História natural da religião David Hume



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História natural da religião - David Hume

Embora toda investigação referente à religião tenha a máxima importância, há duas questões, em particular, que chamam nossa atenção, a saber: a que se refere ao seu fundamento racional e a que se refere à sua origem na natureza humana. Felizmente, a primeira questão, que é a mais importante, admite a mais evidente ou, pelo menos, a mais clara solução. Todo o plano da natureza evidencia um autor inteligente, e nenhum investigador racional pode, após uma séria reflexão, suspender por um instante sua crença em relação aos primeiros princípios do puro monoteísmo e da pura religião. Mas a questão sobre a origem da religião na natureza humana está exposta a uma dificuldade maior. A crença em um poder invisível e inteligente tem sido amplamente difundida entre a raça humana, em todos os lugares e em todas as épocas, mas talvez não tenha sido tão universal a ponto de não admitir exceção nenhuma; nem tenha sido, em alguma medida, uniforme nas idéias que fez nascer. A acreditar nos viajantes e nos historiadores, foram descobertas algumas nações que não mantêm quaisquer sentimentos religiosos; e não há duas nações, e dificilmente dois homens, que concordem com exatidão sobre os mesmos sentimentos. Parece, portanto, que esse preconceito não surge de um instinto original ou de uma impressão primária da natureza humana, como a que dá nascimento ao amor-próprio, à atração entre os sexos, ao amor pelos filhos, à gratidão ou ao ressentimento, pois constatou-se que todo instinto dessa espécie é absolutamente universal em todas as nações e em todas as épocas, e tem sempre um objeto preciso e determinado que inflexivelmente persegue. Os primeiros princípios religiosos devem ser secundários, a tal ponto que facilmente podem ser pervertidos por diversos acidentes e causas, e, em certos casos, até sua operação pode ser completamente impedida por um extraordinário concurso de circunstâncias. Quais são esses princípios que engendram a crença original e quais são esses acidentes e causas que regulam sua operação é o tema de nossa presente investigação.



1 O politeísmo foi a primeira religião dos homens

Se considerarmos o aprimoramento da sociedade humana desde seus mais primitivos começos até um estado de maior perfeição, creio que o politeísmo ou idolatria foi, e necessariamente deve ter sido, a primeira e mais antiga religião da humanidade.

É um fato incontestável que aproximadamente 1700 anos atrás toda a humanidade era politeísta. Os princípios incertos e céticos de alguns filósofos, ou o monoteísmo, que não era inteiramente puro, de uma ou duas nações, não constituem objeções dignas de ser consideradas. Vejamos então o claro testemunho da história. Quanto mais remontamos à Antigüidade, mais encontramos a humanidade imersa no politeísmo. Não encontramos sinais nem sintomas de alguma religião mais perfeita. Os mais antigos registros da raça humana nos informam, além disso, que esse sistema era o credo popular e estabelecido. O norte, o sul, o leste e o oeste nos dão testemunhos unânimes a favor do mesmo fato. O que podemos opor a tão completa evidência?

Até onde a escrita ou a história penetram, a humanidade, nos tempos antigos, parece ter sido universalmente politeísta. Afirmaremos que em tempos mais remotos ainda, antes do conhecimento da escrita ou da descoberta das artes e das ciências, os homens professavam os princípios do puro monoteísmo? Ou seja, que quando eram ignorantes ou bárbaros descobriram a verdade, mas que caíram no erro assim que adquiriram conhecimento e educação?

Essa afirmação contradiz não somente toda aparência de probabilidade, mas também nossos conhecimentos atuais a respeito dos princípios e opiniões das nações bárbaras. As tribos selvagens da AMÉRICA, ÁFRICA e ÁSIA são todas idólatras. Não há uma única exceção a essa regra. De tal modo que, se um viajante se mudasse para uma região desconhecida e encontrasse ali habitantes versados nas ciências e nas artes ainda que em tal hipótese haja probabilidade de eles não serem monoteístas, nada poderia concluir sobre esse tema sem antes realizar uma investigação mais profunda. Mas se ele os considerasse ignorantes e bárbaros, poderia afirmar, antecipadamente, com mínimas possibilidades de erro, que eram idólatras.

