História eclesiástica



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27. Mas fiquemos contentes com o que foi dito, para a presente obra, pois em comentários especiais já reuni as profecias que tangem a Jesus Cristo, nosso Salvador, e em outros escritos dei uma melhor demonstração de tudo que expusemos acerca d'Ele.
III

(De como os nomes de Jesus e de Cristo já eram conhecidos desde a antigüidade e honrados pelos profetas inspirados por Deus)

  1. É chegado o momento de demonstrar que também entre os antigos profetas, amigos de Deus, já se honravam os nomes de Jesus e de Cristo.

  2. Moisés mesmo foi o primeiro a conhecer o nome de Cristo como o mais augusto e glorioso quando fez entrega de figuras, símbolos e imagens misteriosos das coisas do céu, conforme a voz que lhe dizia: Vê pois, farás todas as coisas segundo o modelo que te foi mostrado no monte24; e celebrando ao sumo sacerdote de Deus tanto quanto é possível a um homem, proclama-o "Cristo"25. A esta dignidade do supremo sacerdócio, que para ele ultrapassa a qualquer dignidade dos homens, sobre a honra e a glória, adiciona o nome de Cristo. Portanto, ele conhecia o caráter divino de Cristo.

  1. Mas o mesmo Moisés, por obra do espírito divino, conhecia de antemão bem claramente também o nome de Jesus, considerando-o mesmo digno de um privilégio único. Na verdade, nunca se havia pronunciado este nome entre os homens antes de ser conhecido por Moisés. Este aplica o nome de Jesus pela primeira e única vez àquele que, novamente conforme a figura e o símbolo, ele sabia que viria a sucedê-lo depois de sua morte no comando supremo26.

  2. Nunca antes seu sucessor havia usado o nome de Jesus, mas era chamado por outro nome, Ausé, exatamente o que lhe haviam dado seus pais27. Moisés deu-lhe o nome de Jesus como um privilégio precioso, muito maior do que o de uma coroa real. Deu-lhe este nome porque, em realidade, o próprio Jesus, filho de Navé, era portador da imagem de nosso Salvador, o único que, depois de Moisés e depois de haver concluído o culto simbólico por ele transmitido, o sucederia no comando da verdadeira e sólida religião.

  3. E desta maneira Moisés, dando-lhes a maior honra, aplicou o nome de Jesus Cristo nosso Salvador aos dois homens que, segundo ele, mais sobressaíam em virtude e glória sobre todo o povo, a saber, o sumo sacerdote e aquele que haveria de sucedê-lo no comando.

  4. Está claro também que os profetas posteriores anunciaram a Cristo por seu nome e deram testemunho adiantadamente, não apenas da conspiração do povo judeu que seria levantada contra Ele, mas também do chamamento que Ele faria a todas as nações. Uma vez será Jeremias, quando assim diz: O espírito de nosso rosto, o Cristo Senhor, de quem havíamos dito: "A sua sombra viveremos entre os povos ", caiu preso em sua armadilhas28. Outra vez será Davi, que exclama perplexo: Por que se amotinaram as nações e os povos imaginaram planos vãos? Levantaram-se os reis da terra e os príncipes se uniram contra o Senhor e seu Cristo29; e logo acrescenta, falando na própria pessoa de Cristo: O Senhor me disse: Tu és meu filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações em herança e os confins da terra em possessão30 .

  5. Mas, deve-se saber que, entre os hebreus, o nome de Cristo não era ornamento apenas dos que estavam investidos do sumo sacerdócio e eram ungidos simbolicamente com óleo preparado, mas também dos reis, que eram ungidos pelos profetas por inspiração divina e faziam deles imagens de Cristo, pois efetivamente estes reis já levavam em si mesmos a imagem do poder real e soberano do único e verdadeiro Cristo, Verbo divino, que reina sobre todas as coisas.

8. Além disso, a tradição nos faz saber igualmente que também alguns profetas foram convertidos em Cristos, figuradamente, por meio da unção com o óleo31, de forma que todos estes fazem referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divino e celestial, único sumo Sacerdote do universo, único rei de toda a criação e, entre os profetas, único sumo Profeta do Pai.

9. Prova disto é que nenhum dos que antigamente foram ungidos simbolica­mente: nem sacerdotes, nem reis, nem profetas, possuíram tão alto poder de virtude divina como está demonstrado que possuiu Jesus, nosso Salvador e Senhor, o único e verdadeiro Cristo.

