Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier. Editora da feb, 11a edição, 1941. Na Escola do Evangelho



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Boa Nova
Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Editora da FEB, 11a edição, 1941.
1. Na Escola do Evangelho - No prefácio, o autor lembra que seus temas não são os mesmos dos tempos em que se encontrava encarnado. Muitos se surpreendem com isso, esquecidos de que o gosto literário sempre refletiu as condições da vida do Espírito. “Meu problema atual -- assevera ele -- não é o de escrever para agradar, mas o de escrever com proveito.” ( P. 11)

2. Diz Humberto que no mundo espiritual todas as expressões evangélicas têm a sua história viva e os planos espirituais possuem também o seu folclore. Foi dos milhares de episódios que compõem esse folclore que ele conseguiu reunir trinta, elaborando dessa maneira a presente obra. (P. 12)

3. Fechando o prefácio, diz ele, em um recado direto aos críticos: “Como se vê, não faço referências aos clássicos da literatura antiga ou contemporânea. Cito Marcos e João. É que existem Espíritos esclarecidos e Espíritos evangelizados, e eu, agora, peço a Deus que abençoe a minha esperança de pertencer ao número destes últimos”. (P. 13)

4. Boa Nova - O capítulo que dá início a esta obra lembra-nos a gloriosa época de Caio Júlio César Otávio, quando o grande império romano, como que influenciado por um conjunto de forças estranhas, descansou numa onda de harmonia e de júbilo, depois de guerras seculares e tenebrosas. (PP. 15 e 16)

5. Foi aquela uma era de grandes realizações. E o próprio Imperador, muitas vezes, em presidindo as grandes festas populares, se surpreendia ao testemunhar o júbilo e a tranqüilidade geral do seu povo. É que os historiadores não perceberam, na chamada época de Augusto, o século do Evangelho ou da Boa Nova. (PP. 17 e 17)

6. Esqueceram-se todos eles de que o nobre Otávio era também homem e não conseguiram saber que, no seu reinado, a esfera do Cristo se aproximava da Terra, numa vibração profunda de amor e de beleza. Acercavam-se então de Roma e do mundo, não mais espíritos belicosos, como Alexandre ou Aníbal, porém outros que se vestiriam dos andrajos dos pescadores, para servirem de base indestrutível aos eternos ensinos do Cordeiro. (P. 18)

7. É por isso que o ascendente místico da era de Augusto se traduzia na paz e no júbilo do povo que, instintivamente, se sentia no limiar de uma transformação celestial. (P. 18)

8. Depois dessa festa dos corações, qual roteiro indelével para a concórdia dos homens, ficaria o Evangelho como o livro mais vivaz e mais formoso do mundo, constituindo a mensagem permanente do céu, entre as criaturas em trânsito pela Terra, o mapa das abençoadas altitudes espirituais, o guia do caminho, o manual do amor, da coragem e da alegria. (P. 18)

9. Jesus e o Precursor - Após Jesus ter-se apresentado aos doutores da Lei no Templo, Maria recebeu a visita de Isabel e de seu filho João, conhecido mais tarde como João Batista. “O que me espanta -- dizia Isabel -- é o temperamento de João, dado às mais fundas meditações, apesar da sua pouca idade.” “Meu filho também é assim”, afirmou-lhe Maria. “Essas crianças, a meu ver -- asseverou a mãe de Jesus --, trazem para a Humanidade a luz divina de um caminho novo.” (PP. 20 e 21)

10. Maria informou: “Por vezes, vou encontrá-lo a sós, junto das águas, e, de outras, em conversação profunda com os viajantes que demandam a Samaria ou as aldeias mais distantes, nas adjacências do lago”. “Quase sempre, surpreendo-lhe a palavra caridosa que dirige às lavadeiras, aos transeuntes, aos mendigos sofredores... Fala de sua comunhão com Deus com uma eloqüência que nunca encontrei nas observações dos nossos doutores e, constantemente, ando a cismar, em relação ao seu destino.” (P. 21)