Parece certo que, de acordo com o progresso natural do pensamento humano, a multidão ignorante deve, num primeiro momento, nutrir uma noção vulgar e familiar dos poderes superiores antes de ampliar sua concepção para aquele ser perfeito, que conferiu ordem a todo o plano da natureza. Seria absurdo afirmar que conceberam a divindade sob a forma de puro espírito, onisciente, onipotente e onipresente, antes de concebê-la como um ser poderoso, ainda que limitado, dotado de paixões e apetites humanos, de membros e órgãos. O espírito se eleva gradualmente do inferior para o superior: por abstração, forma, a partir do imperfeito, uma idéia da perfeição, e lentamente, distinguindo as partes mais nobres de sua própria constituição das mais grosseiras, aprende a atribuir à sua divindade somente as primeiras, as mais elevadas e puras. Nada poderia interromper esse progresso natural do pensamento, exceto um argumento evidente e invencível, que pudesse conduzir imediatamente o espírito aos genuínos princípios do monoteísmo, fazendo-o transpor, num salto, o amplo espaço intermediário que separa a natureza humana da natureza divina. Mas ainda que eu reconhecesse que a ordem e o plano do universo, quando cuidadosamente examinados, fornecem tal argumento, nunca poderia pensar, entretanto, que essa consideração poderia ter uma influência sobre os homens quando estes formavam suas primeiras noções rudimentares de religião.

As causas de tais objetos, como nos são totalmente familiares, nunca despertam nossa atenção ou curiosidade, e por mais extraordinários ou surpreendentes que esses objetos sejam em si mesmos, são negligenciados sem muito exame ou investigação pela multidão inexperiente e ignorante. Um animal selvagem e necessitado (como é um homem na origem da sociedade), oprimido por tantas necessidades e paixões, não tem tempo livre para admirar o aspecto regular da natureza, ou de se perguntar a respeito da causa desses objetos, com os quais se familiarizou pouco a pouco desde sua infância. Ao contrário, quanto mais regular e uniforme a natureza se mostra, ou seja, quanto mais perfeita ela é, mais o homem se familiariza com ela e menos inclinado estará a sondá-la e examiná-la. Um parto monstruoso desperta sua curiosidade e é considerado um prodígio. Ele o desperta por causa da sua novidade e imediatamente o leva a sentir medo, a fazer sacrifícios e a rezar. Mas um animal, com todos os seus membros e órgãos perfeitos, é, para o homem, um espetáculo ordinário, não produz nenhuma opinião ou sentimento religioso. Pergunte-lhe por que aquele animal nasceu e ele lhe dirá que foi em razão da cópula de seus pais. E estes, por quê? Por causa da cópula dos seus. Alguns graus de parentesco satisfazem sua curiosidade e colocam os objetos a tal distância que ele os perde inteiramente de vista. Não pensem que levantará a questão “de onde surgiu o primeiro animal?”, muito menos qual é a origem de todo o sistema do universo ou da harmonia de sua estrutura. Ou, se você lhe fizer semelhante pergunta, não espere que ele ocupe sua mente preocupando-se com um assunto tão remoto, desprovido de interesse e que ultrapassa em muito os limites de sua capacidade.

Além disso, se ao pensar no plano da natureza os homens fossem inicialmente levados a acreditar num ser supremo, eles talvez nunca pudessem abandonar essa crença a fim de abraçar o politeísmo; mas o mesmo princípio da razão, que inicialmente produziu e difundiu entre os homens uma opinião tão esplêndida, deve ser capaz, mais facilmente ainda, de preservá-la. É bem mais difícil inventar e provar pela primeira vez uma doutrina do que defendê-la e mantê-la.

