um grande movimento lingüístico, a língua e seus falantes, bem como seus escritores, precisem desse período de estabilização, de adaptação. Afinal, é possível que um movimento lingüístico expressivo influencie outros. Portanto é necessário que a variação faça a curva da adaptação para que as demais categorias lingüísticas se organizem em relação à variação ocorrida (ou, quem sabe, a organização desta variação em relação a variações em outros pontos do sistema lingüístico). Assim, os demais elementos lingüísticos observam se podem ou não acompanhar a variação, como eles se encaixam (por exemplo: os pronomes de segunda pessoa em relação ao imperativo – será que a variante imperativa associada ao indicativo ou ao subjuntivo pode novamente especializar o uso em função de um determinado pronome?), e, assim, determinam como será o seu comportamento em função desta variação. Passado esse período, e conforme as adaptações dos demais elementos lingüísticos, a variação pode ganhar força e se tornar efetivamente a precursora da possível mudança, ou pode simplesmente co-existir com as demais variantes (às vezes, obedecendo a um movimento de fluxos e contrafluxos, a exemplo do uso do pronome tu, em determinadas regiões do Brasil e também da concordância de número no Brasil), ou, ainda, fazer o movimento inverso, se configurando apenas como uma característica de um momento lingüístico, e então permanecer estável no tempo (cf., por exemplo, Naro & Scherre, 1991; Paredes Silva et alii, 2000; Scherre & Naro, 2006).



Temos no 2º gráfico o comportamento da variação ao longo da década de 80. Fatos como o salto (grande movimento lingüístico) e, em seguida o período de adaptação, nos permitem constatar, no contraste com os resultados do 1º gráfico, que a variação do imperativo associado ao indicativo caminha realmente para a mudança, como já foi dito anteriormente. Porém, após o período de salto e o de adaptação ocorridos na década de 80, o crescimento passa a ser gradual e sem grandes saltos.

Especificamente na década de 80, nos chamou a atenção o aumento de 31 pontos percentuais em apenas dois anos de 1983 (18%) para 1985 (49%), mesmo sem os dados com traços de oralidade. Ao buscar entender os motivos deste salto, encontramos duas possibilidades que podem tê-lo influenciado. Uma delas é o fato de o ano de 1985 ter sido o marco do fim do regime ditatorial (iniciado em 1964) com eleições indiretas do primeiro presidente civil - Tancredo Neves - em 20 anos. Podemos definir a ditadura militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil: esta época vai de 1964 a 1985 e caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresentava vários problemas: a inflação era alta e a recessão também. Enquanto isso, a oposição ganhava terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos. Em 1984, políticos de oposição, artistas e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já!. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. Nunca houve no Brasil uma mobilização popular das mesmas proporções. Durante seis meses, milhões de brasileiros foram às ruas reafirmando o direito de votar para presidente. A campanha Diretas Já! teve início em novembro de 1983, com um comício em São Paulo, que reuniu 10 mil pessoas. Prosseguiu em janeiro de 1984 com um comício em Curitiba e a concentração de 300 mil pessoas na Praça da Sé, em São Paulo e também com a passeata no Rio de Janeiro, da Candelária à Cinelândia, com 60 mil pessoas. No dia 16 de abril, 1,7 milhão de pessoas se mobilizaram pela causa novamente na capital paulista. Foram ao todo cerca de 40 comícios espalhados por todo o Brasil manifestando a vontade do povo para com a volta da democracia política. Todos estes acontecimentos refletiram não só na história política do nosso país, mas também na vida cotidiana e nos sentimentos de toda uma nação. Um acontecimento de tão grande proporção e intensidade não pode ter passado sem deixar marcas na língua, em especial na língua escrita, sejam estas no imperativo ou em outras estruturas do português brasileiro. Afinal, as línguas são também analisadas como forma de comportamento cultural, se relacionam com as predisposições culturais das pessoas que as falam (e/ou as escrevem) e que com elas se identificam. Esse aumento de uso do imperativo associado ao indicativo no contexto do pronome você - o “abrasileiramento” do imperativo, nos termos de Paredes et alii (2000: 121) - pode ter sido então reflexo deste momento político, uma vez que, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a forma do imperativo associado ao subjuntivo desperta nos ouvintes uma sensação de maior autoritarismo, enquanto a forma imperativa associada ao indicativo é recebida como sendo de maior proximidade e solidariedade1. É como se ouvir falE comigo! remetesse a um maior distanciamento e tivesse um tom maior de autoridade do que falA comigo! (historicamente e ainda no português europeu é esta a realidade dos fatos: ver, por exemplo, Scherre (2004a)). Acreditamos que, com o fim da ditadura, e em função dos traumas por ela deixados, a população tenha passado a repugnar condutas e formas de expressão que remetessem a um maior autoritarismo, como um manifesto inconsciente de desaprovação ao regime decaído. Pagotto (2004: 89) teoriza bem esta situação com a seguinte explicação: “o significado social das formas variantes é uma conseqüência direta do processo de identidade do sujeito na sua relação com a língua. É ao se colocar como igual a um outro ou diferente dele, que o sujeito imprime significado social às formas lingüísticas”. Neste caso, os usuários da língua teriam se manifestado lingüisticamente diferente do período ditatorial, expandindo inconscientemente a variante inovadora para a escrita e culturalmente aproximando-se a uma nova ordem democrática que usaria, em termos de imperativo, uma forma vista e sentida sem tanta força autoritária: associada, portanto, ao indicativo.

