Histórias de vida, trajetórias de formaçÃo e trabalho docente: mediações e interfaces com a história educacional da Bahia



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HISTÓRIAS DE VIDA, TRAJETÓRIAS DE FORMAÇÃO E TRABALHO DOCENTE: mediações e interfaces com a história educacional da Bahia

Elizeu Clementino de Souza

UNEB/PPGEduC/GRAFHO

esclementino@uol.com.br


Joselito Brito de Almeida

UNEB/PPGEduC/GRAFHO

jba2000@ig.com.br

Palavras-Chave: Histórias de vida; Trajetórias de formação; Identidade docente.

Introdução

Pesquisar as histórias de vida de educadores baianos, a partir das suas narrativas, é demarcar um campo de estudo construído e constituído pelas trajetórias engendradas nas tramas cotidianas desses sujeitos em suas relações sociais, culturais, políticas e profissionais, as quais são tecidas nas/pelas histórias individuais e coletivas, singulares e plurais dos professores em suas trajetórias de vida, formação e atuação. O Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e História Oral – GRAFHO, do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – PPGEduC da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, vem assumindo o compromisso de reconstrução da história educacional da Bahia, centrando seu foco de investigação nas histórias de vida e nas trajetórias de formação de professores a partir da década de 30 do século passado. Para a consecução dessa tessitura historiográfica, põem em destaque as histórias de vida dos professores que se materializam por meio das entrevistas narrativas.

É neste sentido que tomamos as histórias de vida, as trajetórias de formação e o trabalho docente de Amabília Almeida1 para explicar e compreender o contexto histórico-cultural, político-ideológico e socioeconômico na configuração das mudanças ocorridas ao longo do período compreendido entre as décadas de 40 a 90 do século passado e que condicionaram ou influenciaram os acontecimentos que marcaram ou até mesmo mudaram a trajetória de vida da referida professora e/ou do contexto histórico, e, que aqui utilizamos como objeto de análise e reflexão.

O texto tem o propósito de contribuir significativamente para os estudos e pesquisas no campo da história da educação, colocando em destaque a relevância da abordagem (auto)biográfica ou histórias de vida para a investigação educacional e que, segundo Moita (2000, p. 116), “[...] põe em evidência o modo como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os seus valores, as suas energias, para ir dando forma à sua identidade, num diálogo com os seus contextos”. Portanto, partimos do entendimento que a identidade docente é dimensionada pela pluralidade de vivências e experiências cotidianas construídas e constituída em um processo multifacetado e multirreferencial que se alarga e se desenvolve a partir das mediações entre o eu pessoal e o eu profissional com a complexidade do contexto sociocultural e político-ideológico.

A narrativa da professora Amabília Almeida é fruto de uma interação social e do entendimento de que a formação é um trabalho de reflexão sobre os percursos de vida e das opções que cada um faz ao longo da sua existência, entrecruzando com determinantes políticos e econômicos de cada momento histórico. Assim, é importante salientarmos que a abordagem (auto)biográfica ou histórias de vida alimenta-se da memória e do esquecimento dos sujeitos individuais e/ou coletivos.

Memória e identidade são construções sócio-históricas, as quais refletem modos singulares dos sujeitos construírem suas vidas. Apreendemos, a partir das contribuições de Louro (1997 e 1998) e Hall (2000) princípios teóricos que nos possibilitam entender a identidade como ‘aquilo que é’ e a diferença, como oposto a identidade, como ‘aquilo que não é’, visto que estão numa relação de estreita dependência. Ou seja, a forma de expressão da identidade, como fixa e imutável demarca e encobre as relações postas nesta relação, ou como algo que se esgota em si mesma. Assim, identidade e diferença são produções históricas e resultantes de processo de produção simbólica e discursiva que envolvem poder, saber, disciplinamento, inclusão, exclusão que se caracterizam em representações.



Nesta perspectiva, a identidade profissional docente é uma elaboração que perpassa a vida profissional em diferentes e sucessivas fases, desde a opção pela profissão, passando pela formação inicial e, de resto, por toda a trajetória profissional do professor, construindo-se com base nas experiências, nas opções, nas práticas, nas continuidades e descontinuidades, tanto no que diz respeito às representações, como no que se refere ao trabalho concreto, as quais são reveladas nas entrevistas, com ênfase nos percursos acadêmicos e de formação.

Souza (2009), em Ofício de escrever a vida: memória (auto)biográfica e história da educação apresenta algumas contribuições que nos permite compreender o processo de constituição e contribuição da memória e das histórias de vida ao campo da história da educação e da formação de professores. O autor, historiciza o processo de consolidação do movimento biográfico, a partir da Escola de Chicago, a criação de grupos de pesquisa e de associações ligadas a temática e da realização do Congresso Internacional sobre Pesquisa (Auto)Biográfica (CIPA), em sua IV edição, realizada em julho de 2010 na USP, e as possibilidades teórico-metodológicas diversas. O texto ainda faz referência à utilização de estudos e pesquisa sobre histórias de vidas nas diferentes áreas das ciências sociais e humanas, com destaque para o campo da educação, história, sociologia, antropologia, literatura e psicologia social e às variedades de fontes e procedimentos utilizados para a consecução da investigação o que inclui “[...] os diversos documentos pessoais (autobiografias, diários, cartas, fotografias e objetos pessoais) e as entrevistas biográficas, que podem ser orais ou escritas”, (p. 62).