11. Maria acrescentou que depois do encontro no Templo, vendo as respostas que Jesus dava aos doutores, Eleazar chamou José e o advertiu de que o menino parecia haver nascido para a perdição de muitos poderosos em Israel. Ciente disso, ela procurou Eleazar, pedindo-lhe intercedesse por Jesus. É que Maria temia por seu futuro, preocupada que estava com o seu preparo conveniente para a vida. Jesus percebeu-lhe os pensamentos e, certo dia, a interpelou: “Mãe, que queres tu de mim? Acaso não tenho testemunhado a minha comunhão com o Pai que está no Céu?!” (P. 22)

12. Surpreendida com essas perguntas, Maria disse-lhe reconhecer que ele necessitaria de um preparo melhor para a vida, ao que ele ponderou: “Mãe, toda preparação útil e generosa no mundo é preciosa; entretanto, eu já estou com Deus. Meu Pai, porém, deseja de nós toda a exemplificação que seja boa e eu escolherei, desse modo, a escola melhor”. (P. 22)

13. No mesmo dia, embora soubesse das belas promessas que os doutores do templo fizeram a seu respeito, Jesus aproximou-se de José e lhe pediu, com humildade, que o admitisse em seus trabalhos de carpinteiro. (P. 22)

14. Alguns anos depois, João partiu, a fim de executar a sua tarefa. Vestido de peles e alimentando-se de mel selvagem, esclarecendo com energia e deixando-se degolar em testemunho à Verdade, precedeu ele a lição da misericórdia e da bondade, constituindo-se num dos mais belos de todos os símbolos imortais do Cristianismo. (P. 24)

15. Primeiras pregações - Sentado como um peregrino, nas adjacências do Templo, Jesus foi notado por um grupo de sacerdotes. “Galileu -- perguntou-lhe Hanã --, que fazes na cidade?” O Cristo respondeu-lhe: “Passo por Jerusalém, buscando a fundação do Reino de Deus!” O sacerdote, que mais tarde seria o juiz inclemente de sua causa, replicou com ironia: “Reino de Deus? E que pensas tu venha a ser isso?” Jesus esclareceu: “Esse Reino é a obra divina no coração dos homens!” (P. 26)

16. Hanã gargalhou com desprezo e enfileirou diversas perguntas com o propósito evidente de menosprezá-lo. Jesus, com serenidade, respondeu-lhe às indagações, asseverando que não existe mármore mais puro e mais formoso do que o do sentimento, nem cinzel superior ao da boa-vontade. Em seguida, aditou ter pleno conhecimento da vontade do Pai que está nos céus, diante do que o sacerdote, irritado e dirigindo-lhe um sorriso de profundo desprezo, demandou a Torre Antônia. (PP. 26 e 27)

17. Anos mais tarde, logo depois de convidar Levi, o publicano, a segui-lo, Jesus fez em casa de Simão Pedro a primeira

exposição de sua consoladora doutrina, esclarecendo que a adesão desejada era a do coração sincero e puro às claridades do seu reino. No mesmo dia, à tarde, o Mestre fez a primeira pregação da Boa Nova na praça de Cafarnaum, situada junto às águas. (P. 29)

18. Na praia extensa se acotovelava a grande multidão de pescadores rústicos, de mulheres aflitas por continuadas flagelações, de crianças sujas e abandonadas, misturados publicanos pecadores com homens analfabetos e simples, que haviam acorrido, ansiosos por ouvi-lo. (P. 30)

19. A família Zebedeu - Salomé, mãe dos apóstolos João e Tiago, pedira a Jesus que, logo após a instituição do seu reino,

seus filhos se sentassem um à direita e outro à esquerda do Mestre, como as duas figuras mais nobres do trono. Mais tarde, procurado por Zebedeu, Jesus lembrou-lhe que todos os profetas de Deus haviam sido maltratados e trucidados, ou banidos do berço em que nasceram, e que, ao contrário do que ele e a esposa pensavam, o reino de Deus tem de ser fundado no coração das criaturas: o trabalho árduo seria o seu gozo; o sofrimento, seu cálice. Então Zebedeu entendeu que o reinado do Cristo seria algo bem diferente. (P. 33)

