História, Educação e Memória da Educação do Campo na Amazônia Paraense



Baixar 0.96 Mb.
Página3/21
Encontro29.07.2016
Tamanho0.96 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21

FONTES DOCUMENTAIS

INCRA. Projeto Altamira 1.: Projeto integrado de colonização Altamira 1.Brasília, 1972, 218 p..

Lei de Diretrizes e Bases 9394/96, Brasília, Distrito Federal, 1996.
REFERÊNCIAS

ANDRADE, Márcia Regina; DI PIERRÔ, Maria Clara. O Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária em perspectiva: dados básicos para uma avaliação, 2003.


ARROYO, Miguel G. Trabalho e conhecimento: dilemas na educação do trabalhador. IN: O direito do trabalhador à educação. São Paulo, Cortez: Autores Associados,1999.

CALDART, S. R. Projeto popular e escolas do campo. IN: A escola do campo em movimento. Col. Por uma educação básica no campo, nº4, Brasília, Distrito Federal: articulação nacional Por uma educação do Campo, 2000.

CHASIN, J. Coletânea de aulas ministradas no curso de aperfeiçoamento Fundamentos Filosóficos das Ciências Sociais Aplicadas. Niterói: UFF/Departamento de Edocomia, 1985.

FILHO, Armando A; JUNIOR, José A S; NETO, Maria B (Orgs). Pontos da história da Amazônia. IN: A política dos governos militares na Amazônia. 2 ed. Belém, Paka-Tatu, 2000.



HOBSBAWAN, Eric. Era dos extremos – o breve século XX (l9l4-l991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
______. Sobre a história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
HENGEMÜLE, Edgard. 25 anos de presença Lassalista no Norte e Nordeste do Brasil. Canoas, RS, 2000.

PÕRTO Júnior. (Org.) História do tempo Presente. Bauru, São Paulo: 2007.

REIS JÚNIOR, João dos. O PRONERA e a democratização da educação Superior Público: um diálogo teórico-crítico. IN: GRACINDO, Regina, Vinhaes (org.). Educação como exercício de diversidade. Estudos em campos de desigualdades socioeducacionais. Brasília, distrito Federal: Liber Livro, 2007, p. 221-240.

LEITE, Sergio Celani. Escola Rural: urbanização e políticas educacionais. 2. ed. São Paulo, Cortez,2002.

KOLLING, Edgar; CERIOLI, Paulo Ricardo; CALDART, Roseli Salete (orgs). Educação do Campo: identidades e políticas públicas. Col. Por uma educação básica no campo, nº4, Brasília, (DF): articulação  Nacional Por uma Educação do Campo, 2002.

Mészáros, Istávan. O Desafio e o Fardo do tempo Histórico. São Paulo. Boitempo, 2007.

NEVES, Lúcia Maria Wanderley (org.). A Nova pedagogia da hegemonia. São Paulo: Xamã, 2005

SAVIANI, Dermeval Saviani (2003). “Prefácio”. In: VIEIRA, Sofia Lerche; FARIAS, Isabel Maria Sabino (2003). Política Educacional no Brasil – introdução histórica. Brasília: Plano Editora, 188p.





RT


Foto 01

Casa Original destinada aos colonos, da Colonização Dirigida pelo INCRA, na Rod. Transamazônica. Entre o Km. 20 ao Km. 40, Altamira-Brasil Novo/PIC ALTAMIRA

Fonte: Neila Reis. Pesquisa de Campo/PARD, julho de 2007.



















Professores de Uruará


Ano: 2007

Localização: Escola Tiradentes/Uruará

  1. Professor Amilton.

Assunto: Educação do campo

Lembranças da Memória: Olha no meu travessão tinha a última, uma, duas, três. Só naquele travessão foram fechadas três escolas, só no travessão que eu trabalhava. No travessão inteiro, lado Sul, devem ter fechado eu acho, entre cinco ou seis escolas.

