Homens, mulheres, leitore(A)s e leituras na imprensa e na história da literatura campinas século XIX



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HOMENS, MULHERES, LEITORE(A)S E LEITURAS NA IMPRENSA E NA HISTÓRIA DA LITERATURA - CAMPINAS - SÉCULO XIX

Marcelo da Rocha Pinto de Moura – Mestrando em Teoria Literária – IEL/Unicamp.



INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é problematizar o modo como se tem construído o discurso historiográfico tradicional sobre a cultura da Campinas da segunda metade do século XIX e apontar outros percursos possíveis para a abordagem desse meio-século fundamental na história da cidade, período em que, fundamentalmente, Campinas tenta se livrar de seu passado senhorial e assumir-se moderna.1

Para isso, aqui se recusarão as sedimentadas tentativas de dar solidez à idéia da “Campinas centro cultural fadado (no bom e no mau sentido) às belas-letras”, criada e difundida no século XIX e presente até hoje na tradição campineira. Tal ideologia, metodologizada pelo cronologismo e pela personificação dos fenômenos culturais, será aqui contraposta a um diálogo de um autor/leitor particularmente inscrito na história com outros autores/leitores inscritos em muitas outras histórias.

Como essa tarefa necessita de um mergulho muito mais profundo do que o até agora possível, a ser dado apenas na futura dissertação de mestrado, pretende-se, neste momento, apenas mostrar a viabilidade de trabalhar na contramão ideológica da história tradicional que sofre as doenças infantis do beletrismo campineiro: o esteticismo – que diferencia e rebaixa para chancelar – e a linearidade temporal que homogeneiza ao tentar diferenciar em períodos, etapas, ciclos e congêneres.

Uma primeira e fundamental etapa do itinerário, sem dúvida, é o levantamento do arcabouço institucional por cujos meandros será produzida, circulará e será consumida a literatura em Campinas, ou seja, é preciso delimitar a construção de um mercado leitor/consumidor suficientemente forte para viabilizar a difusão do produto literário na cidade.

No que se refere ao ensino, desde a primeira escola, aberta em 1802, pelo padre Diogo Feijó, até 1871, registra-se uma expansão sempre intensa do “sistema” de ensino que possibilita à cidade, nesse ano, ter uma das maiores taxas de alfabetização do país. Pelos cálculos do historiador Amaral Lapa, baseados em dados do então jornalista e futuro presidente da república, Campos Salles, havia dezesseis escolas de ensino primário (cinco públicas e onze particulares) com 570 alunos que, somados aos cerca de 200 das escolas rurais (em torno de 30), perfazem um total de 84% de crianças escolarizadas num universo de 13000 habitantes.

Certamente, esse conjunto de leitores em formação precisa ter acesso ao mercado de palavras, fruto, em grande parte, dos embates entre monarquistas e republicanos, ambos ansiosos pelo progresso e pela modernidade, mas, sobretudo, cientes da necessidade da formação de uma aparelho ideológico que definisse a disputa pela hegemonia, em nome da difusão das luzes:
O povo que Lê, ergue alto a sua autonomia no estado pela meditação e pelo pensamento, essas duas formidáveis trincheiras, ante as quaes quebram-se e cabem 2impotentes os golpes trahiçoeiros do despotismo (...)

O povo que é instruído e incarna o seu progresso no desinvolvimento real da intelligencia, sabe governar-se, tem a consciencia de sua grandeza (...)”.
Desse modo, registra-se, na segunda metade do século, o surgimento do Gabinete de Leitura de Campinas – GLC – (1865), da imprensa conservadora ou da republicana (1858), das lojas especializadas em livros, das editoras e tipografias, das inúmeras agremiações culturais cuja propriedade pelo menos das que ficaram na história é sempre dos mesmos atores ou grupos sociais.