Existe uma grande diferença entre os fatos históricos e as opiniões especulativas; o conhecimento dos fatos históricos não se propaga da mesma maneira que as opiniões especulativas. Um fato histórico, à medida que é transmitido pela tradição oral a partir dos testemunhos oculares e dos contemporâneos, é alterado em cada narração sucessiva, e pode, no final, conservar apenas uma fraca semelhança — se conservar alguma — com a verdade original, sobre a qual estava fundamentado. A frágil memória dos homens, seu gosto pelo exagero, sua enorme desatenção — todos esses princípios, se não são corrigidos pelos livros e escritos, deturpam rapidamente os relatos dos acontecimentos históricos, nos quais os argumentos e raciocínios têm pouco ou nenhum lugar, nem sequer podem evocar a verdade que um dia escapou a essas narrativas. Se os argumentos são mais abstrusos e mais distantes da compreensão comum, as opiniões sempre permanecerão limitadas a um pequeno número de pessoas; e elas desaparecerão imediatamente e serão enterradas no esquecimento tão logo os homens deixem a contemplação dos argumentos. De qualquer lado que tomemos esse dilema, parece impossível que o monoteísmo possa ter sido, a partir do raciocínio, a primeira religião da raça humana, e tenha dado nascimento em seguida, por conta da sua corrupção, ao politeísmo e a todas as diversas superstições do mundo pagão. A razão, quando clara, previne tais corrupções; quando abstrusa, mantém os princípios inteiramente afastados do conhecimento das pessoas comuns, que são só propensas a corromper um princípio ou opinião.

2 Origem do politeísmo

Se quisermos, então, satisfazer nossa curiosidade ao investigar a origem da religião, devemos voltar nosso pensamento para o politeísmo, a religião primitiva dos homens incultos.

Se os homens fossem levados à apreensão de um poder invisível e inteligente pela contemplação das obras da natureza, eles talvez nunca pudessem nutrir outra concepção senão a de um ser único, que conferiu existência e ordem a esta vasta máquina, e ajustou todas as suas partes segundo um plano regular ou sistema organizado.

Não obstante, para pessoas que possuem um certo modo de pensar, pode não parecer completamente absurdo que vários seres independentes, dotados de uma sabedoria superior, fossem capazes de cooperar para a invenção e execução de um plano regular. Contudo, essa é uma hipótese meramente arbitrária, que, mesmo que a admitamos como possível, não é sustentada pela probabilidade nem pela necessidade. Todas as coisas do universo são evidentemente uniformes. Todas as coisas estão ajustadas a outras coisas. Um desígnio predomina inteiramente em tudo. E essa uniformidade leva a mente a reconhecer um só autor, pois a concepção de diferentes autores, sem qualquer distinção de atributos ou operações, serve apenas para tornar a imaginação perplexa, sem dar nenhuma satisfação ao entendimento. A estátua de LAOCOONTE, como sabemos através de PLÍNIO, foi obra de três artistas, mas é certo que, se este não nos tivesse dito isso, nunca imaginaríamos que uma classe de imagens, talhadas numa só pedra e unidas em um só plano, não seria obra e criação de um só escultor. Atribuir um efeito único à combinação de várias causas não é, certamente, uma hipótese evidente e natural.

Porém, se deixando de lado as obras da natureza, observarmos os sinais do poder invisível em diversos e contrários acontecimentos da vida humana, seremos necessariamente levados ao politeísmo e ao reconhecimento de várias divindades limitadas e imperfeitas. Temporais e tempestades destroem o que é alimentado pelo sol. O sol destrói o que é alimentado pela umidade do orvalho e das chuvas. A guerra pode ser favorável a uma nação, cuja inclemência das estações a aflige com a fome. As enfermidades e as pestes podem desolar a população de um reino em meio à mais abundante fartura. A mesma nação não triunfa igualmente, ao mesmo tempo, no mar e na terra. E uma nação que hoje triunfa sobre seus inimigos pode, amanhã, cair sob armas mais avançadas. Em suma, a direção dos acontecimentos, ou aquilo que chamamos de plano de uma providência particular, é tão cheia de variedade e incerteza que, se a imaginamos sob a direção imediata de um ser inteligente, devemos reconhecer uma contradição em seus desígnios e intenções, um constante combate de poderes opostos e um arrependimento ou mudança de intenção nesse mesmo poder, por causa da sua impotência ou inconstância. Cada nação tem sua divindade protetora. Cada elemento é submetido a seu poder ou ação invisível. A alçada de cada deus é separada da alçada dos demais. E as operações do mesmo deus não são sempre certas e invariáveis. Hoje ele nos protege, amanhã nos abandona. Rezas e sacrifícios, ritos e cerimônias, bem ou mal realizados, são as fontes de seu favor ou inimiza­de, e produzem toda a boa ou má fortuna que pode ser encontrada entre os homens.

