Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier. Editora da feb, 11a edição, 1941. Na Escola do Evangelho



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Velhos e moços - Simão, mais tarde chamado o “Zelote”, antigo pescador do lago, por ser mais velho que seus companheiros, julgava que suas energias não se coadunavam com os serviços do Evangelho do Reino. Depois de ouvir seus receios e vacilações, Jesus lhe disse: “Simão, poderíamos acaso perguntar a idade de Nosso Pai? E se fôssemos contar o tempo, na ampulheta das inquietações humanas, quem seria o mais velho de todos nós? A vida, na sua expressão terrestre, é como uma árvore grandiosa. A infância é a sua ramagem verdejante. A mocidade se constitui de suas flores perfumadas e formosas. A velhice é o fruto da experiência e da sabedoria”. (P. 63)

61. Simão confessou que se sentia depauperado e envelhecido e temia não resistir aos esforços a que sua alma se obrigava, na semeadura do Evangelho. “Mas, escuta, Simão -- redargüiu-lhe Jesus --, achas que os moços de amanhã poderão fazer alguma coisa sem os trabalhos dos que agora estão envelhecendo?!... Poderia a árvore viver sem a raiz, a alma sem Deus?! Lembra-te da tua parte de esforço e não te preocupes com a obra que pertence ao Todo-Poderoso. Sobretudo, não olvides que a nossa tarefa, para dignidade perfeita de nossas almas, deve ser intransferível.” (PP. 64 e 65)

62. Em seguida, Jesus completou: “Quando te cerque o burburinho da mocidade, ama os jovens que revelem trabalho e reflexão; entretanto, não deixes de sorrir, igualmente, para os levianos e inconstantes: são crianças que pedem cuidado, abelhas que ainda não sabem fazer o mel. Perdoa-lhes os entusiasmos sem rumo, como se devem esquecer os impulsos de um menino na inconsciência dos seus primeiros dias de vida. Esclarece-os, Simão, e não penses que outro homem pudesse efetuar, no conjunto da obra divina, o esforço que te compete. Vai e tem bom ânimo!...” (P. 65)

63. O perdão - Em certa ocasião, em Nazaré, quando o Senhor passou a sofrer as primeiras investidas dos inimigos do Evangelho, Pedro e Filipe contaram ao Mestre terem ambos reagido prontamente contra algumas pessoas que lhes disseram ser Jesus servo de Satanás. Jesus ouviu-os e disse: “Acaso poderemos colher uvas nos espinheiros? De modo algum me empenharia em Nazaré numa contradita estéril aos meus opositores. Contudo, procurei ensinar que a melhor réplica é sempre a do nosso próprio trabalho, do esforço útil que nos seja possível”. “De que serviriam as longas discussões públicas, inçadas de doestos e zombarias?” (P. 70)

64. Filipe argumentou: “Mestre, a verdade é que a maioria de quantos compareceram às pregações de Nazaré falava mal de vós!” Jesus esclareceu: “Mas, não será vaidade exigirmos que toda gente faça de nossa personalidade elevado conceito?” “Nas ilusões que as criaturas da Terra inventaram para a sua própria vida, nem sempre constitui bom atestado da nossa conduta o falarem todos bem de nós, indistintamente. Agradar a todos é marchar pelo caminho largo, onde estão as mentiras da convenção. Servir a Deus é tarefa que deve estar acima de tudo e, por vezes, nesse serviço divino, é natural que desagrademos aos mesquinhos interesses humanos.” (P. 71)

65. Acentuando a necessidade da concórdia entre todos, o Mestre assinalou: “O que é indispensável é nunca perdermos de vista o nosso próprio trabalho, sabendo perdoar com verdadeira espontaneidade de coração. Se nos labores da vida um companheiro nos parece insuportável, é possível que também algumas vezes sejamos considerados assim”. “Temos que perdoar aos adversários, trabalhar pelo bem dos nossos inimigos, auxiliar os que zombam da nossa fé.” (P. 72)