  1. Ao menos nenhum deles, por mais que brilhasse por sua dignidade e por sua honra entre os seus em tantas gerações, deu jamais o nome de cristãos aos seus súditos, aplicando-lhes figuradamente o nome de Cristo. Nem tampouco seus súditos renderam-lhes a honra de culto, nem foi de nenhum deles a disposição de que após a sua morte estivessem preparados para morrer pelo mesmo a quem honravam. E por nenhum deles houve tamanha comoção de todas as nações do vasto mundo. E assim é, que a força do símbolo que havia neles era incapaz de operar como operou a presença da verdade demonstrada através de nosso Salvador.

  2. Este não tomou de ninguém os símbolos e figuras do sumo sacerdócio, nem descendia, quanto à carne, de família sacerdotal, nem foi elevado à dignidade real por um corpo de guarda composto de homens; nem mesmo foi um profeta igual aos de antigamente nem obteve entre os judeus nenhuma precedência de honra ou de qualquer outro tipo; e, ainda assim, está adornado pelo Pai de todas estas prerrogativas, e não por figura, mas em verdade mesmo.

  3. Assim, sem ter sido objeto de nada semelhante ao que descrevemos, está proclamado Cristo com mais razão que todos aqueles, e sendo Ele mesmo o único e verdadeiro Cristo de Deus, encheu o mundo inteiro de cristãos, isto é, de seu nome realmente venerável e sagrado. Já não são figuras e imagens o que Ele entrega a seus seguidores, mas as próprias virtudes em sua pureza e uma vida no céu com a própria doutrina da verdade.

13. E a unção que recebeu não foi preparada com substâncias materiais, mas algo divino pelo Espírito de Deus, por sua participação na divindade incriada do Pai. É justamente isto que ensinava Isaías quando clamava, como se o fizesse com a própria voz de Cristo: O Espírito do Senhor está sobre mim, por isto me ungiu: enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, a apregoar aos cativos a liberdade e aos cegos o ver de novo32.

  1. E não apenas Isaías. Também Davi dirige-se ao mesmo Cristo e lhe diz: Teu trono é, ó Deus, eterno e para sempre; o cetro do teu reino, cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a maldade, por isso te ungiu Deus, o teu Deus, com óleo de alegria, mais que aos teus companheiros33. Aqui, o primeiro versículo do texto o chama Deus; o segundo honra-o com o cetro real.

  2. Em continuação, depois de seu poder divino e real, mostra o mesmo Cristo, em terceiro lugar, ungido não com o óleo que procede de matéria física, mas com o óleo divino da alegria, representando sua excelência, sua superio­ridade e sua diferença em relação aos antigos, ungidos mais corporeamente e figuradamente.

  3. Em outra passagem, o mesmo Davi revela as coisas que se referem a Cristo com estas palavras: Disse o Senhor ao meu senhor: Senta-te à minha destra enquanto ponho teus inimigos sob os teus pés34. E também: Do meu seio te criei antes do alvorecer. Jurou o Senhor e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque35.

  4. Pois bem, este Melquisedeque aparece nas Sagradas Escrituras como sacerdote do Deus Altíssimo36 sem que fosse assinalado com algum óleo preparado e sem que fosse aparentado com o sacerdote hebreu por sucessão hereditária alguma. Por isso é que nosso Salvador é proclamado com juramento Cristo e Sacerdote segundo sua ordem e não segundo a de outros, que haviam recebido símbolos e figuras.

  5. E por isso que a história tampouco nos transmitiu que Cristo tivesse sido ungido corporeamente entre os judeus, nem que tivesse nascido de uma tribo sacerdotal, pelo contrário, que recebeu seu ser de Deus mesmo antes do alvorecer, isto é, antes da criação do mundo, e que tomou posse de um sacerdócio imortal e duradouro pela eternidade sem fim.

19. Uma prova sólida e patente desta unção incorpórea e divina é que, de todos os homens de seu tempo e dos que se seguiram até hoje, unicamente Ele, entre todos e no mundo inteiro, foi chamado e proclamado Cristo; somente a Ele reconhecem sob este nome, dão testemunho d'Ele e se recordam d'Ele todos, tanto gregos quanto bárbaros; e até hoje seus seguidores, espalhados por toda a terra habitada, seguem dando-lhe honras de rei, honrando-o mais do que aos profetas e glorificando-o como o verdadeiro e único sumo Sacerdote de Deus, e acima de tudo isto, por ser Verbo de Deus, preexistente e nascido antes de todos os séculos, e por haver recebido do Pai as honras divinas, adoram-no como a Deus.

