Histórias sobre os sujeitos com corpos ‘outros’



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HISTÓRIAS SOBRE OS SUJEITOS COM CORPOS ‘OUTROS’

Viviane Castro Camozzato – Mestranda pelo PPGEdu/UFRGS, bolsista do CNPq

Elisabete Maria Garbin – Professora da FACED/UFRGS e PPGEdu/UFRGS

[...] o que salta aos olhos quando olhamos o mundo de hoje é, precisamente, a realidade de que nosso mundo é um mundo no qual a presença de seres diferentes aos demais, diferentes a esses demais caracterizados pelo espelhismo da normalidade, é vivida como uma grande perturbação. (FERRE, 2001, p. 197)



O papel das histórias na constituição dos sujeitos: uma brevíssima introdução
Como nos constituímos? Como os ‘outros’ são construídos? Essas perguntas, que invertem a lógica da descoberta da essência do que ‘somos’, ou mesmo da natureza que teria criado os ‘outros’, invertem a lógica balizadora das tradicionais questões: o que e como nós somos? Quem e como são os ‘outros’? Estas últimas questões, baseadas na lógica do sujeito unitário, estável e fixo, não estão ancoradas às perspectivas pós-modernas e pós-estruturalistas de análise, em que a linguagem e a cultura são tomadas como constitutivas, e os sujeitos vistos como construídos através de processos e fluxos discursivos.

Além disso, as histórias têm um papel particularmente importante nos processos de constituição, pois estão no cerne do que nós estamos, cotidianamente, nos tornando. O narrar, contar uma história, posiciona, como salienta Moita Lopes (2001), tanto os contadores dessas histórias – através dos modos como representa os personagens –, como os que a ouvem/lêem, identificando-se com os seus personagens e/ou com quem conta a história. E, como Moita Lopes, a partir de Carrithers, afirma: “contar histórias é uma forma de fazermos coisas uns com os outros” (ibidem, p. 63). É assim que os modos pelos quais pessoas nomeadas como gordas são narradas, por exemplo, nos ciberespaços da internet, constroem esses sujeitos, os próprios escreventes e os leitores que, em meio a tal prática discursiva, poderão [ou não] identificar-se com as histórias contadas, assumindo [ou não] determinadas ações frente ao que foi lido. Embora possamos visualizar, algumas vezes, ações imediatas frente a tais histórias, o que parece ser mais significativo são as construções de modos de ver a si e aos ‘outros’ que tais narrativas proporcionam. Ora, se precisamos do ‘outro’ para nos constituir, as histórias que cotidianamente nos interpelam, falando de ‘nós’, falando dos ‘outros’, demarcam posicionamentos, visões de mundo, pertencimentos e exclusões construindo, em suma, identidades sociais.

Para dar prosseguimento a este estudo, saliento que por considerar que as formas de nomear o ‘outro’ e a si mesmo vem, na contemporaneidade, tomando cada vez mais força através de aspectos relacionados ao corpo, abordarei essa temática em relação com a questão das diferenças. Considero, portanto, que os corpos que temos – e que nos possuem – tem os seus significados construídos na cultura que, dentre as estratégias de nomeação de si e do ‘outro’, utilizam as histórias sobre... para dotar de significado certos grupos, como pretendo focalizar daqui para a frente.
Corpos e diferenças em co-afetação
A sociedade contemporânea vem sendo eficaz na tarefa de construir parâmetros de normalidade que servem para gerir as vidas, operando através de normas direcionadas às vidas de todos e de cada um. Dentre os parâmetros inventados, aqueles que se direcionam ao corpo parecem ser revestidos de grande força e legitimidade, operando através de discursos advindos da Estética, Biomédica... enfim, de uma ordem tecnocientífica-empresarial, como assinala Sant’Anna (2002). A partir disso são produzidas estimulações para que o corpo seja de determinadas formas, inserindo-o numa rede de controle ilimitada e contínua porque não centrada apenas dentro de imóveis e instituições como ocorria na sociedade disciplinar. Rede de controle que produz sujeitos através da TV, jornais, revistas, sites, blogs, comunidades do orkut, músicas, enfim, através de variados tentáculos que se espalham eficazmente na esfera social.

