História eclesiástica



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VIII

[Dos sinais que precederam a guerra]

1. Toma pois, e lê o que apresenta no livro VI de suas Histórias com estas palavras:

"Naquele tempo os impostores e os que levantavam tais calúnias contra Deus pervertiam o povo miserável, de forma que nem percebiam nem davam crédito a tais prodígios bem claros que anunciavam de antemão a iminente desolação; antes, como se aturdidos por um raio e como se não tivessem olhos nem alma, faziam ouvidos surdos às mensagens de Deus.



  1. Estas foram: um astro que se deteve sobre a cidade, semelhante a uma espada de dois gumes, e um cometa que durou todo um ano. Outra vez foi quando, antes da insurreição e dos distúrbios que levaram à guerra, estando o povo reunido para celebrar a festa dos ázimos, no oitavo dia do mês de Jantico, à nona hora da noite, brilhou sobre o altar e o templo uma luz tão grande que poder-se-ia pensar que era dia, e isto durou uma meia hora. Aos ignorantes poderia parecer um bom sinal, mas os escribas interpretaram-no corretamente antes que os fatos ocorressem.

  2. E na mesma festa, uma vaca que o sumo sacerdote conduzia ao sacrifício pariu um cordeiro no meio do templo.

  3. E a porta oriental do interior, que era de bronze e muito pesada, e que havia sido fechada ao anoitecer com dificuldade por vinte homens que a trancaram solidamente com ferrolhos presos com ferro, além de ter gonzos profundos, abriu-se sozinha à sexta hora da noite.

  4. E passada a festa, não muito depois, no vigésimo primeiro dia de Artemisio, apareceu um fantasma demoníaco de tamanho incrível. E o que se passará a dizer poderia parecer mentira se não tivesse sido contado pelos mesmos que o viram e se os sofrimentos que se seguiram não fossem dignos destes sinais. De fato, antes do pôr-do-sol, apareceram pelo ar em redor de toda a região carros e falanges armadas que se lançavam através das nuvens e rodeavam as cidades.

  5. E na festa chamada Pentecostes, à noite, entrando os sacerdotes no templo, como de costume, para exercer suas funções, dizem que primeiramente perceberam movimento e ruído de golpes, e logo um grito em uníssono: Saiamos daqui!

  1. E o que é mais terrível: um homem chamado Jesus, filho de Ananías, homem simples, camponês, quatro anos antes da guerra, quando a cidade desfru­tava da maior paz e do máximo esplendor, veio à festa, pois era costume que todos erigissem tendas em honra a Deus197, e de repente começou a gritar pelo templo: Voz do oriente! Voz do ocidente! Voz dos quatro ven­tos! Voz sobre Jerusalém e sobre o templo! Voz dos recém-casados e casadas! Voz sobre todo o povo! Dia e noite gritava isto por todas as vielas.

  2. Mas alguns cidadãos notáveis, irritados pelo mau agouro, prenderam o homem e maltrataram-no, enchendo-o de feridas. Mas ele, que não falava em proveito próprio nem por conta própria, continuava gritando aos presen­tes o mesmo que antes.

  3. Pensando então os chefes que a agitação daquele homem era algo demoníaco, conduziram-no ante o procurador romano198. Ali, dilacerado com açoites até os ossos, não suplicou nem derramou uma lágrima, mas, tornando sua voz tão chorosa quanto possível, a cada ferida respondia: Ai, ai de Jerusalém!"

  4. Comenta o mesmo Josefo outro fato mais extraordinário. Diz que nas escrituras sagradas encontrou-se um oráculo com este conteúdo: que naquele tempo alguém saído de seu país regeria o mundo. O próprio Josefo concluiu que o oráculo tinha sido cumprido em Vespasiano199.

  5. Mas este não governou a todo o mundo, mas somente à parte submetida aos romanos. Seria pois mais justo referi-lo a Cristo, a quem o Pai havia dito: Pede-me e te darei nações como herança e os confins da terra como tua possessão200. Pois bem, por este mesmo tempo chegara a toda a terra a voz dos santos apóstolos e aos confins do mundo suas palavras201.