20. Referindo-se aos verdadeiros discípulos do Senhor, o Mestre disse que esses não aprovam o erro, nem exterminam os que o sustentam. Deus está sempre trabalhando, mas não tolera o mal e o combate, por muito amar a seus filhos. (P. 34)

21. Em seguida, o Senhor esclareceu a Zebedeu informando que “nossa causa não é a do número; é a da verdade e do bem”. “É certo -- disse Jesus -- que ela será um dia a causa do mundo inteiro, mas, até lá, precisamos esmagar a serpente do mal sob os nossos pés. Por enquanto, o número pertence aos movimentos da iniqüidade.” (P. 35)

22. Clareando seu pensamento, Jesus aduziu que a mensagem da Boa Nova é excelente para todos, mas nem todos são ainda bons e justos para com ela. “Não repousaremos até ao dia da vitória final. Não nos deteremos numa falsa contemplação de Deus, à margem do caminho...”, acrescentou o Cristo. (PP. 35 e 36)

23. Zebedeu soltou as lágrimas que lhe rebentavam do peito e ajoelhou-se. Jesus aproximou-se dizendo: “Levanta-te, Zebedeu! os filhos de Deus vivem de pé para o bom combate!” (P. 36)

24. Os discípulos - Era nas proximidades de Cafarnaum que Jesus reunia a grande comunidade dos seus seguidores e foi entre os homens mais humildes e simples do lago de Genesaré que ele escolheu os doze companheiros que, a partir de então, seriam os intérpretes de suas ações e ensinos. Pedro, André e Filipe eram de Betsaida, de onde vinham também João e Tiago, filhos de Zebedeu. Levi, Tadeu e Tiago, filhos de Alfeu e sua esposa Cleofas, parenta de Maria, eram nazarenos, e amavam a Jesus desde a infância, sendo muitas vezes chamados “os irmãos do Senhor”. Tomé descendia de um antigo pescador de Dalmanuta. Bartolomeu era de Caná da Galiléia. Simão, denominado mais tarde “o Zelote”, viera de Canaã. Somente um deles, Judas, destoava um pouco do conjunto, pois nascera em Iscariotes e se consagrara ao pequeno comércio de Cafarnaum, onde vendia peixes e quinquilharias. (PP. 38 e 39)

25. O reduzido grupo de companheiros de Jesus experimentou a princípio certas dificuldades para harmonizar-se. Pequeninas contendas geravam a separatividade entre eles e, de vez em quando, o Mestre os surpreendia em discussões inúteis sobre qual deles seria o maior no reino de Deus, ou quem possuía sabedoria maior, no campo do Evangelho. (P. 39)

26. Levi continuava nos seus trabalhos da coletoria local, enquanto Judas prosseguia nos seus pequenos negócios, embora se reunissem diariamente aos demais companheiros. Os outros viviam quase que constantemente com Jesus, junto às águas transparentes do Tiberíades. (N.R.: Levi e Mateus são a mesma pessoa.) (P. 39)

27. Segundo Mateus, as recomendações iniciais de Jesus aclaravam as normas de ação que os discípulos deveriam seguir: “Amados, não tomareis o caminho largo por onde anda toda gente, levada pelos interesses fáceis e inferiores; buscareis a estrada escabrosa e estreita dos sacrifícios pelo bem de todos. Também não penetrareis nos centros de discussões estéreis, à moda dos samaritanos, nos das contendas que nada aproveitam às edificações do verdadeiro reino nos corações com sincero esforço”. (P. 39)

28. A recomendação do Messias era bem clara: “Ide antes em busca das ovelhas perdidas da casa de nosso Pai que se encontram em aflição e voluntariamente desterradas de seu divino amor. Reuni convosco todos os que se encontram de coração angustiado e dizei-lhes, de minha parte, que é chegado o reino de Deus. Trabalhai em curar os enfermos, limpar os leprosos, ressuscitar os que estão mortos nas sombras do crime ou das desilusões ingratas do mundo, esclarecei todos os espíritos que se encontram em trevas, dando de graça o que de graça vos é concedido”. (P. 40)