Podemos concluir, portanto, que, em todas as nações que abraçaram o politeísmo,14 as primeiras idéias da religião não nasceram de uma contemplação das obras da natureza, mas de uma preocupação em relação aos acontecimentos da vida, e da incessante esperança e medo que influenciam o espírito humano.

De fato, descobrimos que todos os idólatras, após ter dividido os domínios de suas divindades, recorreram àquele agente invisível, que os mantém sob sua autoridade imediata e cuja alçada é supervisionar aquele curso de ações, no qual a qualquer hora eles se empenham. JUNO é invocado nos casamentos; LUCINA nos partos. NETUNO recebe as preces dos marinheiros; MARTE, as dos guerreiros. Os agricultores cultivam seus campos sob a proteção de CERES; e os negociantes reconhecem a autoridade de MERCÚRIO. Imagina-se que todo acontecimento natural é governado por algum ser inteligente; e nada próspero ou adverso pode acontecer no decorrer da vida que não possa ser assunto de preces particulares ou de ação de graças.

De fato, deve-se necessariamente reconhecer que, para poder levar suas intenções para além do curso presente das coisas ou para alguma inferência sobre o poder invisível e inteligente, os homens devem ser influenciados por uma certa paixão que suscita seus pensamentos e reflexão; por motivos que provocam sua investigação inicial. Mas a que paixão devemos aqui recorrer para explicar um efeito de consequências tão importantes? Não é certamente à curiosidade especulativa ou ao puro amor à verdade. Esse motivo é demasiado refinado para um entendimento tão grosseiro; e levaria os homens a investigações sobre o plano da natureza, um tema demasiado amplo e abrangente para suas estreitas capacidades. As únicas paixões que podemos imaginar capazes de agir sobre tais homens incultos são as paixões ordinárias da vida humana, a ansiosa busca da felicidade, o temor de calamidades futuras, o medo da morte, a sede de vingança, a fome e outras necessidades. Agitados por esperanças e medos dessa natureza, e sobretudo pelos últimos, os homens examinam com uma trêmula curiosidade o curso das causas futuras, e analisam os diversos e contraditórios acontecimentos da vida humana. E nesse cenário desordenado, com os olhos ainda mais desordenados e maravilhados, eles vêem os primeiros sinais obscuros da divindade.

Estamos colocados neste mundo como em um grande teatro, onde as verdadeiras origens e causas de cada acontecimento nos estão inteiramente ocultas. Não temos sabedoria suficiente para prever os males que continuamente nos ameaçam, nem poder para evitá-los. Vivemos suspensos num perpétuo equilíbrio entre a vida e a morte, a saúde e a doença, a saciedade e o desejo, coisas que são distribuídas entre a espécie humana por causas secretas e desconhecidas, e que atuam frequentemente de forma inesperada e, sempre, inexplicável. Essas causas desconhecidas tornam-se, pois, o objeto constante de nossa esperança e medo; e, enquanto nossas paixões são continuamente excitadas pela ansiosa expectativa dos acontecimentos, empregamos também a imaginação, a fim de formar uma idéia sobre esses poderes, dos quais dependemos totalmente. Se os homens pudessem dissecar a natureza de acordo com a filosofia mais provável ou, pelo menos, com a mais inteligível, descobririam que tais causas consistem apenas na peculiar constituição e estrutura das partes diminutas de seus próprios corpos e dos objetos exteriores, e que, por um mecanismo regular e constante, produz todos os acontecimentos que tanto os inquietam. Mas essa filosofia ultrapassa a compreensão da multidão ignorante, que pode apenas conceber essas causas desconhecidas de uma maneira geral e confusa, embora sua imaginação, que gira perpetuamente sobre o mesmo assunto, deva esforçar-se para formar uma idéia particular e distinta acerca dessas causas. Quanto mais os homens examinam essas causas desconhecidas e a incerteza de sua operação, menos satisfação alcançam em suas investigações; e por mais relutantes, teriam necessariamente abandonado um esforço tão árduo se não houvesse na natureza humana uma inclinação que os levasse a um sistema capaz de lhes proporcionar alguma satisfação.