20. E o que é mais extraordinário: que aqueles que a Ele estamos consagrados não somente o honramos com a voz e com palavras, mas também com a plena disposição da alma, ao ponto de estimar mais o martírio por Ele do que nossa própria vida.
IV

(De como o caráter da religião anunciada por Cristo a todas as nações não era novo nem estranho)

1. É bastante o que foi dito, para iniciar minha narração, para que ninguém pense que nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo é algo novo devido a sua época de vida em carne mortal. Mas, para que ninguém possa ainda supor que sua doutrina é nova e estranha, como se tivesse sido criada por um homem recente e em nada diferente dos demais homens, explicaremos também brevemente este ponto.

2. Não faz muito tempo, efetivamente, que brilhou sobre todos os homens a presença de nosso Salvador Jesus Cristo, e um povo, novo no conceito de todos, fez sua aparição assim, de repente, conforme as inefáveis pre­dições dos tempos; um povo não pequeno, nem fraco, nem localizado em algum recanto da terra, mas ao contrário, o mais numeroso e o mais reli­gioso de todos os povos, indestrutível e invencível por ser em todo momento objeto do favor divino, o povo ao qual todos honram com o nome de Cristo.

3. Um dos profetas que contemplou antecipadamente com os olhos do Espírito de Deus a futura existência deste povo encheu-se de tal assombro que se pôs a gritar: Quem viu semelhante coisa? E quem falou assim? Nasce uma terra em um dia e nasce um povo de uma vez!37 E o mesmo profeta faz também alusão em outro lugar ao nome futuro deste povo, quando diz: E os meus servos serão chamados por um nome novo, que será bendito sobre a terra38.

4. Mas se está claro que nós somos novos, e que este nome de cristãos só foi realmente conhecido entre todas as nações recentemente, ainda assim e apesar disto demonstraremos aqui que nossa vida e o caráter de nossa conduta, adaptada aos próprios preceitos da religião, não é invenção nossa de ontem, mas que, por assim dizer, manteve-se em vigor desde a primeira criação do homem, graças ao bom senso daqueles antigos varões amigos de Deus.

  1. O povo hebreu não é um povo novo, pelo contrário, é sabido por todos que os homens sempre o reconheceram por sua antigüidade. Pois bem, seus documentos e escritos mencionam alguns homens antigos, escassos e espaçados no tempo, é certo, mas em troca, excelentes em religiosidade, em justiça e em todas as demais virtudes. Destes, alguns viveram antes do dilúvio, outros depois. E dentre os filhos e descendentes de Noé destaca-se especialmente Abraão, de quem os filhos dos hebreus se gabam de ter por autor e primeiro pai.

  2. Se, remontando-se desde Abraão até o primeiro homem, alguém dissesse que todos estes varões, cuja justiça está bem documentada, foram cristãos, ainda que não por nome mas por suas obras, não estaria enganado.

  3. Porque o que este nome significa é que o cristão, devido ao conhecimento de Cristo e de sua doutrina, sobressai por sua sobriedade, por sua justiça, pela firmeza de seu caráter, pelo valor de sua virtude e pelo reconhecimento de um só e único Deus de todas as coisas, e a atitude daqueles homens em relação a estas coisas em nada era inferior à nossa.

  4. Não se preocuparam com a circuncisão corporal, como tampouco nós; nem da guarda do sábado, como tampouco nós; nem da abstenção destes ou daqueles alimentos, nem de afastar-se de tantas outras coisas, como Moisés deixou por tradição para que se cumprissem como símbolos, e que nós, os cristão de agora, tampouco guardamos. Em troca, claramente conheceram ao Cristo de Deus que, como demonstramos antes, apareceu a Abraão, tratou com Isaac, falou a Israel e conversou com Moisés e com os profetas posteriores.

  5. Por isso poderás ver que aqueles amigos de Deus são também dignos do sobrenome de Cristo, conforme a sentença que diz sobre eles: Não toqueis a meus Cristos, nem façais mal a meus profetas39.