29. Jesus não lhes ocultou as dificuldades da tarefa, avisando-os de que seriam entregues aos tribunais e açoitados nos templos suntuosos, de onde a idéia de Deus estava exilada. “Sereis conduzidos, como réus, à presença de governadores e reis, de tiranos e descrentes, a fim de testemunhardes a minha causa”, advertiu o Senhor, prometendo contudo que estaria a seu lado e que aquele que perseverasse até o fim estaria salvo. (P. 41)

30. Terminada a alocução, no semblante de todos perpassava a nota íntima da alegria e da esperança. Os apóstolos criam contemplar o glorioso porvir do Evangelho do Reino e estremeciam de júbilo. Foi quando Judas Iscariotes alvitrou: “Senhor, os vossos planos são justos e precisos; entretanto, é razoável considerarmos que nada poderemos edificar sem a contribuição de algum dinheiro”. (P. 42)

31. Jesus contemplou-o serenamente e redargüiu: “Será que Deus precisou das riquezas precárias para construir as belezas do mundo? Em mãos que saibam dominá-lo, o dinheiro é um instrumento útil, mas nunca será tudo, porque, acima dos tesouros perecíveis, está o amor com os seus infinitos recursos”. (P. 43)

32. Autorizado pelo Senhor, Judas procedeu ali mesmo à primeira coleta entre os discípulos, diante dos olhos do Mestre cheio de apreensões. Em seguida, apresentando a Jesus a bolsa minúscula, que se perdia nas dobras de sua túnica, o discípulo exclamou, satisfeito: “Senhor, a bolsa é pequenina, mas constitui o primeiro passo para que se possa realizar alguma coisa...” Jesus fitou-o serenamente e retrucou: “Sim, Judas, a bolsa é pequenina; contudo, permita Deus que nunca sucumbas ao seu peso!” (P. 43)

33. Fidelidade a Deus - Reunido a sós com seus discípulos, Jesus ensinou que na causa de Deus a fidelidade deve ser uma das primeiras virtudes. Nós não podemos duvidar da fidelidade de Nosso Pai. “Sua dedicação -- disse Jesus -- nos cerca os espíritos, desde o primeiro dia. Ainda não o conhecíamos e já ele nos amava.” (P. 44)

34. Dito isto, o Mestre acrescentou: “Tudo na vida tem o preço que lhe corresponde. Se vacilais receosos ante as bênçãos do sacrifício e as alegrias do trabalho, meditai nos tributos que a fidelidade ao mundo exige. O prazer não costuma cobrar do homem um imposto alto e doloroso? Quanto pagarão, em flagelações íntimas, o vaidoso e o avarento? Qual o preço que o mundo reclama ao gozador e ao mentiroso?” (P. 45)

35. Timidamente, Tiago, filho de Alfeu, contou-lhes então a história de um amigo que arruinara a saúde, por excessos nos prazeres condenáveis. Tadeu falou de um conhecido que, depois de ganhar grande fortuna, se havia tornado avarento e mesquinho a ponto de privar-se do necessário, para multiplicar o número de suas moedas, acabando assassinado pelos ladrões. Pedro recordou o caso de um pescador de sua intimidade, que sucumbira tragicamente, por efeito de sua desmedida ambição. (P. 45)

36. Jesus, depois de ouvi-los, perguntou: “Não achais enorme o tributo que o mundo exige dos que se apegam aos seus gozos e riquezas? Se o mundo pede tanto, por que não poderia Deus pedir-nos lealdade ao coração?” E aduziu: “Trabalhamos agora pela instituição divina do seu reino na Terra; mas, desde quando estará o Pai trabalhando por nós?” (P. 45)

37. Na seqüência, respondendo a uma observação feita por Tiago, o Messias lembrou-lhes que nem todos podem compreen-

der a verdade de uma só vez. “Devemos considerar -- disse ele -- que o mundo está cheio de crentes que não entendem a proteção do céu, senão nos dias de tranqüilidade e de triunfo. Nós, porém, que conhecemos a vontade suprema, temos que lhe seguir o roteiro. Não devemos pensar no Deus que concede, mas no Pai que educa; não no Deus que recompensa, sim no Pai que aperfeiçoa. Daí se segue que a nossa batalha pela redenção tem de ser perseverante e sem trégua...” (P. 46)

