Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier. Editora da feb, 11a edição, 1941. Na Escola do Evangelho



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A lição da vigilância - Foi em Cesaréia de Filipe que os apóstolos revelaram a Jesus o que os homens diziam a seu respeito. João disse que seus amigos achavam que Jesus era Elias que regressara ao mundo. Simão Zelote relatou que algumas pessoas de Tiberíades acreditavam que Mestre era o mesmo João Batista ressuscitado. Tiago, filho de Cleofas, disse ter ouvido na Sinagoga alguns judeus afirmarem que o Senhor era o profeta Jeremias. Simão Pedro, porém, impulsionado por uma energia superior, exclamou: “Tu és o Cristo, o Salvador, o Filho de Deus Vivo”. (PP. 141 e 142)

120. Preparando os companheiros para os acontecimentos próximos, Jesus lhes disse: “Através da palavra de Simão, tivestes a claridade reveladora. Cumprindo as profecias da Escritura, sou aquele Pastor que vem a Israel com o propósito de reunir as ovelhas tresmalhadas do imenso rebanho. Venho buscar as dracmas perdidas do tesouro de Nosso Pai. E qual o pegureiro que não dá testemunho de sua tarefa ao dono do redil? É indispensável, pois, que eu sofra”. “Está escrito que eu padeça, e não fugirei ao testemunho.” (PP. 142 e 143)

121. Os apóstolos ficaram surpresos com essa revelação, mas Jesus continuou: “Não espereis por triunfos, que não os teremos sobre a Terra de agora. Nosso reino ainda não é, nem pode ser, deste mundo... Por essa razão, em breves dias, não obstante as minhas aparentes vitórias, entrarei em Jerusalém para sofrer as mais penosas humilhações”. O Senhor passou, então, a descrever os suplícios e os tormentos que lhe estavam reservados e que realmente acabaram ocorrendo, desde a prisão até à morte. (P. 144)

122. Foi aí que Simão Pedro, modificando a atitude mental do primeiro momento, aproximou-se do Messias e falou-lhe em particular: “Mestre, convém não exagerardes as vossas palavras. Não podemos acreditar que tereis de sofrer semelhantes martírios... Onde estaria Deus, então, com a justiça dos céus?” Jesus prontamente redargüiu: “Pedro, retira essas palavras! Queres também tentar-me, como os adversários do Evangelho?” “Aparta-te de mim, pois neste instante falas pelo espírito do mal!...” (P. 145)

123. No dia seguinte, Jesus explicou a Simão por que fora tão enérgico com ele na véspera. “Simão -- disse-lhe ele --, ainda não aprendeste toda a extensão da necessidade de vigilância. A criatura na Terra precisa aproveitar todas as oportunidades de iluminação interior, em sua marcha para Deus. Vigia o teu espírito ao longo do caminho. Basta um pensamento de amor para que te eleves ao céu; mas, na jornada do mundo, também basta, às vezes, uma palavra fútil ou uma consideração menos digna, para que a alma do homem seja conduzida ao estacionamento e ao desespero das trevas, por sua própria imprevidência!” (PP. 145 e 146)

124. A mulher e a ressurreição - Examinando a lei que mandava lapidar a mulher que perverteu a sua existência, Jesus explicou a Simão que quase sempre não é a mulher que se perverte a si mesma: é o homem que lhe destrói a vida. “A lei antiga -- observou o Messias -- manda apedrejar a mulher que foi pervertida e desamparada pelos homens; entretanto, também determina que amemos os nossos semelhantes, como a nós mesmos. E o meu ensino é o cumprimento da lei, pelo amor mais sublime sobre a Terra. Poderíamos culpar a fonte, quando um animal lhe polui as águas?” “De acordo com a lei, devemos amar a uma e a outro, seja pela expressão de sua ignorância, seja pela de seus sofrimentos. E o homem é sempre fraco e a mulher sempre sofredora!...” (P. 148)