66. Para perdoar, não deveremos aguardar que o inimigo se arrependa? E se o malfeitor assumir a atitude dos lobos sob a

pele da ovelha? Ante tais questões formuladas por Pedro, o Mestre ensinou que “o perdão não exclui a necessidade da vigilância, como o amor não prescinde da verdade. A paz é um patrimônio que cada coração está obrigado a defender, para bem trabalhar no serviço divino que lhe foi confiado. Se o nosso irmão se arrepende e procura o nosso auxílio fraterno, amparemo-lo com as energias que possamos despender; mas, em nenhuma circunstância cogites de saber se o teu irmão está arrependido. Esquece o mal e trabalha pelo bem. Quando ensinei que cada homem deve conciliar-se depressa com o adversário, busquei salientar que ninguém pode ir a Deus com um sentimento de odiosidade no coração.” (PP. 72 e 73)

67. Foi então que Pedro fez a Jesus a célebre indagação: “Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, que lhe hei de perdoar? Será até sete vezes?” Jesus respondeu-lhe: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. (P. 73)

68. O Sermão do monte - Levi entendia que, na obra do Evangelho, alguma coisa poderia se esperar dos pescadores de Cafarnaum, porquanto, embora pobres, eram homens fortes e desassombrados. Mas não via como aceitar a contribuição dos mendigos e dos aleijados. Jesus, ouvindo dele tais idéias, falou-lhe com bondade assinalando que era preciso, sim, amar e aceitar a colaboração preciosa dos vencidos do mundo: “Se o Evangelho é a Boa Nova, como não há de ser a mensagem divina para eles, tristes e deserdados na imensa família humana? Os vencedores da Terra não necessitam de boas notícias. Nas derrotas da sorte, as criaturas ouvem mais alto a voz de Deus. Buscando os oprimidos, os aflitos e os caluniados, sentimo-los tão unidos ao céu, nas suas esperanças, que reconhecemos, na coragem tranqüila que revelam, um sublime reflexo da presença de Nosso Pai em seus espíritos”. “Já observaste algum vencedor do mundo com mais alta preocupação do que a de defender o fruto de sua vitória material?” (P. 76)

69. “Quem governa o mundo é Deus -- acrescentou o Mestre -- e o amor não age com inquietação.” Dito isto, e procurando mostrar que os poderosos teriam muitas dificuldades para engajar-se na obra do Evangelho, Jesus continuou: “Até que a esponja do tempo absorva as imperfeições terrestres, através de séculos de experiência necessária, os triunfadores do mundo são pobres seres que caminham por entre tenebrosos abismos. É imprescindível, pois, atentemos na alma branda e humilde dos vencidos. Para os seus corações Deus carreia bênçãos de infinita bondade. Esses quebraram os elos mais fortes que os acorrentavam às ilusões e marcham para o infinito do amor e da sabedoria. O leito de dor, a exclusão de todas as facilidades da vida, a incompreensão dos mais amados, as chagas e as cicatrizes do espírito são luzes que Deus acende na noite sombria das criaturas”. (PP. 77 e 78)

70. Ao cair da tarde, falando à multidão de pessoas simples ali reunidas para ouvi-lo, Jesus pregou pela primeira vez as bem-aventuranças celestiais, dizendo: Bem-aventurados os pobres e os aflitos! Bem-aventurados os sedentos de justiça e misericórdia... E compôs, então, o mais formoso sermão de que nos dá conta o Evangelho. (PP. 78 e 79)

71. Amor e renúncia - Pedro quis saber por que em Caná Jesus transformara a água em vinho, já que este poderia cooperar para o desenvolvimento da embriaguez e da gula. “Simão -- disse o Mestre --, conheces a alegria de servir a um amigo? As bodas de Caná foram um símbolo da nossa união na Terra. O vinho, ali, foi bem o da alegria com que desejo selar a existência do Reino de Deus nos corações. Estou com os meus amigos e amo-os a todos. Os afetos dalma, Simão, são laços misteriosos que nos conduzem a Deus. Saibamos santificar a nossa afeição, proporcionando aos nossos amigos o máximo da alegria; seja o nosso coração uma sala iluminada onde eles se sintam tranqüilos e ditosos.” E aduziu: “As mais belas horas da vida são as que empregamos em amá-los, enriquecendo-lhes as satisfações íntimas”. (PP. 81 e 82)