Na sequência, o autor descreve as experiências de pesquisas desenvolvidas no GRAFHO2, especificamente, a partir das entrevistas narrativas realizadas, no segundo semestre de 2008, na Disciplina TEE028 – Abordagem (Auto)biográfica e Formação de professores – vinculada ao PPGEduC/UNEB com quatorze educadores baianos que exerceram/exercem influência no campo educacional baiano entre as décadas de 40 a 80, dentre os/as professores/as entrevistados/as encontra-se a professora Amabília Almeida cuja trajetória de vida-formação tomamos, agora, como objeto de análise.

Trajetória de Vida/Formação de Amabília Almeida

A professora Amabília Vilaronga de Pinho Almeida, ou, como é mais conhecida, Amabília Almeida, filha caçula do fazendeiro Estevam Pereira de Pinho e da dona de casa Generosa Vilaronga de Pinho, nasceu em 24 de maio de 1929 no município de Jacobina, interior da Bahia. Uniu-se por casamento ao engenheiro Luiz Fernando Contreiras de Almeida com quem teve as filhas: Liana e Lis Anete e o filho Luiz Fernando.

A mãe de Amabília faleceu quando ela ainda era muito pequena, deixando órfãos seus 12 (doze) filhos. Seu pai decidiu assumir novo matrimônio, casando-se em 1935, pela necessidade de ter uma pessoa para ajudar na criação dos filhos. Para Amabília, seu pai foi bastante inteligente na escolha da sua segunda esposa. Amabília considera que ela e os demais irmãos e irmãs tiveram muita sorte, porque o pai escolherá uma pessoa madura, inteligente e uma mulher muito avançada para aquela época.

A madastra, a quem se refere como mãe de criação, foi “uma verdadeira mãe de todos nós, sem fazer distinção” entre os 12 (doze) enteados e os filhos que teve com o seu pai. Segundo Amabília, o fato da madastra não ter tido filha mulher e como era a caçula da família, acabou por ter toda uma grande dedicação na sua formação, estimulando muito o seu crescimento e a sua inserção nas comemorações escolares e culturais que aconteciam na cidade por meio de “desfiles com recitativos, programa em rádio”.

De suas memórias, lembra-se que a madastra teve uma participação singular e ativa na sua vida e na vida escolar dos seus irmãos e irmãs. Desejosa de que todos pudessem estudar, foi ela quem disse para o marido: “nós não vamos poder ficar morando em fazenda não” e que “a primeira coisa que nós temos que fazer é comprar uma casa na cidade para colocar essa meninada para estudar”. A família que morava no distrito de Itaitu, mudou-se para uma casa grande e confortável em Jacobina e a primeira providência foi matricular todo mundo na escola.

Os três filhos que já estavam adolescentes foram encaminhados para estudar em Salvador e fizeram curso superior, mas, as filhas eram muito presas ainda ao âmbito familiar e como se dizia à época: “presas na barra da saia da madastra”. Portanto, as filhas não tiveram maiores oportunidades de sair para estudar fora. Mesmo as filhas mais velhas que, segundo a narradora, não quiseram estudar. Uma outra dificuldade para as jovens jacobinense era a inexistência de Escola Normal no município o que obrigava as moças a realizarem os estudos para o exercício de professora primária no município de Senhor do Bonfim.

Amabília Almeida estudou na Escola Dona Alice Barros de Figueiredo e no Colégio Luiz Anselmo da Fonseca e quando a irmã mais velha encontrava-se com 19 anos e ela com 12 anos, e que viriam ser colegas de turma, implantou-se a Escola Normal em Jacobina, na gestão do Interventor Federal Landulpho Alves3 (1938-1942), que tinha uma formação de engenheiro agrônomo, e do seu irmão Isaías Alves4 (1938-1942), então secretário da Secretaria da Educação, Saúde e Assistência Pública do Estado. Para Amabília Almeida, a formação de Landulpho Alves possibilitou uma visão maior do interior da Bahia e a opção por instalarem Escolas Normais em vários municípios do interior baiano,

que eles chamavam de Escolas Normais Rurais, cuja formação teria que se dar em 5 anos, porque havia uma demanda enorme de professores no interior e professor da capital já não estava querendo se deslocar para o interior, principalmente para os distritos onde havia uma carência enorme. Só havia professor leigo.

A Escola Normal implantada em Jacobina, segundo Amabília Almeida, foi o Instituto Normal Senhor do Bonfim, sediado em Senhor do Bonfim, “e em Senhor do Bonfim, que já era mais desenvolvido do que Jacobina do ponto de vista da educação”, ficou a Escola Normal das Sacramentinas. Para Werle, as Escolas Normais Rurais “são uma variante em termos de formação de professores que existiu entre 1930 e 60”, (s/d, p. 1). A autora aponta a presença das Escolas Normais Rurais em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e no nordeste brasileiro. Ainda, segundo Werle, a ocorrência da Escola Rural Normal (ERN) acontece concomitante aos “debates sobre escolas elementares em zonas rurais ocorridos em âmbito nacional nas primeiras décadas do século XX”, (p. 1). A Associação Brasileira de Educação (ABE) promoveu várias reuniões nacionais para discutir os problemas da educação e a necessidade de criar uma nova escola rural e um novo professor por meio da ENR, revela a autora. Assim, “a 8ª. Conferência da ABE, 1942, foi dedicada à educação primária nas pequenas cidades e vilas do interior, na zona rural comum, nas zonas rurais de imigração e nas zonas do alto sertão, constituindo-se como referência no debate acerca da educação rural”, (p. 2).