Um absurdo! Até hoje, os alunos que eu tive lá, e que ficaram ainda lá, até hoje estão lá sem estudar; hoje já estão moças e rapazes. Os que não saíram para a cidade ficaram sem estudar. É um problema!







Ano: 2007

Localização: Uruará

2. Professora: Elza

Assunto: Educação do campo

Lembranças da Memória: Bem, eu estou na área da educação desde 1985, foi a minha primeira experiência enquanto educadora, e comecei a trabalhar no Melwin Jones, como auxiliar de administração. Em 1996, já comecei dando aula de Matemática, de sexta série, no ano seguinte, eu assumi, a carga horária de matemática, de 5ª e 6ª série.

O vírus da educação me infectou, e até hoje, a gente tem uma paixão pela educação. Em 1997, assumi a Secretaria Municipal de Educação, em primeiro de janeiro. Foi uma experiência muito boa, acredito que foi uma das melhores experiências que eu tive enquanto educadora.

Eu assumi a secretaria com uma faixa de 1.200 alunos, todos da rede municipal. Só tinha escolas na Zona Rural, e, as demais de difícil acesso. Porque, foi chegando um determinado tempo que o Estado não abriu mais novas escolas então o município começou a assumir esta parte.

Com a Colonização da Transamazônica, o Estado já havia aberto as escolas nas faixas, vicinais, as mais próximas vicinais; restando para o município as mais distantes. Eu tinha dificuldade muito grande, porque nas escolas municipais eu não tinha professores qualificados, eram leigos; até porque em função do difícil acesso os professores qualificados, não iam para as vicinais, então quem assumia? Quem tinha feito até a quarta série, depois veio o Projeto Gavião, mas, todos os professores só tinham até a 8ª série. Não tinha nenhum, em nível do magistério; depois veio aquele projeto do Estado, para municipalizar a educação.

Eu dizia para o prefeito na época: nós não somos obrigados a nos municipalizar, assim, como não somos obrigados a nos alimentar para sobreviver.

Era uma questão de sobrevivência na época. Nós tínhamos um Instituto Educacional de Uruará, que funcionava na sede, aonde o Estado não assumia o pessoal de apoio. Parte dos professores, também, eram pagos pelo município. Como na época, o recurso da educação era contado, e o MEC passava de acordo com o número de alunos.

Para nós ficava muito difícil, porque, por exemplo, o Instituto que na época, já era um escola de médio porte, nós assumíamos as despesas, mas, o bônus, o recurso, ficava para o Estado. Então, nós não tínhamos mais como manter a educação da forma que estava porque nós só tínhamos o ônus, bônus era do Estado, porque os alunos não eram nossos, eram do Estado, então chegou uma situação insustentável.

Nós pagávamos o transporte escolar das escolas estaduais, assumíamos o pessoal de apoio, parte do pessoal de apoio das escolas do Estado, nós assumíamos parte do professores da rede estadual e com um recurso de apenas 1200 alunos.

Então nós tirávamos os poucos recursos, que eram dos nossos alunos, para dividirmos com o Estado. Então, ficou uma situação insustentável, não tínhamos mais como não nos municipalizarmos, porque na hora que se munipalizasse, as despesas cresceriam, mas, os recursos seriam passados para o município. Este passaria a gerenciar realmente o recurso.

Esse recurso é de origem do FUNDEF, foi assim, um pouco complicada, essa municipalização. Foi feita de forma meio autoritária, porque a gente não sentou realmente com os professores. Porque nós não tínhamos outra alternativa, era municipalizar ou não municipalizar.

Os alunos não eram nossos, da rede municipal, mas, eles eram filhos de Uruará. Eram do Estado? Eram paraenses? Eram, mais, eram Uruaraenses, então, nós tínhamos obrigação de fazermos alguma ciosa por esses adolescentes, essas crianças, e só poderíamos fazer alguma ciosa se nós tivéssemos tudo nas mãos.