72. Pedro indagou então: “E quando os amigos não nos entendam, ou quando nos retribuam com ingratidão?” O Mestre respondeu-lhe asseverando que o amor verdadeiro e sincero nunca espera recompensas: “A renúncia é o seu ponto de apoio, como o ato de dar é a essência de sua vida. A capacidade de sentir grandes afeições já é em si mesma um tesouro. A compreensão de um amigo deve ser para nós a maior recompensa. Todavia, quando a luz do entendimento tardar no espírito daqueles a quem amamos, deveremos lembrar-nos de que temos a sagrada compreensão de Deus, que nos conhece os propósitos mais puros”. “Ainda que todos os nossos amigos do mundo se convertessem, um dia, em nossos adversários, ou mesmo em nossos algozes, jamais nos poderiam privar da alegria infinita de lhes haver dado alguma coisa!...” (P. 82)

73. Um dia, Jesus deu a perceber que os homens que não estivessem decididos a colocar o Reino de Deus acima da família não podiam ser seus discípulos. Pedro estranhou tais palavras e perguntou-lhe: Como conciliar essa postura com as anteriores observações que ele fizera acerca dos laços sagrados entre os que se estimam? “Simão -- asseverou o Cristo --, a minha palavra não determina que o homem quebre os elos santos de sua vida; antes exalta os que tiverem a verdadeira fé para colocar o poder de Deus acima de todas as coisas e de todos os seres da criação infinita.” Ato contínuo, completou: “Tenho dado aos meus discípulos o título de amigos, por ser o maior de todos. O Evangelho não pode condenar os laços de família, mas coloca acima deles o laço indestrutível da paternidade de Deus. O Reino do Céu no coração deve ser o tema central de nossa vida. Tudo mais é acessório”. (PP. 83 e 84)

74. Jesus esclareceu que a família, no mundo, está igualmente subordinada aos imperativos dessa edificação. Todos os homens sabem conservar, mas raros sabem privar-se. Na construção do Reino de Deus, chega um instante de separação, que é preciso suportar com sincero desprendimento. A edificação do Reino do Céu no coração dos homens deve constituir a preocupação primeira, a aspiração mais nobre da alma, as esperanças centrais do espírito. (P. 84)

75. Pecado e punição - Logo que Jesus perdoou à mulher flagrada em adultério, João indagou-lhe por que não condenara a meretriz de vida infame. Jesus fixou bem o discípulo e redargüiu: “Quais as razões que aduzes em favor dessa condenação? Sabes o motivo por que essa pobre mulher se prostituiu? Terás sofrido alguma vez a dureza das vicissitudes que ela atravessou em sua vida? Ignoras o vulto das necessidades e das tentações que a fizeram sucumbir a meio do caminho. Não sabes quantas vezes tem sido ela objeto do escárnio dos pais, dos filhos e dos irmãos das mulheres mais felizes. Não seria justo agravar-lhe os padecimentos infernais da consciência pesarosa e sem rumo”. (P. 88)

76. Na seqüência, o Mestre esclareceu que em todos os planos da vida o instituto da justiça divina funciona, naturalmente, com seus princípios de compensação. Cada ser traz consigo a fagulha sagrada do Criador e erige, dentro de si, o santuário de sua presença ou a muralha sombria da negação; contudo, só a luz e o bem são eternos. Assim, o mundo é uma vasta escola onde todas as criaturas se reabilitam da traição aos seus próprios deveres, e o Evangelho traz ao homem enfermo o remédio eficaz, para que todas as estradas se transformem em suave caminho de redenção. (PP. 89 e 90)