A partir destes direcionamentos sobre as nossas vidas, situados histórica e socialmente, o corpo vai revelando-se como o que de mais belo e importante possuímos, já que cuidar deste novo ‘templo’ “significaria [...] o melhor meio de cuidar de si mesmo, de afirmar a própria personalidade e de se sentir feliz” (SANT’ANNA, 2002, p. 99). É assim que o corpo aparece, atualmente, como o lugar por excelência da exposição da subjetividade de cada um e, conseqüentemente, como o principal alvo dos cuidados que outrora eram destinados à alma.

Com o tema ‘corpo’ sendo posto cada vez mais em evidência na cultura contemporânea, tornando-se alvo crescente dos nossos investimentos e cuidados, parece residir nele, portanto, a verdade do que nós somos, enquanto aquilo que nos marca, distingue e diferencia enquanto seres humanos. Além disso, desde outras culturas intervimos no corpo a fim de embelezá-lo e fortalecê-lo, para realizar distinções relacionadas tanto ao estatuto social quanto a questões que envolvem pertencimentos e exclusões, enfim, abrangendo uma infinidade de finalidades (SANT’ANNA, 2000). Nesse sentido, as intervenções corporais não são algo recente em nossa história, pois ao longo dos séculos diferentes povos preocuparam-se em produzir distinções em seus corpos, enquanto território produtivo para as atribuições de sentidos. Nessa perspectiva, o corpo, enquanto um híbrido entre o biológico e a cultura, tem suas significações amarradas nos tempos e espaços em que está inserido.

Parece que estamos, irremediavelmente, enredados em intervenções nos corpos para barrar as inscrições do tempo que passa e, por outro lado, enredados nos olhares que lançamos para nós mesmos pois, nesse processo, a sensação de ‘desencaixe’ frente aos parâmetros que estão gerindo os corpos nos direciona à solução mais comum, e por isso já banalizada, que é intervir nesse corpo, transformando-o. Os que não participam desta lógica são os bárbaros contemporâneos, ou seja, dentro dos ditames da beleza e saúde atuais, os bárbaros da atualidade são aqueles que parecem não cuidar de si, que significa, na atualidade, não conseguir atingir e manter os ideais de perfeição corporal e saúde. Assim, um dos grandes pecados que nossa era vem inventando é a de que, se somos nós, responsáveis por gerir os nossos corpos, então não corresponder aos ditames da saúde, da beleza e da educação física se torna um grande pecado e o sujeito, por conseqüência, o pecador.

Nesse contexto, onde o corpo é considerado como o que de mais privado e passível à criação nos restou, aqueles que não estão em consonância com os padrões de estética corporal atuais se tornam os ‘outros’, ou seja, os diferentes, os anormais: os que não estão respondendo corretamente aos discursos contemporâneos. Assim, observar, narrar, avaliar, classificar, particularizar, medir, comparar, eis uma infinidade de estratégias criadas para ordenar e tornar produtivos os sujeitos e seus corpos. Aprendemos cotidianamente, por outro lado, a supor que existem ‘marcas’ nos corpos que nos dizem, fielmente e quase sem engano, como são os aqueles que estamos enquadradando. Tais ‘marcas’ mostrariam as diferenças como efeitos da natureza, e não como um processo de fabricação cultural, social e histórico, datado e localizado dentre de certos regimes discursivos que atribuem valores específicos aos diferentes modos de existência. Na atualidade passamos a acreditar que através do corpo podemos mostrar como realmente somos, como se o “ser” de um modo não fosse a simples apreensão, momentânea, de um dos vários modos de ver uma existência que se esvai a cada instante.