Tivéssemos os recursos, e, pudéssemos aplicar esses recursos nas escolas. Foi ai que nós vimos que tínhamos que nos municipalizarmos.

Os professores, de certa forma, eu não tiro a razão deles, pois eu como Secretária, sabia o que eu teria de fazer, era apenas uma parte, porque eu não sabia o que ia acontecer nos anos seguintes, nas administrações seguintes.

Eu estava secretária, mas, não era, eu era professora que estava ali representando uma classe, mas não sabia até quando eu ficaria. Uma coisa era certa, o máximo que eu ficaria ali eram quatros anos. Isso, para mim era claro, e o que ia acontecer depois? Ou até mesmo, eu enquanto secretária, porque a gente pretende fazer é uma coisa, mas nem sempre a gente consegue.

O que a gente se propõe a fazer, os professores não acreditavam muito na administração municipal, devido a questão salarial. Nós vínhamos de uma situação complicada salários atrasados, então ficava uma situação complicada, tanto para eles, quanto para mim, que estava representando-os.

Foi preciso a gente jogar essa bomba na educação, eu acredito que deu certo.

Em 1999, a gente fez o concurso público, porque a gente, municipalizou, e assumimos as escolas e os professores. Esses professores, os efetivos continuaram ligados ao Estado e os temporários também, por um determinado tempo. Depois houve a descontratação dos temporários.

Os efetivos, eles continuaram ligados ao Estado, mas à disposição do município, esses efetivos estão nos planos de cargo e salário e plano de carreira do Estado. Então, quem faz a folha de pagamento deles é o Estado, e, quem paga é o município. O Estado diz o que tem de ser pago. Os outros, os temporários foram descontratados, e, havia a necessidades de um concurso público para que esses temporários pudessem retornar e reingressar na carreira do magistério.

Fizemos o concurso, e eu, realmente, tive muito apoio do prefeito na época, mas, principalmente, dos professores que entenderam que era necessário fazer. E, a gente juntos, professores, secretária e também prefeito, conseguiu avançar na área da educação, atender boa parte do professores leigos, através do projeto gavião para que concluísse o magistério. Já na época, muitos que tinham magistério foram para a faculdade, principalmente, pedagogos, já tinha uma turma grande.

Nós conseguimos aprovar o plano de cargos e salários. Acredito que, tenha sido um avanço para a educação, apesar de que hoje, se falar que o plano está defasado, mas hoje já foi aprovado um novo plano, o ano passado 2006, mas, o que norteou foi o plano de cargos, nos conseguimos construir novas escolas, principalmente, na zona rural, e conseguimos ampliar outras.

Eu sempre tive como objetivo, enquanto secretária, um entendimento ao aluno e eu sempre dizia, principalmente, para o prefeito, que, se o nosso objetivo é o aluno. E nós, não podemos estar diretamente com o aluno; é o professor que vai estar diretamente com aluno, então, devemos atender bem ao professor, porque se ele estiver satisfeito ele irá desenvolver um bom trabalho. E quem sairá ganhando é o aluno, então a questão da valorização do professor, a questão do atendimento com material didático – pedagógico, é essencial.

Os objetivos, enquanto eu fui secretária, foram para dar subsídio, para que o professor pudesse desenvolver o seu trabalho. E o que fazer com os alunos que saíram da quarta séria da zona rural, era o nosso desespero, porque a cidade estava inchando.

Os pais mandavam os alunos para a cidade, e adolescente, perto do pai, é uma coisa, longe é outra, nem sempre ele faz o que o pai orientou, ou se propôs a fazer junto com ele. Então, nós começamos a pensar em algo que atendesse os filhos desses camponeses sem que eles saíssem das suas casas.

Pois quando os pais descobriam, que os filhos, que tinham vindo para a cidade, para estudar e não estavam estudando, a mãe acabava deixando a família, o marido na roça e vinha para a cidade com os filhos. Isso acarretava uma série de problemas, foi quando nós pensamos então na criação, que nós chamamos de MODULAR RURAL.

