Homem suspenso: a melancolia pós-colonial



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Homem suspenso: a melancolia pós-colonial

 

Cláudia Perrone



A primeira leitura do "Homem suspenso" de João de Mello é carregada de estranheza. Nela encontramos os novos e os velhos europeus. Um português caminha por Lisboa povoada por imagens e lembranças estranhamente familiares como a de um europeu perdido que, um efeito paradoxal de desterritorialização: ao que corresponde, afinal, o termo Europa? Qual é a sua diferença específica.

A evidência empírica de uma Iugoslávia ou da Rússia refuta todas as tentativas que, sobretudo desde o Romantismo, sonharam com uma essência reconciliadora e totalizante da Europa. O século XIX foi exemplar nesse sentido e autores como Novalis e Hegel assumiram com ênfase a idéia de uma Europa dotada de uma função histórica terminal. No entanto, é extremamente fácil notar como essa Europa aparece tanto no Romantismo, como do ponto de vista da história universal hegeliana com uma qualidade mítica indisfarçável.

Pensemos, por exemplo, nas Lições sobre a filosofia da história de Hegel. A entidade chamada Europa toma a forma do localismo que responde pelo nome Alemanha . Trágica ironia para um nome que pensava designar uma forma de ser: o europeu como sinônimo de cosmopolitismo.

No mundo transnacional não é mais possível captar ou conceitualizar a essência metafísica da Europa e nem representá-la como a refundação mítica de uma determinada religião positiva (Novalis), ou como a síntese de uma idéia religiosa fundida em um Estado, ele próprio expressão superior do espírito objetivo (Hegel). É necessário pensar sobre a Europa pós-nacional como uma questão de ordem prática: como integrar com relativa eficácia as distintas formas de vida, a pluralidade cultural dos novos europeus?

Talvez possamos pensar essa situação complexa a partir do que Walter Benjamin chamou de uma imagem do pensamento . Uma imagem do pensamento não se encontra em parte alguma da realidade, ela têm um elemento idealizado ou até utópico e um lento e doloroso trabalho histórico de, em cada caso particular, determinar quão longe ou quão próximo se encontra a realidade daquela imagem ideal.

O homem suspenso de João Mello pode ser lido como uma imagem do pensamento da crise européia em um dos seus casos mais ricos: a identidade portuguesa. Portugal, como apontou Boaventura Santos, nunca foi semelhante às identificações culturais positivas das nações européias, nem foi suficientemente diferente das identificações negativas que eram, desde o século XV, os outros, os não europeus. A nação portuguesa tem uma matriz intermediária, semiperiférica porque os portugueses foram, a partir do século XVII, o único povo europeu que observava e considerava os povos das suas colônias como primitivos ou selvagens e era, ele próprio, observado, por viajantes e estudiosos dos países centrais da Europa do norte, como primitivo e selvagem. A identidade portuguesa constitui-se a partir de um duplo espelhamento: no espelho de Próspero e no espelho de Caliban e o seu verdadeiro rosto estava in-between, no meio do caminho. Portugal esteve próximo demais das suas colônias para ser plenamente europeu e colonizador. E enquanto cultura européia, a cultura portuguesa foi periférica e não assumiu o papel canônico do Império-centro diante das culturas não-européias. José António Saraiva descreve a situação portuguesa como "uma certa liberdade em relação às fronteiras culturais, uma certa promiscuidade entre o Eu e o outro, uma certa falta de preconceitos culturais, a ausência do sentimento de superioridade que caracteriza, de modo geral, os povos da cultura ocidental (1985, p. 103)."

Boaventura Santos (1995, p.152) define a forma cultural portuguesa como o "estar na fronteira". A cultura portuguesa, diz ele, é uma cultura de fronteira, não porque para além de nós se conceba o vazio, uma terra de ninguém, mas porque de algum modo o vazio está do lado de cá, do nosso lado. "E é por isso que no nosso trajeto histórico cultural da modernidade fomos tanto o europeu como o selvagem, tanto o colonizador como o emigrante (1995, p.152)." Ele segue afirmando que a fronteira confere à cultura portuguesa, por uma lado, um enorme cosmopolitismo e, de outro, um acentrismo que determina um universalismo sem universal feito da multiplicação infinita do localismo. "Durante séculos, a cultura portuguesa sentiu-se num centro apenas porque tinha uma periferia (as suas colônias). Hoje, sente-se periferia apenas porque lhe é imposto ou recomendado um centro ( a Europa). (1995, p. 153)."