A partir de levantamento feito por Amaral Lapa, é possível constatar que a produção das oficinas gráficas, por exemplo, da Gazeta de Campinas, da Casa Mascote, da Casa Livro Azul e da Casa Genoud somava-se aos cerca de 2500 livros do GLC, aos 6000 livros da biblioteca do Club Mac-Hardy, aos 5000 da do Club Republicano, aos 3000 da biblioteca Maçônica e aos 800 da Sociedade de Recreio dos Artistas para comporem – pensando-se apenas nessas instituições cujo acervo foi totalizado – 17300 livros à disposição dos seus freqüentadores. Ou clientes, no caso do GLC, que cobrava 2$000 mensais para dar acesso ao acervo – em francês ou português – em que predominavam os romances românticos, mas em que também havia espaço para a história.

Um anúncio da Typographia da Gazeta de Campinas, veiculado em 1873, contém ofertas de inúmeros títulos, com predominância dos autores brasileiros, a preços entre 1$000 e 4$000. Para os mais arrojados, na rua do Goes, n° 18, em 1879, são vendidos, a preços entre 500$ e 3$000, os livros exclusivos do público masculino (em volume brochado [sic] ou não). Como parâmetro: a remuneração de um operário da estrada de ferro Capivary era de 2$000 a 2$500 por um ou meio dia de trabalho, conforme o serviço.

No jornalismo, o historiador Jolumá Brito lista, em sua História de Campinas, a existência mais ou muito menos efêmera de 83 periódicos até 1896. Dentre tantos títulos, destacam-se a “Gazeta de Campinas” (1869), o “Diário de Campinas” (1875) e o “Correio de Campinas” (1885), nos quais, em meio às discussões sobre o avanço, o progresso e a modernidade na técnica e na política (República), está publicado vasto material literário: folhetins, debates, crítica e poesia.

Mesmo ainda não tendo sido possível analisar mais extensivamente a qualidade do material publicado, pode-se perceber que, num cenário como esse, queixar-se, quase cem anos depois, da impávida monotonia do século retrasado, como se verá adiante, é reduzir a literatura em Campinas ao gosto e ao valor subjetivo.

HISTÓRIAS SEM HISTÓRIA

Do reduzido número de obras produzidas sobre a história da cultura na Campinas do século XIX, duas merecem ser abordadas, por terem algumas qualidades em meio a inúmeros equívocos e por terem assegurado um aval institucional, ainda que hoje já bastante abalado: a História de Campinas, de Jolumá Brito, e Panorama da poesia em Campinas (até 1920), de Aristides Monteiro.



Jolumá Brito

A copiosa obra de Brito, composta por 26(!) volumes, tem os de números 6 e 7 dedicados à imprensa e à cultura campineiras. Se ao pesquisador da “Princesa d’Oeste desse período não é possível deixá-los de ler e de reconhecer que se trata de fonte fundamental de referências, fruto de exaustivo trabalho de pesquisa, tampouco é possível deixar de divertir-se com seu estilo nauseabundo de recusado pretendente ao sodalício campinense, ou de irritar-se com a simplificação deslumbrada das questões culturais.

Brito arranca dos fatos culturais toda e qualquer raiz que tenham na realidade histórica, para lançá-los nos etéreos planos das individualidades transformadoras. No campo da literatura, escreve verdadeiras hagiografias dos seus eleitos ao pináculo.

Santificado para todo o sempre, por exemplo, está o poeta Francisco Quirino dos Santos, autor das Estrelas errantes (1863), cuja inserção social de filho de fazendeiro, de bacharel formado pelo Largo de São Francisco, de republicano histórico, de deputado provincial, de sócio-proprietário da Gazeta de Campinas, de membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, de autor dos poemas que escreveu e de editor dos livros que publicou na tipografia de seu jornal, só aparece para provar a generosidade de sua alma de homem de boa cepa.

De tal modo literatura e biografia se misturam que, sem ter acesso à apreciação crítica sobre o que Quirino escreveu, o leitor vai conhecendo sua vida entremeada por excertos da lavra do poeta, como se a arte e a vida do autor só ganhassem sentido pela propriedade de iluminarem-se reciprocamente:
Não se sabe, mas, como é lindo

Errar nos bosques cismando

Quem nunca andasse sosinho

No deserto escuso, infindo

(...)