Em 1946, a jovem Amabília Almeida formou-se professora por meio da ENR. Narrando e rememorando fatos de sua formação na ENR, a professora Amabília Almeida, ex-vereadora de Salvador e ex-deputada estadual constituinte, diz achar

engraçado é que tinha uma cadeira chamada Agricultura e que nós professores tínhamos que saber muitas coisas relacionadas com o campo, com a cultura. E nós tínhamos um professor que era engenheiro agrônomo, eu me lembro muito dele. Então, nós nos formamos com os 5 anos de formação, eu acho que era muito pouco, algumas matérias assim como Psicologia mesmo, Pedagogia, eu acho que, embora a nossa professora se esforçasse muito, mas eu acho que era muito pouco, era muito pouco a formação. Era assim uma pincelada para nos jogar no campo para atender a necessidade educacional do estado.

A partir de 1939, a formação de professores no Brasil para a escola secundária vai se realizar nos cursos de formação de professores em nível universitário (Licenciaturas) e de Pedagogia para a docência nas Escolas Normais. A formação para o ensino primário continuou a ser realizada pelas Escolas Normais com a orientação do decreto-lei n. 8.530, de 2 de janeiro de 1946, conhecido como Lei Orgânica do Ensino Normal que fundamenta e disciplina as bases da organização do ensino normal em âmbito nacional. O ensino normal foi dividido em dois ciclos: o primeiro correspondia ao ciclo ginasial do curso secundário, ministrava o curso de regentes de ensino primário, em quatro anos e funcionaria em Escolas Normais Regionais, e o segundo correspondia ao ciclo colegial do curso secundário, ministrava o curso de formação de professores primários, em três anos e funcionaria em Escolas Normais e nos Institutos de Educação que contariam com Jardim de Infância e Escola Primária anexos. Os Institutos, também, ministrariam os cursos de especialização de ensino normal para as áreas de educação pré-primária; didática especial do curso complementar primário; didática especial do ensino supletivo; didática especial de desenho e artes aplicadas; didática especial de música e canto e cursos e especialização do magistério e de habilitação para administradores escolares para formar diretores, orientadores e inspetores escolares do grau primário (BRASIL, 1946).

Após a conclusão da ENR, Amabília Almeida prestou concurso para professora do estado, embora fosse formada pelo interior, e, sendo bem colocada, teria assegurado o direito de lecionar na sede do município. Porém, em virtude de incursão política e do fato de sua família ser “do partido político diferente dos chefes políticos” então no poder, foi designada para ensinar em um distrito distante da sede do município.

A madastra inconformada com a injustiça e chateada e aborrecida com o fato da enteada ter sido designada para lecionar “nesse lugar atrasadinho que era um distrito, quase uma roça” prometeu que quando surgisse uma oportunidade iria mandá-la para Salvador para que tivesse a oportunidade de continuar os estudos. Porém, naquela época, 1948, quando começou a ensinar não tinha muitas oportunidades de vir para Salvador.

Quem vinha para Salvador para ingressar na faculdade teria que fazer novamente todo o ginásio ou então uma coisa chamada artigo 91, que tinha que fazer no ano todas as matérias novamente que eram ensinadas no curso secundário, no preparatório. Ficou muito difícil. Então, eu tive a oportunidade de vir para Salvador, mas eu vim numa outra condição, porque dona Darcy Vargas e o governo de Getúlio [Vargas] preocupado com a mortalidade infantil, decidiram implantar em todo o país, principalmente nas cidades do interior, nas sedes dos municípios, postos de higiene infantil que tinha uma função assim muito importante, que era a questão da vacinação, a questão da alimentação dos meninos recém-nascidos, principalmente essa primeira infância. Então eu vim para Salvador em convênio da Secretaria da Educação com a Legião Brasileira de Assistência5. Eu vim para Salvador, não para atuar na área da educação, mas na área da educação da questão da higiene infantil e higiene escolar. Então foi um curso de 2 anos, eu fui submetida a testes e tal, mas aí eu não tinha muito medo de não passar. Eu tinha passado em um concurso de professora acho que eu ia me dar bem. Então eu fiquei 2 anos fazendo esse curso e foi nessa área de puericultura, com esse objetivo de ajudar na redução da mortalidade infantil. [...], meus professores eram médicos, tanto da Legião Brasileira de Assistência como do Departamento Estadual da Criança. Ainda me lembro de Dr. Álvaro Bahia, Alício Franca Rocha e outros médicos que foram muito importantes na formação.

Concluído o curso em Educação Pré-Escolar, Higiene Escolar e Puericultura pela Legião Brasileira de Assistência – (LBA), a professora Amabília Almeida retornou para Jacobina; mas, como já tinha conhecido seu futuro esposo, permaneceu por apenas um semestre, tempo necessário para instalar e inaugurar o posto de higiene infantil, com o médico responsável; fazer a formação do pessoal que ia trabalhar, preparar uma pessoa para substituí-la e assumir parte da educação das mães. Retornando a Salvador, casou-se e tentou retomar a função para a qual havia sido designada, porém não obtendo êxito, solicitou licença para interesse particular à Secretaria Estadual da Educação e Saúde na gestão de Anísio Teixeira6. Percebendo que a sua única opção era a educação conseguiu transferência do interior para a capital, porém logo percebeu que não podia lecionar em escolas da capital por ser do quadro do interior.