38. Um dos discípulos então perguntou: “Mestre, não seria melhor fugirmos do mundo para viver na incessante contemplação do reino?” A resposta de Jesus foi dada em forma de pergunta: “Que diríamos do filho que se conservasse em perpétuo repouso, junto de seu pai que trabalha sem cessar, no labor da grande família?” (P. 47)

39. “Em verdade -- esclareceu o Messias --, ninguém pode servir, simultaneamente, a dois senhores. Fora absurdo viver ao mesmo tempo para os prazeres condenáveis da Terra e para as virtudes sublimes do céu. O discípulo da Boa Nova tem de servir a Deus, servindo à sua obra neste mundo. Ele sabe que se acha a laborar com muito esforço num grande campo, propriedade de seu Pai, que o observa com carinho e atenta com amor nos seus trabalhos.” E completou: “o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com perseverança e boa-vontade”. (P. 47)

40. Ouvindo isto, um dos filhos de Zebedeu perguntou qual a primeira qualidade a cultivar no coração para que nos sintamos plenamente identificados com a grandeza espiritual da tarefa. “Acima de todas as coisas -- respondeu Jesus -- é preciso ser fiel a Deus.” (PP. 47 e 48)

41. André indagou: “Como alguém pode ser fiel a Deus, estando enfermo?” “Ouve”, explicou Jesus. “Nos dias de calma, é fácil provar-se fidelidade e confiança. Não se prova, porém, dedicação, verdadeiramente, senão nas horas tormentosas, em que tudo parece contrariar e perecer. O enfermo tem consigo diversas possibilidades de trabalhar para Nosso Pai, com mais altas probabilidades de êxito no serviço.” (P. 48)

42. Dirigindo-se ao apóstolo, o Mestre recomendou: “André, se algum dia teus olhos se fecharem para a luz da Terra, serve a Deus com a tua palavra e com os ouvidos; se ficares mudo, toma, assim mesmo, a charrua, valendo-te das tuas mãos. Ainda que ficasses privado dos olhos e da palavra, das mãos e dos pés, poderias servir a Deus com a paciência e a coragem, porque a virtude é o verbo dessa fidelidade que nos conduzirá ao amor dos amores!”. (P. 48)

43. A luta contra o mal - Tadeu era o discípulo que mais se deixava impressionar pelas cenas que se passavam com os chamados endemoninhados. Aguçavam-lhe sobremaneira a curiosidade de homem os gritos desesperados dos Espíritos malfazejos que se afastavam de suas vítimas sob a amorosa determinação do Senhor. Tadeu, que fracassara certa vez ao tentar aliviar o sofrimento de uma pobre demente, não entendia por que o Mestre não lhes transmitia, automaticamente, o poder de expulsar os demônios. Se era tão fácil a Jesus a cura integral dos endemoninhados, por que não provocava ele de vez a aproximação geral de todos os inimigos da luz, para que, pela sua autoridade, fossem definitivamente convertidos ao reino de Deus? (PP. 50 e 51)

44. Depois de escutar as ponderações do apóstolo, Jesus perguntou-lhe qual era o principal objetivo das atividades de sua vida. Tadeu respondeu prontamente: “Mestre, estou procurando realizar o reino de Deus no coração”. Jesus então observou: “Se procuras semelhante realidade, por que a reclamas no adversário em primeiro lugar? Seria justo esqueceres as tuas próprias necessidades nesse sentido? Se buscamos atingir o infinito da sabedoria e do amor em Nosso Pai, indispensável se faz reconheçamos que todos somos irmãos no mesmo caminho!...” (PP. 51 e 52)

45. E acrescentou: “Toda a criação é de Deus. Os que vestem a túnica do mal envergarão um dia a da redenção pelo bem. Acaso, poderias duvidar disso?” “O discípulo do Evangelho não combate propriamente o seu irmão, como Deus nunca entra em luta com seus filhos; aquele apenas combate toda manifestação de ignorância, como o Pai, que trabalha incessantemente pela vitória do seu amor, junto da humanidade inteira.” (P. 52)