Desse modo, argumento que a centralidade do culto ao corpo investe-se sobre sujeitos individuais e coletivos, instaurando modos específicos das pessoas lidarem com os seus corpos, cuidarem dele, o adularem e venerarem. Não através de uma relação de causa e conseqüência, esse apelo para que cada indivíduo se volte para si mesmo, para o próprio corpo – como o que de mais privado cada sujeito possui, já que o corpo tornou-se um objeto a ser possuído e consumido – aumenta proporcionalmente os sentimentos e reações de ódio, desprezo, crueldade, humilhação e hostilidade àqueles que, através dos seus corpos, demonstram um submetimento menor aos discursos sobre o corpo, ou mesmo àqueles que devido a questões fisiológicas tem as suas possibilidades de enquadramento nesses discursos diminuídas. Nesse sentido, vejo um elo, indissociável, entre os modos pelos quais cada sujeito se vê, se cuida, e, conseqüentemente, os modos pelos quais esses indivíduos vêem esses ‘outros’, que muitas vezes são narrados como gordas, gorduchas, baleias, rolha de poço, free willy, canhão, entre outros1.

Para dar visibilidade a alguns dos modos pelos quais as modalidades humanas caracterizadas como gordas são nomeadas, trago um excerto extraído do site de relacionamentos Orkut, mais especificamente na comunidade Eu odeio gordas que se acham, dentro do tópico ‘Você tem alguma história engraçada de gorda?’

Pathy Essa historia nem eh engraçada, mas eh mto.... 21/11/2004 06:19


Irritante
Pessoal... eu fui num show ontem (20/11)e por azar, fiquei rodeada de gordas/os... a primeira cena foi engraçada.. olho pra pista... vem uma gorda gigantesca com um cabelo mal pintado de loiro... uma blusa rosa com uma florzinha de pano rosa pink na blusa... uma saia mto curta marron e um sapatinho {ou tenis, sei lah} rosa tbm.. ahhahaha.. ela correndo pareceu uma vaca feliz no campo!!
Depois começou as cenas irritantes: Uma gorda na minha frente cum um cabelo cumpridu e nojentu solto (num show de rock??!!) e falandu altu e si achandu td... falandu altas mintiras prum cara q tbm era gordu q tava nu ladu dela.. nossa.. ela si achava mtooooooo... du meu ladu uma outra gorda loira falsa, mais tiazona jah... cum uma roupa mto piniquenta (como eu sei? qdu começou o show ela qs mi derrubou cum akelis braços gordos e suadus ... na primeira music jah tava td nojenta.. iéca!) e du ladu meu outru ladu.. um gordu nojentu tbm.. na primeira music jah tava fedendu e suadaum (esse tbm si achava mto!!).. mi impurrou um monti ateh fica na minha frenti.. tbm bati mto nas costas nojentas dele.. ahuahuah.. depois resolvi ir mais pra tras.. pq akele ambiente tava mto inospito.. ahuahuahuhauhauah.. eh issu aí galera.. apesar da pessima experiencia cum gordos/as nojentos/as e q se acham mtuuuuu o show foi mto bom2

O que vemos é a marcação sobre quem é o ‘diferente’, ‘estranho’, a ‘aberração’, o ser ‘bizarro’ – conforme nomeações que são referidas às mulheres consideradas gordas em alguns espaços virtuais –, enquanto estratégia de fabricação, localização e ‘diminuição’ desse ‘outro’. Para receber o selo de ‘outro’ este ser precisa surpreender, perturbar, inquietar frente o status quo, pois se o ‘mesmo’ se vê refletido nele, ele não é o ‘outro’, e sim um igual à referência. As estratégias narrativas sobre quem são os ‘outros’ servem como garantia para a construção de valores sobre as diferenças que, por serem produzidas na linguagem, nos processos de significação, ‘necessitam’ de um espaço de visibilidade para serem faladas e indagadas em sua própria diferença. No caso da história contada anteriormente, podemos indagar: quem está falando? Uma jovem que se situa – e é situada – dentro dos atuais padrões corporais para falar de si ao estar falando do/e pelo ‘outro’, que não tem como falar de si próprio. Nessa situação específica, provavelmente por estar confortável na sua posição de ‘normal’, a narradora da história encontra-se autorizada a definir o diferente através do controle dos significados sobre esses sujeitos. Enfim, o ‘outro’ é falado, narrado e produzido como fora do padrão e, desse modo, pessoas como a jovem citada se constroem e se reafirmam como indivíduos ‘normais’. Uma busca, em suma, de construir pertencimentos e exclusões através da criação de fronteiras entre os tidos como ‘normais’ e os ‘anormais’.