  1. Daí se percebe claramente a necessidade de crer que aquela religião, a primeira, a mais antiga e mais venerável de todas, tesouro daqueles mesmos varões amigos de Deus e companheiros de Abraão, é a mesma que recente­mente foi anunciada a todos os povos pelos ensinamentos de Cristo.

  2. Talvez se possa alegar que Abraão recebeu muito tempo depois o manda­mento da circuncisão, mas também se proclama e se dá testemunho de sua justificação por sua fé, anterior a este mandamento, pois diz assim a divina Escritura: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe imputado para justiça40.

12.E a ele, assim justificado, mesmo antes da circuncisão, Deus, que lhe apareceu (e este Deus era o próprio Cristo, o Verbo de Deus), comunicou um oráculo a respeito dos que em tempos futuros seriam justificados do mesmo modo que ele; os termos da promessa são: E em ti serão benditos todos os povos da terra41; e também: E se fará um povo grande e numeroso, e nele serão benditos todos os povos da terra42.

13. Agora pois, pode-se estabelecer que isto foi cumprido em nós, porque

efetivamente Abraão foi justificado por sua fé no Verbo de Deus, o Cristo que lhe apareceu, depois que deu adeus às superstições de seus pais e ao erro de sua vida anterior, e após confessar um só Deus, que está sobre todas as coisas, e de honrá-lo com obras de virtude, não com as obras da lei de Moisés, que veio mais tarde. E sendo assim, a ele foi dito que todas as tribos da terra e todos os povos seriam benditos nele.



  1. Pois bem, nos dias de hoje esta mesma forma de religião de Abraão só é praticada, com obras mais visíveis do que as palavras, entre os cristãos espalhados por todo o mundo habitado.

  2. Portanto, o que poderia ainda impedir-nos de reconhecer uma única e idêntica vida e forma de religião para nós, os que procedemos de Cristo, e para aqueles antigos amigos de Deus? Deste modo teremos demonstrado que a prática da religião que nos foi transmitida pelo ensinamento de Cristo não é nova nem estranha, mas, para dizermos a verdade, a primeira e única verdadeira. E baste-nos isto.


V

(De quando Cristo se manifestou aos homens)

1. Bem, depois deste preâmbulo, necessário para a história eclesiástica a que me propus, só nos resta começar nossa espécie de viagem, partindo da mani­festação de nosso Salvador em sua carne e depois de invocar a Deus, Pai do Verbo, e ao mesmo Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor, Verbo celestial de Deus, como nossa ajuda e nosso colaborador na verdade da exposição.

2. Corria pois o ano 42 do reinado de Augusto e o vigésimo oitavo desde a submissão do Egito e da morte de Antonio e de Cleópatra (com a qual se extinguiu a dinastia egípcia dos Ptolomeus), quando nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo nasceu em Belém da Judéia, conforme as profecias a seu respeito43, nos tempos do primeiro recenseamento, e sendo Quirino governador da Síria44.

  1. Este recenseamento de Quirino também é registrado pelo mais ilustre dos historiadores hebreus, Flavio Josefo, ao relatar outros feitos referentes à seita dos galileus, surgida naquela ocasião, e a qual também é mencionada pelo nosso Lucas nos Atos quando diz: Depois deste se levantou Judas a, galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo atrás de si. Também este pereceu, e todos os que o seguiram se dispersaram45.

  2. A estas indicações o mencionado Josefo acrescenta literalmente no livro XVIII de suas Antigüidades o seguinte: "Quirino, membro do senado, homem que havia desempenhado já os outros cargos pelos quais passou, sem omitir um só, até chegar a cônsul e grande por sua dignidade em todos; os demais, assumiu na Síria acompanhado por uns poucos, enviado por César como juiz da nação e censor dos bens."

  3. E pouco depois diz: "Mas Judas o gaulanita - da cidade chamada Gaula -, tomando consigo a Sadoc, um fariseu, andava instigando à rebelião; dizia que o censo não conduziria a outra coisa que não uma escravidão declarada, e exortava o povo a aferrar-se à liberdade."

  4. E sobre o mesmo escreve no livro II de suas Histórias da guerra judaica: "Por esse tempo certo galileu, chamado Judas, provocou a rebelião dos habitantes do país, reprovando-lhes a submissão ao pagamento do tributo aos romanos e ao submeter-se a amos mortais além de Deus." Assim escre­veu Josefo.