Mas, o Dr. Anísio Teixeira tinha implantado o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, os centros educacionais, com as três escolas classes I, II e III, e no centro de tudo isso, a Escola Parque. Então, nós professores do quadro do interior podíamos trabalhar nessas escolas porque elas estavam localizadas na periferia de Salvador. Então, vários professores vindos lá do interior estavam nessas escolas e eu fui designada para a Escola-Classe II. Esse trabalho dessas escolas e da Escola Parque era coordenado pela irmã do Dr. Anísio Teixeira, a professora Carmem Teixeira.

O Centro Educacional Carneiro Ribeiro fazia parte do Plano de Edificações Escolares7 concebido e empreendido por Anísio Teixeira como um modelo de funcionamento da escola primária de tempo integral a ser desenvolvido nas Escolas-Classe e na Escola Parque. As Escolas-Classe atenderiam 1.000 alunos cada e a Escola Parque atenderia 4.000 alunos. Na Escola-Classe predominaria o sentido preparatório, instrucional, com o ensino de leitura, escrita, aritmética, ciências físicas e sociais e, na Escola Parque o das atividades complementares de ensino que incluía atividades socializantes e de trabalho, tais como: educação artística, educação física e o trabalho manual e as artes industriais. Vale ressaltar que a construção do centro visou o atendimento da população carente de Salvador. Por isso, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro foi implantado no pobre e populoso bairro periférico da Liberdade (ALMEIDA, 2001).

Amabília Almeida ressalta as várias oportunidades que as professoras que trabalhavam nessas escolas tiveram na formação, em função dessas escolas estarem sendo implantadas pelo professor Anísio Teixeira e de receber dele muito incentivo para o trabalho nas escolas. Para a narradora, Anísio Teixeira abriu os horizontes ao “mostrar que a educação não era só o aprender a ler [e que] a formação era a preocupação com a promoção do ser humano, do homem, para que ele se tornasse um cidadão verdadeiro”.

E Drª Carmem era uma pessoa muito, assim, cuidadosa na implantação dessa filosofia que era a crença de Anísio Teixeira. Então, alguns de nós tivemos essa formação, porque foi um privilégio trabalhar nessas escolas. E os nossos meninos que estudavam nas escolas, no outro turno iam para a Escola Parque desenvolver as atividades de formação extra-classe. Daí a minha paixão foi crescendo pela educação, depois que nós conhecemos a filosofia da educação de Anísio Teixeira.

No tocante à formação de professores para atuarem no ensino primário ressalta a exigência apenas do curso normal e que a formação de nivel superior em Pedagogia não era uma necessidade. Porém, narra que muitas de suas colegas foram cursar Pedagogia em diversas instituições que ofereciam essa formação. Além da Universidade Federal da Bahia cita a Faculdade Olga Metting, o Colégio Nossa Senhora do Carmo, como pioneira em formação de professores em Pedagogia e no Curso Normal em Salvador; a Nossa Senhora da Conceição, as Sacramentinas e a São José. A professora Amabília Almeida confessa que apesar do surgimento de várias escolas de formação de professores de nivel superior, não teve a oportunidade de estudar,

[...] porque eu já estava envolvida com tanta coisa, já tinha casado, já tava com os meninos pequenos, ensinava e, ao lado disso, eu já tinha me comprometido com outros aspectos, porque eu tive casada com um homem essencialmente politizado. E aí que começou a me despertar para esses aspectos: “que tinha que se preocupar com o outro, que não era só ensinar e voltar para casa e cuidar dos meninos, que tinha muita gente lá fora precisando de ajuda e formação social” e começou a falar sobre essas questões sociais. Então, foi assim o momento que eu despertei. E então comecei a me envolver com estas questões.

A partir desse momento, Amabília Almeida vai ser protagonista em destaque de diversos movimentos e momentos da história e da história educacional da Bahia. Assim, vai trabalhar na linha de frente na Campanha pela Paz, com outras companheiras que eram da Associação Feminina da Bahia, contra a intenção do governo do General Eurico Gaspar Dutra (1946-1949) sob a inspiração da “guerra fria” de mandar soldados brasileiros para a guerra da Coréia. Logo após a Campanha pela Paz e devido ao desempenho demonstrado na luta foi eleita Presidente da Associação Feminina da Bahia por dois mandatos.

E foi um trabalho que cresceu muito, nós desenvolvíamos campanhas educacionais pela melhoria do ensino, pela melhoria das escolas, pela luta por creches nos bairros populares, até contra a carestia. A Associação Feminina era um órgão assim de muita representatividade no estado e também aqui em Salvador, principalmente. Nós chegamos a fundar outras filiais nos bairros populares. Então era um tal de fazer palestras nos bairros e não parava. De manhã, ensinando; de tarde, tomando conta dos meninos que estavam pequenos e saindo, indo pra rua, limpando e fazendo Campanha da Paz e batalhando junto às associações femininas nos bairros. Então tomei assim um caminho político e social muito intenso.

Nesse momento, inicia-se os preparativos para o I Congresso Nacional de Professores Primários a ser realizado em Salvador no Instituto Central Isaías Alves (ICEIA),

[...] e eu já estava assim bastante esclarecida pela convivência com o Luiz8, pelas leituras que eu fazia e aí nós chegamos à conclusão de que ser professor não era um sacerdócio, era muito mais. Porque se dizia, “ah! ser professora era um sacerdócio, a pessoa tem que se esquecer de si, tem que ficar pensando só na educação, nas crianças e isso e aquilo para engrandecer o país. O país só vai pra frente através da educação”. Aí houve um momento assim que paramos e pensamos, eu e outras companheiras: não, não é isso não. Aí nós passamos a fazer parte da Sociedade Unificadora dos Professores Primários9 (SUPP) que tinha preocupação com a educação, não vou negar, mas era muito conservadora a nossa associação e tinha essa coisa de não querer contrariar os governantes. E então naquela época todo mundo era juracizista10 e nós dissemos: “não pode ser assim”. Nosso órgão de classe tem que pensar na educação, mas não pode pensar na educação sem pensar no professor.