77. Em Jerusalém, contemplando os doentes e mutilados que buscavam a Jesus, Tiago perguntou: “Mestre, sendo Deus tão misericordioso, por que pune seus filhos com defeitos e moléstias tão horríveis?” Jesus lhe disse: “Acreditas, Tiago, que Deus desça de sua sabedoria e de seu amor para punir seus próprios filhos? O Pai tem o seu plano determinado com respeito à criação inteira; mas, dentro desse plano, a cada criatura cabe uma parte na edificação, pela qual terá de responder. Abandonando o trabalho divino,

para viver ao sabor dos caprichos próprios, a alma cria para si a situação correspondente, trabalhando para reintegrar-se no plano

divino, depois de se haver deixado levar pelas sugestões funestas, contrárias à sua própria paz”. (PP. 90 e 91)

78. A lição a Nicodemos - Nicodemos, fariseu notável pelo coração bem formado e pelos dotes da inteligência, perguntou a Jesus quais os recursos de que deveria lançar mão para conhecer o Reino de Deus. “Primeiro que tudo, Nicodemos -- disse-lhe o Mestre --, não basta que tenhas vivido a interpretar a lei. Antes de raciocinar sobre as suas disposições, deverias ter-lhe sentido os textos. Mas, em verdade devo dizer-te que ninguém conhecerá o Reino do Céu, sem nascer de novo.” (PP. 94 e 95)

79. Explicou Jesus: “O corpo é uma veste. O homem é seu dono. Toda roupagem material acaba rota, porém, o homem, que é filho de Deus, encontra sempre em seu amor os elementos necessários à mudança do vestuário. A morte do corpo é essa mudança indispensável, porque a alma caminhará sempre, através de outras experiências, até que consiga a imprescindível provisão de luz para a entrada definitiva no Reino de Deus, com toda a perfeição conquistada ao longo dos rudes caminhos”. (P. 96)

80. Por que não somos todos iguais no mundo? Por que existem aqui belos jovens ao lado de aleijados e paralíticos? “Cada alma -- asseverou Jesus -- conduz consigo mesma o inferno ou o céu que edificou no âmago da consciência. Seria justo conceder-se uma segunda veste mais perfeita e mais bela ao espírito rebelde que estragou a primeira? Que diríamos da sabedoria de Nosso Pai, se facultasse as possibilidades mais preciosas aos que as utilizaram na véspera para o roubo, o assassínio, a destruição? Os que abusaram da túnica da riqueza vestirão depois as dos fâmulos e escravos mais humildes, como as mãos que feriram podem vir a ser cortadas.” (P. 96)

81. Jesus enfatizou muito que colocava o amor acima da justiça do mundo, ensinando que só ele cobre a multidão dos pecados. “Se nos prendemos à lei de talião -- observou o Cristo --, somos obrigados a reconhecer que onde existe um assassino haverá, mais tarde, um homem que necessita ser assassinado; com a lei do amor, porém, compreendemos que o verdugo e a vítima são dois irmãos, filhos de um mesmo Pai. Basta que ambos sintam isso para que a fraternidade divina afaste os fantasmas do escândalo e do sofrimento.” (P. 97)

82. Joana de Cusa - O Mestre recomendou a Joana, esposa de Cusa, intendente de Herodes Ântipas, que continuasse a amar seu esposo, apesar das divergências religiosas que existiam entre ambos. “O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno”, disse-lhe Jesus. “Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho.” (P. 101)

83. Anos depois, morto o esposo, a viúva de Cusa, premida pela necessidade, esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães e ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão. A fé cristã, contudo, a confortava. (PP. 102 e 103)

84. No ano 68, numa das perseguições infligidas aos cristãos, Joana foi levada, junto com seu filho, ao poste do martírio. O rapaz sofria muito com as flagelações que lhe eram impostas e rogava à mãe que abjurasse, que repudiasse Jesus, porque assim estariam salvos. (P. 103)

85. As rogativas do filho eram espadas de angústia a lhe retalharem o coração; mas, a mártir recordou que Maria também fora mãe e, vendo o filho na cruz, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Então, possuída de força sobre-humana, exclamou firmemente: “Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitórias do mundo, é preciso ser fiel a Deus!” (PP. 103 e 104)