46. Mesmo ouvindo tal ensino, Tadeu replicou: “Mas, não seria justo convocarmos todos os gênios malfazejos para que se convertessem à verdade dos céus?” O Mestre foi peremptório: “Por que motivo não procede Deus assim?... Porventura, teríamos nós uma substância de amor mais sublime e mais forte que a do seu coração paternal? Tadeu, jamais olvidemos o bom combate. Se alguém te convoca ao labor ingrato da má semente, não desdenhes a boa luta pela vitória do bem, encarando qualquer posição difícil como ensejo sagrado para revelares a tua fidelidade a Deus. Abraça sempre o teu irmão. Se o adversário do reino te provoca ao esclarecimento de toda a verdade, não desprezes a hora de trabalhar pela vitória da luz; mas segue o teu caminho no mundo atento aos teus próprios deveres, pois não nos consta que Deus abandonasse as suas atividades divinas para impor a renovação moral dos filhos ingratos, que se rebelaram na sua casa”. “Se o mundo parece povoar-se de sombras, é preciso reconhecer que as leis de Deus são sempre as mesmas, em todas as latitudes da vida.” (P. 52)

47. Jesus mostrava assim que, em qualquer situação, é indispensável meditar na lição do Pai e não estacionar a meio do caminho: “Os inimigos do reino se empenham em batalhas sangrentas? Não olvides o teu próprio trabalho. Padecem no inferno das ambições desmedidas? Caminha para Deus. Lançam a perseguição contra a verdade? Tens contigo a verdade divina que o mundo não te poderá roubar, nunca”. “Os grandes patrimônios da vida não pertencem às forças da Terra, mas às do Céu.” (P. 53)

48. Havendo compreendido a lição, Tadeu perguntou-lhe, então, de que ele necessitaria para afastar as entidades da sombra, quando o seu império se estabeleça nas almas. Jesus esclareceu: “Voltamos (...) ao início das nossas explicações, pois, para isso, ne-

cessitas da edificação do reino no âmago do teu espírito, sendo este o objetivo de tua vida. Só a luz do amor divino é bastante forte para converter uma alma à verdade”. “Capacita-te de que ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possua no coração. Vai!

Trabalha sem cessar pela tua grande vitória. Zela por ti e ama a teu próximo, sem olvidares que Deus cuida de todos.” (P. 54)

49. No dia seguinte, desejando destacar a necessidade de cada pessoa se atirar ao esforço silencioso pela sua própria edificação evangélica, Jesus esclareceu: “Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando, e não o achando diz: -- Voltarei para a casa donde saí; e, ao chegar, acha-a varrida e adornada. Depois, vai e leva mais sete Espíritos piores do que ele, que ali entram e habitam; e o último estado daquele homem fica sendo pior do que o primeiro”. Todos os ouvintes entenderam, então, que não bastava ensinar o caminho da verdade e do bem aos Espíritos perturbados e malfazejos: era indispensável edificasse cada um a fortaleza luminosa e sagrada do reino de Deus dentro de si mesmo. (P. 55)

50. Bom ânimo - Bartolomeu foi um dos mais dedicados discípulos do Cristo, desde os primeiros tempos de suas pregações junto ao Tiberíades; contudo, Bartolomeu era triste e, vezes inúmeras, Jesus o surpreendia em meditações profundas e dolorosas. (P. 56)

51. Bartolomeu não sabia explicar o porquê de suas tristezas, mas dizia que o Evangelho o enchia de esperanças. “Quando

esclarecestes que o vosso reino não é deste mundo -- disse ele a Jesus --, experimentei uma nova coragem para atravessar as misérias

do caminho da Terra, pois, aqui, o selo do mal parece obscurecer as coisas mais puras!... Por toda parte, é a vitória do crime, o jogo das ambições, a colheita dos desenganos!...” (PP. 56 e 57)