Ademais, por ser “exigido do feminino, de forma mais contundente, seguir ‘normas’ que regrarão seus corpos” (SEFTON; MARTINS, 2004, p. 280) é que se evidencia mais, nos variados ciberespaços da internet, manifestações de desprezo contra as mulheres gordas, não englobando, na maioria das vezes, os corpos dos homens gordos. “Corpos estes [das mulheres e dos homens] que ‘falam’, que nos apresentam para a sociedade, que dão ‘recados’ de como somos (ou achamos que somos) ou ainda de como gostaríamos que os outros nos interpretassem” (ibidem, 2004, p. 280).

Importante salientar, ainda, que as escritas sobre os ‘outros’ não são produções ‘individuais’, pois tiveram condições de possibilidade para emergir numa cultura em que há o silenciamento e a negação de modos outros de ser e perceber o mundo. Podemos pensar, desse modo, em toda uma discursividade que produziu a enunciadora do excerto exposto anteriormente, possibilitando que ela expressasse o seu desprezo às pessoas gordas. Afinal, estamos inseridos numa cultura em que este tipo de enunciado é construído, legitimado, disseminado, tornando-se um regime de verdade. Por compreender que as nossas formas de pensar são construídas a partir dos significados que para nós chegam com mais ou menos força – disputadas através da luta pela imposição de sentidos, envolvendo as relações de poder – é que não posso desconsiderar, também, que “todo discurso é ocasionado. Todo discurso ocorre em circunstâncias sociais específicas” (ROSE, 2001, p. 6). Devido a isso, temos que considerar a existência de uma rede discursiva que fabrica e re-fabrica significados para os diferentes modos de existência humana que aí se encontram enunciadas ou não, atribuindo-os valores específicos.

Além disso, como afirma Silveira (2002), “Os textos são produzidos a partir de discursos e de linguagens [...] que não apenas (e não principalmente) ‘expressam’ e ‘comunicam’ – como as análises clássicas das funções da linguagem nos ensinavam – mas também ‘constroem’ e ‘constituem’ a realidade” (p. 19). Com isso quero reiterar que as escritas tornadas públicas no Orkut – assim como em outros espaços – que demonstram ódio às pessoas nomeadas como gordas, não são a simples expressão da ‘verdade’ dos comunicantes ou dos alvos da comunicação, mas artifícios produtivos para a fabricação dos significados e imagens criadas sobre os sujeitos nomeados como ‘outros’ incluindo, ainda, as imagens que esses ‘outros’ tem de si. Afinal, como salienta Moita Lopes (2001), através das práticas narrativas os sujeitos são construídos, assim como constroem os outros e se ligam ao mundo social. Desse modo as práticas narrativas podem ser vistas como ações devido ao que produzem, e analisá-las nos possibilita ter “acesso à socioconstrução das identidades sociais” (ibidem, p. 63). Os efeitos das histórias que contamos e que nos são contadas podem ser visualizados no excerto destacado a seguir, em que a autora demonstra o seu sentimento em reação a piadas e gozações – construídas nas contingências macro-sociais que nos atravessam, e que, de fato, atravessaram membros do seu meio familiar:

Ando meio magoada com as pessoas

em especial as da minha família

domingo fiz um almoço pro meu pai,

Depois de mais de 1 ano sem nos vemos.

Tudo poderia ter saído bem, mas não foi assim.

poxa quando você fica muito tempo sem ver

alguém, não espera que a primeira coisa que ela

fale e o quanto você esta gorda e coisas do tipo

Brincadeiras sem graça que consegue derrubar e humilhar qualquer um.

