HÉlio garcia



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PERFIL

HÉLIO GARCIA


(20 de agosto de 1998)
José Rezende Jr.
Belo Horizonte ­ Nos idos de 1962, o então governador de Minas, Magalhães Pinto, já antecipava o futuro de um jovem candidato a deputado estadual, um advogado do interior chamado Hélio Carvalho Garcia: “Ele parece meio caipira, usa paletó de uma cor e calça de outra, mas vai longe”. Talvez a velha raposa mineira só não imaginasse que o jovem caipira iria TÃO longe ­ ainda que nos últimos 36 anos Hélio Garcia, duas vezes governador de Minas, raramente tenha percorrido outras distâncias que não os 180 km que separam Belo Horizonte da fazenda Santa Clara, em Santo Antonio do Amparo.

Foi na fazenda de 2 mil hectares que ele passou os últimos quatro anos, enfurnado entre os pés de café e as vacas leiteiras. Agora, a última lenda viva da política mineira emerge dos quatro anos de solidão para tornar-se, sem fazer campanha, favorito absoluto a uma vaga no Senado. Um fenômeno vestido com o paletó de uma cor e a calça de outra.

Na última pesquisa Diários Associados/Vox Populi, Hélio Garcia aparece com 33% (Junia Marise, do PDT, tem 13%). Ou seja, 4 milhões de mineiros querem eleger o candidato que é um desastre na tevê, quase não ri (“Eleitor não gosta de político que ri muito”, ensina), faz pouco caso de comício e detesta discurso (Não costuma falar mais que um minuto. Já inaugurou túnel dizendo: “Senhoras e senhores. A obra está aí. Muito obrigado”).

A verdade é que ele fala pouco ­ e sempre ao pé do ouvido, no conchavo. Prefere os bastidores à ribalta, a sombra aos refletores. É discreto: “Política deve ser feita à noite, de chapéu e sobretudo, dentro de um táxi em movimento”.

Especializou-se em pensar muito. E em não dizer o que pensa. Antes de uma decisão importante, passa horas andando em torno da mesa da sua casa, na rua Paracatu, em Belo Horizonte, a poucos quarteirões da Assembléia Legislativa. E quando a decisão está tomada, cabe aos correligionários a árdua tarefa de interpretá-la. Que o digam os deputados estaduais Agostinho Patrus, José Ferraz e Romeu Queiroz, que um dia foram chamados ao Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador.

Na chegada, o grupo foi recebido por Garcia com um gesto enigmático de mãos.

Patrus respondeu com os dois polegares apontados para o alto: “positivo”. O governador pediu confirmação, esticando os braços e cruzando as mãos rapidamente, como se perguntasse: “assunto encerrado?”. Patrus, porta-voz do grupo, repetiu o gesto, confirmando, e Garcia terminou a conversa com um duplo “positivo”. Detalhe: consta que até hoje nenhum dos interlocutores tem a menor idéia do assunto tratado...

O SÁBIO E A MARTA ROCHA

Hélio Garcia dedica seu tempo a tocar a fazenda Santa Clara e ganhar eleições. Foi deputado estadual ­ líder de Magalhães Pinto na Assembléia com apenas 32 anos de idade ­, deputado federal, vice-governador eleito, prefeito biônico de Belo Horizonte e governador duas vezes (a primeira quando Tancredo foi disputar a Presidência, em 1984, e a segunda pelo voto, em 1990).

Mas não se limita a ganhar para si próprio ­ faz questão de eleger seus candidatos. Fez de Newton Cardoso e Eduardo Azeredo governadores e elegeu o azarão Sérgio Ferrara prefeito de Belo Horizonte, em 1985. Ferrara tinha um defeito na perna, detalhe que Garcia conseguiu transmutar em qualidade política. Quando os dois andavam pelas favelas em campanha, o governador incentivava: “Manca, Ferrara. Manca que mancar dá voto”...

