Homenagens



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Encontro31.07.2016
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Edmundo Guillén Guillén, historiador peruano nascido em Lucanas, Ayacucho, em 1921, era doutor en Historia, doutor em Educação e advogado, catedrático da Universidad Nacional de Ica, sendo presidente da Academia de História Nacional Peruana quando faleceu em fevereiro de 2005 (veja aqui as homenagens). É o autor dos livros: “Huáscar Inka trágico”, “Versión Inka de la conquista del Perú”, “La Conquista del Perú”, “El Ejército Inka”, “Vilcabamba, la última capital de los incas” (traduzido para o japonês) e La Guerra de Reconquista Inka, assim como de numerosos ensaios históricos entre os quais se destacam: “Enigma de las momias incas”, “Documentos inéditos para la historia de Vilcabamba”, “450 aniversario de la heroica resistencia del pueblo de Tumbes”, “Vilcabamba la última capital del Estado imperial Inka”, “Wila Oma, el Intip Apun o Gran Sacerdote y Capitán del Sol”, "Mitos sobre la Origen de los Inkas", etc. Em 1976 dirigiu a expedição científica que identificou historicamente o lugar onde jazem os restos daquela que se considerava a “cidade perdida dos incas”, Vilcabamba, última capital do Tawantinsuyo.

Conheci o historiador peruano Edmundo Guillén Guillén, primeiramente através da leitura de seu livro "Huáscar, el Inca Trágico" (Lima, Populibros Peruanos, 1979). O professor Guillén foi uma voz solitária na valorização daquele que foi na realidade o último imperador do Tawantinsuyo que recebeu a coroa imperial (maskapaycha) de mãos do sumo-sacerdote no Templo do Sol em Cusco, e governou naquela cidade, pois Atahuallpa cuja captura e julgamento de morte pelos espanhóis foram utilizados para representar a queda do mito da soberania divina dos Incas perante as gerações subseqüentes dos habitantes originais desse grande Império, na verdade nunca entrou em Cusco como vitorioso nem foi coroado de acordo com a tradição religiosa vigente. Guillén em seu livro afirmou que a visão que se tinha de Huáscar era fruto de informações tendenciosas de partidários atahuallpistas no momento da Conquista espanhola (como o próprio cronista Garcilaso de la Vega) e se deviam revisar as fontes mais autorizadas da época da Conquista para esquadrinhar a verdade, e que errôneas e preconceituosas apreciações eram as que se ensinavam de modo lamentável nas escolas peruanas, pois a própria pessoa de Wayna Cápaq aparecia desvirtuada para os estudantes, segundo ele pela importância dada à tese hispanista de Raúl Porras segundo a qual aquele Inka haveria dividido o reino entre os dois filhos Atahuallpa e Waskar. Segundo Guillén, “A primeira vertente dos Cronistas foi recolhida nos primeiros anos da Conquista, ou seja, nas tendas de Atahuallpa e da boca de seus partidários. Esta vertente representa o amanho e a impostura, repudiável historicamente por haver sido tomada para justificar demagógicamente a derrubada do poder legitimamente constituído. Informações viciadas e parciais, seus testemunhos exalam falácia e procacidade contra o Inka reinante, cujo poder pretendiam usurpar”.

Guillén nos conta que acusaram Huáscar de ser convencido, altaneiro e retraído, “de não ter querido alternar com os demais inkas, poderosos e caciques nos festins das praças públicas, e de ter procurado reduzir os gastos dos incessantes banquetes funerários e das velhas panakas e confrarias, de ser algo assim como um desamortizador, sem dúvida porque, como Patrono-Maior do Sol e experto em ritos, quisesse reformar os abusos das multiplicadas festas e danças ou repetidíssimas cantorias”. As novas investigações de Guillén atestavam a respeito de Huayna Cápaq, pai de Huáscar, que “este Inka buscou a unidade étnica do reino mediante o sistema dos mitmacuna, a unidade lingüística mediante a oficialização do Quíchua, a administrativa com um minucioso regime hierárquico de governos locais, e a econômica mediante uma planificação tão sutilmente inspirada”. A seu ver. este “não dividiria o Império depois de tamanho esforço de unificação, e ademais, a divisão resultava desnecessária já que o Império, para exercício do governo, descentralizou suas funções nos grandes suyucuna e wamanicuna, províncias demoeconômicas”. Guillén nos aporta uma série de informações que comprovam a legitimidade com que Waskar Inka estava investido como Imperador, como um relatório recolhido em 1558 por Frei Cristóbal de Castro, vigário do Mosteiro do Senhor San Toribio de Chincha, onde os antigos senhores daquele Vale de Chincha atestam haver sido testemunhas da eleição de Waskar como sucessor do Inka Huayna Cápaq, antes deste partir de viagem a Popayán. O cronista Sarmiento de Gamboa também teria afirmado explicitamente que Wayna Cápaq, antes de partir para as comarcas de Quito “deixou em Cusco a seu filho que lhe teria de suceder, chamado Tupaq Cusi Wallpaq Inti Illapa”.