Bom foi isso que aconteceu

Eu estava tão ansiosa por esse almoço.

Mas meu pai fez questão de estragar

ao chegar falando mal da comida,

colocando defeito em tudo.

Mesmo sabendo que eu não cozinho tão bem

Ha não ser doces, isso infelizmente eu sei fazer.

Na verdade na hora que ele chegou ao invés

De falar "oi”, foi logo falando:

"nossa você esta bem mais gorda hein?”.

Ate então tudo bem, mas piadas do tipo.

Deixa-me subir primeiro na escada porque vai que vc entala

Ou do tipo “nossa se você virar muito na cama é capaz de esmagar alguém”.

Me detonou, o pior foi ouvir esse tipo de coisa do meu pai.

E na frente de todos que estavam aqui, eu me senti humilhada.

Detonada.Claro que sei que estou gorda, sei que tenho que emagrecer.

Mas mesmo assim isso não e motivo pra ninguém usar como piada

to ate hoje meio pasma e chateada3.


E mesmo a declaração de Érika, que nos relata como engordou e, posteriormente, o que a motivou a buscar o emagrecimento. Incluindo, no desfecho, a contribuição do seu blog e da sua rede de amizade construída nesse espaço, como pode ser exemplificado:
Meu nome é Érika, tenho 31 anos, sou casada, mãe de lindo garotinho chamado Eduardo. Moro na cidade de Mogi das Cruzes-SP e como muitas outras pessoas estou lutando para tentar emagrecer. Vou contar um pouco de como tudo começou.
No ano de 1997 cheguei a pesar 120 quilos, resultado de um acidente que sofri no Japão em 1996. Quando retornei ao Brasil, todos ficaram muuito espantados, e com toda a certeza, pois antes de embarcar para o Japão eu pesava 65 quilos. Determinada a emagrecer fiz todo tipo de tratamento médico, desde a ingestão de medicamentos a dietas malucas. Do ano de 1997 até o ano 1999, emagreci 23 quilos, chegando aos 97 quilos e mantive este peso até o ano de 2001. Em outubro de 2001 engravidei e no final da gestação, após o nascimento do meu filho, estava pesando 116 quilos. Não tive maiores problemas para perder os quilos adquiridos na gestação, porém em janeiro deste ano, fomos ao Parque Aquático Wen't Wide, ao lado do Hopi Hari, e lá passei por uma situação muuito constrangedora, que não tive coragem de contar para ninguém até hoje. Estava com meu filho, para variar estava correndo atrás dele, quando passei na frente de um grupo de jovens e escutei um deles comentar: - Nossa!!! Que horror!!! Que japonesa mais gorda? Ninguém merece ter uma visão dessas neste dia tão lindo!!! e todos começaram a rir. Para piorar a situação, eu tinha que passar na frente deles novamente, e escutei outro comentário: - Ah não, assim não dá! Será que ela não se toca. Gente.....me senti muuito mal, fiquei com vontade de chorar e passei o resto da tarde deitada na espreguiçadeira super deprimida. Até então,eu não tinha a noção do quanto estava obesa, e do quanto nós somos penalizados e massacrados por causa disso. O melhor de tudo é que, esse comentário maldoso mudou minha vida!!! Foi a gota d'água!!! Então comecei uma dieta com o auxílio de uma nutricionista e descobri que não existe nem uma mágica para emagrecer, o segredo é a reeducação alimentar combinada com atividade física diária para queima de calorias. Mas, tudo era muuito monótono... e para seguir o cardápio da dieta que ela havia me passado eu tinha que, ou ganhar muuito bem, ou ter maridão rico que bancasse tudo, e como não tinha nem uma coisa e nem outra, desisti. Mas não engordei, muito pelo contrário, até que perdi alguns quilos. Até que um dia, navegando pela internet descobri as blogueiras light através da Revista Dieta Já, e fiquei muuuito interessada. Como não entendia nada de Blog e de HTML, pedi uma ajudinha para um primo, o querido Rafael, que me ajudou a montá-lo. No começo tudo era muito tímido, tinha vergonha de postar, era desconfiada, até que recebi meu primeiro comentário e conquistei minha primeira amiga light a Camila, logo vieram mais e hoje já são muitas. O resultado de tudo isso? Você pode conferir logo abaixo, quando iniciei meu blog em 22/07/20054.
As notícias e informações que nos chegam através dos mais variados espaços contemporâneos gravitam, diversas vezes, em torno dos males da obesidade, assim como dos modos de cuidar do corpo e da saúde, incluindo ensinamentos sobre os procedimentos relacionados com a lipoaspiração, cirurgia plástica, etc. Como formas produtivas de construção de sujeitos e realidades, os ensinamentos urdidos nas tramas da cultura produzem. Produzem diferenças, (pre)conceitos, normas, padrões estéticos e de comportamento, singularidades, efeitos... Desse modo, creio que as histórias selecionadas apontam a reverberação destes discursos, pois eles confluem nos modos de subjetivação que incitam, os quais podemos ter ‘acesso’ através das narrativas que expõe o ‘outro’ e, por outro lado, através das que dão a palavra para que esse ‘outro’ fale, diga a sua palavra e diga de si.

