História revisitada: a feminizaçÃo do ensino no brasil lílian Azevedo



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Encontro03.08.2016
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HISTÓRIA REVISITADA: A FEMINIZAÇÃO DO ENSINO NO BRASIL

Lílian Azevedo
Se hoje é visível a maciça presença feminina à frente da direção e das salas de aula para a Pré-Escola e séries iniciais do Ensino Fundamental, certo é que isso se mantém entre o senso comum como algo “natural”. E naturalizando funções educativas como tarefa de mulher dentro de casa, o caminho para a feminização da função docente, sobretudo junto às crianças, ao contrário do que se vê hoje não ocorreu sem debates. Não foram poucas as discussões empreendidas após 1850 e início do século XX a respeito do papel da mulher brasileira como educadora no lar e nas salas de aula.

É válido lembrar que, para se chegar às análises destas discussões no âmbito das Ciências Humanas, que hoje assume uma postura diferente do que se pensava à época dos acontecimentos, o pesquisador faz uso de uma série de documentos. Estes, reunidos, são chamados de corpus documental ou fontes históricas. Tais fontes ou corpus geralmente são compostos de artigos de revistas e jornais, documentos oficiais, atas, leis e decretos dos municípios, estados e federação, cartas, fotografias. Estas últimas, no caso brasileiro a partir de fins do século XIX quando passou a ser mais difundida. Antes, o registro de imagens era feito pelo desenho, além de contribuições bibliográficas nas áreas de História, Ciências Sociais e Educação que contemplem diversas informações sobre a educação, as mulheres, as representações sociais, a cultura e tantos outros. Cabe aos pesquisadores hodiernos questionarem novamente o passado a partir das novas inquietações que surgem de tempos em tempos, de uma geração a outra.

Se o acesso à educação para homens era tema de discussão ao se tratar de negros, índios e pobres, no caso das mulheres, mesmo as de posses, a situação não era menos grave. Exceção feita ao ensino nos conventos, as formas possíveis de educação às mulheres, por meio de professores particulares ou em escolas públicas, receberam tratamentos diferenciados em todo o Brasil. Estudar e exercer carreira na esfera pública era coisa de homem; às mulheres destinavam-se a casa, os filhos, a família. Para bem desempenhar tais tarefas, bastaria uma educação primária: ler, escrever e contar, além das disciplinas de cunho moral, religioso e dos trabalhos domésticos.

Junto a moral religiosa vigente, predominantemente católica, traços da tradição moura herdada de Portugal mantinham as mulheres no interior do lar, não as educando para o convívio social. Lembrar que na Península Ibérica, a presença de árabes muçulmanos por cerca de 800 anos contribuiu com várias práticas culturais para as gerações de portugueses que se seguiram ao período da Reconquista.

Pais e homens públicos se debateram contra as iniciativas feministas em prol da educação das mulheres. Quando algumas delas se notabilizaram a esse respeito, como Nísia Floresta (1810-1885), por exemplo, muitos homens de prestígio social e político se apossaram daquele discurso, dando base científica ao patriarcalismo para mantê-las em “seu” lugar por excelência: o lar, ou ainda, impondo limites à sua atividade profissional: do currículo diferenciado para meninos e meninas até o não comprometimento da honra e dos afazeres domésticos, quando casada.

Além de ter sido, com o tempo, uma das poucas atividades profissionais de aceitação social possíveis às mulheres, a educação das crianças foi se tornando atividade feminina em fins do século XIX. Embora a mudança deste quadro tenha se dado por outra série de fatores, dentre os quais encontram-se: a diminuição progressiva de rapazes cursando o magistério; a falta de mestres para as cadeiras vagas; o processo mais acelerado de urbanização; o aumento do número de escolas Normais; a crescente sociabilização feminina; as representações sociais criadas sobre sua “nova” nobre “missão” de educadora dos filhos da Nação, que tomaram corpo após a proclamação da República e fizeram com que o espaço fosse por elas não apenas ocupado, como praticamente a elas destinado.

Segundo nos ensinam alguns textos sobre o assunto, não se pode simplificar a questão enfatizando o desinteresse dos homens pelo ensino, uma vez que alguns pesquisadores afirmam que tal fenômeno ocorreu porque eles passaram a buscar outras fontes de trabalho mais rentáveis. O problema deve ser devidamente analisado de acordo com uma série de fatores mais complexos, alguns deles contemplados acima, variando a cada situação particular. Estudando comparativamente o fenômeno da feminização do magistério em Portugal e no Brasil, em fins do século XIX por exemplo, Heloísa Villela nos informa que

“como o campo educacional expandiu-se quantitativamente, a explicação para o processo de desvalorização do magistério possivelmente transcenda a questão meramente sexual, podendo ser explicado também pelo fato de que o magistério passava, cada vez mais, a ser uma profissão que atendia à população de baixa renda, desvalorizada portanto na óptica capitalista.”1


Continua a autora, que as mulheres não entraram nesse campo sem a resistência dos homens, o que confirma a conflituosa relação das mulheres para se afirmarem nesta área.

Não foram poucos os debates sobre a validade de se “conceder” às mulheres posições tão importantes como a direção de uma sala de aula para a formação de crianças. Porém, como as teorias sobre os papéis sociais a serem desempenhados por mulheres e homens estavam se tornando cada vez mais importantes para a formatação de saberes que iam da medicina às leis, o status social feminino passava da misoginia e negação de sua capacidade intelectual e de organização disciplinar à promoção dos dotes “naturalmente” femininos para a educação, como a caridade, abnegação, missão natural de educar os homens públicos e mulheres do lar.



Como resultado disso, muitas mulheres educadoras foram dessexualizadas no imaginário popular, devendo comprovar moralmente suas condutas e cuidar para que não comprometessem as então nobres tarefas femininas da maternidade e do cuidado do esposo e da casa. Por isso, muitas professoras mantinham-se na profissão enquanto fossem solteiras, ou na condição de viúvas. Neste caso, as aproximava mais do sacerdócio exercido pelas religiosas do que propriamente da atividade hoje desempenhada por milhares de mulheres que se debatem para aliar o que subentende-se por “suas” funções, herdadas de um passado que muitos desconhecem e certamente não poucos querem, com muita justiça, não mais revivê-lo.

1 VILLELA, Heloisa de O. O Mestre-Escola e a Professora. In: LOPES, E. M. T.; FILHO, L. M. F.; VEIGA, C. G. (orgs.). 5oo Anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 120.


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