Assim transcorreu feliz a infância de Francisco Quirino dos Santos.[!!!]
Entusiasmado com tamanha integração textual entre a obra do poeta e a vida do brilhante causídico, Brito não se furta, no corolário do capítulo, a entrelaçar discurso historiográfico (?) com expressão poética.
Morreu atacado por uma síncope, às 5 horas da manhã.
Ai! Que descanço aquêle de quem dorme!

Si é possível sentir no antro enorme

As delícias fatais do último sono!
Cinco horas da manhã que passava na neblina fria. (...) Quando as estrelas erravam vagabundas [!] pela grandeza daquele céu(...). Quando milhares de estrelas luci-luzindo, [!!] pisca-piscando [!!!] ficavam errando pela imensidão(...). Enquanto os alhos cançados de Quirino dos Santos viam através da morte o céu azul... as estrelas errantes de seus sonhos!
Lágrimas e pano rápido para a história canônica!

Aristides Monteiro

Em sua proposta de fazer a crítica da crítica literária campineira, Monteiro deixa clara a tarefa que se propõe: livrar os estudos sobre a literatura em Campinas da armadilha do biografismo encomiástico para elaborar uma verdadeira análise estilístico-estética da produção enfocada.

Seu esteticismo, entretanto, está embasado numa visão anacrônica do objeto do qual quer limpar todos os ranços românticos, para estabelecer uma cronologia de quatro tempos literários que permita chegar à valorização do último deles (pós-1920), por seus aspectos inovadores, e, assim, legitimar a si mesmo. A teoria e a história literária bastante interessadas de Monteiro visam, portanto, moldar um objeto constituído quase sempre por obras qualificadas como precárias, avulsas, imitativas, salvo pequenas (ou grandes) exceções que, no ápice do cânon construído, permitam reconhecer uma tradição capaz de dialogar com a qualidade vanguardeira buscada nos inovadores modernistas.

O objeto moldado, entretanto, ressente-se das mesmas deformações vistas por Monteiro em seus predecessores. Ainda que haja um bafejo da teoria literária de Antônio Cândido, na medida em que busca o substrato institucional necessário para a integração a um sistema literário, Monteiro acaba descartando qualquer tipo de materialidade como relevante para seu estudo.

Assim, na genealogia que constrói da arte campineira, cabe a Francisco Quirino dos Santos, jornalista e republicano histórico, o papel de pai fundador de uma tradição poética campineira, dado que “teve marcada influência nos jovens literatos do tempo, que sempre procuraram imitá-lo” e foi o “primeiro poeta autêntico” de Campinas. Talvez pelo fato de que seus predecessores não se dessem bem com a métrica ou com o bom-gosto, como se depreende das críticas que lhes faz Monteiro.

Como não se pode demorar aqui em exaustiva análise do livro de Monteiro, apenas diga-se que a partir da fundação da “verdadeira literatura”, estabelece-se uma linha sucessória a cujos integrantes – bastardos à parte – vai sendo distribuída a farta adjetivação que informa ao leitor serem estes capazes de compor alexandrinos com perfeitos hemistíquios ou de serem gongóricos, hugoanos, etc. etc.

Quando quer, por exemplo, ressaltar o valor literário daquele que vê como o maior de todos os escritores pré-1920, Carlos Ferreira, o autor dispara sua metralhadora de rótulos numa seqüência como: “amigo de Castro Alves”, “romântico hugoano-condoreiro de alguma temática social e certas modalidades técnicas e emocionais (!) que denunciam contato intelectual com o vate baiano, depois realista, parnasiano (!!) mas envolvido por forte tendência simbolista (!!!) que sobrepuja seu lirismo romântico (!!!!). Em seguida, lista as obras de Ferreira, e pronto: está feita a verdadeira análise crítico-literária capaz de redimir a frágil historiografia campineira.

