Histórias de vida, trajetórias de formaçÃo e trabalho docente: mediações e interfaces com a história educacional da Bahia



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Considerações Finais

Estas são algumas das marcas das histórias de vida da ex-vereadora, ex-deputada estadual constituinte e professora Amabília Vilaronga de Pinho Almeida. Uma história de vida dedicada à defesa da escola pública, da valorização do magistério baiano e da democracia, contada por meio de uma narrativa translucida, empolgante, envolvente que vai delineando os marcos indispensáveis dos acontecimentos histórico-cultural, político-ideológico e socioeconômico na configuração das mudanças educacionais ocorridas entre as décadas de 40 a 90 do século passado e que condicionaram e/ou influenciaram os acontecimentos que marcaram ou até mesmo mudaram a trajetória de vida da referida professora e o contexto histórico aqui considerado.

Neste trabalho, partimos da compreensão que as histórias de vida, as trajetórias de formação e de trabalho docente são importantes fontes de informação para a composição e (re)construção da história da educação, servindo como um mosaico de referências para pensarmos, enquanto pesquisadores da história da educação, que “[...] as recordações-referências constitutivas das narrativas de formação, contam não o que a vida lhes ensinou mas o que se aprendeu experiencialmente nas circunstâncias da vida” (JOSSO, 2004, p. 43).

Ao propormos tentar relacionar nessa construção narrativa, as histórias de vida e as experiências de formação e atuação da professora Amabília Almeida como mediações e interfaces da história educacional da Bahia estamos sinalizando para a conjugação de possibilidades que nos impõem

[...] a um olhar retrospectivo e prospectivo, que tem que ser compreendido como uma atividade de auto-interpretação crítica e de tomada de consciência da relatividade social, histórica e cultural dos referenciais interiorizados pelo sujeito e, por isso mesmo, constitutivos da dimensão cognitiva da sua subjetividade” (JOSSO, op. cit., p. 60).

Finalmente, compreendendo o caráter de incompletude de toda e qualquer narrativa e para concluirmos este texto, nos referenciamos, mais uma vez, na narrativa da professora baiana Amabília Almeida,

Se a gente pudesse começar a viver novamente, eu não seria mais rígida comigo mesma. Faria do trabalho instrumento mais prazeroso. Experimentaria mais e mais minhas possibilidades e jamais deixaria de fazer coisas que tivesse vontade por mero preconceito. Buscaria mais realizar sonhos no campo das artes, que dá tanto prazer e realização. No mais, eu seria assim mesmo como eu sou. Amabília Almeida, mulher de Luiz Contreiras, mãe, avó, contente com a vida que sempre travou ao lado da família, dos amigos.

Referências

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1 As entrevistas narrativas foram desenvolvidas no âmbito da Disciplina Abordagem (Auto)Biográfica e Formação de Professores, realizadas no período de agosto a dezembro de 2008, pelos seguintes estudantes: Antônio A. Jambeiro Brandão, Rita de Cássia Ribeiro do Amor Divino, Pedro Fraz Oliveira, Marcelo Silva Borges, Marili Santos Lopes, Elilia Camargo Rodrigues, Edith Lemos Ornellas dos Santos, Telma Santana, Maria Alice Santos Ribeiro, Mônica Sâmia, Patrícia Júlia Souza Coelho, Lúcia Gracia Ferreira, Gildaite Moura de Queiroz, Márcia Tereza Fonseca Almeida, Hildália Fernandes, Rita de Cássia Nunes e Nunes, Fabíola Chafin Gomez de Pinto, Urânia da Costa Marques, e, a escolha do entrevistado/entrevistada tomou como referência os percursos de vida-formação dos educadores e a atuação na educação baiana, entre as décadas de 1940 a 1980, com destaque nas produções, atuação profissional e de que forma vivenciaram diferentes transformações no contexto do Estado da Bahia. A partir da lista construída coletivamente com o grupo e da definição de entrevistar catorze profissionais que exerceram/exercem influência no campo educacional baiano, foram entrevistados os educadores: Cipriano Carlos Luckesi, Edvaldo Machado Boaventura, Flávio Dias dos Santos Correia, Hélio Rocha, José Jerônimo de Morais, Roberto Santos e Zilton Rocha; e as educadoras: Amabília Almeida, Dilza Atta, Dirlene Mendonça, Elza Arns, Maria Anália Costa Moura, Maria Augusta Abdon e Yeda Pessoa de Castro (SOUZA, 2009).

2 No GRAFHO desenvolvemos experiências de pesquisas centradas nas práticas de formação com as histórias de vida e com a abordagem (auto)biográfica tanto em relação às práticas de formação, a construção da identidade docente, quanto em relação às memórias e trajetórias pessoais e institucionais.

3 Landulpho Alves de Almeida, Engenheiro Agrônomo com especialização em agronomia no Agriculture and Mechanical College, em 1914, no Texas, natural de Santo Antônio de Jesus/BA, nasceu em 4/9/1893 e faleceu em 16/10/1954. Exerceu os cargos de Professor Catedrático da Escola de Agronomia da Bahia e de Diretor do Departamento de Produção Animal do Ministério da Agricultura. Foi Interventor do Estado Novo na Bahia de 1938 a 1942 e Senador pela Bahia (PTB) de 1950 a 1954.

4 Isaías Alves de Almeida (1898-1968), natural de Santo Antônio de Jesus/BA, Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Bahia em 1910. Dedicou-se ao magistério antes mesmo da sua formatura, teve papel central na fundação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Bahia, que hoje integra a Universidade Federal da Bahia (UFBA). Obteve em 1931, o Masters of Arts e Instructor in Psychology pelo Teachers College Columbia University. Dirigiu o Ginásio Ypiranga, a partir de 1911, foi professor do Ginásio da Bahia e lecionou Psicologia Educacional na Escola Normal da Bahia que, futuramente, passou a denominar-se Instituto Central de Educação Isaías Alves. No ano de 1931 foi nomeado Diretor Geral de Instrução na Bahia e membro do Conselho Nacional de Educação, função que ocupou até 1958. Atuou, também, como subdiretor técnico da Instrução Pública Federal e foi chefe do Serviço de Testes e Escalas do Distrito Federal, onde trabalhou ao lado de Anísio Teixeira. Em 1934, passou a atuar como assistente técnico do Departamento Nacional de Educação e em 1938, foi nomeado Secretário da Educação e Saúde da Bahia, mesmo ano em que seu irmão, Landulpho Alves, assumiu a interventoria do Estado.

5 A Legião Brasileira de Assistência (LBA) foi fundada em agosto de 1942 pela então primeira-dama Darcy Vargas, com o objetivo de ajudar as famílias dos soldados enviados à Segunda Guerra Mundial. Com o final da guerra, se tornou um órgão de assistência a famílias necessitadas. A LBA era presidida pelas primeiras-damas. Em 1991, sob a gestão de Rosane Collor, foram feitas denúncias de esquemas de desvios de verbas da LBA que foi extinta em 1 de janeiro de 1995, no primeiro dia de governo de Fernando Henrique Cardoso.

6 Anísio Spinola Teixeira foi um dos principais expoentes do movimento educacional conhecido com Escola Nova, bacharel em Direito, nasceu em Caetité/BA, em 12 de julho de 1900, filho de um dos chefes políticos do sertão, o médico Diocleciano Pires Teixeira. No governo de Francisco Marques Góis Calmon (1924-1928), assumiu o cargo de Inspetor Geral da Instrução. Em 1928 realizou estudos de pós-graduação na Columbia University, em Nova York, aproximando-se das ideias educacionais do filósofo norte-americano John Dewey. Retorna à Bahia como professor da Escola Normal da Bahia. Em 1931, é convidado por Pedro Ernesto, prefeito do Distrito Federal, para assumir o cargo de diretor da Instrução Pública e depois secretário da Educação do Distrito Federal. Fundou a Universidade do Distrito Federal (1935), incorporada posteriormente à Universidade do Brasil. Em 1942, elabora, como um dos consultores da UNESCO, planos e metas para a educação do mundial. Em 1947, assume a secretaria Estadual da Educação e Saúde e, em seguida, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), órgão do Ministério da Educação. Faleceu em 1971.

7 O plano visava, além do bairro da Liberdade, a construção de outros centros educacionais em Salvador nos bairros de Pau Miúdo, Rio Vermelho, Brotas, Federação, Pituba e Itapagipe (ALMEIDA, 2001, p.128-129).

8 O engenheiro Luiz Fernando Contreiras de Almeida, nasceu em 1923 em Mundo Novo/BA, companheiro de Amabília Almeida, foi testemunha e protagonista ativo de muitas lutas pelas transformações sociais e sempre teve uma atuação destacada como militante e dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em sua caminhada, enfrentou três vezes os cárceres. A primeira prisão aconteceu por organizar em 28 de fevereiro de 1948, aos 25 anos de idade, um histórico comício na Praça da Sé, em comemoração ao centenário do Manifesto Comunista de Marx e Engels e pela legalização do PCB, cassado pelo governo Dutra. A segunda prisão ocorreu durante a campanha “O petróleo é nosso”, em fevereiro de 1953. Aos 30 anos de idade, passou 15 dias trancafiado na Casa de Detenção, antigo Forte de Santo Antônio. Mas, a mais violenta prisão aconteceu durante a ditadura militar de 1964. Torturado com eletrochoques pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chegou a sofrer uma tentativa de assassinato por parte do delegado Sérgio Fleury, em um sítio chamado pelos militares de “fazendinha”. Para maiores informações a respeito da trajetória do engenheiro Luiz Fernando C. de Almeida, consultar o livro do jornalista e escritor baiano Elieser César: Contreiras, Camarada Engenheiro – uma história de luta e coerência, lançado pela Caros Amigos Editora.

9 A criação da Sociedade Unificadora de Professores Primários (SUPP), ocorreu em 1947, em Salvador, a partir do movimento iniciado pela professora Lúcia Barreto de Almeida Souza contra a Portaria publicada no Diário Oficial do Estado da Bahia, de 21 de setembro de 1947, que nivelou os vencimentos das professoras primárias aos dos auxiliares de portaria (zeladores e faxineiros). Para maiores informações consultar: SANTOS JÚNIOR, Alcides Leão.

10 O tenente Juracy Montenegro Magalhães - interventor nomeado por Vargas para governar o estado da Bahia (1931-1935), durante o Estado Novo, sendo referendado pela Assembléia Legislativa até 10 de novembro de 1937. Nasceu em 4 de agosto de 1904 na cidade de Fortaleza – Ceará, filho de Joaquim Magalhães e de Júlia Montenegro Magalhães. Tendo concluído o segundo grau no Liceu do Ceará, ingressou na carreira militar, já em 1927 torna-se aspirante. Sua carreira militar foi exitosa, tendo em 1933 atingido a patente de Capitão, em 1940 de Major, Tenente-Coronel em 1945, Coronel em 1950 e General em 1957. Governou a Bahia no período de 07.04.1951 a 07.04.1963. exerceu as seguintes funções:Foi também Senador da República, deputado federal, adido militar e embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Ministro da Justiça e Relações Exteriores, tendo sido ainda o primeiro Presidente da Petrobrás e presidiu a Companhia Vale do Rio Doce.

11 O I Congresso Nacional de Professores Primários, sediado pela SUPP, foi um marco no processo de luta e organização dos professores brasileiros, contribuindo, decisivamente, para a consolidação de uma política de valorização da docência e por melhores condições de trabalho e salário em vários municípios do país.

12 A professora Iracy Silva Picanço leciona na Faculdade de Educação (FACED) da UFBA onde exerce o cargo de Vice-Diretora, gestão 2008-2012. No período de janeiro/95 a janeiro99 exerceu o cargo de Diretora da FACED. Desenvolve pesquisa sobre Educação e Trabalho.

13 O governador Antônio Lomanto Júnior (1963-1967), natural do município de Jequié, filho de Antônio Lomanto e Almerinda Miranda Lomanto, formou-se em Odontologia em 1946 pela Universidade Federal da Bahia-UFBA. No mesmo ano, casou-se com Hildete Lomanto. Com o apoio do seu sogro, Leur Brito, ingressa na política de Jequié, tornando-se, aos 22 anos, o vereador mais jovem da Bahia. Amigo do governador Otávio Mangabeira, elege-se prefeito de Jequié em 1950 e deputado estadual em 1954. Em sua homenagem o município de Barro Preto passa a ser chamado de Governador Lomanto Júnior e está situado no centro da região cacaueira, duramente afetada com a introdução na região da doença conhecida por vassoura-de-bruxa. Em 2002, possuía nove mil e cem hectares plantados, com uma produção anual de 1.425 toneladas do produto. O município Governador Lomanto Júnior era originalmente um distrito de Ilhéus, chamado então de Limoeiro, e criado pelo decreto 8.678 (de 1933). Cinco anos depois, o distrito passou a pertencer a outro, chamado Morro Redondo, passando a se chamar Barro Preto. Em 1955, com a emancipação de Itajuípe, Barro Preto foi incorporado ao novo Município. Em 1962 foi finalmente emancipada, com a lei estadual 1.678, de 17 de abril, daquele ano, sendo sua instalação no ano seguinte, quando assumira o governo do estado o ex-prefeito de Jequié, Lomanto Júnior. Este conseguira para a nova cidade suas primeiras instalações de água e luz, o que motivou a mudança do nome original - Barro Preto - para homenageá-lo. Com a lei estadual 2.449, de 1967, Barro Preto passou a chamar-se Governador Lomanto Júnior, estando no governo Luís Viana Filho.

14 Na Assembléia Legislativa, Amabilia atuou como vice-presidente das Comissões: Fiscalização e Controle (1988), Proteção ao Meio Ambiente (1989), Educação, Esportes e Serviço Público (1990), Defesa ao Consumidor (1990); titular das Comissões: Educação, Esportes e Serviço Público (1988-1989), Fiscalização e Controle (1988), CPI da Violência (1990), CPI para investigar Atividades na CNB (1988); suplente das Comissões: Constituição e Justiça (1988), Educação, Esportes e Serviço Público (1988), Direitos Humanos (1989), Proteção ao Meio Ambiente (1990).

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