125. Ouvindo isso, Simão pensou que Jesus considerava a mulher superior ao homem, na sua missão terrestre. O Cristo esclareceu: “Uma e outro são iguais perante Deus e as tarefas de ambos se equilibram no caminho da vida, completando-se perfeitamente, para que haja, em todas as ocasiões, o mais santo respeito mútuo. Precisamos considerar, todavia, que a mulher recebeu a sagrada missão da vida. Tendo avançado mais do que o seu companheiro na estrada do sentimento, está, por isso, mais perto de Deus que, muitas vezes, lhe toma o coração por instrumento de suas mensagens, cheias de sabedoria e de misericórdia”. (PP. 148 e 149)

126. Prosseguindo, Jesus lembrou que em todas as realizações humanas há sempre o traço da ternura feminina, levantando obras imperecíveis na edificação dos espíritos, enquanto na história dos homens ficam apenas os nomes dos políticos, dos filósofos e dos generais, todos eles, contudo, filhos da grande heroína que passa, desconhecida de todos. Por isso, as mulheres mais desventuradas ainda possuem no coração o gérmen divino, para a redenção da humanidade inteira. “Seu sentimento de ternura e humildade -- asseverou o Cristo -- será, em todos os tempos, o grande roteiro para a iluminação do mundo, porque, sem o tesouro do sentimento, todas as obras da razão humana podem perecer como um castelo de falsos esplendores.” (P. 149)

127. Depois que Maria de Magdala viu Jesus redivivo, a alegria ressoou na comunidade inteira. Jesus ressuscitara! O Evangelho era a verdade imutável. Pairava em todos os corações uma divina embriaguez de luz e júbilos celestiais. E desde essa hora a família cristã se movimentou no mundo, para nunca mais esquecer o exemplo do Messias. A luz da ressurreição, através da fé ardente e do ardente amor de Maria Madalena, havia banhado de claridade imensa a estrada cristã, para todos os séculos terrestres. (P. 152)

128. O servo bom - A ida de Jesus à casa do publicano Zaqueu produziu grande escândalo entre os seus discípulos. “Não se tratava de um rico que devia ser condenado?”, perguntava Filipe a si mesmo. E o próprio Simão Pedro refletia na intimidade: “Como justificar tudo isto, se Zaqueu é um homem de dinheiro e pecador perante a lei?” (P. 155)

129. Zaqueu, contudo, não ocultava seu contentamento e fora tocado em suas fibras mais íntimas com a presença generosa do Cristo. Na hora da ceia, sabendo que o Mestre não perdia ensejo de condenar as riquezas criminosas do mundo, ele esclarecia, com toda a sinceridade de sua alma, que era verdade ter tido uma vida reprovável; contudo, desde muitos anos, vinha procurando empregar o dinheiro de modo a beneficiar todos os que o rodeavam. Como em Jericó havia muitos pais de família sem trabalho, ele organizara múltiplos serviços de criação de animais e de cultivo permanente da terra. (PP. 155 e 156)

130. Ante o assentimento de Jesus à sua obra, Zaqueu experimentou grande satisfação e, extasiado, estendendo ao Cristo as suas mãos, exclamou alegremente: “Senhor! Senhor! tão profunda é a minha alegria, que repartirei hoje, com todos os necessitados, a metade dos meus bens, e, se nalguma coisa tenho prejudicado a alguém, indenizá-lo-ei, quadruplicadamente!...” Jesus o abraçou com um formoso sorriso, dizendo: “Bem-aventurado és tu que agora contemplas em tua casa a verdadeira salvação”. (P. 156)

131. O desagrado de alguns dos discípulos, notadamente Filipe e Simão, persistia e várias perguntas eles fizeram a Jesus, num momento em que Zaqueu saíra do recinto. Por que tamanha aprovação a um rico mesquinho? As riquezas não eram condenadas pelo Evangelho do Reino? Por que não se hospedaram numa casa humilde e, sim, naquela vivenda suntuosa, em contraposição aos ensinos da humildade? (PP. 156 e 157)

132. Jesus esclareceu: “Amigos, acreditais, porventura, que o Evangelho tenha vindo ao mundo para transformar todos os homens em miseráveis mendigos? Qual a esmola maior: a que socorre as necessidades de um dia ou a que adota providências para uma vida inteira? No mundo vivem os que entesouram na Terra e os que entesouram no Céu. Os primeiros escondem suas possibilidades no cofre da ambição e do egoísmo e, por vezes, atiram moedas douradas ao faminto que passa, procurando livrar-se de sua presença; os segundos ligam suas existências a vidas numerosas, fazendo de seus servos e dos auxiliares de esforços a continuação de sua própria família”. “Estes últimos sabem empregar o sagrado depósito de Deus e são seus mordomos fiéis, à face do mundo.” (P. 157)