IX

[De Josefo e os escritos que deixou]

1. Depois de todas estas coisas, seria bom não ignorar o próprio Josefo – que tanto material forneceu para a obra que tens entre as mãos - de que país e de que família procedia. Também será ele mesmo quem nos declarará isto.

Diz assim:



"Josefo, filho de Matias, sacerdote originário de Jerusalém, que primeiro fez guerra pessoalmente contra os romanos e logo, por necessidade, ficou à mercê dos acontecimentos posteriores202."

  1. Foi o mais famoso de todos os judeus de sua época, e não somente entre seus compatriotas, mas também entre os romanos, ao ponto de ser honrado com uma estátua203 em Roma, e seus livros serem considerados dignos de uma biblioteca.

  2. Josefo expôs toda a Antigüidade judaica em vinte livros completos, e a História da guerra romana de seu tempo em sete. Ele mesmo atesta que não a entregou apenas em língua grega, mas também em sua língua materna204. Por tudo o mais é digno de crédito.

  3. Há também dele outros livros dignos de estudo, intitulados Sobre a antigüi­dade dos judeus. Neles refuta o gramático Apion, que tinha então composto um tratado contra os judeus. Também refuta a outros que haviam tentado igualmente caluniar as instituições pátrias do povo judeu.

  4. No primeiro destes livros estabelece o número de escritos do chamado Antigo Testamento, mostrando quais são os não discutidos entre os hebreus, como provenientes de uma antiga tradição. Diz textualmente:


X

[De que maneira cita os livros divinos]

  1. "Não há pois entre nós milhares de livros em desacordo e em mútua contradição, mas há sim, apenas vinte e dois livros que contêm a relação de todo o tempo e que com justiça são considerados divinos.

  2. Destes, cinco são de Moisés, e compreendem as leis e a tradição da criação do homem até a morte de Moisés. Este período abarca quase três mil anos.

  3. Desde a morte de Moisés até a de Artaxerxes, rei dos persas depois de Xerxes, os profetas posteriores a Moisés escreveram os fatos de suas épocas em treze livros. Os outros quatro contêm hinos em honra a Deus e regras de vida para os homens.

  4. Desde Artaxerxes até nossos dias tudo foi escrito, mas nem tudo merece a mesma confiança que o anterior, por não apresentar sucessão exata dos profetas.

  5. Mas os fatos manifestam como nós nos sentimos próximos a nossas escri­turas. Assim é que, transcorrido já tanto tempo, ninguém se atreveu a acres­centar, nem tirar, nem mudar nada nelas, antes, é natural a todos os judeus, já desde seu nascimento, crer que estes escritos são decretos de Deus, e aferrar-se a eles e prazerosamente morrer por eles caso seja necessário."

  6. Estas palavras do autor aqui apresentadas não deixarão de ser úteis. Há também outra obra escrita por ele, não sem nobreza, Sobre a supremacia da razão, que alguns intitularam Macabeus, porque contém as lutas dos hebreus valentemente sustentadas em defesa da piedade para com Deus e referidas nos escritos assim chamados Dos Macabeus205.

  7. E quase no final do livro XX de suas, Antigüidades, o mesmo autor acrescenta a declaração de que tem o propósito de escrever em quatro livros, seguindo as crenças pátrias dos judeus, acerca de Deus e de sua essência, e sobre as leis; porque, segundo elas, algumas coisas podem ser feitas e outras são proibidas. O mesmo autor, em seus próprios tratados, menciona outras obras por ele produzidas.

  8. Além disso, será bom mencionar também as palavras que estão no final de suas Antigüidades, para confirmação dos testemunhos que dele tomei. Quando acusa Justo de Tiberíades - que tentara fazer, assim como ele mesmo, uma história dos fatos daquele tempo - de não haver escrito a verdade, depois de incluir outras muitas emendas, acrescenta textualmente o que segue:

  9. "Na verdade eu não tenho os mesmos temores que tu tens no que se refere a meus escritos, pois entreguei meus livros aos próprios imperadores estando os fatos ainda quase ante os olhos, porque tinha consciência de ter conservado a tradição da verdade, e não me enganei ao esperar obter seu testemunho.