86. Minutos antes de ser ateado fogo às suas vestes, um dos verdugos perguntou-lhe: “O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?” Joana respondeu-lhe: “Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...” Nesse instante, ela sentiu que a mão consoladora de Jesus lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível: “Joana, tem bom ânimo!... Eu aqui estou!...” (P. 104)

87. O testemunho de Tomé - De todos os discípulos, Tomé era o que mais se preocupava com a dilatação da zona de influência do Senhor junto dos homens considerados mais importantes e mais ricos. (P. 105)

88. Certa vez, várias autoridades e personalidades importantes de Israel passaram por Dalmanuta, onde Jesus descansava na choupana de Zacarias, o velho pescador. De repente, chegou Tomé trazendo um convite daqueles homens que gostariam de obter do Senhor um sinal de sua missão divina. Tomé estava eufórico, mas Jesus não o atendeu. Desgostoso com o fato, Tomé insistiu: “Mestre, Mestre, atendei-os!... Que será do Evangelho do Reino e de nós mesmos, sem o apoio dos influentes e prestigiosos? Acreditais na vitória sem o amparo das energias que dominam o mundo? Mostrai-vos a esses homens, revelai-lhes o vosso poder divino, pois, ao demais, eles apenas desejam conhecer-vos de perto!...” (PP. 106 e 107)

89. Reiterando a Tomé que ele nunca reclamara dos homens homenagens pessoais, Jesus acrescentou: “Julgas, então, que o Evangelho do Reino seja uma causa dos homens perecíveis? Se assim fosse, as nossas verdades seriam tão mesquinhas como as edificações precárias do mundo, destinadas à renovação pela morte, nos eternos caminhos do tempo. Os patrícios romanos e os doutores de Jerusalém não terão de entregar a alma a Deus, algum dia?”(P. 107)

90. Dito isto, Jesus recomendou-lhe: “Vai, Tomé, e dize-lhes que o Evangelho do Reino não se destina aos que se encontrem satisfeitos e confortados na Terra; destina-se justamente aos corações que aspiram a uma vida melhor!” (P. 108)

91. O apóstolo não mais insistiu, mas, ainda hesitante, perguntou qual seria então a sua senha: “Como provar às criaturas que o nosso esforço está com Deus?” Jesus explicou: “Uma só lágrima, que console e esclareça um coração atormentado, vale mais do que um sinal imenso no céu, destinado tão-somente a impressionar os miseráveis sentidos da criatura. A nossa senha, Tomé, é a nossa própria exemplificação, na humildade e no trabalho. Quando quiseres esclarecer o espírito de alguém, nunca lhe mostres que sabes alguma coisa; sofre, porém, com as suas dores e colherás resultado”. “O nosso sinal é o do amor que eleva e santifica, porque só ele tem a luz que atravessa os grandes abismos.” (P. 108)

92. No dia da crucificação, todos os discípulos, exceto João, debandaram. Tomé disfarçou-se e seguiu o cortejo. Depois, aproximando-se de Jesus pregado à cruz, Tomé contemplou fixamente o Mestre e notou que o espírito do Messias se mantinha firme. Sua fisionomia serena, apesar do martírio daquela hora, não refletia senão o amor profundo que lhe conhecera nos dias mais lindos e mais tranqüilos. O apóstolo então se pôs a chorar discretamente, mas pôde perceber que Jesus o enxergara ali e, em voz quase imperceptível, balbuciou: “Tomé, no Evangelho do Reino, o sinal do céu tem de ser o completo sacrifício de nós mesmos!...” (PP. 109 e 110)

93. Jesus na Samaria - No diálogo com a mulher samaritana, no poço de Jacó, Jesus deu razão à mulher que afirmara que as divergências religiosas têm implantado a maior desunião entre os membros da grande família humana. Mas advertiu que viria um tempo em que não se adoraria a Deus nem no monte onde estavam, nem no templo de Jerusalém, porque o Pai é Espírito e só em es-

pírito deve ser adorado. (P. 114)

