Histórico do biodiesel e suas perspectivas



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(histórico)

HISTÓRICO DO BIODIESEL E SUAS PERSPECTIVAS

Prof. Juan Algorta Plá



Julho 2003
A idéia de aproveitar os óleos vegetais como matéria prima para combustíveis não é nova, já que as primeiras experiências com motores de combustão por compressão foram conduzidas com óleo de amendoim. No ano 1900, o próprio Rudolph Diesel apresentou um protótipo de motor na Exposição Universal de Paris, que foi acionado com óleo de amendoim, cultura que era muito difundida nas colônias francesas na África. No entanto, a abundância da oferta de petróleo e o seu preço accessível, determinaram que, nos anos seguintes, os derivados do petróleo fossem os combustíveis preferidos, reservando os óleos vegetais fossem para outros usos.
Por outra parte, os óleos vegetais apresentavam dificuldades para se obter uma boa combustão, atribuídas a sua elevada viscosidade, a que impedia uma adequada injeção nos motores. O combustível de origem vegetal deixava depósitos de carbono nos cilindros e nos injetores, requerendo uma manutenção intensiva. A pesquisa realizada para resolver esses problemas conduziu à descoberta da transesterificação, que é a quebra da molécula do óleo, com a separação da glicerina e a recombinação dos ácidos graxos com álcool. Este tratamento permitiu superar as dificuldades com a combustão. Um cientista belga, G. Chavanne, patenteou o processo de produção em 1937 (Knothe, 2001).
Do ponto de vista químico, o produto da reação do óleo com o álcool é um éster monoalquílico do óleo vegetal, cuja molécula apresenta muita semelhança com as moléculas dos derivados do petróleo. O rendimento térmico do novo combustível é de 95% em relação ao do diesel de petróleo, ou seja que, do ponto de vista prático, não se percebe qualquer diferença. Os primeiros a utilizar a feliz denominação de biodiesel para esses combustíveis foram pesquisadores chineses, em 1988 (Knothe, 2001).
Na década de 30, o governo francês incentivava as experiências com o óleo de amendoim visando a conquistar a independência energética (Knothe, 2001). Durante a II Guerra Mundial, o combustível de origem vegetal foi utilizado extensamente em vários países, incluindo a China, a Índia e, obviamente, a Bélgica. Em 1941 e 1942, havia uma linha de ônibus entre Bruxelas e Louvain, que utilizava combustível obtido a partir do óleo de palma (Knothe, 2001)
A II Guerra Mundial cortou as líneas de abastecimento e causou aguda escassez de combustíveis, estimulando a busca de sucedâneos. Porém, o desenvolvimento dos combustíveis de origem vegetal foi praticamente abandonado quando o fornecimento de petróleo foi restabelecido: no final da Guerra: a abundância de petróleo importado, especialmente do Oriente Médio, por preços muito accessíveis, desestimulava a utilização de combustíveis alternativos.
Sabe-se atualmente, que os motores a diesel podem ser adaptados para utilizar, como combustível, os óleos vegetais in natura (sistema elsbett). No entanto, o método belga, de transformação dos óleos, parece mais adequado para resolver o problema do transporte, já que não requer qualquer modificação nos motores.


O biodiesel no Mundo

O biodiesel vem sendo extensamente utilizado na Europa, principalmente na Alemanha e na França, que aproveitam os excedentes de óleo de colza. Essa cultura teve forte expansão como conseqüência da Política Agrícola Comum, de 1991. O objetivo dessa política foi eliminar o excesso de produção de óleos comestíveis, sem eliminar os subsídios concedidos aos agricultores. Como conseqüência, as áreas que superavam os limites estabelecidos na legislação foram dedicadas a culturas não alimentarias, de forma a não perder o direito a receber os subsídios. Obviamente, o óleo destinado a fins energéticos foi uma alternativa interessante para eles.


No ano de 1991, foi produzido o primeiro lote de 10 t de biodiesel na Alemanha, a partir de óleo de colza. O álcool utilizado na Europa é o metanol, que pode ser adquirido a peço muito competitivo em função da instalação de várias fábricas no Oriente Médio. O outro óleo utilizado na Europa para a produção de combustíveis é o de girassol. Outros países que vem produzindo biodiesel na Europa são, especialmente, a Bélgica, a Itália, a Áustria e a Checo-Eslováquia.
Nos EUA, o programa de biocombustíveis vem-se desenvolvendo com intensidade desde a primeira crise do petróleo. A ênfase desses programas foi colocada na utilização do álcool etílico produzido a partir do milho, orientado para as misturas com a gasolina. A partir de finais da década de 90, vem-se desenvolvendo programa de fomento ao uso do biodiesel, obtido a partir da soja e da colza.
A Malásia pretende inaugurar, ainda no corrente ano, uma grande fábrica de biodiesel a partir de óleo de palma. A Argentina possui várias fábricas que processam óleo de soja. Outros países que pretendem percorrer o caminho dos biocombustíveis são os restantes países europeus e vários asiáticos.