  10. Também enviei minha narrativa a muitos outros, alguns dos quais tinham estado na guerra, como o rei Agripa e alguns parentes seus.

  11. E ocorre que o imperador Tito quis que o público fosse informado dos fatos somente através destes livros, tanto é assim que ele assinou a ordem de publicá-los de próprio punho. E o rei Agripa escreveu sessenta e duas cartas atestando que os livros transmitem a verdade."

Destas cartas Josefo inclusive cita duas. Mas baste o que já dissemos sobre ele, e prossigamos.
XI

[De como Simeão dirige a Igreja de Jerusalém depois de Tiago]

1. Depois do martírio de Tiago e da tomada de Jerusalém, que se seguiu ime­diatamente, é tradição que os apóstolos e discípulos do Senhor que ainda viviam reuniram-se de todas as partes num mesmo lugar, junto com os que eram da família do Senhor segundo a carne (pois muitos deles ainda viviam), e todos celebraram um conselho sobre quem seria considerado digno de suceder a Tiago, e todos, por unanimidade, decidiram que Simeão, o filho de Clopas - mencionado também pelo texto do Evangelho206 -, era digno do trono daquela igreja, por ser primo do Salvador, ao menos segundo se diz, pois Hegesipo refere que Clopas era irmão de José.

XII

[De como Vespasiano ordena que se busquem os descendentes de Davi]

1. Depois disso Vespasiano, após a tomada de Jerusalém, deu a ordem de buscar todos os descendentes de Davi, para que entre os judeus não sobras­se ninguém da estirpe real. Por esta causa justificou-se mais uma grande perseguição aos judeus207.

XIII

[De como o segundo bispo de Roma é Anacleto]

1. Depois de imperar Vespasiano durante dez anos, sucede-o como imperador seu filho Tito. No segundo ano de seu reinado, Lino, bispo da igreja de Roma, depois de exercer o cargo durante doze anos, transmite-o a Anacleto. Tito, que imperou dois anos e uns poucos meses, foi sucedido por seu irmão Domiciano.

XIV

[De como o segundo a dirigir os alexandrinos é Abílio]

1. No quarto ano de Domiciano morre Aniano, primeiro bispo da igreja de Alexandria, após haver completado vinte e dois anos, sucede-o Abílio como segundo bispo.

XV

[De como o terceiro bispo de Roma, depois de Anacleto, é Clemente]

1. No duodécimo ano do mesmo reinado208, Clemente sucede a Anacleto, que havia sido bispo da igreja de Roma durante doze anos. O apóstolo, em sua carta aos Filipenses, faz saber a estes que Clemente era colaborador seu, dizendo: Com Clemente também e os demais colaboradores meus, cujos nomes estão no livro da vida209.

XVI

[Da carta de Clemente]

1. Deste existe uma Carta universalmente admitida, longa e admirável, que escreveu em nome da igreja de Roma à dos Coríntios, tendo como motivo uma sedição ocorrida em Corinto. Sabemos que esta carta foi lida publica­mente na assembléia na maior parte das igrejas, não apenas antigamente, mas também em nossos dias. E Hegesipo é testemunha suficiente de que no tempo indicado houve a sedição de Corinto.

XVII

[Da perseguição sob Domiciano]

1. Domiciano deu provas de uma grande crueldade para com muitos, dando morte sem julgamento razoável a não pequeno número de patrícios e de homens ilustres, e castigando com o desterro fora das fronteiras e confisco de bens a outras inúmeras personalidades sem causa alguma. Terminou por constituir a si mesmo sucessor de Nero na animosidade e guerra contra Deus. Efetivamente ele foi o segundo a promover a perseguição contra nós, apesar de que seu pai Vespasiano nada de mal planejou contra nós.
XVIII

[Sobre o apóstolo João e o "Apocalipse"]

  1. É tradição210 que, neste tempo, o apóstolo e evangelista João, que ainda vivia, foi condenado a habitar a ilha de Patmos por ter dado testemunho do Verbo de Deus.