94. Como certa vez Filipe insistisse com ele para que se alimentasse, Jesus asseverou: “Não te preocupes, Filipe, não tenho fome. Aliás, recebo um alimento que talvez os meus próprios discípulos ainda não puderam conhecer”. E ante a surpresa do apóstolo informou: “Antes de tudo, meu alimento é fazer a vontade daquele Pai misericordioso e justo que a este mundo me enviou, a fim de ensinar o seu amor e a sua verdade”. “Meu sustento é realizar a sua obra.” (P. 115)

95. Calando-se por alguns instantes, Jesus, André, Tiago e Filipe puderam ouvir as variadas críticas que a turba de seus seguidores fazia ao Mestre. Os apóstolos ficaram espantados, mas Jesus aproveitou o ensejo para esclarecer: “Não vos admireis da lição deste dia. Quando veio, o Batista procurou o deserto, nutrindo-se de mel selvagem. Os homens alegaram que em sua companhia estava o espírito de Satanás. A mim, pelo motivo de participar das alegrias do Evangelho, chamam-me glutão e beberrão. Esta é a imagem do campo onde temos de operar”. Dito isto, Jesus observou que o discípulo do Evangelho “não se pode preocupar senão com a vontade de Deus, com o seu trabalho sob as vistas do Pai e com a aprovação da sua consciência”. (PP. 117 e 118)

96. Oração dominical - Pedro duvidava de que Deus ouvisse realmente todas as orações, mas Jesus foi categórico: “Não tenhas dúvida: todas as nossas orações são ouvidas!...” Por que então, alegou Pedro, tamanhas diferenças na sorte? Por que ele era obrigado a pescar para prover à sua subsistência, quando Levi ganhava bom salário no serviço da coletoria? Como explicar que Joana tivesse tantas servas, quando sua mulher era obrigada a plantar e cuidar da horta? (PP. 120 e 121)

97. Jesus ouviu-o e explicou que o mundo pertence a Deus, que todos somos seus servidores e que os trabalhos variam conforme a capacidade de cada um. “Hoje pescas, amanhã pregarás a palavra divina do Evangelho. Todo trabalho honesto é de Deus”, afirmou o Cristo, esclarecendo que o homem que escreve com a sabedoria dos pergaminhos não é maior do que aquele que lavra a terra. (P. 121)

98. Falando depois sobre a oração, Jesus elucidou: “Em tudo deve a oração constituir o nosso recurso permanente de comunhão ininterrupta com Deus. Nesse intercâmbio incessante, as criaturas devem apresentar ao Pai, no segredo das íntimas aspirações, os seus anelos e esperanças, dúvidas e amargores. Essas confidências lhes atenuarão os cansaços do mundo, restaurando-lhes as energias, porque Deus lhes concederá de sua luz”. (P. 122)

99. Prosseguindo, o Mestre afirmou ser necessário cultivar a prece, para que ela se torne um elemento natural da vida, como a respiração; contudo, os homens não se lembram do céu, senão nos dias de incerteza e angústia do coração. Se a ameaça é cruel e o desastre iminente, os mais fortes dobram os joelhos. (P. 122)

100. Passados alguns dias, Pedro disse-lhe: “Senhor, tenho procurado, por todos os modos, manter inalterável a minha comunhão com Deus, mas não tenho alcançado o objetivo de minhas súplicas”. “Que tens pedido a Deus?”, perguntou-lhe o Mestre. “Tenho implorado à sua bondade que aplaine os meus caminhos, com a solução de certos problemas materiais.” (P. 123)

101. Jesus contemplou-o longamente e depois esclareceu: “Pedro, enquanto orares pedindo ao Pai a satisfação de teus desejos e caprichos, é possível que te retires da prece inquieto e desalentado. Mas, sempre que solicitares as bênçãos de Deus, a fim de compreenderes a sua vontade justa e sábia, a teu respeito, receberás pela oração os bens divinos do consolo e da paz”. (P. 123)