Teve como base os princípios da CFR, foi feito uma adaptação, a gente observou o projeto CFR, que estava dando certo. E, principalmente, o Irmão Lídio foi um articulador desse projeto. Começamos a fazer um levantamento e vimos que os pais acreditavam nesse projeto, e a gente resolveu de mãos dadas, implantar esse projeto Modular rural, onde os alunos eram atendidos, de 5ª e 6ª série.

A princípio, eles iriam passar 15 dias no modular, a gente, criou toda uma infra-estrutura para eles. Estudavam manhã e tarde, depois retornavam para as suas casas e vinham outras turmas. Estudavam também os 15 dias, manhã e tarde, que compensariam esses 15 dias, que eles estavam em casa, e assim, a gente pode atender a zona rural, sem que os pais deixassem seus lotes e viessem para a cidade.

A princípio nós começamos com 5ª e 6ª e depois fomos ampliando para 7ª e Funcionava no Km. 140, onde foi construída toda uma infra-estrutura para receber esses alunos. A infra-estrutura, só foi feita lá mesmo. Deu para funcionar os quatros. Os alunos que se formaram não lembro o número, até porque quando a gente saiu estava na 7ª série.

Outra realização foi a implantação do Núcleo Universitário de Uruará, com atendimento inicial para uma turma de pedagogia e uma turma de matemática. A criação da banda municipal, a Lei que criou, foi depois, mas ela já existia de fato.

As dificuldades maiores foram à credibilidade, não em si, comigo, mas na própria administração como um todo. Porque a gente vinha de uma desvalorização do professor da rede municipal; teve administrações que chegaram à atrasar 06 meses os salários dos professores. Os professores já viam a rede municipal, assim com uma preocupação muito grande, uma insegurança, na verdade.

O irmão Lídio foi secretário também. O Lídio foi um dos primeiros. Quando nós chegamos aqui em 1981, o Lídio já tinha ido embora, então ele viveu realmente isso, a Zita.

A experiência é algo que marca muito. Acho que é você acreditar naquilo que você faz! Enquanto educador você está representando, é importante você ser um deles. Porque quando você é secretária você não deixa de ser educador, secretário é apenas uma função.

O principal é você se colocar como um lugar deles. É você sentir os problemas deles e vivenciar, pois é uma realidade que também é sua. Não é porque hoje eu estou secretário que hoje, eu vou menosprezar os meus colegas. Eu fico, assim, indignada.










Ano: 2007

Localização: Uruará. ESCOLA TIRADENTES

3. Professora: Gertrudes

Assunto: Educação do Campo

Lembranças da Memória: Tenho o ensino médio completo e estou fazendo o magistério. Eu trabalho estudos Geográficos, Estudos Amazônico e Português na 5ª série.

Em, Estudos Amazônicos, eu tenho a apostila e eu vou procurar em revistas. Eu estou sempre atrás de revistas, porque se a gente ficar só em cima da apostila, a aula fica cansativa, aí eu sempre procuro outras coisas, para não dar aquela aula repetitiva, só com a apostila.

Não utilizo livro didático. Essa apostila, o município fornece. Ela é separada, cada série tem um tema. O título, não lembro.

A metodologia é aula expositiva, dialogada, a gente também faz trabalho com seminários.

Como era o primeiro ano que eu trabalhava com a disciplina, eu achava melhor que fosse assim: terminar um assunto, fazer logo uma avaliação, para que não ficasse acumulando conteúdo, e pra não dá aquela coisa pesada pra eles. E se a média é 10, você, divide em 05 ou 04 avaliações, e o resto, trabalho. Não fazer só uma avaliação e sim várias; aí pega a nota e divide.

A relação com os alunos é ótima. Têm problemas que os alunos trazem de casa. Tem, até porque nas aulas de didática e me lembro de uma aluna que eu tive [...]. Que às vezes, na sala de aula, o professor chega ali e não procura saber o que está acontecendo com os seus alunos. Se o aluno não está tendo rendimento o professor não procura saber o porquê daquilo.

