Hoje tem espetáculo?



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Encontro02.08.2016
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HOJE TEM ESPETÁCULO?
Antes de me tornar conhecido com a música Garotinha, eu sobrevivi, durante muito tempo fazendo shows em circo e nunca me envergonhei disso, pois eu havia lido certa vez, o seguinte trecho, que encontra-se na contracapa do LP “Roberto Carlos San Remo”: “Desde o início, percorrendo os corredores das rádios, viajando de ônibus, cantando muitas vezes de graça em circos, Roberto aprendeu o máximo daquela fase de incertezas, indispensável à formação de qualquer artista. Ele superou aquele período com paciência e com a certeza de que um dia venceria...”

No início dos anos oitenta existiam, aqui no Rio Grande do Norte, alguns artistas que eram garantia de casa cheia nos circos, inclusive Carlos Alexandre. Mas, além del, e duas outras atrações eram sucesso absoluto nos circos: Coroné Bolachinha, que apresentava o programa “Tarde Sertaneja” na Rádio Cabugi (hoje Rádio Globo Natal) e o elenco da “Patrulha da Cidade” programa criado por Abmael Moraes, que, naquela época era apresentado por Wellington Carvalho, Nice Fernandes e Tom Borges, no horário das onze da manhã e levava ao ar as notícias policiais, através de uma representação novelesca onde os seus apresentadores “dramatizavam” os acontecimentos em tom cômico e escrachado, com direito a trilha sonora e tudo o mais. Líder absoluto de audiência, o “Patrulha da Cidade” logo transformou-se em atração artística e fazia sucesso pelo interior. A caravana era composta por Tom Borges (que geralmente interpretava o bêbado – sempre tinha um bêbado na história), a saudosa Nice Fernandes, ( que fazia a Cafufa) e o cantor Paulo Márcio, fazia o papel de bicha e encerrava os shows imitando Sidney Magal.

Na minha via-crucis pelos palcos circenses, enfrentei inúmeras situações “tragicômicas”...

Certa vez, por volta de 1981, fui a Touros fazer um show no circo de Zé Palito que, apesar de descoberto, estava dando boas rendas, em virtude de ser época da safra da lagosta. Na noite anterior, com a luta de boxe dos anões, o circo ficara superlotado e como o programa Geração Colorida, que eu apresentava na rádio Trairy das 13 às 16 horas, de segunda a sexta-feira, tinha uma boa audiência, havia uma grande expectativa na cidade com relação ao meu show. Viajei de ônibus no banco de trás, e passei toda a viagem com o rosto enterrado numa “Seleções”, para não ser reconhecido. Minha bagagem consistia apenas do meu violão com sua capa surrada, e de um terno cinza (herança dos tempos como vendedor da Abril Cultural, no Rio de Janeiro) acomodado numa pequena valise.

Ao chegar em Touros, depois de me certificar que todos os passageiros tinham desembarcado, desci do ônibus. Quando pus os pés no solo tourense, gelei e por pouco não girei nos calcanhares: na parede da casa onde funcionava o ponto de apoio para os ônibus que faziam a linha Natal - Touros, havia um cartaz em que eu aparecia numa foto em preto e branco ao lado do Chacrinha, com a legenda: “FERNANDO LUIZ - DO CHACRINHA PARA O NORDESTE”, sob à qual fora acrescentada com letras grandes, escritas com em vermelho berrante: HOJE NO CIRCO (Eu havia aproveitado uma foto minha ao lado do Velho Guerreiro, no auditório da TV Bandeirantes e conseguira um patrocínio com a Provendas - empresa que vendia eletrodomésticos - para imprimir 500 posters, cbjetivo de fazer a divulgação dos meus shows).

Não havia ninguém do “Teatro de Lona” para me receber. Quando, desconfiado perguntei a uma senhora onde estava armado o circo, um garoto mal vestido, aparentando uns dez anos de idade, se ofereceu para levar-me até lá. Custou-me caro aceitar os préstimos daquele pentelho. Nem bem demos os primeiros passos, o moleque olhou para o cartaz na parede, virou-se prá mim, arregalou os olhos, e gritou a todos os pulmões: “O cantor chegou, o cantor chegou!” Aqueles foram os minutos mais longos da minha vida. Em poucos instantes, eu cheguei ao circo, que estava armado próximo dali, mas até hoje o trajeto me pareceu o mais longo caminho que eu jamais percorrera até então. Ainda hoje sinto um frio na espinha ao recordar aquela cena: todas as pessoas da rua olhando pra mim e um número cada vez maior de garotos seguindo-me, todos gritando na maior algazarra: “O cantor chegou! O cantor chegou!”Só faltavam mesmo, as pernas de pau... No meio de toda aquela barulheira, com o violão em uma mão e a valise surrada na outra, eu caminhava entre apressado e cambaleante, com um sorriso amarelo de condenado à morte estampado no rosto empapuçado de suor e poeira...



À noite, não houve espetáculo. Não entrou ninguém. Dormi no picadeiro, usando minha valise como travesseiro, e pela manhã voltei pra Natal de carona em cima de um caminhão...


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