A imprensa educacional no Brasil, ao longo da história da educação, buscou constituir, desenvolver, incorporar e consolidar um modelo de representação do ideal de professora que casasse com as ideologias moral, social e política vigentes na sociedade em cada momento histórico. Os jornais pedagógicos e, principalmente, as revistas pedagógicas veicularam discursos que contribuiram para materializar e legitimar uma imagem de professora primária como salvadora da pátria, missionária ou sacerdotisa com a missão de formar os cidadãos e renunciar à sua própria condição feminina. Para Fischer (2005, p. 328),

[...] diante da vida concreta de mulher, permeada de sentimentos, desejos e ambições inerentes à condição humana, certamente não foi fácil para ela manter-se nesse ideal. Talvez por esta razão aparecem publicados inúmeros textos em forma de prece, como se forças extraordinárias fossem indispensáveis para cumprir a tarefa do magistério.

Fischer (2005), ao abordar a temática A professora primária nos impressos pedagógicos (1950-1970), faz uma análise das modalidades discursivas presentes na Revista do Ensino e que contribuíram como instância formativa, de constituição “de um modelo moderno da mulher professora” e de subjetivação da professora primária, para constatar que a imagem da professora que é exaltada e veiculada na revista está atravessada “por enunciados normalizadores” que denotam o enquadramento classificatório da condição feminina, a manutenção das bases patriarcais do conhecimento e as relações de poder diluídas através dos discursos. Portanto, não é tão difícil compreender porque ao longo do processo histórico foi se forjando, arquitetando, enraizando e perpetuando no seio da sociedade brasileira o discurso materializador de um modelo de professora a ser seguido e reproduzido que a identificava como abnegada, virtuosa, disciplinada, vigilante, discreta, dedicada, carinhosa, simpática, emotiva, caprichosa, vocacionada e nunca como uma profissional, ou para sermos mais contemporâneos, trabalhadora da educação. Nas palavras de Louro (2003, p. 78), “O magistério precisava ser compreendido, então, como uma atividade de amor, de entrega e doação, para a qual acorreria quem tivesse vocação”.

Acreditamos que, ainda hoje, um dos fatores decisivos para que a sociedade mantenha, sobre as professoras, um grande rigor nas condutas e comportamentos, ditando como devem ser, agir e atuar no interior das escolas e no contexto social mais amplo, reside, eminentemente, no caráter de dominação da sociedade patriarcal e nas representações masculinas que foram construídas, ao longo do processo histórico, sobre as mulheres e a profissão docente, majoritariamente feminina, principalmente, no Ensino Fundamental I de 1ª à 5ª série.

Durante o I Congresso Nacional de Professores Primários11, a professora Amabília Almeida “atrevidamente”, como faz questão de frisar, decide

apresentar uma tese sobre a situação do professor no estado da Bahia e da necessidade da sua valorização, principalmente, seu reconhecimento, dando-lhe melhores condições econômicas e salariais para desenvolver o seu trabalho; que não era possível um professor ganhar igual a um coveiro.

A comparação entre o salário do professor e do coveiro era uma constante no período e, como alerta Amabília Almeida, o professor percebia vencimentos inferior ao salário mínimo vigente e que, ainda hoje, não houve avanços na condição salarial dos professores, notadamente dos que atuam no Ensino fundamental I. Amabília chama à atenção para o fato de que os docentes, nível 2, que trabalham no Ensino Fundamental I, da 1ª à 5ª série, perceberem um salário mínimo como salário base por uma jornada de trabalho de 20 horas semanais.

Então, apresentei a tese sobre essa necessidade de valorização. Para minha surpresa, eu acho que eu nem tinha ideia da repercussão que esse trabalho ia ter. De repente eu me vi na tribuna falando de uma política diferente [...], a política da valorização do professor, com todo mundo me aplaudindo e achando que eu tinha apresentado um grande trabalho, que as dirigentes das entidades não tinham coragem de apresentar para não contrariar o governo. Alguma coisa nós tínhamos que fazer e o que eu propunha era que se desenvolvesse, a partir do congresso nacional, que as entidades de classe desenvolvessem uma campanha, cada entidade no seu estado, lutando pela valorização do professor e que nós conseguíssemos alcançar o salário de três mil cruzeiros. Porque, isso ainda foi no tempo do cruzeiro não é, em 1950, imagine! Ainda foi no tempo do cruzeiro, então, que era para ganhar três mil cruzeiros, que era como se fosse assim o dobro daquilo que a gente ganhava. Não era grande coisa, era o dobro do que a gente ganhava.

Tendo sido aprovada no I Congresso Nacional de Professores Primários, a proposição da professora Amabília Almeida foi encaminhada como bandeira de luta do movimento dos professores primários a ser encampada por cada entidade de classe, representativa dos professores, no seu respectivo estado, em defesa do salário de CR$ 3.000,00. Na Bahia, segundo narrativa da professora Amabília, a SUPP, enquanto diretoria, não quis endossar a bandeira de luta aprovada, ficando a campanha nas mãos de algumas professoras mais politizadas que à frente do movimento constituíram o comitê para a campanha dos CR$ 3.000,00.

