História, Educação e Memória da Educação do Campo na Amazônia Paraense


Trabalha com gestão escolar há mais de 20 anos e “estou na escola para somar e contribuir com a melhoria”



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Trabalha com gestão escolar há mais de 20 anos e “estou na escola para somar e contribuir com a melhoria”

Ana Lúcia

Eu não pensava em ser uma profissional da educação, mas a vida me levou a isso. Porque, o nosso município de Santa Isabel, e, eu, nascida e criada aqui, a gente percebe que, aqui, o nosso ramo mesmo, é isso, ou você é professor, agricultor, ou vai trabalhar numa dessas empresas, que a gente tem aqui, que é de frango ou carne bovina. Então eu achei melhor entrar para questão de educação mesmo, onde o município era mais carente.

Estudei fiz o magistério e ingressei logo para dar aula, e, após, alguns anos já trabalhando, foi que, eu mesma, me propus a estudar, avançar e fazer um nível superior. Achava que o magistério tava bom demais; só que não é bem assim, o mercado, é muito competitivo. Eu casei, tive meus filhos, e tinha que melhorar meu poder aquisitivo.

Toda essa minha experiência, eu aprendi muita coisa nessa área, é a primeira vez, é o primeiro ano que eu estou trabalhando na zona rural, e, está sendo uma experiência muito valiosa trabalhar com as pessoas mais simples, mais humildes, e a gente, enquanto equipe, a gente faz de tudo. Eu percebo que estou sendo bem aceita na comunidade que atendemos.

A gente está trabalhando os valores e a cultura deles, inclusive, no dia 27/ 11/2008, temos um trabalho para apresentar, que é uma feira científica e cultural, onde a gente vai valorizar cada vez mais a nossa clientela.

Sobre as políticas públicas voltadas para as escolas agrícolas, deixam muito a desejar. A gente não tem muito apoio, a gente precisa disso, corre atrás, mas, parece que não tá tendo apoio. Os materiais pedagógicos utilizados pelos professores são muitos livros, parelho de DVD. Os recursos pedagógicos, quando a gente precisa, utiliza o data show, emprestado pela Secretaria de Educação. Temos também às horas Pedagógicas, a cada bimestre para socializar as nossas atividades. Vejo então, os nossos recursos, são bem utilizados.

A educação no campo, apesar de algumas empresas estarem dando alguns cursos, por exemplo, nós temos um parceiro muito bom, que se chama Emater, que dá algum suporte, não exatamente para os educandos, mas, para os agricultores. Aqui, na nossa região, a agricultura é que está em evidência e que gera renda para eles, mas quando se trata de escola, tem carência de apoio, então, a educação do campo, se resume a essa escola, temos apenas uma orientadora, que trabalha com os alunos de 5º a 8º série.

Então, volto a dizer que falta muita coisa. E essa escola é agrícola, porque no currículo dos alunos tem a disciplina Agricultura e Zootecnia; é parte diversificada do currículo.

A escola contribui para agricultura familiar com a formação, porque os alunos estão aprendendo, tem a teoria em sala de aula, e depois tem a prática. Mas, muitos deles nos dão aula, pois nascem nesse meio, com a família na agricultura, plantando, colhendo, fazendo farinha, e muitas vezes, a gente sabe que educador e educando tem uma troca, a gente ensina e aprende ao mesmo tempo.

Os projetos desenvolvidos pela escola foram projetos sociais; trabalhamos no início do ano, o projeto “Cultivando a Paz”. O projeto surgiu a partir do momento que percebemos muita violência entre os alunos, brigas, apelidos, então, a gente resolveu fazer esse projeto. Essa foi uma experiência muito boa; tivemos os projetos das mães e outros que virão sobre meio ambiente.

Na valorização da cultura negra, a gente procura envolver eles, em todas as atividades. A gente está valorizando da seguinte forma: teve uma semana aí, que um aluno chamou a outra de preta, então a gente vai até a turma, e tenta humanizá-los. Mostrando que, todos, somos iguais, até porque, a maioria, dos nossos alunos é negra; senão, possuem alguma descendência.

A escola possui Conselho, e o funcionamento, se dá, através de seções ordinárias e extraordinárias, mas garanto que o Conselho funciona. Inclusive há dois meses, a gente reuniu o conselho, por uma questão de três alunos, que extraviaram uma bola da escola. Nós temos um livro de ocorrência, está tudo registrado, então, reunimo-nos, todos os membros, e o conselho, tomou a atitude de transferir esses alunos, porque se esgotou todas as necessidades de negociação com eles. Porque, de acordo com o nosso regimento escolar, os alunos têm direitos e deveres, eles estavam ferindo as normas da escola, com essas atitudes que eles estavam tomando. Então o conselho tomou a atitude de transferir os alunos, pra não dizer expulsão. De repente não estava bem aqui, foi, para outra instituição, que, na verdade não foi.