O maior salto do imperativo no corpus analisado culminou especificamente no intervalo temporal do movimento das Diretas Já! do ano de 1983 a 1985. Nesse período a ditadura perdia crescentemente seu terreno - já não tinha popularidade nem mesmo entre os principais envolvidos (os próprios militares) - e as mobilizações em prol da volta do regime democrático eram intensas em todas as regiões do país. Esse foi, sem dúvida, um dos períodos de maior mudança política no Brasil, não só em relação aos personagens políticos e ao regime praticado, mas também em termos de comportamento da população, pois esta acreditava na força que tinha e pretendia mudar os rumos da história do Brasil.

Analisando a mudança do imperativo sob uma perspectiva lingüística em função da Teoria da Variação e, ainda, refletindo sobre o recorte dos dados utilizados na presente pesquisa, consideramos que os personagens da Turma da Mônica, que constituem os emissores de nossos dados, nos fornecem resultados que, guardadas as devidas diferenças entre fala e escrita, refletem a língua real, ou seja, que não são estereotipados, e sim tipos representativos dos falantes reais da nossa língua. Pagotto (2004: 102) teoriza: “o informante é um exemplar que preenche traços do mundo social que se julgam relevantes para determinado processo de variação (...) é na leitura dos resultados que vamos encontrar a construção de um sujeito, que não é nenhum dos informantes reais, gravados e (/ou) transcritos, mas um sujeito que se deseja semelhante àqueles encontrados no mundo real.” Ora, outras pesquisas na mesma linha, mas com diferentes corpora, nos revelam que os resultados encontrados nos dados das revistas de Maurício de Sousa são consistentes e refletem parte da realidade lingüística nas regiões Sul, Sudeste e Centro- Oeste.