Uma vez eu tive uma aluna que era assim, triste ela não participava das aulas, não conversava com os colegas. Um dia eu fui falar com ela. Ela me contou os problemas dela, me contou que a mãe dela era doente mental. E o pai dela é um daquela pessoa muito tradicional, muito rígido, não deixa sair, não deixa brincar com as colegas, não deixa ter amizades. Aí ela ficou, assim, presa. Nós resolvemos contar para o pai dela e desse dia, ela mudou o comportamento. Ela tinha 12 anos.

A gente tem muitas dificuldades, pra mim começa a dificuldade logo na locomoção até na escola, porque eu moro no km. 209, e trabalho no 201. São 08 kms. Também material, não tem material disponível, tem que está indo atráz, se alguém tem um livro, a gente tem que xerocar; têm vários colegas que uns tem o material de um jeito, e outros têm de outro. Eu tenho um monte de apostila de livros xerocados, porque quando um chega com uma novidade, a gente vai logo... Porque a gente não está precisando agora, mas nunca se sabe o dia de amanhã. Lá no ano que vem a gente não sabe o que vai trabalhar, mas a gente já tem o material.

Tem um carro que puxa alunos de lá, é porque no Km. 201 é uma Vila, aí tem dois carros um puxa alunos do 209 e 203. Aí vem, pra o 201, e o outro, puxa do 201 até o 197, vem tudo aqui pra escola.

No primeiro ano, já começa com a dificuldade, porque tem aqueles alunos que já são da escola de 1ª a 4ª série normal, com aqueles que vêm de várias escolas diferentes, aqueles alunos que vêm das escolas multisseriadas. Junta vários alunos, principalmente, na 5ª série, e até adaptar ao ritmo da escola é complicado.

A minha escola tem alunos de 1ª a 4ª série. Os alunos de multisseriada é que tem dificuldade de se adaptar.

Eu trabalho 125 horas, ganho R$ 390,00. Vou fazer 21 anos agora. Tenho o ensino médio.








Ano: 2007

Localização: Uruará. Escola da Vicinal/Assentamento Tutuí Norte.

4. Professor: Valério

Assunto: Educação do campo Eu citaria três condições básicas. Primeiro, a questão de distância, da cidade. O segundo problema, a questão do material didático. Que, a gente, praticamente, não tinha. A gente tinha que criar e inventar, reinventar tudo. Terceiro, a participação da comunidade.

Então vamos para a primeira: a distância, aquela escola, fica há 84 km. da estrada principal, que é a Transamazônica. Às vezes, quando precisava vim para a cidade, a gente tinha que fazer toda essa distância a pé. Isso inverno e verão. O rancho para alimentação carregava nas costas, material didático nunca tinha, e quando aparecia era levado, parte no carro, e outra, na carroça, também no ombro. O carro, lá mesmo na escola, o carro só entrava no verão.

A gora, a questão do material didático: o material didático só tinha um, incluindo um livro de português, um de matemática, estudos sociais e o de ciências o mesmo. Na maioria, das vezes, os livros que iam, não dava para todos os alunos.

Era difícil dá aula, porque, por exemplo, a criançada do primeiro ano, quando conseguia copiar alguma coisa, era devagarzinho demais. A segunda série, já tinha melhorado um pouquinho, já sabia escrever alguma coisa, e, ficava um pouquinho mais fácil, mas mesmo assim, era muito demorado e eles se cansavam muito. Se cansavam, porque, não dava pra gente criar nada dentro da sala de aula.

A escola, na verdade, era um barraco coberto de palha e tudo aberto, só tinha mesmo umas palhas de coqueiro jogado por cima.

Tinha a 3ª e a 4ª série, que, por eles saberem um pouco, ficava um pouquinho mais fácil, mas era grande a falta de recursos didáticos. Também, a gente sentia muitas dificuldades para trabalhar com os alunos.