O Conselho funciona quando chega verba do PDDE, a gente reúne pra vê o que vai fazer, e comprar para os alunos e professores.

A escola tem muita importância para a localidade, sendo de grande valia, até porque, é, a maior escola que as comunidades têm nas proximidades, eles, tem sempre estado aqui, interagindo conosco, em todos os eventos, especialmente, Macapazinho, o presidente de comunidade.

A proximidade da escola com a família, quando a gente quer conversar com a família, a gente faz reuniões que ocorrem trimestralmente. Mas, para aproximar mais, nós vamos, na rota do ônibus, procuro a família de cada um deles, e debate, e interage com as famílias, dessa forma. Nos eventos, eles participam; geralmente, nossos eventos são aos domingos, porque é o dia que eles participam ativamente.


Ano: 2008

Localização: Escola Agrícola Maurício Machado

. Professora: Lívia

Assunto: História Instituição escolar, Educação Básica, Ensino e cultura, quilombolas paraenses, prática docente e política educacionais municipais.

Lembranças da Memória:

Ser professora para mim não foi um querer, quando fiz vestibular por experiência acabei passando, e dois anos depois que estava cursando apareceu à oportunidade pra lecionar e acabei indo. Estava ligada à questão de momento, sorte! Tanto que, no começo eu não tinha tanta vocação, como ainda acho que eu não tenho tanta, mas estou aprendendo a lidar com isso; não foi escolha foi por acaso, eu acho que aprendi que ser professor não é somente uma profissão, mas, a questão do dom e, eu descobri que eu tinha o dom na sala de aula e acho que eu estou me encontrando agora. Pretendo me especializar mais, pretendo melhorar.

Ser professora numa escola agrícola é um desafio, porque tem questão de localização, questão de espaço,, recursos que são bem escassos, eu estou aprendendo com as dificuldades, e com a experiência de outras professores que estão há mais tempo na área. Experiências com pessoas da comunidade que, por estar numa escola agrícola, o objetivo, não é só ensinar as disciplinas, mas levar para a realidade do aluno.

Nas aulas de português, trabalho a luta dos negros, até porque, embora, sejam áreas quilombolas, algumas comunidades, não aceitam a própria história. Tanto que se tem reconhecida, e com toda documentação, apenas duas comunidades; as outras comunidades têm problemas de aceitação.

É uma necessidade trabalhar essa diversidade da cultura negra e tem até preconceito, embora, a maioria seja negra. Por exemplo, esse mês teve especificamente o dia da consciência negra, aí trabalhei com textos sobre a historia de Zumbi e a formação de quilombos geral, para poder chegar no mais próximo, que é a área de Macapazinho. Tem a questão do vocabulário, palavras de uso popular, provérbios e outros.

As políticas públicas, voltadas para educação do campo, eu não tenho conhecimento, e percebo que tem uma falha muito grande. Por exemplo: aqui é uma escola agrícola, tem a disciplina prática de campo, tem uma área enorme, mas, não tem equipamento, falta maquinário, se tem enxadas, são poucas pra uma escola agrícola.

Tem que ter os materiais, não é só dizer que é agrícola e pronto, acredito que falta essa parceria entre Secretaria de Agricultura e de Educação. Eu não sei politicamente o sentido porque não me envolvo muito, mas tem alguma falha aí.

As pessoas que trabalham aqui mais tempo, dizem que, em outras épocas, a escola teve isso, teve aquilo, ou seja, é a escola do teve, e hoje não tem nada da proposta, do principio da escola.

Nos planejamentos hoje eu trabalho muito com texto. Em língua portuguesa e utilizamos os livros como fonte de pesquisa. A formação continuada, às vezes tem uns cursos, momento pedagógico, até porque a gente não trabalha mais isolado.

A própria coordenação e secretaria de educação promovem, tem também planejamento; que eu acho que não é suficiente, e no município mesmo, tem muitas pessoas trabalhando na área, mas não tem a formação especifica necessária, muitos cursaram pedagogia e ministram disciplinas especificas, então, se existem falhas deve ser isso.

Fatos marcantes na experiência na educação do campo: foi quando eu entrei aqui, era época da campanha da fraternidade, e estava tendo um trabalho sobre violência, então aquele momento foi muito rico, foi aí, quando percebi que eu estava trabalhando com a educação.