Ora, havia sido exatamente por rejeitar as abordagens da literatura feitas anteriormente que Monteiro se propusera uma crítica-histórica da produção literária. E o autor as havia rejeitado – com razão – por causa de seu caráter encomiástico e/ou por terem a literatura como objeto incidental da história da imprensa campineira. No fim das contas, Monteiro parece não se dar conta de que os juízos de valor podem ser favoráveis ou não a determinados vates ou aedos (sic), mas continuam sendo juízos de valor. Trata-se de um livro de “crítica-histórica” que, além de todos os problemas apontados, decorrentes de suas concepções de história, literatura, história da literatura e teoria literária, não contém um só verso que justifique uma só asserção do autor.

Parece, então, que as lentes do binóculo do cientista-esteticista foram lançadas invertidamente sobre o objeto que mais e mais se distancia do leitor, até o ponto em que esse possa pensar em um panorama da poesia campineira vista de longe ou invisível.

Quando Monteiro parece querer analisar as imbricações entre sociedade e literatura, o faz de modo a cultivar a imagem dos pobres autênticos artistas que dos píncaros das torres de marfim não conseguem cativar os leitores. Exemplo de sua qualidade de sociólogo choroso tem-se a seguir:


Quanto à sociedade, havia várias atitudes diferentes distinguindo a mentalidade dos moradores: a indiferença orgulhosa da classe abastada constituída pela aristocracia dos fazendeiros; o comodismo utilitarista da classe-média que cuidava egoisticamente de seus interesses domésticos e comerciais; e a ignorância ordeira e submissa da classe obreira, ainda não agitada pelos ideais socialistas que dentro de pouco tempo viriam abalar o mundo todo.

(...)

Nesta conjuntura, os poetas ficavam relegados a uma posição de marginalismo, sem incentivos. A poesia modorrava numa espécie de conformismo (...)
Na sua sociologia de literato excluído, Monteiro se mostra tão crítico histórico como em sua história da literatura.

FRAGMENTOS DE LEITURA: NOTÍCIAS E FOLHETINS

A vida cultural campineira pode ser menos simples do que supõe a historiografia tradicional. Nas páginas da "Gazeta de Campinas", o mais importante jornal campineiro do século 19, dirigido pelas duas maiores autoridades literárias da cidade, o bacharel e poeta Quirino e o poeta e dramaturgo Carlos Ferreira, há sempre espaço para literatura, críticas e noticiário cultural.

No que se refere aos dois últimos itens, na cidade das letras-luzes de Campos Salles, os intelectuais asseguram seu espaço na imprensa e reiteram seu status social pela veiculação de imagens de letras e letrados pelas quais, ao mesmo tempo em que se celebram os laços de solidariedade entre os produtores de cultura, esvazia-se o conteúdo crítico e apaga-se muito das especificidades de cada obra literária e de cada livro, ou seja, mistifica-se seu valor. Assim, a grande confraria intelectual campineira, para além de suas rusgas, une-se por ser seu acesso privilegiado às letras da imprensa, das sociedades literárias, dos livros e das salas de aula o meio de se auto-chancelarem e garantirem não só a construção de um sólido mercado cultural, mas também a sua inserção nele como produtores, divulgadores e vendedores de objetos culturais.

Exemplo do que é afirmado acima é dado pela não atípica notícia da edição de 28 de maio de 1882 da "Gazeta de Campinas":


Findo que foi o espectaculo, grande numero de admiradores do senhor Navarro (...) o acompanharam até o Hotel da Europa onde s.s e sua exma. esposa estão hospedados (...) O sr. Navarro respondeu com eloqüente improviso, saudando o generoso povo de Campinas que lhe dava nessa honrosa manifestação gloriosas commoções e estimulo para novos emprehendimentos litterarios. Em seguida, novos brindes foram feitos (...): do dr. Luiz Albino, em nome de alguns amigos seus da imprensa. Do dr. Luiz Silverio, pela sociedade Carlos Gomes. De Carlos Ferreira, pela redacção da Gazeta de Campinas (...). De Carlos Ferreira, pelas sociedades Artistica Beneficente, Circulo Italiano e allemã Concordia.