VI

[De como, segundo as profecias, em seus dias terminaram os reis por linha hereditária que regiam a nação judia e começou a reinar Herodes, o primeiro estrangeiro]

  1. Foi nesse tempo que assumiu o reinado sobre o povo judeu, pela primeira j vez, Herodes, de família estrangeira, e cumpriu-se a profecia feita por meio de Moisés, que dizia: Não faltará chefe saído de Judá nem governante nascido de sua carne até que chegue aquele para quem está reservado46, e sinaliza-o como esperança das nações.

  2. Esta predição efetivamente não havia sido cumprida durante o tempo em que ainda lhes era permitido viver sob governantes de sua própria nação, começando com o próprio Moisés e continuando até o império de Augusto. Nos tempos deste é que pela primeira vez um estrangeiro, Herodes, se vê investido pelos romanos com o governo dos judeus: segundo nos informa Josefo, era idumeu por parte de pai e árabe por parte de mãe. Mas, segundo Africanus - que não era mau historiador —, os que dão informação exata sobre Herodes dizem que Antípatro (este era seu pai) era filho de um certo Herodes de Ascalon, um dos chamados hieródulos47, que servia no templo de Apolo.

3. Este Antípatro, ainda criança, foi raptado por bandidos idumeus e viveu com eles, porque seu pai, pobre como era, não podia oferecer resgate por ele. Criado em meio a seus costumes, mais tarde firmou amizade com Hircano, sumo sacerdote judeu. Dele nasceu o Herodes dos tempos de nosso Salvador...

4. Tendo pois o reino judeu vindo às mãos de tal pessoa, a expectativa das nações, conforme a profecia, estava também à porta; haviam desaparecido do reino os príncipes e mandatários descendentes por via de sucessão entre si do próprio Moisés.

5. Ao menos tinham reinado antes do cativeiro e da migração para a Babilônia, começando com Saul - o primeiro - e por Davi. E antes dos reis, foram governados por mandatários chamados juízes, que tinham começado também depois de Moisés e de seu sucessor, Josué.

6. Pouco depois do regresso da Babilônia serviram-se ininterruptamente de um regime político de oligarquia aristocrática (eram os sacerdotes que estavam à frente dos assuntos), até que o general romano Pompeu atacou Jerusalém, assaltou-a à força e profanou os lugares santos entrando até a parte mais escondida do templo. E àquele que até esse momento havia se mantido por sucessão hereditária, na qualidade de rei e de sumo sacerdote - chamava-se Aristóbulo - mandou acorrentado a Roma, junto com seus filhos, e entregou o sumo sacerdócio a seu irmão Hircano. A partir daquele momento o povo judeu inteiro tornou-se tributário dos romanos.

7. Desta forma, assim que Hircano, último a quem chegou a sucessão dos sumos sacerdotes, foi levado cativo pelos partos, o senado romano e o imperador Augusto colocaram a nação judia nas mãos de Herodes, o primeiro estrangeiro, como já foi dito.

8. Em seu tempo ocorreu visivelmente a vinda de Cristo e, segundo a profecia, seguiu-se a esperada salvação e vocação dos gentios. A partir desse tempo, efetivamente, os príncipes e mandatários originários de Judá, quero dizer, os que vinham do povo judeu, desapareceram, e em seguida naturalmente viram perturbados também os assuntos do sumo sacerdócio, que até então vinha sendo passado de modo estável de pais a filhos em cada geração.

9. Encontramos importante testemunho de tudo isso em Josefo, que explica como Herodes, assim que os romanos lhe confiaram o reino, deixou de instituir sumos sacerdotes vindos da antiga linhagem, pelo contrário, distribuiu esta honra entre gente sem expressão. E diz ainda que na instituição dos sacerdotes Herodes foi imitado por seu filho Arquelau e depois dele pelos romanos, quando tomaram para si o governo dos judeus.

  1. O mesmo Josefo explica como Herodes foi o primeiro a fechar sob seu próprio selo as vestimentas sagradas do sumo sacerdote, não permitindo mais aos sumos sacerdotes levá-las sobre si, e que o mesmo foi feito por seu sucessor Arquelau, e depois deste pelos romanos.