133. A ilusão do discípulo - Após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, Tiago e Judas Iscariotes conversavam a respeito do Mestre, que Judas considerava demasiadamente simples e bom para quebrar o jugo tirânico que pesava sobre Israel. “Acompanhando o Mestre nas suas pregações em Cesaréia, em Sebaste, em Corazim e Betsaida, quando das suas ausências de Cafarnaum, jamais o vi -- afirmou Judas -- interessado em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida. É certo que de seus lábios divinos sempre brotaram a verdade e o amor, por toda parte; mas só observei leprosos e cegos, pobres e ignorantes, abeirando-se de nossa fonte.” (PP. 159 e 160)

134. O pensamento de Judas era que o Evangelho só poderia vencer com o amparo dos prepostos de César ou das autoridades administrativas de Jerusalém; por isso, era preciso impor a figura do Mestre às autoridades da Corte Provincial e do Templo, de modo a aproveitar-se o surto de simpatia verificado na sua chegada à capital da Judéia. (P. 160)

135. Disposto a fazer qualquer coisa para precipitar a vitória do Evangelho, Judas decidiu que entregaria o Mestre aos homens do poder, em troca de sua nomeação oficial para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios políticos. Satisfaria às suas ambições e, depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria Jesus e lhe dirigiria os dons espirituais, de modo a utilizá-los para a conversão de seus amigos e protetores prestigiosos. (P. 162)

136. Preso Jesus, os fatos tomaram outro rumo e Judas Iscariotes se dirigiu a Caifás, reclamando o cumprimento de suas promessas. Os sacerdotes, ouvindo-lhe as palavras tardias, sorriram com sarcasmo. Judas contemplou de longe todas as cenas angustiantes e humilhantes do Calvário e atroz remorso lhe pungiu a consciência dilacerada. Decidido a desertar da vida, ouvia junto à figueira sinistra a voz amargurada do seu tremendo remorso e parecia-lhe escutar a voz do Mestre, consoladora e inesquecível, dizendo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai, senão por mim!” (PP. 163 e 164)

137. A última ceia - Foi durante a última ceia de Páscoa que Jesus revelou ter chegado a hora de sua partida e como tal fato se daria, sem deixar de falar nem mesmo na traição de Judas. João perguntou-lhe, então, por que razão seria justamente um dos seus discípulos o traidor da causa do Senhor. O Mestre fitou o discípulo amado e acentuou: “Em verdade, cumpre-me afirmar que não me será possível dizer-vos tudo agora; entretanto, mais tarde enviarei o Consolador, que vos esclarecerá em meu nome, como agora vos falo em nome de meu Pai”. E prosseguiu: “Ouve, João: os desígnios de Deus, se são insondáveis, também são invariavelmente justos e sábios. O escândalo desabrochará em nosso próprio círculo bem-amado, mas servirá de lição a todos aqueles que vierem depois de nossos passos, no divino serviço do Evangelho. Eles compreenderão que para atingirem a porta estreita da renúncia redentora hão de encontrar, muitas vezes, o abandono, a ingratidão e o desentendimento dos seres mais queridos”. (PP. 167 e 168)

138. Enquanto Jesus falava a João, as conversas entre os demais mostravam que eles pouco haviam entendido a respeito da implantação do Reino de Deus na Terra. Julgavam assim que tal Reino teria poderes temporais, como os reinados da Terra, e, nas discussões acirradas observadas pelo Cristo, as palavras “maior de todos” soavam insistentemente. Foi então que Jesus tomou de um vaso de água perfumada e, ajoelhando-se, começou a lavar os pés de todos eles. Ante o protesto geral, em face daquele ato de suprema humildade, Jesus repetiu seu imorredouro ensinamento: “Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Se eu, Senhor e Mestre, vos lavo os pés, deveis igualmente lavar os pés uns dos outros no caminho da vida, porque no Reino do Bem e da Verdade o maior será sempre aquele que se fez sinceramente o menor de todos”. (PP. 169 e 170)