[Seguem-se mais onze brindes]



Encerrou o festim um brinde de dr. Quirino á exma. esposa do sr. Navarro, sendo immensamente correspondido.
Quase duas colunas da página principal trazem uma sucessão de brindes que fecham o círculo literário campineiro a partir dos rituais de sociabilidade burguesa. Nos salões e saguões da cidade, que passam a ser os locais para se visualizar publicamente os diferentes papéis sociais, importa mais quem diz e a quem diz, numa cerimônia cultural, do que propriamente o que se diz sobre o objeto cultural. Certamente se lê, se ouve, se discute e se escreve literatura em Campinas. Mas o que é notícia, via de regra, é o elogio vazio ou rasteiro, ou os entornos que enunciam e difundem a necessidade e a naturalidade da maior relevância social da elite letrada ligada ao poder econômico.

Essa mesma elite letrada cria ambivalências entre a realidade debatida no noticiário e a ficção muitas vezes abertamente pragmática que publica. Isso é visível, por exemplo, nos conflitos e nas consonâncias entre o artigo "Instrucção pública", de 7/12/1882, da "Gazeta", e o folhetim "Luz e sombra", de 30 de abril do mesmo ano, assinado pelo autor com o pseudônimo de “Z”.

O articulista, provavelmente o poeta Carlos Ferreira, cumpre sua "missão histórica" de diagnosticar os males do ensino público no país, sobretudo a ignorância dos professores e a sua falta de método. Apoiando-se no argumento de autoridade de um ministro francês, dá-se o aval à instituição da leitura literária na escola como parte das medidas disciplinadoras. Em substituição à cópia "ininteligente", os alunos seriam obrigados a ler e a reportar ao professor a sua interpretação para "emendar as idéias erradas" que pudessem ter dos textos exemplares dos "guias e iniciadores do espírito humano". A quebra da verticalidade da transmissão do sentido único dos textos e a conseqüência de fragilização do papel mediador do professor incomodou autor também no ensino do que vê como substrato da literatura: a gramática. Em vez de discutir os métodos fracassados, o autor pugna por assegurar um espaço no mercado para obras como a de Júlio Ribeiro, capazes por sua excelência de combater – quase que magicamente, a julgar pela falta de amarração argumentativa – a rarefação da leitura e a pluralidade que empobrece:
Cada professor tem o seu systema, o seu modo de ver as cousas, a sua opinião formada a respeito de syntaxe.

Cada cabeça, cada sentença, e muitas vezes da-se o singular episodio do discipulo saber mais que o professor!

(...) os mestres como nosso compatriota senhor Julio Ribeiro trabalham em vão, porque verdadeiramente os seus trabalhos nem sequer chegam a ser adoptados e comprehendidos (...)

Se a escola concreta não vai bem e precisa ser homogeneizada, na ficção o ensino tem um valor intrínseco, universal e redentor. A luz das letras e as trevas dos becos e dos espaços degradados e marginais opõem-se fortemente no folhetim "Luz e sombra". Especialmente a mulher burguesa que transita agora entre o espaço privado e o público deve ser disciplinada e moralizada pela educação, para não ter o destino da protagonista.

Privilegiada economicamente, mas sem apego aos livros, a personagem feminina fica reduzida aos seus caprichos, à sua vaidade e aos dotes físicos de "estátua de carne" e "de cabide enfeitado pelos caprichos da moda". Nos salões da sociedade letrada pelos quais circula, em vez de inveja, provoca escárnio. Desprovida dos valores imanentes da educação burguesa, quando sem o dinheiro que essa sociedade quer fazer parecer menos importante, a mulher, que antes podia confirmar a metáfora inicial das "doudas borboletas" das crianças e "espargir seu pó doirado" no mundo, transforma-se em vítima da ave sinistra da prostituição e da morte desonrada. Às antípodas da nova mulher campineira que lê livros e jornais, ensina nas casas e escolas e ajuda a difundir o ideário da modernidade, está reservado um trágico destino histórico.