Creio que há se pensar que “todos nós, como sujeitos discursivos, deveríamos ser sensíveis às dimensões que fazem da linguagem cotidiana um lugar privilegiado de consagração do preconceito, do desprezo, do repúdio, da ridicularização e, mesmo, do ódio” (SILVEIRA, 2002, p. 22). Nesse sentido, as histórias selecionadas neste estudo demonstram o quanto criamos e recriamos, a todo instante, outros-outros enquanto nós, os ‘mesmos’, nos auto-afirmamos. Ora, enquanto criações, as diferenças não são dadas, naturais, ou mesmo estáticas, mas são tornadas diferenças em relação a outras diferenças que, aliás, se dão nas tramas do cotidiano, através de discursos assumidos na forma de ‘verdades’.

Além disso, os modos dos sujeitos se voltarem para os seus corpos relaciona-se, dentre outros aspectos, com a afirmação de que o modo como nós estamos sendo está relacionado com a imagem que os outros tem de nós, já que esses outros são de máxima importância para a nossa constituição – e é por isso que as narrativas que ‘dizem de si’ são tão doídas, já que são constituídas em relação a outras narrativas e enunciações que ‘dizem dos ‘outros’’. É assim que, como afirma Kehl:

o espelho que importa, para o humano, é o olhar de um outro humano. A cultura contemporânea do narcisismo, ao remeter as pessoas continuamente a buscar o testemunho do espelho, não considera que o espelho do humano é, antes de mais nada, o olhar do semelhante. É o reconhecimento do outro que nos confirma que existimos e que somos (mais ou menos) os mesmos ao longo da vida, na medida em que as pessoas próximas continuam a nos devolver nossa "identidade" [...] (2005).

Assim como o olhar e, por conseguinte, a aprovação de si no olhar do outro funciona como um modo de percebermos que estamos em consonância com o que esperam – e esperamos – de nós, os processos de identificação são, também, importantes balizadores das relações que mantemos. Nesse sentido, as discussões realizadas no âmbito dos estudos culturais contemporâneos que tratam das imbricações entre a identidade e a diferença torna-se importante para o entendimento do quanto “O Eu e o Outro estão de fato tão entrelaçados que, para pararmos de falar n’eles’, é preciso parar de falar de ‘nós’” (RIGGINS, 1999, p. 6). Como aponta Gustafsson (1999, p. 125):

No se da la identidad [...] em si, sino em función de la diferenciación frente a otros, los cuales a su vez adquieren identidad al diferenciarse de los demás. Pero las señas de estas diferenciaciones – lengua, costumbres, fisonomía, origen espacial, cosmovisión, etcétera – no adquieren su significación sino en la creación de imágenes de identidad y alteridad, de una conciencia de lo mismo y lo otro.