102. Comunhão com Deus - Cada criatura, disse Jesus a João, tem um santuário no próprio espírito, onde a sabedoria e o amor de Deus se manifestam, através das vozes da consciência. “Os essênios -- asseverou Jesus -- levam muito longe a teoria do labor oculto, pois, antes de tudo, precisamos considerar que a verdade e o bem devem ser patrimônio de toda a Humanidade em comum. No entanto, o que é indispensável é saber dar a cada criatura, de acordo com as suas necessidades próprias.” Dito isto, o Mestre lembrou que ele também já havia afirmado que não poderia ensinar tudo o que desejara aos seus discípulos, reservando outras lições do Evangelho do Reino para o futuro, quando Deus permitisse que a voz do Consolador se fizesse ouvir no mundo. (P. 126)

103. No tocante à prece, Jesus afirmou que a comunhão da criatura com o Criador é um imperativo da existência e a prece é o luminoso caminho entre o coração humano e o Pai de infinita bondade. “Por prece -- disse o Mestre -- devemos interpretar todo ato de relação entre o homem e Deus.” Mas é preciso ter em mente, acima de tudo, a certeza de que os desígnios do Pai são mais sábios e misericordiosos do que o capricho próprio. (PP. 127 e 128)

104. Maria de Magdala - Maria ouvira as pregações do Evangelho, não longe da Vila principesca onde vivia entregue a prazeres, em companhia de patrícios romanos, e tomara-se de admiração profunda pelo Messias. É que, embora jovem e cobiçada, seu espírito tinha fome de amor. Jesus havia plantado em sua alma novos pensamentos, porque depois de ouvi-lo notou que as facilidades da vida lhe traziam agora um tédio mortal ao espírito sensível. (P. 131)

105. Envolvida por esses pensamentos, Maria penetrou a casa de Simão Pedro, onde Jesus a recebeu num grande sorriso. Maria falou-lhe e admitiu ser uma filha do pecado, que todos condenavam. Como desejasse ser agora uma das suas ovelhas, será que Deus a aceitaria? O Cristo confortou-a e lhe disse, bondoso: “Maria, levanta os olhos para o céu e regozija-te no caminho, porque escutaste a Boa Nova do Reino e Deus te abençoa as alegrias! Acaso, poderias pensar que alguém no mundo estivesse condenado ao pecado eterno? Onde, então, o amor de Nosso Pai?” (P. 133)

106. Em seguida, ele acrescentou: “Sobre todas as falências e desventuras próprias do homem, as bênçãos paternais de Deus descem e chamam. Sentes hoje esse novo Sol a iluminar-te o destino! Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre a multidão dos pecados”. (P. 133)

107. Como Maria dizia ter sede de amor, Jesus asseverou: “O que verdadeiramente ama (...) conhece a renúncia suprema a todos os bens do mundo e vive feliz, na sua senda de trabalhos para o difícil acesso às luzes da redenção. O amor sincero não exige satisfações passageiras, que se extinguem no mundo com a primeira ilusão; trabalha sempre, sem amargura e sem ambição, com os júbilos do sacrifício. Só o amor que renuncia sabe caminhar para a vida suprema”. (P. 134)

108. Para realçar ainda mais o que dissera, Jesus acentuou: “Somente o sacrifício contém o divino mistério da vida. Viver bem é saber imolar-se. Acreditas que o mundo pudesse manter o equilíbrio próprio tão-só com os caprichos antagônicos e por vezes criminosos dos que se elevam à galeria dos triunfadores? Toda luz humana vem do coração experiente e brando dos que foram sacrificados. Um guerreiro coberto de louros ergue os seus gritos de vitória sobre os cadáveres que juncam o chão; mas, apenas os que tombaram fazem bastante silêncio, para que se ouça no mundo a mensagem de Deus”. “O primeiro pode fazer a experiência para um dia; os segundos constroem a estrada definitiva na eternidade.” (P. 134)

109. Aludindo à importância das mães, que são as cultivadoras do jardim da vida, onde os homens lutam e se matam, Jesus ouviu Maria dizer que ela não poderia ser mãe, ao que o Mestre observou: “E qual das mães será maior aos olhos de Deus? A que se devotou somente aos filhos de sua carne, ou a que se consagrou, pelo espírito, aos filhos das outras mães?” (P. 135)