Último de uma linhagem em extinção, que já teve Benedito Valadares, Magalhães Pinto, Milton Campos, José Maria Alkmim e Tancredo Neves, ele é tão raposa que nem admite que é raposa. Exemplo: na sala de sua casa, terça-feira da semana passada, Hélio Garcia, de paletó de uma cor (azul marinho) e calça de outra (creme), conversa com o repórter do Correio Braziliense.

­ Doutor Hélio, o senhor é a última raposa mineira?

­ Isso é ocê que tá falando...

­ Mas o senhor concorda?

­ Com o quê?

­ Que o senhor é a última raposa?

­ Uai, depende. O quê que ocê chama de raposa?

­ Aquele político que tem a sabedoria, a esperteza...

­ Eu nunca gostei de esperteza.

­ E a sabedoria?

­ Olha, ocê sabe: tem o sabido e tem o sábio...

(E a prosa foi por aí afora)

Se é discreto na vida pública, imaginem na amorosa. Aos 67 anos, divorciado, pai de três filhas, ainda guarda vestígios do jovem e bonito freqüentador do Pampulha Iate Clube. Arranca suspiros de mulheres 30 anos mais novas. Mas, como todo bom mineiro, trabalha em silêncio. Dizem que namorou Marta Rocha, a eterna miss Brasil. O repórter tenta:

­ É verdade que o senhor namorou a Marta Rocha?

­ Pergunta pra dona Marta.

­ Mas o senhor foi amigo dela?

­ Pergunta pra dona Marta.

Na noite seguinte, numa reunião com deputados no apartamento do presidente da Assembléia Legislativa, Romeu Queiroz, Hélio Garcia e o repórter se encontram novamente, para fazer a foto que ilustra este perfil. Garcia, agora vestido com paletó cinza e calça azul marinho, se antecipa:

­ Quero fazer uma retificação. (Diminuindo o tom de voz e ocultando parcialmente a boca com uma das mãos:) É sobre a Marta Rocha...

(O repórter se anima, pega a caneta, pressente a confissão histórica):

­ Pois não, doutor Hélio, retifique.

­ Sobre a pergunta de ontem, se eu namorei a Marta, a resposta é... não. Mas se ocê quiser confirmar, pergunta pra dona Marta.

O BÊBADO E O ALFAIATE

Hélio Garcia tem um estilo todo próprio de fazer campanha. Comício mesmo, só nos tempos da dobradinha com Tancredo, então candidato ao governo de Minas. E não é que ele seja um leigo na matéria. Certa feita, um bêbado começou a fazer discurso perto do palanque, atrapalhando a fala de Tancredo. Um assessor tentou intervir, mas foi contido por Garcia: “Deixa. Comício sem bêbado, menino e cachorro não é comício”.

Hoje, faz campanha quase sem atravessar a rua. Passou o último fim de semana em casa, mas que ninguém pense que não pediu voto: disparou pelo menos duzentos telefonemas para prefeitos e cabos eleitorais.

No seu último governo, escolheu três supersecretários, que efetivamente administraram o estado. “Meu lema é resistir (aos pedidos de verbas e empregos), delegar e cobrar”, afirma. (Os adversários ironizam: “Ele não delega, larga de mão”). Os outros secretários só não ficaram a ver navios porque Minas não tem mar.

Sobre a dificuldade de montar a equipe, já que todos os aliados querem cargos, fez a seguinte comparação: “Início de governo é igual caminhão de porco. No começo, eles berram. Mas é só ocê jogar a primeira e o caminhão começar a andar que os porcos se ajeitam e ficam quietinhos”.

E assim, Hélio Garcia se orgulha de não ter inimigos. “Não tenho tempo nem de fazer novos amigos, quanto mais inimigos”. Uma de suas frases preferidas é: “Não brigo, mas também não faço as pazes”. É mestre em alfinetadas sutis, como a que desferiu contra o ex-governador Francelino Pereira. Um dia, os dois, que andavam meio atritados, se encontraram na Assembléia. Francelino quis quebrar o gelo. Garcia, que não tinha brigado, também não fez as pazes.

“Ô Hélio, ocê emagreceu”, brincou Francelino, puxando o paletó folgado de Garcia.