A aporia da identidade portuguesa hoje é a aporia da própria identidade européia. Em um texto recente sobre a Europa, Jacques Derrida (1991, p.43) refere-se justamente a esta dualidade com a aporia em que se assenta a Europa do presente e do futuro, a saber, a máxima diferenciação com a melhor interdependência. A configuração da identidade européia será resultado do trabalho desta aporia e no caráter sem solução desse estado de coisas. Não existe a hipótese de uma reconciliação final. Há um desejo de singularidade ( ser europeu, ser português) e um traço perturbador: a constituição de interdependências que preservem a União Européia.

O Homem suspenso é uma imagem do pensamento repleta de possibilidades para a compreensão dessa questão. Na verdade, o livro sugere uma perspectiva ou uma categoria para pensar a identidade pós-nacional : a melancolia na sua formulação mais clássica: idealização do outro (a idéia da Europa) e auto depreciação ( o novo europeu). O homem suspenso, em primeiro lugar, é um insider-outsider, um homem com feições supranacionais estarrecido com uma idéia:

Não é esta Europa que me ensinaram a amar...A Europa que eu amo é feita de uma soberania culta, consciente de si e do outro que mora ao lado... Não imagino sequer a Europa que entrou já nas minhas fronteiras (1996,p. 26).

A criação desse novo espaço cultural nacional é altamente contraditória: o longo processo de desterritorialização colonial suscitou um novo território que, com uma maturação insuficiente, iniciou nova reterritorialização gerada pelo território emergente da Europa.

O narrador vê Lisboa com

uma visão de luz e sombra, um jogo, um modo de observar como a multidão das cores de Lisboa transita da sombra para a luz, e também uma forma de ver como as coisas ( todas as coisas) por dentro se iluminam." A claridade é um movimento, uma passagem do tempo - não o desta gente que desde sempre mora em Lisboa e nunca pensa em nada disso, mas antes aquele tempo que a nós unicamente pertence, sendo ele a medida, a dor, a natureza e a separação do que somos daquilo que vivemos. (1996, p. 11).

Ou ainda: " (...) as casas de Lisboa possuem uma espécie de concretude partida ao meio, entre o real e o onírico (1996, p. 12)."

O narrador segue afirmando que:

Por vezes sonho que Lisboa não existe, como se fora apenas uma lenda que se pode contar não aos que nela vivem, e sim a quem a ela chega de visita. Nunca sei se nela vivo ainda os anos da minha vida, ou se já por hipótese morri no tempo que passou por Lisboa. É um facto que em tudo, em toda a parte vagueio sempre entre o presente e a memória.(1996, p. 12 e 13).

O narrador está suspenso, de modo paradoxal, entre o presente e o que ele chama do passado presente . Ele tem o olhar do melancólico que faz a manutenção do passado na experiência do presente . O narrador separou-se da mulher, sofreu uma longa metamorfose, tornou-se dono de um cachorro e fez uma viagem de regresso até os mitos da infância e da nação, inclusive a morte do pai, até chegar a Poitiers para discorrer sobre a perda e a "perdição da minha identidade". O trajeto do personagem, no entanto, é a longa travessia melancólica em busca da simbolização da ausência.