Outro importante fator que consideramos também ter sido condutor das mudanças e especificamente do referido salto nas revistas da Turma da Mônica foi uma carta enviada pela Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN) ao escritor Maurício de Sousa e à Editora Abril em 14 de março de 1985. Recorramos à história novamente: no início da década de 80 (em pleno governo ditatorial), o Conselho Nacional de Cultura cogitou proibir a publicação das revistas do personagem Chico Bento, sob a alegação de que elas eram um péssimo exemplo para as nossas crianças, que poderiam imitar os personagens com traços lingüísticos rurais e de oralidade (presentes nas falas desses personagens) e, assim, falar "errado", segundo o relato da professora Stella Maris Bortoni-Ricardo - lingüista a quem Maurício de Sousa recorreu inicialmente, pedindo que escrevesse um artigo em defesa do Chico Bento. Curiosamente, ao contrário do que imaginara o Conselho Nacional de Cultura, o personagem de Maurício de Sousa que mais representa a realidade da comunidade de fala ao redor, ou seja, que mais se aproxima dos traços reais da língua falada hoje na região Sudeste, no que diz respeito à expressão gramatical do imperativo, é justamente o personagem Chico Bento. A análise de cerca de 3.500 dados indica que o Chico Bento apresenta na atualidade em sua fala um índice médio de 92,4% do imperativo associado ao indicativo, sendo este o que mais retrata o imperativo nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Os resultados de Mattos & Wickert (2003: 31), com base em dados colhidos de músicas do Chico Buarque no período de 1964 a 1993, apontam cerca de 73% (de 592 estruturas) da expressão do imperativo associado ao indicativo. Lima (2005: 54), em pesquisas com falantes do Centro-Oeste chega ao resultado de 94% de imperativo associado ao indicativo na fala espontânea. Ambas as pesquisas confirmam que a fala (ou voz) do Chico Bento, com relação ao imperativo, corresponde mais à realidade do que a fala (ou voz) dos demais personagens urbanos. A fala do Chico Bento se aproxima ou, até mesmo, retrata a oralidade nas referidas regiões do Brasil. Na tabela 1, a seguir, podem ser vistos os resultados das falas dos diversos personagens das revistas analisadas.



Tabela 1 - Uso do imperativo associado ao indicativo pelos personagens das revistas em quadrinhos da Turma da Mônica