Os homens têm uma tendência geral para conceber todos os seres segundo sua própria imagem, e para transferir a todos os objetos as qualidades com as quais estão mais familiarizados — e das quais têm consciência mais íntima. Descobrimos formas de faces humanas na lua, e de membros nas nuvens, e por uma inclinação natural, se não for corrigida pela experiência ou pela reflexão, atribuímos maldade ou bondade a tudo o que nos faz mal ou nos agrada. Daí o frequente emprego das prosopopéias na poesia, e a sua beleza: árvores, montanhas e rios são personificados e atribui-se sentimentos e paixões aos elementos inanimados da natureza. E embora essas figuras e expressões poéticas não nos inspirem fé, podem servir, pelo menos, para mostrar uma certa tendência da imaginação, sem a qual não poderiam ser nem belas nem naturais. Nem sempre os deuses dos rios ou as hamadríadas são tomados por seres puramente poéticos e imaginários; eles podem, às vezes, fazer parte das crenças autênticas do vulgo ignorante, ao mesmo tempo que cada bosque ou campo é representado sob o domínio de um gênio particular ou de um poder invisível que o habita e o protege. Nem mesmo os filósofos podem eximir-se inteiramente dessa fraqueza natural, ao contrário, têm freqüentemente atribuído à matéria inanimada o horror ao vazio, simpatias, antipatias e outros sentimentos de natureza humana. O absurdo não é menor quando levantamos os olhos para o céu e, transferindo — como é bastante comum — as paixões e as fraquezas humanas para a divindade, a representamos como invejosa e vingativa, caprichosa e parcial, em suma, idêntica em todos os aspectos a um homem perverso e insensato, exceto quanto ao seu poder e autoridade superiores. Não é surpreendente, então, que o homem, absolutamente ignorante das causas, e ao mesmo tempo tomado por tamanha ansiedade quanto ao seu futuro destino, reconheça imediatamente que depende de poderes invisíveis, dotados de sentimentos e de inteligência. As causas desconhecidas que ocupam sem cessar seu pensamento, ao se apresentarem sempre sob o mesmo aspecto, são todas consideradas do mesmo tipo ou espécie. E pouco falta para que atribuamos à divindade pensamentos, raciocínio, paixões e, às vezes, até membros e formas humanas, a fina de aproximá-la mais da nossa própria imagem.

Descobrimos continuamente que quanto mais um homem vive uma existência governada pelo acaso, mais ele é supersticioso, como se pode particularmente observar entre os jogadores e os marinheiros, que, embora de entre todos os homens sejam os menos capazes de reflexão séria, são repletos de apreensões frívolas e supersticiosas.

Os homens imaginam que suas divindades, apesar de poderosas e invisíveis, não são mais que criaturas humanas, talvez surgidas no meio deles, e que conservam todas as paixões e apetites humanos, assim como seus membros e seus órgãos físicos. Tais seres limitados, embora senhores do destino humano, sendo incapazes, cada um deles, de estender sua influência sobre tudo, devem ser consideravelmente multiplicados, a fim de responder à variedade de eventos que acontecem sobre toda a face da natureza. Dessa forma, cada cidade tem um grande número de divindades locais; e assim o politeísmo predominou, e ainda predomina, entre a maioria dos homens incultos.