Desse modo, podemos compreender as identidades – os modos pelos quais cada um dá sentido a si e aos diferentes grupos – como sendo produzidas através de processos de diferenciação, ativados no movimento de identificar-se e desidentificar-se frente aos outros. A identidade, como Hall (2002) e, mais recentemente, Bauman (2005) discursos que atravessam os indivíduos convidando-os a ocuparem uma ou outra posição de sujeito.

Retomando Gustafsson (1999), que menciona os sinais das diferenciações, talvez se possa dizer que este trabalho buscou, modestamente, chamar a atenção para o quanto o corpo vem sendo um importante sinal de diferenciação na contemporaneidade – corpo que assume seus significados através de processos que criam o ‘outro’ e o ‘mesmo’. E também, por outro lado, sinalizar que em meio aos processos constitutivos as histórias que são contadas sobre [e para] nós, assim como as que tramamos ao rememorar acontecimentos de nossas vidas, são constituidoras dos nossos ‘eus’ e, por conseguinte, estão no cerne do que estamos nos tornando.


Referências
BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

FERRE, Nuria Pérez de Lara. Identidade, diferença e diversidade: manter viva a pergunta. In: LARROSA, Jorge; SKLIAR, Carlos (Orgs.). Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

GUSTAFSSON, Jan. Figuras de la alteridad: visiones danesas de América Latina. In: CRISTOFFANINI, Pablo R. (Comp.). Identidad y otredad en el mundo de habla hispánica. México: Universidad Naciona Autónoma de México, 1999.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

KEHL, Maria Rita. Com o outro no corpo: o espelho partido. Folha Mais! http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200507.htm. Extraído em 11 dez. 2005.

MOITA LOPES, Luiz Paulo da. Práticas narrativas como espaço de construção das identidades sociais: uma abordagem socioconstrucionista. In: RIBEIRO, Branca Telles; LIMA, Cristina Costa; DANTAS, Maria Tereza Lopes (Org.). Narrativa, identidade e clínica. Rio de Janeiro: Edições IPUB/CUCA, 2001.

RIGGINS, Stephen Harold. The retoric of othering. In: ______ (ed.). The lenguage and politics of exclusion. London: Sage, 1999.

ROSE, Gillian. Visual methodologies-an introduction to the interpretation of visual materials. London: Sage, 2001.

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Descobrir o corpo: uma história sem fim. Educação & Realidade, Porto Alegre, v.25, n.2, jul/dez 2000.

______. Transformações do corpo: controle de si e uso dos prazeres. In: RAGO, Margareth; ORLANDI, Luiz B. Lacerda; VEIGA-NETO, Alfredo (Orgs.). Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

SEFTON, Ana Paula; MARTINS, Jaqueline. Representações de corpo na literatura infanto-juvenil. In: CARVALHO, Marie Jane Soares; ROCHA, Cristianne Maria Famer (Orgs.). Produzindo gênero. Porto Alegre: Sulina, 2004.

SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. Textos e Diferenças. Leitura em Revista. Ijuí. Associação de Leitura Brasil Sul, n.3 jan//jun 2002.

Referência:

CAMOZZATO, Viviane Castro; GARBIN, Elisabete Maria. Narrativas sobre os sujeitos com corpos outros. In: II Seminário Brasileiro de Estudos Culturais em Educação (2º SBECE)., 2006, Canoas/RS. p. 01-10.



1 Apelidos expostos na comunidade Eu odeio gordas, pertencente ao Orkut.

2 Nesse excerto, assim como nos demais que constam neste estudo, a escrita está sem nenhum tipo de correção ortográfica de minha parte para manter a fidelidade às possíveis inscrições relativas a classes sociais, de gênero, de geração, etc., bem como para preservar as linguagens internáuticas utilizadas.
3 Excerto extraído do diário virtual Emagrecendo, localizado no endereço http://emagrecendocomblog.zip.net/

4


 Diário de emagracimento, localizado no endereço http://diario-de-emagrecimento.blogspot.com



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