O biodiesel no Brasil
A utilização de combustíveis líquidos obtidos de vegetais cultivados foi novamente lembrada como alternativa interessante para o Brasil, com oportunidade das crises do petróleo, de 1973 a 74 e, especialmente, de 1979 a 80. Várias universidades brasileiras se dedicaram a estudar a produção de combustíveis substitutivos do diesel, que aproveitassem diversas matérias primas de origem vegetal. A experimentação com a transesterificação no Brasil foi iniciada na Universidade Federal do Ceará, em 1979, com o objetivo, de desenvolver as propostas do Prof. Melvin Calvin (Prêmio Nobel de Química), apresentadas no Seminário Internacional de Biomassa, em Fortaleza, em1978 (Parente, 2003).
No entanto, a prioridade política foi concedida, naquele momento, para o desenvolvimento do programa do álcool (PROÁLCOOL), que teve seu auge a meados da década de 80. A complexidade de montar um programa de produção, processamento e distribuição do combustível alternativo, sem o apoio oficial, determinou que a crise transcorresse sem que o programa de combustíveis alternativos para o diesel fosse implantado.
O Prof. Goldemberg (1988) sinalizou para as vantagens de instalar uma indústria de combustíveis derivados dos óleos vegetais. No entanto, ele alertou para a necessidade de obter-se bons rendimentos agrícolas, já que, de outra forma, o gasto de energia nas operações de colheita e de transporte da matéria-prima seria muito elevado.
O combustível normalmente utilizado para o transporte de cargas e passageiros no Brasil é o diesel de petróleo, que é importado em elevada proporção, em função das limitações da capacidade de refino. O aproveitamento dos óleos vegetais transesterificados como combustíveis, permitiria evitar a importação de diesel de petróleo, fortalecendo a independência energética do País. Ao mesmo tempo, constituiria uma forma de evitar a colocação de esses óleos nos mercados mundiais que se apresentam deprimidos pelo excesso de oferta.
O modal de transporte que mais expandiu no Brasil foi o rodoviário, que foi privilegiado como escolha estratégica. Do ponto de vista da eficiência energética, esse tipo de transporte não é o mais aconselhável, sendo que os outros modais de transporte, o ferroviário e o hidroviário, também utilizam atualmente o diesel como principal combustível.
A escassez de petróleo estimulou a realização de diversos estudos que aconselharam a utilização de biocombustíveis, como substitutos do combustível diesel. Um dos documentos mais representativos foi o relatório do MIC (1985) sobre o uso de combustíveis líquidos como substitutos do diesel de petróleo. A principal conclusão desses estudos foi que os óleos vegetais representam uma alternativa tecnicamente viável, sendo que sua rentabilidade depende da relação de preços em cada momento.
O novo combustível pode ser misturado ao diesel de petróleo em qualquer proporção, ou pode ser utilizado em forma pura. Já os motores das pequenas usinas termelétricas em localidades muito distantes e afastadas dos circuitos comerciais, por serem comparativamente poucos e consumirem grandes volumes de combustível, poderão sofrer adaptações que possibilitem a utilização dos óleos vegetais in natura.

Perspectivas do biodiesel no Brasil

O Brasil vem produzindo soja em resposta à intensa demanda por proteínas que podem ser obtidas desse grão, para a produção de rações para aves e porcos. A principal demanda por farelos, é a da Europa e do Japão. O óleo resultante passou a ser consumido internamente ou a ser exportado. No entanto, o mercado mundial para óleos vegetais ficou muito concorrido com a expansão da canola na Europa, no Canadá, na Índia, na China e na Austrália. Outras oleaginosas que sofreram forte expansão foram a soja, na Argentina e no Paraguai e o girassol na Europa Oriental. Porém, o fato que mais contribuiu para desestabilizar o mercado foi a entrada do óleo de palma da Malásia e da Indonésia. Nos próximos anos, prevê-se um acirramento da concorrência, com a expansão da produção do óleo de palma na Ásia e no Brasil.


A produção de biodiesel representa uma possibilidade interessante para aproveitar os enormes excedentes de óleo vegetal que se antevêem. O farelo de soja deverá encontrar mercados receptivos na alimentação das criações intensivas, sendo que, para os países produtores de soja, a produção de óleo continuará a desempenhar um papel associado à produção de concentrados protéicos.
A produção de biodiesel no Brasil receberá incentivos através do programa PROBIODIESEL lançado em outubro de 2002, com o objetivo de viabilizar a produção de misturas de 5% de éster (B5) até 2005, passando para 10% de éster (B10), até 2010 e com 20% de éster (B20) até 2020.

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Referências:

GOLDEMBERG, José, 1988. Energia para o desenvolvimento econômico. TAQ, TA Queiroz Editor.


KNOTHE, Gerhard, 2001. Perspectivas históricas de los combustibles diesel basados em aceites vegetales. Revista A&G, 47, Tomo XII, No. 2.
MORAES, José R., 1981. Manual dos óleos vegetais e suas possibilidades energéticas. Confederação Nacional da Indústria, Departamento de Assistência à Média e Pequena Indústria.
PARENTE, Expedito de Sá et alii., 2003. Biodiesel: uma aventura tecnológica num país engraçado. Tecbio, Fortaleza, CE.
STI – MIC, 1985. Produção de combustíveis líquidos a partir de óleos vegetais (CETEG, MG), Série Documentos, No. 16.

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