Qualquer um dos sentimentos humanos pode nos levar à noção de um poder invisível e inteligente: a esperança, assim como o medo; a gratidão, assim como a aflição. Mas se examinarmos nosso próprio coração, ou se observarmos o que se passa ao nosso redor, descobriremos que os homens ajoelham-se bem mais freqüentemente por causa da melancolia do que por causa de paixões agradáveis. Aceitamos facilmente a prosperidade como nosso dever, e quase não nos perguntamos sobre sua causa ou sobre seu autor. Ela produz a alegria, a atividade, o entusiasmo e um vívido gozo de todos os prazeres sociais e sensuais. Enquanto permanecemos nesse estado de espírito, temos pouco tempo ou inclinação para pensar em regiões desconhecidas e invisíveis. Porém, todo acidente funesto nos desperta e nos incita a investigações sobre os princípios de sua origem. Surgem apreensões em relação ao futuro, e o espírito, em virtude da desconfiança, do terror e da melancolia, recorre a todos os métodos suscetíveis de satisfazer os poderes secretos e inteligentes, dos quais, pensamos nós, nosso destino depende inteiramente.

O politeísmo não considera os deuses criadores ou autores do mundo

A única questão teológica sobre a qual encontramos um consenso quase universal entre os homens é que existe um poder invisível e inteligente no mundo. Mas se esse poder é supremo ou subordinado, se está nas mãos de um único ser ou distribuído entre vários, quais atributos, qualidades, conexões ou princípios de ação devem ser atribuídos a esses seres? Sobre todas essas questões existe a mais completa divergência nos sistemas teológicos populares. Ora, imaginemos que um homem, naquela época, tivesse negado a existência de Deus e de seus anjos; sua impiedade não teria merecido justamente a denominação de ateísmo, mesmo que ele tivesse reconhecido, por algum estranho capricho de raciocínio, que as lendas populares de duendes e fadas eram verdadeiras e bem fundamentadas? A diferença, por um lado, entre tal indivíduo e um monoteísta genuíno é infinitamente maior do que aquela, por outro lado, entre ele e alguém que exclui absolutamente todo poder inteligente e invisível. E trata-se de uma falácia devida apenas à semelhança acidental dos nomes, sem qualquer sentido coerente, classificar opiniões tão contrárias sob a mesma denominação.

Se considerarmos devidamente o assunto, tornar-se-á evidente que os deuses de todos os politeístas não valem mais que os duendes e as fadas de nossos ancestrais, e merecem bem pouca devoção ou veneração.

Esses pretensos religiosos são, na realidade, uma espécie de ateus supersticiosos que não reconhecem ser algum que corresponda à nossa idéia da divindade. Nenhum primeiro princípio espiritual ou intelectual; nenhum governo ou admi­nistração supremos; nenhum plano ou intenção divinos na constituição do mundo.

Na verdade, os antigos mitólogos parecem, do começo ao fim, ter antes abraçado a idéia da geração que a da criação ou formação e, a partir disso, explicado a origem deste universo.

OVÍDIO, que viveu numa época ilustrada e a quem os filósofos tinham ensinado os princípios de uma criação ou formação divina do mundo, acha que tal idéia não estaria de acordo com a mitologia popular, e ele a deixa, por assim dizer, sem ligação nem relação com seu sistema. Quem quer que fosse este deus, diz ele, fez desaparecer o Caos e introduziu uma ordem no universo. Não poderia ter sido SATURNO, diz ele, nem JÚPITER, nem NETUNO, nem qualquer das divindades aceitas pelos pagãos. Seu sistema teológico nada lhe tinha ensinado sobre esse assunto, e ele deixa a questão igualmente indeterminada.



Diversas formas de politeísmo: a alegoria, a veneração dos heróis

Nosso principal interesse no momento é considerar o politeísmo grosseiro do vulgo e delinear todos os seus diversos aspectos, a partir dos princípios da natureza humana dos quais são derivados.

Quem quer que descubra por meio de argumentos a existência de um poder inteligente e invisível, deve raciocinar a partir do admirável plano dos objetos naturais, e também deve supor que o mundo é obra desse ser divino, a causa original de todas as coisas. Mas o politeísta vulgar está longe de admitir essa idéia: ele diviniza cada parte do universo e imagina que todas as produções manifestas da natureza são elas mesmas outras tantas divindades reais. Segundo seu sistema, o sol, a lua e as estrelas são todos deuses; as fontes são povoadas por ninfas e as árvores, por hamadríadas. Até os macacos, os cães, os gatos e outros animais freqüentemente se transformam, a seus olhos, em objetos sagrados, e o levam ao culto religioso. E assim, quanto mais forte é a tendência dos homens para crer em um poder invisível e inteligente presente na natureza, mais eles têm uma tendência igualmente forte de dar atenção aos objetos sensíveis e visíveis, e, a fim de reconciliar essas inclinações contrárias, são levados a unir o poder invisível a algum objeto visível.