  2. Pelo menos Irineu, quando escreve acerca do número do nome aplicado ao anticristo no chamado Apocalipse de João211, diz no livro V Contra as heresias, textualmente sobre João o que segue:

  3. Mas se fosse necessário atualmente proclamar abertamente seu nome212, seria feito por meio daquele que também viu o Apocalipse, já que não faz muito tempo que foi visto, mas quase em nossa geração, ao final do império de Domiciano."

  4. Mas deve-se saber que de tal maneira brilhou por aqueles dias o ensinamento de nossa fé, que até os escritores alheios a nossa doutrina não vacilaram em transmitir em suas narrativas a perseguição e os martírios que então ocorreram. Indicaram inclusive com total exatidão a data ao referir que no décimo quinto ano de Domiciano, Flávia Domitila, filha de uma irmã de Flávio Clemente, um dos cônsules daquele ano em Roma, junto com muitos outros, foi castigada com o desterro à ilha de Pontia, por causa de seu testemunho sobre Cristo.


XIX

[De como Domiciano ordena a morte aos descendentes de Davi]

1. O próprio Domiciano deu ordem de executar os membros da família de Davi, e uma antiga tradição diz que alguns hereges acusaram os descen­dentes de Judas - que era irmão do Salvador segundo a carne —, com o pretexto de que eram da família de Davi e parentes do próprio Cristo213. Isto é o que declara Hegesipo quando diz textualmente:
XX

[Dos parentes de nosso Salvador]

1. "Da família do Senhor viviam ainda os netos214 de Judas, seu irmão segundo a carne215, aos quais delataram por serem da família de Davi. O evocatus216conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda de Cristo.

  1. Perguntou-lhes se descendiam de Davi; eles o admitiram. Perguntou-lhes então quantas propriedades tinham ou de quanto dinheiro dispunham, e eles disseram que ambos não possuíam mais do que nove mil denários, metade de cada um, e ainda assim afirmaram que não o possuíam em metal, mas que era a avaliação de apenas trinta e nove pletros de terra, cujos impostos pagavam e que eles mesmos cultivavam para viver."

  2. Então mostraram suas mãos e juntaram como testemunho de seu trabalho pessoal a dureza de seus corpos e os calos que haviam se formado em suas próprias mãos pelo trabalho contínuo.

  3. Perguntados acerca de Cristo e de seu reino: que reino era este e onde e quando se manifestaria, deram como explicação que não era deste mundo nem terreno, mas celeste e angélico e que se dará no final dos tempos; então Ele virá com toda sua glória e julgará os vivos e os mortos e dará a cada um segundo suas obras217.

  4. Ante estas respostas, Domiciano não os condenou a nada, mas inclusive desprezou-os como gente vulgar. Deixou-os livres e por decreto fez cessar a perseguição contra a Igreja218.

  5. Os que haviam sido postos em liberdade estiveram à frente das igrejas tanto por terem dado testemunho como por serem da família do Senhor, e retornada a paz, viveram até Trajano.

  6. Isto diz Hegesipo. Mas não só ele. Também Tertuliano faz uma menção semelhante sobre Domiciano:

"Também Domiciano tentou por algum tempo fazer o mesmo que aquele, ainda que não sendo mais que uma parte da crueldade de Nero. Mas como, segundo creio, tinha algum senso, fez que cessasse rapidamente e chamou novamente os que havia desterrado."

8. Depois de Domiciano imperar quinze anos e de sucedê-lo Nerva no gover­no, o senado romano decidiu por votação que se anulassem as honras de Domiciano e que regressassem a suas casas os que haviam sido expul­sos injustamente, e que ao mesmo tempo recuperassem seus bens. Isto é referido pelos que transmitiram por escrito os acontecimentos daquele tempo.