110. As palavras de Jesus pareceram despertá-la para meditações mais profundas, e Maria de Magdala então exclamou, comovidamente: “Senhor, doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor celestial que me ensinastes!... Acolherei como filhas as minhas irmãs no sofrimento, procurarei os infortunados para aliviar-lhes as feridas do coração, estarei com os aleijados e leprosos...” (P. 135)

111. Maria percebeu que Simão Pedro, do modo como a olhava, parecia ter por ela quase desprezo; por isso, indagou do Mestre como eles ficariam com sua partida. Jesus compreendeu o alcance da pergunta e respondeu-lhe: “Certamente que partirei, mas estaremos eternamente reunidos em espírito. Quanto ao futuro, com o infinito de suas perspectivas, é necessário que cada um tome sua cruz, em busca da porta estreita da redenção, colocando acima de tudo a fidelidade a Deus e, em segundo lugar, a perfeita confiança em si mesmo”. (P. 136)

112. Observando que Maria, ainda opressa pelo olhar estranho de Simão Pedro, se preparava a regressar, Jesus lhe sorriu e disse: “Vai, Maria!... Sacrifica-te e ama sempre. Longo é o caminho, difícil a jornada, estreita a porta; mas, a fé remove os obstáculos... Nada temas: é preciso crer somente!” (P. 136)

113. Algum tempo mais tarde, depois de ver o Cristo ressuscitado, Maria de Magdala voltou para a Galiléia, seguindo os passos dos companheiros queridos. É que a mensagem da ressurreição espalhara uma alegria infinita. Quando os apóstolos abandonaram a região, a serviço da Boa Nova, Maria rogou fervorosamente lhe permitissem acompanhá-los a Jerusalém, mas eles se negaram a anuir aos seus desejos, porque temiam o seu passado de pecadora e não confiavam no seu coração de mulher. (PP. 136 e 137)

114. Sem recursos para viver, resistiu a todas as propostas que a convidavam para a vida de outrora, e trabalhou pela própria manutenção, em Magdala e Dalmanuta. De vez em quando ia às sinagogas, desejosa de cultivar a lição de Jesus; mas as aldeias da Galiléia estavam novamente subjugadas pela intransigência do judaísmo. (P. 137)

115. Certo dia, um grupo de leprosos chegou a Dalmanuta, provenientes da Iduméia. Os infelizes procuravam por Jesus, mas as portas se lhes fechavam. Maria foi ter com eles e, reunindo-os sob as árvores da praia, transmitiu-lhes as palavras do Mestre, enchendo-lhes os corações com as claridades do Evangelho. As autoridades locais, contudo, ordenaram a expulsão imediata dos enfermos e todos, com Maria junto, seguiram para Jerusalém. (P. 137)

116. Chegados à cidade, foram conduzidos ao vale dos leprosos, que ficava distante, onde Maria penetrou com espontaneidade de coração. Eles estavam contagiados da alegria e da fé que Maria, ao falar de Jesus, lhes passara. Dali em diante, todas as tardes, a mensageira do Evangelho reunia a turba de seus novos amigos e lhes falava dos ensinos e exemplos do Messias. (P. 138)

117. Não demorou muito e Maria apresentou também, em sua epiderme, manchas violáceas e tristes, mas a fé e a alegria que aprendera com Jesus persistiam em seus atos e pensamentos, até que, sentindo-se ao termo de sua tarefa, desejou rever antigas afeições que se encontravam em Éfeso, onde estavam também João e Maria de Nazaré. (P. 138)

118. Foi assim que, depois de muitas dificuldades, ela pôde rever amizades bem caras em Éfeso e, ao morrer, viu Jesus se aproximar, mais belo que nunca. Seu olhar tinha o reflexo do céu e o semblante trazia um júbilo indefinível. O Mestre, então, estendeu-lhe as mãos e, recolhendo-a brandamente nos braços, lhe disse: “Maria, já passaste a porta estreita!... Amaste muito! Vem! Eu te espero aqui!” (P. 140)

119.

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