52. Jesus lhe falou, com serenidade, que seu reino ainda não era deste mundo, mas isso não significava que ele não gostaria de estendê-lo aos corações que mourejam na Terra. O Evangelho teria, contudo, de florescer primeiramente na alma das criaturas, antes de frutificar para o espírito dos povos. (P. 57)

53. O Senhor lembrou-lhe, então, que a vida terrestre é uma estrada pedregosa, mas que conduz aos braços amorosos de Deus. “O trabalho é a marcha. A luta comum é a caminhada de cada dia. Os instantes deliciosos da manhã e as horas noturnas de serenidade são os pontos de repouso”, asseverou o Cristo. “Na atividade ou no descanso físico, a oportunidade de uma hora, de uma leve ação, de uma palavra humilde, é o convite de Nosso Pai para que semeemos as suas bênçãos sacrossantas.” (P. 57)

54. Após explicar por que os viajores da Terra estão sempre desalentados, Jesus acrescentou: “A verdade não exige: transforma. O Evangelho não poderia reclamar estados especiais de seus discípulos; porém, é preciso considerar que a alegria, a coragem e a esperança devem ser traços constantes de suas atividades em cada dia”. (P. 58)

55. E quando os negócios do mundo nos são adversos? E quando tudo parece contra nós? A tais questões, propostas por Bartolomeu, Jesus respondeu: “Qual o melhor negócio do mundo, Bartolomeu? Será a aventura que se efetua a peso de ouro, muita vez amordaçando-se o coração e a consciência, para aumentar as preocupações da vida material, ou a iluminação definitiva da alma para Deus, que se realiza tão-só pela boa-vontade do homem, que deseje marchar para o seu amor, por entre as urzes do caminho? Não será a adversidade nos negócios do mundo um convite amigo para a criatura semear com mais amor, um apelo indireto que a arranque às ilusões da Terra para as verdades do reino de Deus?” (PP. 58 e 59)

56. E quando perdemos um ente amado -- insistiu Bartolomeu --, é justo ficarmos tristes? Jesus respondeu: “Mas, quem estará perdido, se Deus é o Pai de todos nós?” “Se os que estão sepultados no lodo dos crimes hão de vislumbrar, um dia, a alvorada da redenção, por que lamentarmos, em desespero, o amigo que partiu ao chamado do Todo-Poderoso? A morte do corpo abre as portas de um mundo novo para a alma. Ninguém fica verdadeiramente órfão sobre a Terra, como nenhum ser está abandonado, porque tudo é de Deus e todos somos seus filhos”. (P. 59)

57. Feliz com os ensinamentos colhidos, Bartolomeu dirigiu-se para Dalmanuta, onde residia, meditando nas lições recebidas. Era madrugada quando chegou a casa. Ao ranger os gonzos da porta, seus irmãos dirigiram-lhe impropérios, acusando-o de mau filho, de vagabundo e traidor da lei. O apóstolo recordou, porém, o Evangelho e sentiu que tinha bastante alegria para dar a seus irmãos. Por isso, em vez de reagir asperamente, como de outras vezes, sorriu-lhes com a bondade das explicações amigas. (P. 60)

58. Seu velho pai também o acusou, escorraçando-o, mas Bartolomeu achou natural. Seu pai não conhecia a Jesus e ele o conhecia. Depois de repousar alguns momentos, tomou as suas redes velhas e demandou sua barca, tendo para com todos os companheiros de serviço uma frase consoladora e amiga, irradiando ao seu redor a alegria de que falara o Cristo. (PP. 60 e 61)

59. No sábado seguinte, pregando a Boa Nova, Jesus ensinou que o reino dos céus é semelhante a um tesouro que, oculto num campo, foi achado e escondido por um homem que, movido de gozo, vendeu tudo o que possuía e comprou aquele campo. Nesse instante, o olhar do Mestre pousou sobre Bartolomeu, que o contemplava, embevecido. O pescador humilde compreendeu, então, a delicada alusão do ensinamento, experimentando a alma leve e satisfeita, depois de haver alijado as vaidades de que ainda não se desfizera, para adquirir o tesouro divino, no campo infinito da vida. (P. 61)

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