  2. Tudo o que foi dito sirva também como prova do cumprimento de outra profecia referente à manifestação de Jesus Cristo nosso Salvador. No livro de Daniel48, a Escritura determina clara e expressamente um número de semanas até o Cristo-príncipe - acerca do que fiz uma exposição detalhada em outra obras - e profetiza que, depois de cumpridas estas semanas, seria extinta por completo a unção entre os judeus. Agora, pois, demonstra-se claramente que também isto se cumpriu com o nascimento de nosso Salva­dor Jesus Cristo. Sirva o dito como exposição necessária para a verdade das datas.

VII

[Da suposta discrepância dos evangelhos acerca da genealogia de Cristo]

  1. Posto que ao escrever seus evangelhos Mateus e Lucas nos transmitiram49 genealogias diferentes acerca de Cristo, que para muitos parecem ser discrepantes, e como cada crente, por ignorância da verdade, se esforça por inventar sobre estas passagens, vamos adicionar as considerações sobre este tema que chegaram a nós e que Africanus, mencionado a pouco, recorda em carta a Aristides, acerca da concordância das genealogias nos evangelhos. Refuta as opiniões dos demais como forçadas e mentirosas, e expõe o parecer que recebeu, nestes mesmos termos:

  2. "Porque, efetivamente, em Israel os nomes das famílias se enumeravam segundo a natureza ou segundo a lei. Segundo a natureza, por sucessão de nascimento legítimo; segundo a lei50, quando um morria sem filhos e seu irmão os engendrava para conservar seu nome (a razão é que ainda não se havia dado uma esperança clara de ressurreição, e arremedavam a prometida ressurreição futura com uma ressurreição mortal, para que se perpetuasse o nome do falecido).

  3. Como queira, pois, que os incluídos nesta genealogia uns se sucederam por via natural de pais a filhos, e os outros, ainda que gerados por uns, recebiam o nome de outros, de ambos os grupos se registra a memória: dos que foram gerados e dos que passaram por sê-lo.

  4. Deste modo, nenhum dos evangelhos engana: enumeram segundo a natu­reza e segundo a lei. De fato, duas famílias, que descendiam de Salomão e de Natã respectivamente, estavam mutuamente entrelaçadas por causa das ressurreições dos que haviam morrido sem filhos, das segundas núpcias e da ressurreição da descendência, de forma que é justo considerar os mes­mos indivíduos em diferentes ocasiões filhos de diferentes pais, dos fictí­cios e dos verdadeiros, e também que ambas genealogias são estritamente verdadeiras e chegam até José por caminhos complicados, mas exatos.

  5. Mas para que fique claro o que foi dito, vou explicar a transposição das lin­hagens. Quem vai enumerando as gerações a partir de Davi e através de Salomão encontra que o terceiro antes do final é Matã, o qual gerou a Jacó, pai de José 51. Mas, partindo de Natã, filho de Davi, segundo Lucas52, também o terceiro para o final é Melqui, pois José era filho de Heli, filho de Melqui.

  6. Portanto, sendo José nosso ponto de atenção, deve-se demonstrar como é que nos é apresentado como seu pai um ou outro: Jacó, que traz sua linha­gem de Salomão, e Heli, que descende de Natã; e de que modo, primeira­mente os dois, Jacó e Heli, são irmãos; e ainda antes, como é que os pais destes, Matã e Melqui, sendo de linhagens diferentes, aparecem como avós de José.

  7. Assim é que Matã e Melqui se casaram sucessivamente com a mesma mulher e tiveram filhos, filhos de uma mesma mãe, pois a lei não impedia que uma mulher sem marido - porque este a houvesse repudiado ou porque houvesse morrido - se casasse com outro.

  8. Pois bem, de Esta (pela tradição era assim que se chamava a mulher), Matã, o descendente de Salomão, foi o primeiro, gerando a Jacó; tendo morrido Matã, casou-se a viúva com Melqui, cuja ascendência remonta a Natã e que, sendo, como dissemos antes, da mesma tribo, era de outra família. Este teve um filho: Heli.

  9. E assim encontramos que, sendo de duas linhagens diferentes, Jacó e Heli são irmãos por parte de mãe. Morrendo Heli sem filhos, seu irmão Jacó casou-se com sua mulher, e dela teve um terceiro filho, José, o qual, segundo a natureza, era seu (e segundo o texto, pois por isso está escrito: Jacó gerou a José 53), mas, segundo a lei, era filho de Heli, já que Jacó, sendo seu irmão, suscitou-lhe descendência.
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