“Uai, Francelino, ocê agora virou alfaiate? Alfaiate é que se preocupa com roupa dos outros...”, lascou Garcia, virando as costas.


O FATO E A VERSÃO
A saúde vai bem, obrigado ­ apesar dos dois maços de Charm fumados por dia, da comida gordurosa e, claro, das generosas doses de uísque que fazem parte do folclore de Minas. Quando acumulava os cargos de vice-governador e prefeito de Belo Horizonte, ganhou o apelido de “Dojão”, porque, a exemplo do corpulento automóvel Dodge Dart, bebia muito e ocupava duas vagas. Hélio Garcia nem liga: “Eu gosto, ocê gosta, todo mundo gosta. Mas se eu bebesse o tanto que falam, não estaria vivo até hoje”.

Melhor que a física, só mesmo a saúde política, como diagnosticam as pesquisas. Mas afinal, qual é o segredo de Hélio Garcia? O cientista político Jarbas Medeiros, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), arrisca: “Ele é a expressão plena do surrealismo político mineiro, onde tudo que jamais poderia ser acaba sendo. Não tem o dom da palavra, não é demagogo ­ já que fala muito pouco ­, não é carismático. É o antiespetáculo. Para decifrar a esfinge Hélio Garcia, só chamando o oráculo de Delfos”.

Duas vezes derrotado por Hélio Garcia ­ uma no confronto direto, outra na disputa com Azeredo ­, o ex-repórter da Globo e deputado federal Hélio Costa dispensa o oráculo. E acusa: “Quando está fora do governo, na fazenda, ele deixa os muitos amigos influentes trabalhando pela sua candidatura. Quando está no poder, usa a máquina pública para eleger quem ele quer”.

Parece mais do que choro de perdedor. Afinal, na última sexta-feira, o Tribunal Regional Eleitoral mineiro declarou inelegíveis o ex-governador e vários membros de sua antiga equipe. O TRE concluiu que, às vésperas da eleição de 1994, o governo Hélio Garcia prometeu a liberação de verbas para prefeitos que apoiassem Eduardo Azeredo. (De qualquer maneira, a pendenga só será decidida pelo Tribunal Superior Eleitoral ­ quando Garcia já deverá estar sentado na cadeira de senador *).

Mas por que Hélio Garcia desistiu de tentar entrar para a história elegendo-se governador pela terceira vez? “O Senado é o coroamento dos homens públicos, como foi para Benedito Valadares, Milton Campos, Magalhães Pinto...”, jura ele.

Mas há quem diga que Garcia esperava que o atual governador, Eduardo Azeredo,

retribuísse o apoio recebido na última eleição. E abrisse mão da reeleição em favor de Garcia. Só que Azeredo lançou-se na disputa sem sequer dar uma passadinha na fazenda Santa Clara para comer um pãozim de queijo com o dono. Resultado: Garcia é candidato “suprapartidário” ao Senado. Quer dizer, tem partido (o PTB), mas não apóia nenhum dos candidatos a governador. Enquanto isso, todos flertam com ele. E ele espera o apoio de todos.

Na dúvida entre o fato e a versão do fato que ronda a política mineira desde sempre, nunca é demais lembrar o folclórico encontro de Magalhães Pinto e Tancredo Neves na estrada. (Os personagens e o cenário mudam de acordo com o contador do causo, mas o importante é a moral exemplar). Magalhães quis saber se Tancredo ia para Lafaiete ou Barbacena: “Vou para Barbacena”, garantiu Tancredo. “Ah”, raciocinou Magalhães, “ele disse que vai para Barbacena para eu pensar que ele vai para Lafaiete, mas ele vai é para Barbacena mesmo, sô”.

Tradução: Hélio Garcia é candidato ao Senado para que todos pensem que ele queria ser candidato ao governo, mas o que ele quer é ser candidato ao Senado mesmo.

E esse é o fato. Ou será a versão?


(*) Misteriosamente como de praxe, no mês seguinte, Hélio Garcia renunciou à candidatura, abrindo caminho para a eleição de José de Alencar, do PMDB, que ameaçava sua liderança.


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