Os alunos se sentiam desestimulados a participar, dá sugestão, dizer alguma coisa que pudesse melhorar na qualidade da educação.

E o terceiro: a falta da participação da família, dos pais na vida da escola, porque para os pais que mora no travessão, o filho ou a filha basta aprender assinar o nome, que ta bom. Para o filho de colono, não precisa mais do que assinar o nome, pra eles, na concepção deles, então, se o aluno já aprendeu a assinar o nome, ele não precisa mais ir para a escola. Ele deve ir para a roça, plantar o arroz, mandioca, feijão, milho, aquilo que é o básico do sustento da família.

Eu ouvia muitos os pais justificar, a retirada dos filhos dizendo: “olha eu to com 60 anos e nunca fui à escola, e ate hoje, eu não morri; fulano de tal, tá quase com 80 anos e nunca precisou ir à escola”. Aí, com isso eles justificavam a retirada das crianças da escola. Achavam que isso era muito normal, natural, que o filho do colono não precisa ter a cultura, aquela que se aprende na escola, matemática, português, ciências e estudos sociais.

Para eles, ter 1.000 pés de cacau, era melhor do que passar 1000 anos estudando. Com 1.000 pés de cacau, dá pra viver bem na roça. Então era isso, não conseguiam ver mais longe, só conseguiam enxergar um futuro próspero, futuro mesmo era ter uma espingarda para matar caça, o arroz, o feijão, uma farinha, boa plantação de pimenta ou cacau e o resto, ia cair do céu.

Quando eu saí, a escola foi fechada. No ano seguinte, eles tentaram ainda abrir a escola, mas parece que ela só funcionou um ano. Aí saiu muitas famílias, como tinha poucas famílias, eles justificavam não ter um professor lá pra poucos alunos. Era uma professora que estava lá. Aí foi, fechou mesmo, definitivamente.

Muitas coisas muito marcante. Quando eu saí de lá, é que eu tive que vender o meu lote por baixíssimo preço. Fui obrigado, porque eu não poderia deixar; se eu deixasse, o pessoal ia invadir. Eu fui obrigado a dá ele de presente para alguém, essa foi uma coisa.

Uma outra coisa, devido eu ter um problema de diabetes, eu enfrentei lá, muitas dificuldades. Apesar de eu ter enfrentado essa multidão de dificuldades, o meu trabalho, pela população, eu achei que não foi reconhecido. Então, isso, foi o que me deixou muito magoado, porque eu fazia mesmo. Condições não tinha não, nem aqui. E, a secretaria não fornecia condições, nem eu podia, porque o poder econômico que eu tinha, era um salarinho de R$ 220,00. O que a gente sobrevive, só isso mesmo, o resto era a cara e a coragem.

Só dava aula de dia.




Catálogo: acer histedbr -> jornada -> jornada9 -> files
files -> Karl marx: consideraçÕes acerca de seu pensamento
files -> Lazer e currículo: um olhar sobre o curso de educaçÃo física da universidade do estado do pará entre 1999-2008
files -> 1 tema: formaçÃo docente 1 autora: michelly karla maria fernandes chaves
files -> A historiografia em construçÃo nos processos de ensino e pesquisa da história da educaçÃo no brasil
files -> Autor: Aparecida Luvizotto Medina Martins Arruda
files -> O flâneur visita a Escola Normal de Piracicaba/sp em 1913
files -> Autora: kelly cristina campones c0- autora: maria isabel nascimento história, trabalho e educaçÃO: relaçÕes do senai ponta grossa neste contexto ponta grossa
files -> EducaçÃo para o trabalho e para a civilizaçÃo no pará da virada do século XIX para o XX
files -> A educaçÃo do corpo e o método natural de georges hebert nas décadas de 30 e 40. 1
files -> Discussões sobre a institucionalidade do senac/pa na amazônia paraense


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal