Histórias do cotidiano



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Mary Del Priore



Histórias do cotidiano




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O Copyright 2001 Mary Del Prior

Coordenação de texto: Carla Bassanezi Pinsky

Preparação de originais: Camila Kintzel

Diagramação: Antonio Kehl

Revisão: Dida Bessana

Ilustração de capa: José Ferraz de Almeida Júnior. leitura, óleo sobre tela, 1892.

Projeto gráfico e Capa: Antonio Kehl


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Del Priore, Mary

Histórias do Cotidiano / Mary Del Priore. — São Paulo : Contexto, 2001.



isbn 85-7244-189-1

1. História social 2. Usos e costumes I. Título.

01-5819 CDD-900

Índices para catálogo sistemático:

1. História Social 900

2. Sociedade : Historia 900

2001

Todos os direitos desta edição reservados à



EDITORA CONTEXTO (Editora Pinsky Ltda.)

Diretor editorial Jaime Pinsky

Rua Acopiara, 199 — Alto da Lapa

05083-110 — São Paulo — SP

PABX: (11) 3832 5838

FAX: (11) 3832 1043



contexto@editoracontexto.com.br

www.editoracontexto.com.br

Sumário

Prefácio 7

Corpo 9

Artifício e corpo natural 11

Um toque de ilusão 15

Fragmentos de um discurso higiênico 17

A procura do corpo perdido 20



Entre ser e ter 23

Aborto: uma longa história 25

Família 31

O velho novo casamento 33



"Mães que dão leite e mães que dão mel" 37

Amor de pai 39

Desejo, consumo e responsabilidade 41

Beijo de mãe 43

Brinquedo perigoso 46

A arte de ser feliz junto 48



Convívio 51

Os bichos que amamos tanto 53

A sujeira é nossa 57

Panorama visto da ponte 60

Férias no sítio 63

Turistas e viajantes 65

Indiferença e modernidade 68

Da corrupção explicada a meus filhos 70

Sobre o silêncio 75

Mulher 79

No começo era a mãe... 81

Novos desafios 86

A presa mais vulnerável 89



Solidão feminina 92

Submissão no século xxi 94

Mulheres, história e perspectivas 96

Corpo a corpo com as mulheres 99

Crianças, jovens e velhos 107

Hoje, quase como antes 109

Meninas: ciranda e sexualidade 113

Crianças de rua 117

Testemunhas e vítimas 121

Nosso combate à violência 121



Uma história de singularidades 126
Prefácio

Este livro está agrupado em cinco capítulos temáticos: "corpo", "família", "convívio", "mulher" e "crianças, jovens e velhos". Diferentes dos trabalhos feitos dentro e para a universidade, tais textos têm uma preocupação simples: em vez de enfocar o extraordinário, o diferente e o novo eles preferem falar da riqueza que está mais próxima de nós, impregnada da aparente banalidade do cotidiano. Muitas vezes, é nas pequenas coisas que julgamos indignas de conhecer que encontramos a maior fonte de curiosidade. Juntamos, dia após dia, tais pequenas coisas, nada desejando modificar, nem colocar em discussão, como se tudo fosse simples e evidente. Esquecemos que somos o resultado de gestos empreendidos nas sequências mais diversas. É sobre eles que quis conversar.

Tal como qualquer conversa amistosa, este livro também se quer apenas um passeio em boa companhia. Alguém já disse que o prazer é coisa misteriosa e o que se tira de uma conversa, depende de pouca coisa: um súbito clima de conivência, uma confissão inesperada, um sorriso roubado. Isso pode ser pouco ou muito. Mas é, sobretudo, a possibilidade de poder associar a conversa a uma forma de intimidade, a uma pausa no dia-a-dia carregado que todos vivemos. Por meio de pequenos textos entendi que, como em toda a con-
versa, falar de temas variados não é tão simples assim. É preciso encontrar a boa distância de si mesmo e dos outros para fazer assunto. Mais. É preciso sair de si e ir ao encontro dos leitores. Leitores a princípio anônimos e depois, pouco a pouco, partícipes na tessitura dos fios que entrelaçam as relações humanas. Arte do instante, a conversa, como indica sua etimologia latina, significa "comércio e frequentação". Logo, uma forma de estar junto. Tais histórias do cotidiano se pretendem uma troca de informações, mas também zs de sentimentos. De afeto e simpatia. Usando a palavra como espaço de intercâmbio, querem demonstrar que, se cada vez menos há espaço para uma conversa, mais é preciso talhar-lhe um lugar. Afinal, como resumiu um conhecido historiador, "conversar é a arte de ser feliz junto"!

Certa deformação profissional obriga-me a lembrar aos leitores que tenho um débito muito grande com tudo que li e aprendi para me tornar historiadora. Anos entre livros e autores, notadamente os franceses, deixaram marcas nos assuntos escolhidos, nos temas preferidos, numa forma de ver o mundo. Outro débito é para com meus leitores. Infatigáveis nas cartas que enviam, nos comentários que tecem, no estímulo que representam, são os companheiros ideais desse passeio sem preocupações, a não ser de emprestar a escuta mais vigilante. A eles este livro é dedicado.

M.D.P.


Artifício e corpo natural

Sutiã: adereço íntimo de uso diário entre a maior parte das mulheres para acompanhar os cânones eróticos de cada época. Se, hoje, ele serve a dar maior liberdade e elegância aos gestos femininos, consistindo também em um fetiche sensual, sua função, no passado, era bem menos glamourosa. Poucos sabem que até o século XIX usava-se sutiã para corrigir o corpo. Na forma de espartilho — conta-nos o historiador francês Philippe Perrot —, era utilizado seguindo uma tradição medieval que consistia em "enrolar" em criança recém-nascida panos apertados a fim de dar-lhe mais segurança, ao mesmo tempo que modelava o pequeno corpinho. Endereçado às mulheres, ele funcionava como uma fôrma ou um estojo protetor e, sobretudo, corretor de um corpo feminino passivo e amolengado, considerado pelos médicos possuidor de postura "frágil" e ossos "tenros". Com a Revolução Francesa, o espartilho foi proscrito como símbolo aristocrático, tão condenável quanto a peruca e a espada.

No início do século XIX, sob o governo de Napoleão, o espartilho faz sua reaparição para dar respaldo à moda "Império". Essa moda exigia a redução do tamanho do espartilho que, por sua vez, deveria valorizar e separar os seios. Não era mais o caso de criar fôrmas preventivas contra a dete-

rioração do corpo, mas de incentivar subterfúgios, dissimulações e mecanismos de valorização do corpo da mulher. Eis porque aparece, em 1810, o chamado "espartilho à la Ninon". Encarregado de comprimir o estômago, apertar a barriga e realçar o colo, ele era acompanhado por saias cada vez mais amplas, armadas sobre anáguas de duríssima crinolina. A nova couraça, sobrecarregada ainda por ombreiras, respondia a uma representação do corpo feminino supostamente flácido e à noção da anatomia feminina débil.

Conservando intacto o princípio aristocrático de que o corpo não deve demonstrar qualquer sinal ou marca de trabalho físico, o cânone burguês de beleza feminina perenizava as cinturas de vespa, as extremidades pequenas e finas, as peles de pêssego. A auto-imolação no interior do espartilho foi um pouco amenizada pelo aperfeiçoamento na elasticidade dos tecidos e a substituição da pesada armadura de panos e couro por fios de aço.

Por volta de 1840, uma invenção marcava uma etapa importante na história técnica e social do sutiã: aprimoraram-se os cadarços, permitindo à mulher desnudar-se ou vestir-se sem ajuda de uma doméstica, do marido ou do amante. Salvo se quisesse apertá-lo muito, a mulher não tinha necessidade de ajuda exterior para entrar no seu sutiã. Tal fato democratizou o acessório e até incentivou sua difusão. No período da belle-époque, o sutiã consistia num espartilho dotado de duas taças em forma de pêra, cuja forma rígida estreitava-se violentamente na cintura, terminando em bico na altura da barriga. A cintura, cada vez mais apertada, tinha de contrastar de forma chocante com a amplitude das saias. Sempre comprimindo o corpo feminino, o sutiã passa a ser alvo de uma série de discussões de moralistas e higienistas. Médicos como o então famoso doutor Debay não hesitavam em acenar com sinistras estatísticas para combater seu uso:



Espero que o quadro a seguir abra os olhos de mães cegas que, na esperança de que suas filhas tenham um talhe elegante, aprisionam-nas, desde pequeninas, num espartilho inflexível. Tal quadro é resultado de 40 anos de observações. A cada 100 moças que usam sutiã: 25 sucumbem a males do peito; 15 morrem logo depois do primeiro parto; 15 permanecem doentes depois do parto; 15 tornam-se deformadas; 30 resistem, mas são afligidas, mais tarde, por indisposições mais ou menos graves.

Outro médico, doutor Verardi, acusava a forma de amarrar o sutiã nas costas como o maior perigo, afirmando que "quatro quintos das mulheres físicas teriam se assassinado pela utilização extrema dos espartilhos". O talhe fino, como vocês podem ver, matava! Deplorar seu uso, contudo, não prescrevia o hábito. Meninas continuavam a usá-lo na forma de tratamento ortopédico, mesmo sob as acusações de alguns médicos que o consideram "instrumento deformadore debilitante". Um dos objetivos desta modelagem anatômica era obter um talhe fino, valor erótico, social e simbólico muito conceituado no mercado matrimonial. Mas, com o passar do tempo, os fios de arame vão sendo substituídos por crina de cavalo e o sutiã ganha admiradores entre os moralistas, que passam a identificar uma mulher reta com uma postura de vida escorreita.

A mudança chega com a Primeira Guerra Mundial, e por razões bem mais práticas do que médicas. Um grande número de mulheres entrou para o mercado de trabalho. A socialização dos corpos em torno das máquinas exigia o uso de sutiãs para tornar os movimentos mais firmes. Não se tratava mais de um sutiã destinado a aguçar os sentidos e o desejo masculino, mas algo que protegesse e desse confiança à mulher na sua atividade diária. O primeiro sutiã — já se disse — a gente nunca esquece. Mas é bom não esquecer, também, que até ele tem história.

Um toque de ilusão

Ao passear entre as gôndolas das farmácias e perfumadas, em meio a mil cremes e cosméticos, quantos de nós dá-se conta que, sobre a cera dos corpos, sobretudo os femininos, cada época e cada sociedade imprimiu suas marcas? Marcas de um ideal ético e estético, marcas de uma ordem econômica ou de uma certa condição de classe que acabam por fabricar aparências — pela mediação de modelos higiênicos, vestimentares, cosméticos. Tomemos o exemplo da maquiagem.

O final do século XVIII combateu vigorosamente as modas da corte francesa de Luís XVI, impondo o fim das perucas, do pós brancos como cal que cobriam cabelos e fisionomias e da toalete artificial. A cosmética do século XIX herdava da Revolução Francesa uma moral baseada na vontade de "ser natural", de possuir uma beleza "sincera". Para atingir esse ideal colocou-se, entretanto, em funcionamento um novo código de beleza. Para atendê-lo, era preciso desembaraçar o rosto de suas opacidades e torná-lo um lugar onde as verdades da alma pudessem ser lidas. A valorização da intimidade e da família exigia seres "demaquilados". Rousseau, o grande filósofo iluminista, combatia a maquiagem como uma "tentativa permanente de reforma da natureza". Exortação vã! Pois o Romantismo do início do século já propunha uma nova moda: a efusão sentimental colocava em cena as cores espectrais, aquelas de reflexos amarelados, esverdeados ou azulados.

Cores que deveriam ser a dolorosa expressão do fogo interior, da doença e da morte próximas.

Sem retornar aos excessos cromáticos do Antigo Regime, mas afastando-se da palidez romântica, o meado de século XIX, ganha algumas cores. A brancura de uma pele menos sofredora continua sendo signo de uma distinção emergente. O tom claro da pele devia ser um símbolo de status, um índice de ociosidade que apenas os ricos podiam ostentar. Um sinal do dinheiro dilapidado na ação de proteger-se dos efeitos degradantes do sol e do ar. A pele curtida e amarelada dos operários e camponeses servia de contraste com a "pele doce, firme e fresca da pessoa que se cuida convenientemente", segundo Madame Celnart.

O interessante é que nesse período surge um discurso médico de apoio à brancura da tez que acabava por perpetuar a moral aristocrática da ociosidade ostentatória. Recomendava-se distância das praias e do sol, que davam colorações "anormais" à pele, sugerindo o uso de luvas, chapéus, sombrinhas e véus. Junto às proteções artificiais, promoviam toda uma cosmética clareadora feita à base de águas de morango, leites virginais, óleos de cacau, cremes emolientes, máscaras de beleza, cuja composição levava sangue de carne crua ou excrementos. Um "remédio" contra o bronzeamento, diz o Manual das damas, consiste em "lavar o rosto e o pescoço com sangue de galinha [...], sabe-se como o vapor deste sangue é favorável à pele". A aplicação de "tiras de bife" era indicada para rugas e para dar "um frescor juvenil à pele". "Urina de criança de peito" e "tecidos expostos à exalação de matérias fecais recentes", ainda que criticados pelos médicos, que temiam a introdução de "corpos estranhos nos poros", combatiam a flacidez.

A luta pela beleza não parava por aí. As técnicas de maquiagem buscavam copiar o que era belo, sem ultrapassar a natureza. Toda burguesa passa a ter sua "frasqueira de toalete".

Dizia a baronesa Staffe que "era bom que os maridos ignorassem que a beleza feminina conservava-se ao preço de mil cuidados, mas que tais cuidados não podiam evocar a natureza humana e defeituosa da mulher". Melhor, portanto, escondê-los! Por outro lado, os espelhos polidos ganhavam tamanho para refletir o crescente narcisismo. Cabia a eles reproduzir o rosto que recebia, de maneira uniforme e penetrante, a película branca do cold-cream, seguido de um toque do tamanho da cabeça de um alfinete, nas bochechas; vermelho para as morenas e rosa para as louras. A superfície assim tratada ganhava, ao final, uma nuvem aveludada de pó-de-arroz ou de amido.

Para individualizar as fisionomias — recurso já presente na pintura de Greuze e Chardin — era preciso reforçar olhos e boca. Eles eram a prova de um espírito animado e vivo. Usava-se um composto feito à base de cera virgem, óleo de amêndoas e essências de rosa e fardos escuros de restos de carvão. As sobrancelhas eram penteadas com brilhantina, enquanto outras pilosidades na face eram combatidas com pastas depilatórias, sendo consideradas "um erro da natureza"! A cabeleira, cuidadosamente tratada, participava cambem na construção desse corpo ideal de onde deveriam ser banidas as marcas da naturalidade.

É curioso observar que, desde sempre, a mulher quis desembaraçar-se de seus pequenos ou grandes defeitos. Mas essa luta revela um terrível paradoxo.— por um lado, a chantagem feroz com os signos da sedução; por outro, o risco trágico da sincera visibilidade, pois o desnudamento do verdadeiro rosto parece-lhe mortal. Sem o filtro da maquiagem, a realidade parece trair a mulher. Para essa, contudo, entre cremes milagrosos e pomadas perfumadas, importa seguir nutrindo o simulacro da sinceridade, a ilusão da verdade. É preciso salvar as aparências, pois apenas as aparências lhe permitem a ambiguidade de ser "outra" enquanto se é ela mesma.

Fragmentos de um discurso higiênico

Algumas reflexões feitas sob o chuveiro quente, num dia frio de inverno: desde quando seguir o curso histórico da água doméstica ajuda a observar as diferenças entre asseio e repugnância, entre sujeira e limpeza? Para cada cultura e para cada diferente época, a guerra entre "limpo e sujo" desenvolveu-se de um modo específico.

Na Idade Média, por exemplo, cultivavam-se as abluções completas e repetidas. Os cruzados haviam trazido do Oriente o hábito dos banhos de estufa. Esses eram lugares de alegre promiscuidade, onde os corpos eram tratados, depilados e perfumados pelas diligentes mãos do barbeiro, misturando-se à água e ao vapor. Mas o cristianismo nunca incentivou esse uso da água — basta pensar no tradicional encardido monástico —, e passou a desenvolver uma profunda desconfiança em relação aos banhos. Desde o século XVI, o anátema da Igreja abateu-se sobre as "estufas" e os banhos, sob a alegação de que aí desenvolviam-se atitudes obscenas e condutas licenciosas. Mas os constrangimentos eram também de ordem material. Com o crescimento das cidades, aos fins do século XV, não havia água suficiente ou madeira para aquecer os banhos.

Eis porque a sujeira do corpo sedentarizou-se, passando a ser familiar — mesmo entre os mais ricos e poderosos. Era preciso perfumar o corpo, mas desodorizar também as peças

da casa, as salas de baile, os salões de espetáculos. Aromas corpulentos, como o âmbar ou o almíscar, tentavam recobrir a terrível pestilência. O perfumista, homem de segredos entre o alquimista e o médico, é o grande general nessa luta olfativa. Mas será que o exagero odorífico mascarava os afeitos das flatulências fugidas a um controle esfincteriano mais rigoroso? Ou o hálito empesteado de dentes que só de vez em quando eram visitados por palitos? Pouco. Vivia-se num contexto no qual o mau cheiro era banal. O castelo de Versalhes — um dos mais belos da Europa — tinha seus corredores e escadas fedendo à urina e a excrementos de seus nobres moradores. Nele, a água só tinha função decorativa na forma de lagos, fontes e repuxos nos belos jardins. Tudo para agradar os olhos, nada para o corpo.