9. Foi então que o apóstolo João, voltando de seu desterro na ilha, retirou-se para viver em Éfeso, segundo relata a tradição de nossos antigos.
XXI

[De como o terceiro a dirigir a Igreja de Alexandria é Cerdon]

1. Depois de Nerva imperar pouco mais de um ano, foi sucedido por Trajano. Corria o primeiro ano deste quando Cerdon sucedeu a Abílio, que havia regido a igreja de Alexandria durante treze anos. Cerdon era o terceiro dos que ali exerceram a presidência depois do primeiro, Aniano. Neste tempo os romanos eram ainda regidos por Clemente, que também ocupava o terceiro lugar dos que ali foram bispos depois de Paulo e Pedro. O primeiro foi Lino, e depois dele, Anacleto.
XXII

[De como o segundo a dirigir a igreja de Antioquia é Inácio]

1. Mas dos de Antioquia, depois de Evodio, primeiro que foi instituído, no tempo de que falamos era muito conhecido o segundo: Inácio. Igualmente nestes mesmos anos, o ministério da igreja de Jerusalém era exercido por Simeão, segundo depois do irmão de nosso Salvador.
XXIII

[Relato sobre o apóstolo João]

  1. Por este tempo vivia ainda na Ásia o mesmo a quem Jesus amou, o apóstolo e evangelista João, e ali continuava regendo as igrejas depois de regressar do desterro na ilha, depois da morte de Domiciano.

  2. Que João permanecia em vida por este tempo é suficientemente confirmado por duas testemunhas. Estas, representantes da ortodoxia da Igreja, são bem dignas de fé, tratando-se de homens como Irineu e Clemente de Alexandria.

  3. O primeiro deles, Irineu, escreve textualmente em alguma parte do livro II de sua obra Contra as heresias como segue:

"E todos os presbíteros que na Ásia estão relacionados com João, o discípulo do Senhor, dão testemunho de que João o transmitiu, porque ainda viveu com eles até os tempos de Trajano."

  1. E no livro III da mesma obra manifesta o mesmo com estas palavras: "Mas também a igreja de Éfeso, por ter sido fundada por Paulo e porque nela viveu João até os tempos de Trajano, é um testemunho veraz da tradição dos apóstolos."

  2. Por sua parte, Clemente assinala o mesmo tempo, e em sua obra que intitulou Quem é o rico que se salvai Acrescenta uma narrativa valiosíssima para os que gostam de escutar coisas belas e proveitosas. Toma pois, e lê o que ali escreveu:

6. "Escuta uma historieta, que não é uma historieta, mas uma tradição existente sobre o apóstolo João, transmitida e guardada na memória. Efetivamente, depois que morreu o tirano, João mudou-se da ilha de Patmos a Éfeso. Daqui costumava partir, quando o chamavam, até as regiões pagãs vizinhas, com o fim de, em alguns lugares, estabelecer bispos; em outros, erguer igrejas inteiras, e em outros ainda, ordenar a algum dos que haviam sido designados pelo Espírito.

  1. Veio pois a uma cidade não muito distante e cujo nome alguns inclusive mencionam. Depois de consolar os irmãos em tudo o mais, tendo visto um jovem de grande estatura, de aspecto elegante e de alma vivaz, fixou seu olhar no rosto do bispo instituído sobre a comunidade e disse: 'Eu te confio este com toda a atenção, na presença da igreja e com Cristo como teste­munha.' O bispo aceitou o jovem, prometendo-lhe tudo, mas João insistia no mesmo e apelando para as mesmas testemunhas.

  2. Logo regressou a Éfeso, e o presbítero219 levou para casa o jovem que lhe havia sido confiado e ali o manteve, rodeou-o de afeto e por fim batizou-o. Depois disto afrouxou um pouco sua grande solicitude e vigilância, pensando que havia imposto a salvaguarda perfeita: o selo do Senhor.