A distribuição, além disso, de distintos domínios para as várias divindades é suscetível de fazer entrar elementos alegóricos, tanto físicos quanto morais, no sistema vulgar do politeísmo. O deus da guerra será naturalmente representado como furioso, cruel e violento; o deus da poesia será distinto, educado e amável; o deus do comércio, sobretudo nos tempos primitivos, será um deus desonesto e impostor.

As alegorias imaginadas por HOMERO e outros mitólogos são muitas vezes tão forçadas, eu reconheço, que um homem sensato se sente inclinado a rejeitá-las totalmente e a considerá-las mero produto da fantasia e da vaidade dos críticos e comentadores. Quando se supõe que um determinado deus governa cada paixão, cada acontecimento ou sistema de ações, é quase inevitável outorgar-lhe uma genealogia, atributos e aventuras de acordo com seus supostos poderes e influência, bem como deixar-se levar por essas semelhanças e comparações, que, naturalmente, tanto agradam o espírito humano. Não devemos supor, entretanto, que alegorias inteiramente perfeitas sejam produto da ignorância e da superstição, pois nenhuma obra de engenho requer mão mais hábil ou tem sido mais raramente executada com sucesso.

As divindades do vulgo são tão pouco superiores às criaturas humanas que, quando os homens experimentam um forte sentimento de veneração ou de gratidão em relação a algum herói ou benfeitor público, nada parece mais natural que convertê-lo em um deus e povoar o céu com contínuos recrutamentos entre os homens. Admite-se que as divindades do mundo antigo, na maior parte, foram outrora homens, e que sua divinização deveu-se à admiração e ao afeto do povo. A história real de suas aventuras, corrompida pela tradição e elevada ao plano do maravilhoso, tornou-se uma fonte fecunda de fábulas, sobretudo ao serem transmitidas por meio das mãos de poetas, de autores de alegorias e de sacerdotes, que, uns após outros, tiraram proveito do espanto e da perplexidade das massas ignorantes.



Os pintores e os escultores também tiraram sua parte de proveito dos mistérios sagrados e, ao dar aos homens representações sensíveis de suas divindades, que eles revestiam de formas humanas, deram grande impulso à devoção pública e determinaram seu objeto. Foi por causa da falta de tais artes, provavelmente, que, em épocas incultas e selvagens, os homens divinizaram as plantas, os animais e até mesmo a matéria bruta e inorgânica, e que, em vez de abrir mão de um objeto sensível de adoração, divinizaram formas tão canhestras.

Esses são, pois, os princípios gerais do politeísmo, fundamentados na natureza humana e que não dependem em nada — ou em quase nada — do capricho ou do acaso. Como as causas que provocam felicidade ou desgraça são, em geral, muito pouco conhecidas e bastante incertas, nossos ansiosos esforços tentam alcançar delas uma idéia determinada, e não encontram melhor meio do que representá-las como agentes dotados de inteligência e de vontade semelhantes às nossas, salvo pelo seu poder e sabedoria um pouco superiores. A influência limitada desses agentes, e sua fraqueza muito próxima da fraqueza humana, introduz várias repartições e divisões de sua autoridade, e, desse modo, dá nascimento à alegoria. Os mesmos princípios divinizam, como é natural, aqueles mortais que são superiores em força, coragem ou sabedoria, e originam a veneração dos heróis, com as fabulosas histórias e as tradições mitológicas, em todas as suas formas caóticas e extravagantes. E como uma inteligência espiritual e invisível é um objeto muito sutil para a compreensão comum, os homens naturalmente a vinculam a certas representações sensíveis, bem como a partes mais visíveis da natureza ou a estátuas, imagens e pinturas que uma época mais refinada forja de suas divindades.

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