Homenagem ao poeta pedro da silveira, promovida pela casa dos açores de lisboa lisboa, 24 de Novembro de 2001



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HOMENAGEM AO POETA PEDRO DA SILVEIRA, PROMOVIDA PELA CASA DOS AÇORES DE LISBOA
Lisboa, 24 de Novembro de 2001

Intervenção do presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César
Há já algum tempo que a Casa dos Açores em Lisboa vem promovendo sessões de homenagem a singulares vultos da cultura açoriana.
Tratam-se de iniciativas de alcance e méritos inestimáveis, porquanto, numa afirmação identitária e no enquadramento conceptual da autonomia açoriana, tornam-se preciosos os contributos que evidenciam os contornos de uma tradição e uma prática culturais correspondentes.
Bem sei que nos tempos de hoje há um perniciosa tendência para interpretar a actualidade histórica pelos incontornáveis cêntimos dos PIB, ou a descentralização pela inevitabilidade contabilística do “deve” e do “haver” orçamentais, ou a solidariedade intra nacional e internacional pelas obrigações misteriosas de “pactos de estabilidade” ditadas pelos contribuintes líquidos da política mundial.
Mas os Açores têm outros capitais e outros acervos que atrapalham aquelas contas e dão outras razões à razão da nossa história.
Com efeito, ao percorrermos a história da cultura portuguesa lá encontramos, em todas as áreas do saber e da intervenção social, figuras gradas nascidas nos Açores.
Sei lá: Antero, Nemésio, Natália, na literatura; Francisco de Lacerda e Tomás Borba na música; Domingos Rebelo ou Canto da Maia, na expressão plástica; Aurélio Quintanilha na investigação científica; ou mesmo, os dois primeiros Presidentes da República Portuguesa: Teófilo de Braga e Manuel de Arriaga. Sobre este último, aliás, ainda pesa a injustiça de não estar sepultado ao lado de outros no Panteão Nacional, ideia para a qual a nossa Casa dos Açores em Lisboa poderia iniciar o movimento para a sua concretização.
Não há dúvida, por isso, que, mais do que os aspectos económico e funcional da Autonomia Política dos Açores, será o aspecto simbólico aquele que oferece uma perspectiva mais ampla do desenvolvimento e de um futuro prometedor.
São os artistas em geral, e os poetas em particular, os primeiros criadores de espaços: são eles que insuflam o espírito do lugar e que conferem um sentido de amplidão sem limites a um território limitado.
Daí que saúde e enalteça estas iniciativas regulares da Casa dos Açores, e é de toda a justiça salientar que, nesta representatividade, seja homenageado Pedro da Silveira, porquanto a ele se deve um apreciável acervo de pesquisas, de investigação, de ensaios sobre a literatura de expressão açoriana, provindos de reiteradas consultas levadas a cabo em bibliotecas e arquivos portugueses e estrangeiros.
Como, bem melhor do que eu, distintos oradores já o referiram, destacam-se, igualmente, os seus preciosos contributos sobre a literatura portuguesa do século XVIII em diante. São imprescindíveis, por exemplo, os dados bibliográficos sobre o florentino Roberto Mesquita, o qual homenageámos, no ano passado, nas comemorações do Dia dos Açores na ilha das Flores.
Não se queda, porém, Pedro da Silveira – ao contrário de outros – por uma análise insulada ou enclausurada: a ele se ajusta, perfeitamente, a noção torguiana de que “o universal é o local sem paredes” e os seus trabalhos de tradução atestam o seu espírito de cosmopolitismo e de abertura aos mundos e às correntes.
Daí que julgo que se possa afirmar que é sintomático desse espírito o título da colectânea “A Ilha e o Mundo”: porque a sua lírica, captando embora o apego aos ambientes e às mundividências açorianas, abrange as inquietações e os sonhos de gente viva de todas as partilhas, e porque não é apenas a expressão de um lirismo individualizado, repassado quantas vezes da sua fina ironia, mas também a explanação de um compromisso social, em versos incisivos e anti-retóricos plenos de sinais e signos memoriais de gentes e vidas insulares.
É assim que vejo Pedro da Silveira: cavando fundo raízes embrenhadas no magma que nos serviu de placenta, oferecendo-nos a ilha e o mundo – sempre com um sinal identitário.
Associo-me também, como Presidente do Governo da terra da Fajã Grande, a esta homenagem, ao amigo, mestre, cidadão e poeta, que apesar de ser do Mundo, é nosso.
Parabéns, Pedro da Silveira, e muito obrigado.





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