Personagens

Década de 70

1983

1985

1986

1987

1988

Década de 90

Década 00 do século XXI

Rural –

Chico Bento

******

******

23/ 31 = 74%

3/ 5 = 60%

12/ 12 = 100%

4/ 4 = 100%

47 / 51 = 92%

121/ 132 = 92%

Demais personagens da área rural

******

******

25/ 30 = 83%

6/ 8 = 75%

5/ 8 = 63%

5/ 5 = 100%

37 / 39 = 95%

78/ 86 = 91%

Professora Chico

Bento

******

******

1/ 2= 50%

******

0/ 1 = 0%

1/ 1 = 100%

2/ 3 = 67%

4/ 9 = 44%

Urbano – Mônica

3/ 54 = 6%

1/ 5 = 20%

9/ 14 = 64%

6/ 7 = 86%

3/ 4 = 75%

1/ 1 = 100%

38/ 52 = 73%

150/ 181 = 83%

Urbano – Cebolinha

1/ 26 = 4%

10/ 45 = 22%

10/ 13 = 77%

5/ 11 = 45%

5/ 5 = 100%

6/ 9 = 67%

43/ 70 = 61%

195/ 270 = 72%

Urbano –

Cascão

4/ 21 = 19%

2/ 26 = 8%

22/ 43 = 51%

22/ 32 = 69%

7/ 11 = 64%

6/7 = 86%

30/ 52 = 58%

193/ 253 = 76%

Urbano –

Magali

0/ 2 = 0%

******

******

******

******

******

23/ 40 = 57%

158/ 195 = 81%

Demais personagens da área urbana

3/ 31 = 10%

2/ 7 = 29%

34/ 71 = 48%

15 / 35 = 43%

3/ 5 = 60%

5/ 13 = 38%

95/ 216 = 44%

78/ 86 = 91%

Virtuais

0/ 14 = 0%

0/ 1 = 0%

13/ 38 = 34%

7/ 12 = 58%

3/ 8 = 38%

0 / 1 = 0%

12/ 37 = 32%

116/ 189 = 61%

Indígenas

******

******

2/ 7 = 29%

******

3/ 7 = 67%

0 / 4 = 100%

4/ 15 = 27%

27/ 40 = 67%

Pré-históricos

******

******

1/ 1 = 100%

******

1/ 3 = 33%

******

4/ 6 = 67%

11/ 19 = 58%

Animais


0/ 5 = 0%

******

5/ 10 = 50%

1/ 4 = 25%

0/ 3 = 0%

1/ 1 = 100%

18 / 43 = 42%

80 / 122 = 66%

Inanimados

******

******

******

0/ 6 = 0%

******

******

8/ 13 = 62%

7/ 16 = 44%

Total com Chico e companheiros

11/ 153 = 7%

15/ 84 = 18%

145/ 260 = 56%

65/ 120 = 54%

41/ 63 = 65%

29/ 46 = 63%

361/ 637 = 57%

1637/ 2269 = 72%

Total sem Chico e companheiros

11/ 153 = 7%

15/ 84 = 18%

97/ 199 = 49%

65/ 107 = 52%

21/ 43 = 56%

20/ 37 = 54%

277/ 547 = 51%

1438/ 2051 = 70%

Diante da ameaça sofrida pelas revistas do Chico Bento, a ABRALIN se pronunciou em defesa deste personagem, do multiculturalismo brasileiro e, de forma mais abrangente, das diversas falas do nosso país, admitindo-o assim em seu corpo associativo na qualidade de sócio-honorário, em carta datada de 14 de março de 1985, assinada pelo então presidente, professor Ataliba Teixeira de Castilho, e pelo então secretário, professor Rodolfo Ilari, como se vê a seguir.

Acreditamos que a manifestação feita pelo Conselho Nacional de Cultura (assim como todas as manifestações de preconceito) não tenha sido contra a fala do Chico Bento em si, mas contra o que este personagem representa socialmente: morador do meio rural, pouca escolaridade, baixa renda, pouco prestígio. Tanto é assim que o Conselho Nacional de Cultura nunca se manifestou contra o Cebolinha, outro personagem de Maurício de Sousa, que apresenta no registro de sua fala distância das regras gramaticais, na “pronúncia” e na sintaxe (Lalga ele, Cascão!), como pode ser visto nos quadrinhos abaixo, e que poderia teoricamente influenciar a fala e a escrita dos leitores, especialmente as crianças. Porém, este personagem representa socialmente outra classe, menos estigmatizada, bastante distinta da representada pelo Chico Bento. O Cebolinha representa uma classe urbana, de maior escolaridade, classe média, maior renda e prestígio.

(Quadrinhos com exemplos do Cebolinha (Revista no. 168, dez./1986, p.56) e do Chico Bento (Revista no. 109, out./1986, p.03)

Diante disto, não poderíamos deixar de concluir nosso texto com reflexões sobre um tema que, felizmente, tem sido freqüentemente abordado nos últimos tempos, em textos diversos: o preconceito lingüístico (ver, por exemplo, Bagno, 2000; 2002; 2003; Scherre, 2005). A variação do imperativo é um fenômeno que nos ajuda a concretizar a idéia de que este preconceito não é fruto da defesa pelas formas que seriam gramaticalmente corretas, mas sim de uma perseguição às formas estigmatizadas. O critério para se estigmatizar uma variável lingüística não é o seu grau de aproximação à norma gramatical: o critério é, sem dúvida, a classe ou comunidade social onde esta se manifesta. Vejamos: segundo a gramática normativa seria expressamente “errado” utilizar formas imperativas associadas ao indicativo como “VAI lá e me FAZ este favor!” em um contexto discursivo exclusivo do pronome você. Ora! O Centro-Oeste tem um contexto discursivo com predominância do pronome você e apresenta um índice de 94% do imperativo associado ao indicativo, assim como o Sudeste e Sul que também apresentam altos índices desta forma. Contudo, tal discordância com a gramática normativa nunca foi perseguida, criticada ou ridicularizada. Pela tradição gramatical, falar ou escrever “Ei você! Volta aqui” deveria ser considerado tão errado quanto a ausência de concordância: “Já atendi uns dois telefonema hoje”. Mas por que “Vem pra Caixa você também, vem!” não incomoda tanto quanto “Nós vai ...”? Simplesmente porque a primeira é uma forma incorporada também à fala da classe mais privilegiada, de maior escolaridade, renda e acesso cultural; basta que haja aceitação de determinada classe para que uma forma perca seu rótulo de errado ou feio – a aceitação de uma determinada classe social é um dos fortes fatores que influencia a perda ou ausência de rótulos negativos associados à linguagem. E é assim não só na língua, mas em diversos contextos culturais. Queremos mostrar aqui que, por trás de todo acontecimento lingüístico, está um fato social, seja ele de natureza histórica ou não. Então, não seria diferente com a variação do imperativo. Já sabemos que este não é um fenômeno associado a estigmas: nenhuma de suas formas variantes é sentida como errada.