Júlia Lopes de Almeida

A mulher, tantas vezes protagonista dos folhetins de Júlia Lopes, em alguns deles é vitimada por uma exaltação que a rebaixa. No rodapé “Rabugice”, cujas cenas se passam no interior de uma casa qualquer, acabam se definindo as qualidades que constroem a identidade feminina na ótica da narradora. Cansada de ver o avô e a avó digladiarem-se em polêmicas intermináveis sobre abrir ou fechar a janela e sobre a qualidade de chás e torradas, a neta-protagonista aposta com um outro morador do tumultuado lar que fará com que seus avós concordem em algo.

Qualificada como a “meiga criaturinha” e a “linda flor daquele modesto canteiro”, a moça usa a capacidade feminina de chegar à verdade – revelada ao leitor quando ela percebe que a avó, apesar do rosto virado, está triste – para promover um singelo reencontro do casal: oferecendo cada uma das faces a cada um deles, retira a cabeça abruptamente, fazendo com que o casal se beije e concorde em uníssono: “é um anjo”. Apaziguar, ser dona do bom senso, ser capaz de recompor a ordem perturbada pela insensibilidade, ser capaz de restaurar a organização da unidade básica do mundo pequeno-burguês são atributos e atribuições da mulher dona da luz das verdades intuitivas. Para um gênero que ia se configurando narrativamente como associado ao mal, à fraqueza, à incapacidade intelectual, à prostituição, ao demônio ou aos desvarios do coração, não está nada mal. Ao menos ultrapassa a redução ao trinômio coração-seios-útero. A mulher é um ser indiscutivelmente cerebrado.

Dentro do espaço doméstico que parece ser o cenário ideal para a personagem feminina também está a personagem-título do rodapé “Anninha” (6/5/83). Esperando ansiosamente pela consumação de seu destino feminino, o casamento. Esperando pelo cumprimento de uma promessa de noivado, no dia de seu aniversário de 20 anos, feita por um namorado que partiu. Anninha, se tem os “lábios cheios de sorrisos” e “olhos cheios de meiguice” da Virgem com cujo retrato adorna a sala, na verdade mais semelhança tem com seu canário. Na sua expectativa alegre, a mulher-ave canora “enfeita seu ninho” com flores e cortinados feitos em seus serões. Com “desvelado mimo” fizera as rendas finas do enxoval e abrira as janelas “cantando alegremente”. Acompanhe-se agora o canário-personagem:


A gaiola do canario como reluzia de asseio!! e a delicada avesinha andava inquieta, gorgeiando, (...) rendilhava a tenra folha da alface (...) dir-se-hia que ella queria imitar a sua dona gentil movendo-se alegre e celere de um lado para o outro.
Como era de esperar, senão não haveria história, suas sôfregas idas à janela da casa-gaiola se frustram. As juras de amor não se cumpriram. Todo o sofrimento por acreditar numa promessa de amor eterno aflora. É, com trocadilho, de dar pena. Mais uma vez, reserva-se à mulher um lugar social de pouca relevância e grande vulnerabilidade. Volta-se a um dos vértices do triângulo coração-útero-seios. Gradeada pela impossibilidade de transitar de um espaço doméstico a outro onde terá seus papéis bem definidos, a pobre Anninha desaba a chorar.

As palavras do historiador Amaral Lapa podem ajudar a lançar um pouco mais de luz sobre a construção da identidade feminina burguesa no XIX:


Se a mulher senhorial havia ocupado o lugar da mulher colonial, novos papéis e expectativas lhe eram reservados por uma sociedade regional que se sentia abalada pelo agito republicano, legitimador dessas representações femininas e burguesas.