Meu interesse em pesquisar sobre Huáscar Inca se devia ao fato de, como funcionário da Fundação Cultural do Acre, estado fronteiriço ao Peru, haver encontrado fontes de história oral que falavam de Huáscar como havendo escapado para a selva e ensinado o uso terapêutico da bebida da ayahuasca a algumas tribos. Essa era a narrativa que Crescencio Pizango, o xamã peruano que iniciou na década de 1910 a Raimundo Irineu Serra, futuro fundador da Doutrina do Daime, nos sertões do Iñapari, havia feito a respeito do Inca. Encontrei evidências em tribos mais a oeste, como os ashaninka e os shipibo-conibo, de que o uso da ayahuasca lhes teria sido ensinada por esse rei, que lhes aparecia em forma de pássaro curador, e relações com algumas práticas xamânicas ancestrais daquela região. Em decorrência elaborei um livro que publiquei em 1999, "O Verdadeiro Inka", onde citava a Guillén mais que uma vez, dada a relevância óbvia de sua pesquisa para meu trabalho. Esta minha obra, por problemas de editoração eletrônica com a Editora "Papel Virtual" do Rio de Janeiro, foi retirada do mercado em poucos meses, e agora, reestruturada, aguarda o interesse de um agente literário para ter uma nova publicação.

Foi assim que fiz contato por mail com o professor Guillén, expondo-lhe os argumentos que utilizei em meu livro, de que a morte de Atahuallpa havia sido utilizada como golpe de marketing político dos espanhóis, já que eles jamais haviam conseguido colocar os olhos no cadáver de Huáscar (e segundo ele próprio, Guillén, afirmara, haviam inúmeras versões dessa morte de Huáscar em mãos dos atahuallpistas mas nenhuma pudera ser comprovada pelos espanhóis, na época muito interessados em confirmá-la por temerem levantes de resistência contra a Conquista). Ele me respondeu muito satisfeito com meu trabalho, incentivando-me a divulgá-lo, assim como antes me haviam ditos membros de diferentes ayllus (comunidades tradicionais) do Peru, que disseram que essa história da fuga de Huáscar e sua morte em liberdade precisava ser veiculada para re-dignificar o coração de todos os peruanos.

Foi então que encontrei um testemunho na História da Argentina publicada no ano de 1612, de que alguns espanhóis que vieram na expedição de Sebastião Cabot ao Rio Paraguai haviam entrado pelo continente e conheceram a Huáscar como Imperador reinante na capital Qosqo (Cusco), antes portanto das vitórias de Atahuallpa e da conquista de Pizarro. O fato haveria sido omitido pelas crônicas da Conquista por quererem os espanhóis minorizar a importância do reinado de Huáscar e portanto estarem manipulando a confecção da História visando garantir a continuidade de sua exploração colonialista nos Andes. Guillén se interessou muito por esses dados, e mesmo octagenário, no final de sua vida estava se dedicando a pesquisar os shipibo-conibo, porcerto em busca de novos aportes sobre a sobrevivência de Huáscar Inca junto àquela tribo da selva peruana.



Mesmo não o havendo conhecido pessoalmente, me orgulho de haver tido contato com esse mestre historiador, tão cônscio de sua identidade andina, e dele me haver incentivado a prosseguir em meu trabalho de pesquisador e escritor. Recomendo que leiam essa entrevista com Edmundo Guillén: "Grandeza, Tragédia y Destino del Perú Andino - La república criolla agoniza y ha llegado el tiempo de instaurar la república andina".

Sobre a relação entre o Império Inca e as tribos acreanas, no caso dos Kaxinawá (HuniKuin), sugiro a leitura do artigo "O Inca pano: mito, história e modelos etnológicos" de Oscar Calavia Sáez (publicada na revista MANA 6(2):7-35, 2000), aqui em versão pdf.


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