Este comitê ficou conhecidíssimo como o comitê da campanha dos CR$ 3.000,00. Não foi uma coisa rápida, nós levamos assim, praticamente, um ano lutando, trabalhando, mobilizamos toda a classe. Fizemos assembleias, fizemos passeatas, fomos ameaçadas, fomos postas para fora do palácio por Juracy Magalhães, fizemos carta aberta ao povo baiano contando a história do professorado. Eu que encabecei a Carta Aberta e quando de repente, depois de um ano de luta nós conseguimos ganhar os CR$ 3.000,00, foi vitoriosa a nossa campanha. Mas a essa altura a luta tinha sido tão grande, tão envolvente, que eu já tinha ficado conhecida no estado da Bahia, no meio do professorado, como a professora atrevida que levou avante a bandeira dos CR$ 3.000,00.

Neste momento, estava próximo a eleição da SUPP para renovação de sua diretoria que, segundo Amabília, era quase sempre constituída das mesmas pessoas, havendo poucas mudanças de uma diretoria para outra. A rotatividade existente limitava-se, na maioria das vezes, à mobilidade de funções na hierarquia burocrática da instituição. Asssim, algumas professoras que residiam no interior do estado iniciaram uma mobilização para intervir no órgão de classe objetivando alterar a correlação de forças dentro da entidade e imprimir um novo dinamismo ao movimento docente. Essas professoras,

[...] eram pessoas assim bastante politizadas, muito conscientes do seu papel, inteligentes. Eu cito o nome de Iracy Picanço12, [...] Eliete Teles, que era de Nazaré das Farinhas; Vanda Sá Barreto... Eliete, Iracy, Vanda... Amazília Boa Morte, de Santo Amaro e mais outras que não me ocorre mais. Então essas companheiras que tinham muita confiança no meu trabalho, fizeram uma articulação no interior e lançaram meu nome para presidente do órgão de classe. Organizamos a chapa que era uma chapa de vanguarda, de luta, de valorização do professor e a nossa chapa tomou assim grande impulso. Tinha uma adesão assim maciça do professsorado que queria a renovação do órgão de classe. Nós estávamos muito bem nessa luta e a eleição ia ser no mês de abril de 64, mas no dia 31 de março nós fomos receber dinheiro... [...].

Na sua narrativa, a professora Amabília Almeida denuncia a condição de desrespeito e humilhação a que estavam submetidos os professores na Bahia, quando do recebimento dos seus vencimentos. Fato esse vigente até bem pouco tempo.

Até bem pouco tempo professor era tão humilhado que não tinha cartão, não tinha talão de cheque (risos). Professor recebia dinheiro na Boca do Cofre. Então, essa Boca do Cofre não era nem uma agência de banco, era ali na rua D’Ajuda [...], tem ainda o prédio do tesouro do estado. Na parte de cima funcionava a Legião Brasileira de Assistência (LBA), na parte de baixo tinha lá uns, uns, uns, sei lá, um curralzinho, uma coisa assim com as telas, era ali que a gente recebia. O cara dava, o pagador dava uma folha, você assinava e recebia o dinheiro ali na hora, botava no bolso, botava na bolsa, ali mesmo já estavam os agiotas para tomar o dinheiro que tinham emprestado à professora. Era uma situação humilhante, meu Deus, era triste aquela situação! E então, nesse dia 31 de março quando começou o pagamento, de repente, sem a gente saber de coisa nenhuma, as folhas foram tomadas das nossas mãos e aí foi aquela revolta.

As professoras, cansadas, revoltadas, atordoadas e aflitas, e sem compreender o que estava acontecendo, começam a questionar a razão para o não pagamento de seus vencimentos:

- Por quê? Por quê?

- Não sei, uma ordem superior! – disseram os pagadores – Uma ordem superior para recolher as folhas.

- Por quê? Acabou o dinheiro?

- Não, uma ordem superior!

E foram baixando os guichês e nós ficamos sem dinheiro. Ah, foi uma revolta enorme no professorado! E como eu estava muito em evidência ali, o comitê [da campanha] se juntou imediatamente.

- Amabília o que vamos fazer?

- Não temos outra alternativa, não é esse pessoal pagador que vai nos dizer coisa nenhuma. Nós temos é que ir para o palácio, saber de Lomanto Júnior13 porque mandou suspender o pagamento e deixar os professores sem dinheiro, disse, Amabília.

Inconformadas, as professoras começaram a se organizar para seguir em caminhada até o Palácio da Aclamação, localizado na Praça da Aclamação sob o nº 211, defronte do Forte de São Pedro e ao lado do Passeio Público, próximo ao bairro do Campo Grande, área nobre de Salvador e, na época, residência oficial dos governadores da Bahia.

E aí num minuto nós estávamos no nível de articulação tão danada que de repente armou-se uma passeata, uma caminhada e que eu não sei de que lugar saiu tanto cartaz. As professoras foram entrando ali no armarinho Antunes e pegando piloto e fazendo cartaz e botando nas mãos e fomos para o palácio saber porque é que tomaram nosso dinheiro, querendo saber o que está acontecendo; uma leva de mais de mil professores.