Essa educação é que interessava às classes dominantes em transição. A mulher decorativa devia ceder lugar agora à mulher útil.(...)

(...)a sua formação ideal implicaria o aprendizado de todo o conjunto que qualificaria a moça prendada e futura “mãe de família” cristã, com todas as qualidades que essa função exigia. Mas essas qualidades só seriam atingidas com o chamado “ensino doméstico”(...), acrescentando-se aulas de costura, bordados de todas as qualidades, flores, crivo(...)
Quando transpõem, porém, as janelas das residências provincianas, os folhetins de Júlia Lopes parecem ganhar uma inflexão interessante. Em “O Veo”, com o mesmo humor ligeiro com que escrevera “Rabugice”, Júlia conta a história de um engodo do qual é vítima o protagonista. Trata-se de um estudante de internato que, em férias, volta para casa como passageiro de um trem no qual o aguarda um mistério. Uma dama, cujo rosto está recoberto por um véu, acompanhada de sua criada, embarca no trem, despertando a curiosidade do rapaz. Perdido em suposições sobre a vida fantástica e a escondida e sedutora beleza da mulher, o jovem, estimulado pelas mulheres a segui-las, acaba desiludindo-se: despido o véu, depara-se com uma decrépita velha que lhe diz para não seguir mulheres com véus muito espessos.

O que seria apenas uma paródia fabular bem humorada ganha outros sentidos não só pela habilidade narrativa de Júlia com pela caracterização do jovem: ele é um leitor. Não um leitor qualquer, mas um leitor do sexo masculino – assim como a autora prevê um leitor homem – que se deixa envolver pelos livros de Ponson du Terrail, identificando-se sempre com os personagens das “mais felizes e audazes aventuras”. Esse leitor, ardilosamente construído no gênero masculino, serve para rebaixar determinado gênero ficcional e para inverter a imagem socialmente difundida da mulher como ser ingênuo seduzido pelo rocambolesco:


As mãos são mimosas, lindas , conhece-se atravez das luvas lizas e macias! Os pés... oh! os pés são dous mimos (...) Como transparece nesta toillete a alma de delicada mulher!

Os pensamentos entusiasmados do incauto protagonista, incapaz de separar ficção e realidade, ganham outro parâmetro ficcional quando da revelação da verdade. Após beijar, ajoelhado, “a cauda do vestido de veludo negro daquelle adorado enigma”, ele toca-lhe as mãos estendidas:


Oh! Mas essas mãos eram frias como as dos tétricos personagens dos livros de Poe!...
A autora, a narradora(?) e as personagens femininas, donas do destino de um personagem masculino, colocam-se, então, na sua posição final de superioridade: lêem com mais habilidade os livros e o mundo.

Tomás Alves

Mundo que também está sendo lido e construído nos folhetins de Tomás Alves, médico e escritor de pequenas ficções que se alternam com as de Júlia Lopes no espaço nobre da primeira página dominical da Gazeta de Campinas. Suas obras são de particular interesse pela introdução, na narrativa folhetinesca da cidade, do cotidiano dos pobres como objeto de literatura e pelo anticlericalismo inegável que contêm. Pobres e padres são os protagonistas mais freqüentes de tragédias muitas vezes marcadas pelas vidas sufocadas pelas batinas ou pela tensão entre o mundo do trabalho mal remunerado e a religiosidade católica.

Em 7/12/1882, tem-se um exemplo da decisiva e deletéria presença da religião na vida de seus personagens. Em “Uma dúzia de cartas”, folhetim epistolar, o leitor tem acesso, por meio de uma carta escrita por um homem a sua mulher distante, à história do padre Manoel, que acabara de ser enterrado. Antes da morte, o pároco havia confidenciado ao remetente um segredo guardado por trinta anos.