  3. Mas certos rapazes de sua idade, malandros, dissolutos e tendentes ao mal, perverteram-no. Sua liberdade era prematura. Primeiramente atraíram-no por meio de suntuosos banquetes; depois levaram-no consigo, inclusive de noite, quando saíam para o roubo, e por fim exigiram-lhe participar com eles de maldades maiores.

  1. O jovem foi se acostumando a isto sem perceber, e desviando-se do caminho reto, como cavalo de boca dura, brioso e que rejeita o freio, por seu vigor natural foi-se precipitando com mais força ao abismo.

  2. Acabou perdendo a esperança na salvação divina. Desde então não planejava coisas pequenas, mas, tendo já cometido grandes crimes, já que estava perdido de uma vez por todas, considerava justo correr o mesmo risco dos demais. Assim foi que, juntando-se aos mesmos e formando um bando de salteadores, era ele seu líder resoluto, o mais violento, o mais homicida, o mais temível de todos.

  3. Depois de algum tempo surgiu certa necessidade e voltaram a chamar João. Este, depois de ter resolvido os assuntos pelos quais tinha vindo, disse: 'Bem, bispo, devolve-me o depósito que eu e Cristo te confiamos na presença da igreja que presides e que é testemunha.'

  4. O bispo a princípio ficou estupefato, acreditando ser vítima de calúnia sobre algum dinheiro que ele não havia recebido: não podia crer no que não tinha nem podia deixar de crer em João. Quando este lhe disse: 'O jovem é o que te peço, e a alma do irmão', o ancião prorrompeu em profundos soluços e, marejado de lágrimas, disse: 'este está morto'. Como? Morto de quê? 'Está morto para Deus - disse -, pois afastou-se transformado num perverso, um perdido, e para o cúmulo, um salteador, e agora ocupa o monte que está frente à igreja, com uma quadrilha de sua mesma índole.'

  1. Rasgou o apóstolo sua roupa e, golpeando a cabeça, com grande lamento exclamou: 'Bom guardião deixei para a alma do irmão! Mas tragam já um cavalo e alguém que me guie no caminho.' E dali, tal como estava, saiu da igreja e foi-se.

  2. Chegou ao lugar. Os sentinelas dos bandidos deitaram-lhe as mãos, mas ele não fugia nem suplicava, mas aos gritos dizia: 'Para isso vim, levem-me ao vosso chefe.'

  3. Este, entretanto, aguardava armado como estava, mas ao reconhecer João naquele que se aproximava, fugiu cheio de vergonha. João o perseguia com todas suas forças, esquecido de sua idade e gritando:

  4. 'Por que foges de mim, filho, de mim, teu pai, desarmado e velho? Tem pie­dade de mim, filho, não tema. Ainda tens esperança de vida. Darei conta por ti a Cristo, e se for necessário, com gosto sofrerei por ti a morte, como o Senhor a sofreu por nós. Por tua vida eu darei em troca a minha própria. Pára! Tenha fé! Foi Cristo que me enviou!'"

  5. O jovem, ao ouvi-lo, primeiramente deteve-se, com os olhos baixos; em seguida largou as armas, e tremendo, abraçou-se a ele. Seus lamentos eram já um discurso de defesa, e suas lágrimas serviam-lhe de segundo batismo. Apenas ocultava a mão direita.

  6. Mas João foi-lhe fiador, jurando que havia alcançado o perdão para ele por parte do Salvador, caiu de joelhos, suplicante, e beijou a mesma mão direita considerando-a já purificada pelo arrependimento. Reconduziu-o à igreja, orou com súplicas abundantes, acompanhou-o em sua luta com jejuns prolongados e foi cativando seu espírito com os variados atrativos de sua palavra, e segundo dizem, não saiu dali até tê-lo consolidado na igreja, depois de ter dado grande exemplo de verdadeiro arrependimento e grandes sinais de regeneração, como troféu de uma ressurreição visível.

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