A movimentação do narrador, paradoxalmente, provoca o cansaço e até uma certa exasperação durante uma leitura. A partir de um certo momento temos a sensação de estar em contato com uma insistência repetitiva e angustiante, a angústia da finalização no vazio:

Visto a esta distância, Portugal parece-me uma pequena Ideia perdida. Não por ser pequena, mas porque deixou de ser ideia. País ocupado, país do ocupante. Onde ninguém mais circula. Onde ninguém acolhe ninguém à porta da casa. (...) Hoje ninguém é filho de ninguém em Portugal. (...) Será perigoso pensá-lo, e pior dizê-lo (...) (1996, p. 217)

(...)padecendo talvez da mesma idade e dos mesmos males do século: tempo tão longo e tão breve, que eu quisera ser três vezes filho e outras três vezes filho de novo para deixar de estar no tempo do século vazio - amargurado, perdido na França e na Europa com meu cão; levando pela mão apenas a minha perigosa, extrema, irreversível metáfora do cão. (1996,p. 217)

O narrador oscila entre as metáforas gastas e esvaziadas do passado e a metáfora extrema do cão, isto é, do inumano, da perda do movimento da subjetividade e do seu desdobramento. Poderíamos usar de um modo um pouco violento, um pouco deslocado, a imagem de Pierre Fédida para expressar este estado: o vazio da metáfora, isto é, existe uma anulação aparente da capacidade de representação como se o seu correlato estivesse saturado, cheio. E o vazio convoca, como afirma Pierre Fédida, uma estranha lucidez que coloca à prova a verdade radical de todas as expressões, tal como a identidade portuguesa é posta à prova neste livro para revelar a metáfora do vazio.

Glosando uma expressão de Fédida: os espelhos de Próspero e de Caliban foram retirados e não é mais possível refazer por si uma imagem de si e para si. Resta, novamente utilizando Fédida, o sítio do estrangeiro em Poitiers e a certeza que a existência do vazio é a espera do sentido: o homem suspenso.

E a teoria pós-colonial talvez caiba acolher esse trabalho do negativo, operado sobre a perda da identidade do colonizador, através da figura positiva de uma ficção.

JOÃO DE MELO

Biografia

João de Melo nasceu há 57 anos na Achadinha, localidade da ilha de São Miguel, nos Açores. Em 1960 deixou a sua terra natal para prosseguir os estudos em Lisboa. Participou na Guerra Colonial, enquanto furriel enfermeiro, tendo estado mobilizado em Angola, entre  1971 e 1974 . Após o regresso da guerra retoma os estudos e licencia-se em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Inicia, então, uma carreira de professor do ensino secundário. Para além de professor, João de Melo exerceu, ainda, as funções de editor e de crítico literário. Actualmente, e desde 2001, é Conselheiro dos Assuntos Culturais na Embaixada Portuguesa em Madrid.

João de Melo iniciou a sua actividade literária, em 1975, com o livro Histórias da Resistência. Ao longo da sua vida de escritor escreveu várias obras não só de ficção, mas também alguns ensaios  e crónicas. Foi através do romance Gente feliz com lágrimas que mais se notabilizou, uma vez que o  romance foi distinguido com diversos galardões (Grande Prémio do Romance e Novela da A.P.E,  com o Prémio Eça de Queirós da Cidade de Lisboa, Prémio Cristóvão Colombo das Cidades Capitais Ibero-Americanas e Prémio Fernando Namora, atribuído pela Antena 1). Recentemente foi editado pela Dom Quixote o seu novo romance O Mar de Madrid.


OBRA
»
Poesia
1980 - Navegação da Terra

» Ficção narrativa
1975 - Histórias da Resistência
1977 - A memória de Ver Matar e Morrer
1983 - O Meu Mundo Não é Deste Reino
1984 - Autópsia de um Mar de Ruínas
1987 - Entre Pássaro e Anjo
1988 - Gente Feliz com Lágrimas
1992 - Bem-Aventuranças
1996 - O Homem Suspenso
2006 - O Mar de Madrid

» Ensaios
1979 - A produção literária açoriana nos últimos 10 anos: 1968/1978
1982 - Toda e qualquer escrita
1982 - Há ou não uma literatura açoriana

» Crónicas
1994 - Dicionário de paixões

» Participação em Antologias
1978 - Antologia panorâmica do conto açoriano
1988 - Os anos da Guerra
Links
»http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=401&tpcontent=FA&idaut=2162227&idobra=
&format=NP405&lang=PT
» http://www.portugal-linha.pt/literatura/jmelo/index.html
» http://pt.wikipedia.org/wiki/João_de_Melo
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