Ponteada por um trabalho descritivo capaz de fazer a transição de uma composição luminosa – “a luz que caía do céu destacava tudo” – do cenário natural para um soturno crepúsculo que – “com seu sol amortalhado no horizonte” – prenuncia a morte, a história do padre bonachão atinge seu clímax quando se torna profana.

Confessando ao seu interlocutor o seu sofrimento desde que amara pela última vez, o padre se despe de seu papel social e compara seu martírio ao de Cristo, analogia que, se rebaixa a figura divinizada, humaniza e despe o Mártir construído pela instituição. No céu, a natureza ajuda a compor a cena, por meio de um sorriso da estrela Vênus para o padre, sorriso que surge como surgiria “das iluminuras de um missal” uma “vinheta obscena”.

Do mesmo modo como o cenário e a vida se transformaram, a descrição do padre morto introduz agora o rebaixamento lírico de sua figura, comparados o seu rosto babado a um rastro de lesma e o brilho do seu anel a uma lanterna de botequim.

Consumada a morte do religioso diante de um leigo no papel de confessor, este pode ungi-lo, inserindo-o simultaneamente no plano do sagrado e do profano, imaginando-o em vôo pelo espaço, em direção à estrela a quem parece cantar uma missa como “o arcebispo de Toledo fazia aos pés daquela Carmen de Theophile Gautier”.

A leitura dos textos de Júlia Lopes e de Tomás Alves permite, então, a aproximação do leitor a um imaginário extremamente diverso e complexo, em que convivem leituras e visões de mundo bastante distintas e, por isso mesmo, muito pouco resumíveis a sua pasteurização encantada ou lamuriosa.


BIBLIOGRAFIA:
BATTISTONI FILHO, Duílio. Campinas: uma visão histórica. Campinas, SP: Pontes, 1996.

BRITO, Jolumá. História da cidade de Campinas. 6o. e 7o. Vols. Campinas, s.n., 1958.

CORREA, Luís. Dicionário de autores paulistas, s.n., 1954.

GALZERANI, Maria Carolina Boverio. O Almanaque, a locomotiva da cidade moderna: a configuração funcional de identidades sociais burguesas e de novas sensibilidades na cidade de Campinas. Tese de Doutorado, IFCH, Unicamp, 1998.

LAJOLO, Marisa. “Literatura e História da Literatura: Senhoras Muito Intrigantes” in História da literatura: ensaios, Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1994.

LAPA, José Roberto do Amaral. A Cidade: os cantos e os antros: Campinas 1850-1900. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

LEENHARDT, Jacques “A Construção da Identidade Pessoal e Social através da História e da Literatura” in Leenhardt, Jacques & Pesavento, Sandra (orgs.) Discurso histórico e narrativa literária. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1998.

MARIANO, Júlio. Campinas de ontem e anteontem: quadros históricos menos conhecidos da Cidade Princesa, que se traçaram tendo por base documentos inéditos do arquivo da Câmara Municipal de Campinas. Campinas: Maranata, 1970.

MELLO PUPO, Celso Maria. Campinas, seu berço e juventude. Campinas, SP: Academia Campinense de Letras, 1969.

MONTEIRO, Aristides. Panorama da poesia em Campinas (até 1920). Campinas, SP: Academia Campinense de Letras, 1976.

FONTE PRIMÁRIA:
Jornal:

GAZETA DE CAMPINAS, várias edições, de maio de 1882 a maio de 1883





1 A história cultural moderna sobre Campinas, feita essencialmente na Unicamp, por estudiosos como Amaral Lapa e Galzerani, não será questionada, por não padecer dos mesmos males dos livros enfocados neste trabalho. Ao contrário disso, será ponto de apoio essencial. Não se pode deixar de acrescentar, porém, que a farta produção literária da época, à exceção daquela publicada nos almanaques e analisada por Galzerani, não é objeto central desses estudos.

2 Campos Salles, “A Instrucção Pública em Campinas”, in José Maria Lisboa (org.), Almanak de Campinas para 1871, Campinas, Typ. da Gazeta de Campinas, 1870, pp. 75-80.


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