A penúria sanitária do palácio evidenciava-se nas anotações do médico de Luís XIV, quando, ao diagnosticar uma dermatite, justificava compenetrado. "O Rei só tomou um único banho em 1665, e por razões de saúde!". No restante do tempo, aquele que ficou conhecido como o Rei-Sol limpava seu rosto em um afgodão embebido em vinho branco — uma vez a cada dois dias. Versalhes possuía em seu mobiliário um total de 274 "chaises-percées", ou seja, lindas poltronas em madeira entalhada e dourada, cujo assento clava passagem a um penico estrategicamente colocado. No rol de roupas contabilizavam-se os chamados "acessórios de comodidade" (que tinham a função do nosso papel higiênico). O de Madame du Barry eram de renda. Os de Richelieu, de linho; os de Madame de Maintenon, de fina lã. Os pobres faziam como os antigos gregos, servindo-se de plantas e pedras. A burguesia utilizava-se de estopas. Apenas sob o reinado de Luís XVI, na segunda metade do século XVIII, será construído um verdadeiro "gabinete de bem-estar'' em mármore, porcelana e mogno.

A utilização da água era desaconselhada para tratar todo e qualquer excreto do corpo. Um livro de medicina de 1671 incitava as mães a só limpar o rosto e os olhos dos filhos com um pano. No século XVIII, a água começa a chegar lentamente, discreta mas possível, agregando-se aos ritos da vida cotidiana. Ao longo do rio Sena multiplicam-se os banhos públicos, onde banheiras possuíam entradas para deixar passar a corrente. O mobiliário sanitário ganhava inovações. O bidê, de estanho ou porcelana, chamado "o confidente das damas", encarregava-se da higiene íntima mas também, em tempos libertinos, de cuidados contraceptivos. As banheiras, que tanto podiam ser alugadas quanto compradas, adquiriam a forma confortável de poltrona, canapé, leito ou chaise-longue. Tais banhos, jamais tomados no inverno, incentivaram a elite a construir "apartamentos para o banho".

O final do século XVIII anunciou uma revolução olfativa que com muito custo chegou aos nossos dias. Com a emergência da burguesia e de seus hábitos de privacidade, passa a ser mais importante "cheirar bem" — aliás, prova de um caráter são — do que camuflar-se dos odores desagradáveis. As narinas abrem-se a fragrâncias sutis e delicadas e até os móveis passam a ser confeccionados com madeiras olorosas. Águas de melissa, junquilho, violeta, essências de canela e anis, pomadas de rosas e lírios passam a revestir o corpo indolente do burguês. A palheta de perfumes manuseada, a partir dessa época, não serve mais para limpar, mas para seduzir. E a geografia física e moral da limpeza vai adquirindo, pouco a pouco, os contornos que são os nossos.

À procura do corpo perdido

A feiúra é universal, onipresente. Ninguém ousou escrever sua história, nem aquela da solidão e da dor, suas consequências mais imediatas. Há séculos os feios servem de bode expiatório a sociedades muito seguras de suas verdades ou do discurso de suas elites, sempre dispostas a determinar o modelo ideal de "patricinhas & mauricinhos", "peruas & marombeiros". Com a supremacia da imagem na vida do homem moderno, nossa época contínua a instaurar a tirania da perfeição física. Hoje, todos querem ser sadios, magros, jovens. Grassa uma verdadeira lipofobia. Todos parecem querer participar da sinfonia do corpo magnífico, quase atualizando as intolerantes teses estéticas dos nazistas.

Na outra ponta, criaturas como madre Teresa de Calcutá conheciam de perto os horrores do sofrimento físico. Numa entrevista, ela dizia que o trágico da "feiúra" de um leproso era sua solidão, o fato de ser indesejável, não amado, rejeitado. Que se podia fazer tudo por um corpo em sofrimento, mas nada por esse "outro" sofrimento feito de negação. Anônimos, os que não são belos simplesmente recusam seus corpos. Tanto mais quando vivemos hoje a supremacia da aparência. A fotografia, o filme, a televisão e o espelho das academias dão ao homem moderno o conhecimento objetivo de sua própria imagem, mas também a forma subjetiva que ele deve ter aos

olhos de seus semelhantes. Em uma sociedade de consumo a estética aparece como motor do bom desenvolvimento da existência. O hábito não faz o monge, mas quase... A feiúra vivida como um drama. Daí a multiplicação de fábricas de "beleza", cujo pior fruto é a clínica de cirurgia plástica milagrosa. Os pagamentos "a perder de vista" com "pequenos juros de mercado" parecem garantir, graças a próteses, a constituição de um novo corpo: formal, mecânico, teatral. Corpo que é a efígie do desejo moderno, desejo derrisório de uma perpétua troca das peças que envelhecem—, de nádegas a coxas e panturrilhas.

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