Em síntese, buscamos marcas históricas que possam ter determinado ou estar relacionadas ao fenômeno da variação do imperativo. O salto ocorrido em nossos dados no ano de 1985 pode ter sido provocado pela situação sociopolítica do país naquele período, situação aquela que se refletia na fala e teria sido representada pelas revistas do Maurício de Sousa na escrita. O respaldo dado pela ABRALIN, composta por intelectuais da área de Lingüística, tinha e tem como um de seus objetivos a proteção da diversidade lingüística, não podendo deixar de se manifestar contra atitudes autoritárias em relação à língua, como foi a do Conselho Nacional de Cultura. Não podemos ter certeza absoluta de que os fatos apresentados justificam o salto ocorrido no ano de 1985, mas temos a convicção de que não só o salto em 1985, mas que cada etapa da mudança lingüística reflete a identidade da sociedade naquele e neste momento: socialmente, culturalmente, politicamente e economicamente. Como a pesquisa sempre segue seu curso, estamos analisando mais dados da década de 80 para consolidar nossas conclusões (ou até mesmo refutá-las) e vamos mergulhar novamente na história e no entendimento dos condicionamentos lingüísticos da variação, com o objetivo de dar conta também do aumento de 19 pontos percentuais ocorrido no início deste nosso novo século – o século XXI.

 

Referências bibliográficas


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http://pt.wikipedia.org/wiki/Ditadura

http://pt.wikipedia.org/wiki/Diretas_J%C3%A1

http://www.unificado.com.br/calendario/01/diretas.htm

Anexo 1: Totais de revistas por personagens e totais de dados variáveis analisados



Ano ou período

Número de revistas pesquisadas

Freqüência de imperativo associado à forma indicativa

1970 e 1971

10 (todas da Mônica)

11/ 153 = 7%

1983 a 1988

36 (4 do Cebolinha; 15 do Cascão; 17 do Chico Bento)

295/ 573 = 51%

1998 e 1999

15 (3 da Mônica; 3 do Cebolinha; 3 do Cascão; 3 da Magali; 3 do Chico Bento)

361/ 637 = 57%

2001, 2002, 2004 e 2005

111 (19 da Mônica; 17 do Cebolinha; 24 do Cascão; 26 da Magali; 25 do Chico Bento)

1637/2269 = 72%

Total

172 (32 da Mônica; 24 do Cebolinha; 42 do Cascão; 29 da Magali; 45 do Chico Bento)

2304/3632 = 63%




1 Acreditamos que esta sensação de autoritarismo desapertada pelo imperativo associado ao subjuntivo se dê apenas em regiões com predominância da forma indicativa do imperativo. Já em outros locais como em Salvador, em que há predominância do imperativo na forma subjuntiva, esta sensação não se manifesta.





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