Eu vi aqui, que, não é só disciplina, a gente tem uma família e amigos, a gente almoça, conversa e troca experiências.

Na escola, a atuação do Conselho: percebo, através das reuniões, por exemplo, se tem problema com algum aluno, eles levam até ao Conselho.

Dos projetos da escola: eu sei do projeto “Cultivando a paz”. Agora vamos trabalhar o meio ambiente; e, semana passada, tivemos, o projeto sobre, a consciência negra e, vários.

A educação do campo em Santa Isabel tem uma falha: a escola divulga a idéia de ser um projeto agrícola, que, na verdade, não existe. E, outras escolas na zona rural estão com certo abandono, por parte da secretaria, alguns tem coordenador, outras não têm, está abandonado, querem a mesma formação da cidade, mas, não tem acompanhamento.


Ano: 2008

Localização: Escola Mauricio Machado. Município de Santa Izabel


Identificação: Miguel. Professor de Estudos Amazônicos e Geografia

Assunto: História da Educação, Educação Básica; Educação Agrícola no Campo. Gestão, Ensino de Geografia.

Lembranças da Memória:

Desde quando eu estudava no fundamental menor, eu já tinha vontade de ser professor, pois eu observava os professores e achava legal a profissão deles. Por isso ser professor no campo é contribuir para um senso critico melhor do corpo discente, principalmente, na área rural, onde a gente vê que há uma ignorância maior das realidades, e na área, a carência de acesso tecnológico é grande, que chega até ser ignorante.

Em geografia, e estudos amazônicos, a gente tem reuniões pedagógicas, e sempre a gente inclui em qualquer tema, a descendência quilombola. A gente trabalha a consciência e a valorização dos alunos.

As políticas voltadas para educação do campo estão muito defasadas, acredito que, futuramente, deve haver uma prioridade, porque a área mais atingida são essas, porque no caso de algum evento, a área rural sempre fica em segundo plano.

Os materiais pedagógicos utilizados a gente pesquisa nas academias, utilizo cartolinas, globo, trabalho com vídeo, a gente pega emprestados materiais. Os livros didáticos, eu utilizo; mas, os que, vem da secretaria, só que, muitas vezes vem defasados, e aí aprofundo com as pesquisas.

Durante o processo de emancipação de Macapazinho, nos participamos do processo de forma indireta, nas aulas, conscientizando nossos alunos, do que é ser descendente quilombola.

Nas capacitações nós não recebemos um direcionamento nos conteúdos, voltados para educação do campo, nos trabalhamos, por conta própria, por acharmos que é importante para comunidade em geral.

Durante minha experiência no campo, alguns fatos foram marcantes na educação do campo, mas uma apresentação em feira de ciências em Marabá foi importante, por que saíram de uma área rural, para participar de um evento nacional, eles foram apresentar o plantio da escola e as variedades de horticultura.

A escola tem Conselho e a proximidade se dá nas reuniões, nós temos representantes de pais, professores e líderes comunitários, a proximidade se dá também muito através de informações. A escola acha necessária essa proximidade com o conselho.

Durante o ano, desenvolvemos vários projetos: feira cultural, consciência negra e outros.

O aluno negro se auto-discrimina por não aceitar sua naturalidade, então, o nosso trabalho maior é essa consciência deles. Tento provar que nós temos uma comunidade aqui próxima, que, por serem negros eram chamados de África e eles odiavam. Aí, nos começamos a esclarecer o que é realmente ser descendente africano e começaram a ter consciência.

Em geografia trabalhamos educação do campo quando falo de reforma agrária, quando se trata de grilagem de terras, quando se trata de poluição ambiental, em sala de aula, os alunos participam, então, é importante primeiro porque a família não trabalha isso. E, qualquer agressão ao meio ambiente o pai não se dá conta do que está acontecendo.

A gente trabalha o nosso conteúdo utilizando a realidade deles, a gente prepara o aluno, para que ele chegue em casa e prepare a própria família. Então, educação do campo, ainda há, uma, certa ignorância, principalmente, sobre todas essas situações climáticas no campo, por não ter essa consciência de reforma agrária, dessa evasão da área rural para urbana.

Acredito que o nosso trabalho maior é esse de conscientização, que a gente tem que valorizar esse espaço que ele pode produzir; que, não existe tanta criminalidade, ou seja, preparar a mente dessas famílias partindo do aluno pra que ele se estruture sua terra, gere sua renda, evitando que haja procura pela área urbana.





Localização: Escola Magalhães Barata, Vila de Americano, Município de Santa Izabel.

2. Diretora: Elizabeth

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