Ao chegarem ao Palácio da Aclamação se depararam com portões fechados e uma situação estranha com soldados em guarnição. Surpresas e ainda mais atônitas e confusas com a situação e desconhecendo a gravidade da situação que se instalará no país, buscavam uma explicação que justificasse a suspensão dos seus vencimentos. É então que Amabília Almeida, vislumbrando aquele cenário, questiona: “O que que é isso?”, e ficam à espera de respostas. É então que são recepcionadas por

um ajudante da ordem do governador, chamado Alaor Coutinho e que perguntou o que era e nós dissemos, historiamos o fato e que queríamos falar com o governador. Foi muito difícil porque, entra, não entra, o governador não pode receber, mas vai receber. E aí as professoras, nós todas, o professorado sabe como é, a massa, começou a fazer uma gritaria enorme, então, Lomanto ficou assustado e mandou que abrissem os portões, mas que ia receber uma pequena comissão, mas que botasse os professores para dentro do portão. Então todos entraram e a comissão foi composta pelo presidente da Associação dos Funcionários Públicos que se chamava Otávio Drummond; eu, representando os professores; e tinha mais algumas colegas. Entramos assim umas quatro pessoas, não foi muita gente não e fomos falar com Lomanto. Só lá no palácio, lá dentro do palácio, que nós tomamos conhecimento através de um coronel chamado Norildo, que Lomanto não podia, não vinha. Lomanto tava passando mal e o coronel Norildo nos comunicou:

- Amabília, vocês não sabem, o país está assim, está mergulhado numa conspiração. Há um princípio de revolução.

- Não, nós não estamos sabemos de nada. Esta nossa passeata não tem nada a ver com este movimento de 31, não tem nada a ver com o que está acontecendo na cúpula do país, porque nós não estamos sabendo de nada. Agora que você coronel Norildo está nos dizendo é que nós estamos tomando conhecimento. Quem está lá embaixo está inocente.

A comissão foi recebida pelo secretário da educação do governo Lomanto Júnior, que muito preocupado aconselhou que todos fossem embora. Ouvindo de Amabília Almeida que “de jeito nenhum, pode estar acontecendo o que estiver, mas nós só vamos sair daqui depois que falar com o governador. Eu não tenho como chegar lá embaixo e dizer às minhas colegas que o governador não nós recebeu”.

Contumaz, a comissão insistiu em ser recepcionada pelo governador. Para Amabília também estava em jogo o seu prestígio junto a categoria de professores.

Então o governador veio, muito trêmulo, apoiado de um lado pela esposa, a senhora Hildete Lomanto; do outro lado, pelo secretário da educação, [...]. Eu historiei o que estava acontecendo. Ele também disse que estava numa situação muito difícil porque havia um começo de revolução no país e que ele nos prometia que dentro de 48 horas mandava fazer o pagamento, como de fato mandou.

A comissão, após ser recebida pelo governador e informar aos colegas da promessa de pagamento, dentro do prazo de 48 horas, feita pelo chefe do executivo e “[...] que estava havendo no país um deslocamento de tropas de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro, comandado pelo general Olímpio Morão Filho e [que] o aconselhável naquele momento era que nós fôssemos para casa [...]”.

Ao se deslocarem para suas residências, as professoras começaram a entender a gravidade da situação que se instalará no país naquele 31 de março de 1964. A cidade estava ocupada por tanques e militares do Exército. A praça da Piedade era um exemplo concreto da situação de gravidade, havia, segundo Amabilia Almeida, tanques “localizados na porta do Sindicato dos Petroleiros, invasão de outros sindicatos, e havia realmente um clima policialesco na cidade”.

Naquele contexto, a rádio torna-se o mais importante veículo de comunicação e informação, principalmente, para quem era de esquerda. A aflição e angústia de Amabília era redobrada porque o marido pertencia aos quadros de um partido que estava na clandestinidade e havia toda uma preocupação com as crianças. E, como ressalta, “não fomos só nós, foram muitas pessoas que eram ligadas ao governo de João Goulart. E corre corre, esconde esconde, e todo mundo tomando precauções”.

Eu me recordo que [...] no outro dia às 6 horas da manhã, meu marido já não estava em casa, já tinha saído, já estava num lugar que nem eu mesma sabia, e uma pessoa do PSB passou lá na minha casa e disse: “olha Amabília seu nome está na lista dos que vão ser presos. Então, se você puder caia fora, antes que isso aconteça”. Dentro assim de meia hora eu peguei meus meninos e chamei um rapaz que trabalhava conosco, a gente já tinha um carro a essa altura e botei os meninos no carro e não tive tempo de pegar nada, só fiz jogar a chave na casa da minha irmã que morava vizinha, disse: tome conta da minha casa, feche, não deixe ninguém quebrar, se chegar aqui você abre e manda entrar, sei que eles vão dar uma varrida aqui em casa atrás de mim, atrás de Luiz”.

Para escapar da prisão e do terror implantado no país, pela ditadura militar, a partir de 31 de março de 1964, Amabília teve que fugir com as duas filhas e o filho para não ter o mesmo destino de inúmeras pessoas que foram presas, torturadas, mortas e/ou encontram-se desaparecidas pelo regime militar e que, até hoje, o Estado não foi capaz de garantir aos seus familiares o direito à verdade para terem, inclusive, o direito de localizar os restos mortais dos desaparecidos e exigir medidas de reparação e de reconhecimento de culpa do Estado.

Para minha sorte, quando eu descia para ir para casa de uma outra irmã que morava lá no Santo Agostinho, numa rua mais ou menos discreta, eu passei pelo caminhão do Exército, olhei para trás, eles tinham parado na porta da minha casa. Então, por questão de segundos eu não fui presa na presença dos meus filhos. Aí nós tivemos que sair da cidade, passamos 60 dias, implantou-se assim um terror enorme, muitas pessoas foram presas. O prefeito da cidade, Vilgildásio de Senna e tantos, tantos outros companheiros foram presos a aí começou o que já se sabe [...].

Na medida em que o tempo foi passando e que houve uma ‘certa diminuição do estado de tensão’ dos primeiros meses, a professora Amabília Almeida toma a decisão de reunir os filhos que se encontravam em casas de parentes, retornar a Salvador e “reorganizar” a vida. Inicialmente, hospeda-se com os filhos na casa de uma irmã e, depois, muda-se, definitivamente, para a sua casa; constitui um advogado e apresenta-se no Quartel General para ser submetida a inquérito militar.

Fui ouvida várias vezes, queriam saber qual era a minha atuação, então, sem mistério nenhum eu contava tudo que tinha acontecido na minha trajetória, que não tinha nenhuma subversão, tinha só um desejo de valorização do professorado. A minha questão era só com a educação. Então, eles transformaram isso num inquérito policial militar e aí, por força do Ato Institucional Número 2, que afastavam todos aqueles que eram funcionários públicos das suas funções, que eles consideravam que tinham algum envolvimento ou que tinham participação em sindicatos, ordem de classe. Então, por força do Ato Institucional Número 2 (AI-2), de 27 de outubro de 65, eu fui aposentada compulsoriamente com 16 anos de serviço.

O AI-2, na redação do seu Artigo 15, ordena que

No interesse de preservar e consolidar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 (dez) anos e cassar mandatos legislativos federais, estaduais e municipais.

Além do AI-2, que de acordo com o ‘artigo 33’ suspende a Constituição de 1946 e outras prerrogativas democráticas, o governo do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco edita o Ato Complementar (AC) nº 1, também em 27 de outubro, estabelecendo as sanções a serem aplicadas contra as pessoas com direitos políticos cassados que se manifestassem politicamente, o que passou a ser qualificado como crime.

Com os direitos políticos casados, aposentada compulsoriamente e impedida de exercer função pública, a professora Amabília Almeida reunida com um grupo de antigas colegas resolve criar uma escola particular em um terreno que possuía no bairro de Matatu, em Salvador. Com o aval do marido, constroem a Escola Experimental que é inaugurada em 14 de março de 1965 e que funciona até hoje sob a direção de sua filha Lis Almeida. Amabília é enfática ao dizer que o ensino particular “Não era uma opção. Não era minha opção, minha opção era escola pública valorizada, ensino decente, professor valorizado, ganhando bem, para desenvolver a sua missão”.

Nas eleições de 1982, a professora Amabília Almeida foi eleita vereadora para a Câmara Municipal de Salvador pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro - PMDB, tendo uma atuação destacada na presidência da Comissão da Educação quando promoveu a realização de seminários para diagnosticar a situação do ensino em Salvador. A partir desses seminários que contou com a participação de diversos segmentos e entidades da sociedade (Associação dos Professores Licenciados da Bahia (APLB), SUPP, UFBA, Secretaria Municipal da Educação e Cultural (SEMEC), entre outros), e de pessoas que atuam no cenário da educação na Bahia (Iracy Picanço, Inaiá Carvalho, entre outros), foi construída a Carta de Salvador que continha as propostas sobre a educação municipal que foi entregue ao prefeito de Salvador, Mário Kertész, e que durante muito tempo norteou as ações da SEMEC, principalmente, na gestão da secretária Eliana Kertész.

Tendo participado do processo eleitoral de 1986 para a Assembléia Legislativa da Bahia, pelo PMDB, a professora Amabília Almeida ficou como suplente de deputado constituinte, assumindo de março de 1987 a dezembro de 1988, efetivando definitivamente no cargo em dezembro de 1988. Novamente, vai ter uma atuação de destaque na elaboração da Constituição da Bahia, como a única mulher eleita para aquela gestão. Neste sentido, assume a relatoria do capítulo da educação na Comissão da Educação como uma forma de “assegurar pelo menos mecanismos democráticos para a educação no [...] estado”. Assim, mais uma vez, adota a sistemática de ouvir os “segmentos organizados” da sociedade civil.

Não obstante, foi responsável pela inclusão na Constituição do Estado da Bahia de 1989 de um capítulo específico dos direitos da mulher, sendo, segundo Amabília, a única das constituições estaduais e distrital a tratar das questões relacionadas à mulher. “É a única e eu estou acompanhando para ver como essas propostas que ficaram lá na constituição estão sendo implementadas”. Amabília reconhece que muito já foi feito tomando como base as proposições do Capítulo XIX, Dos Direitos Específicos da Mulher, a exemplo da implantação do Centro de Referência Loreta Valadares para acolher as mulheres vítimas de violência e a “criação e manutenção de Delegacias da Mulher, em todos os Municípios, com mais de cinquenta mil habitantes (inciso I, Art. 281).

A elaboração desse capítulo “contou com a participação dos segmentos organizados das mulheres que tinham assim um pensamento político muito bom a respeito da situação da mulher”. Entre os envolvidos na elaboração do capítulo, Amabilia14 destaca: o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM) da UFBA; o Brasil Mulher; a comissão feminina da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a comissão de mulheres dos bancários; “tudo o que a gente pôde juntar a gente juntou e discutiu”.

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