139. A negação de Pedro - O ato de Jesus, lavando os pés de seus discípulos, encontrou certa incompreensão da parte de Simão Pedro, que, chegada a sua vez, obtemperou, resoluto: “Nunca me lavareis os pés, Mestre; meus companheiros estão sendo ingratos e duros neste instante, deixando-vos praticar esse gesto, como se fôsseis um escravo vulgar”. (P. 171)

140. Jesus lhe respondeu: “Simão, não queiras ser melhor que os teus irmãos de apostolado, em nenhuma circunstância da vida”. E, lembrando que se aproximava a hora do seu derradeiro testemunho, disse-lhes: “Antes (...) que eu parta, quero deixar-vos um novo mandamento, o de amar-vos uns aos outros como eu vos tenho amado; que sejais conhecidos como meus discípulos, não pela superioridade no mundo, pela demonstração de poderes espirituais, ou pelas vestes que envergueis na vida, mas pela revelação do amor com que vos amo, pela humildade que deverá ornar as vossas almas, pela boa disposição no sacrifício próprio”. (PP. 171 e 172)

141. Foi nessa ocasião que Jesus disse a Pedro que, naquela mesma noite, antes que o galo cantasse, ele o teria negado três vezes. Pedro replicou: “Julgai-me, então, um espírito mau e endurecido a esse ponto?” “Não, Pedro -- explicou o Mestre, com doçura --, não te suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas vais aprender, ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso.” (P. 173)

142. A previsão do Cristo estava certa. Pedro negou que conhecesse Jesus em três oportunidades sucessivas e logo que pronunciou a derradeira negativa os galos da vizinhança cantaram em vozes estridentes, anunciando a madrugada. Pedro recordou as palavras do Mestre e sentiu-se perturbado por infinita angústia. Levantou-se então cambaleante e, voltando-se instintivamente para a cela em que Jesus se achava prisioneiro, viu o semblante sereno do Mestre a contemplá-lo através das grades singelas. (P. 176)

143. Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se, envergonhado, e chorou amargamente. Momentos depois, através do véu de lágrimas que lhe obscurecia os olhos, Simão experimentou uma visão consoladora e generosa. Pareceu-lhe que Jesus vinha vê-lo, na solidão da noite, trazendo nos lábios o mesmo sorriso de todos os dias. Pedro ajoelhou-se e murmurou: “Senhor, perdoai-me!” Mas, nesse instante, nada mais viu e lembrou-se então da última advertência que Jesus lhe fizera: “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!” (PP. 176 e 177)

144. A oração do Horto - Momentos antes de ser preso, Jesus se retirou em companhia de Simão Pedro, João e Tiago para o Monte das Oliveiras, onde costumava meditar. Acomodando os discípulos em bancos naturais que as ervas do caminho adornavam, o Mestre lhes disse que aquela era a derradeira hora que eles passariam juntos; dito isso, afastou-se para orar. No dia seguinte, Jesus foi crucificado, notando-se que, à exceção de João, que permaneceu ao lado de Maria até o instante derradeiro, todos os demais debandaram. (PP. 180 a 182)

145. Refletindo depois sobre a oração do Horto das Oliveiras, quando ele e seus companheiros foram tomados por um sono inesperado, João se perguntava: “Por que dormira ele, que tanto o amava, no momento em que o seu coração amoroso mais necessitava de assistência e afeto?” (P. 182)

146. Algum tempo passou sem que o filho de Zebedeu conseguisse esquecer a falta de vigilância daquela noite. Um dia, porém, após as reflexões costumeiras, João sentiu que um sono brando lhe anestesiava os centros vitais, e viu então que o Mestre se aproximava. Toda a sua figura se destacava na sombra, com divino resplendor. Jesus então lhe falou: “João, a minha soledade no Horto é também um ensinamento do Evangelho e uma exemplificação! Ela significará, para quantos vierem em nossos passos, que cada espírito na Terra tem de ascender sozinho ao calvário de sua redenção, muitas vezes com a despreocupação dos entes mais amados do mundo”. “Em face dessa lição -- concluiu o Mestre -- , o discípulo do futuro compreenderá que a sua marcha tem que ser solitária, uma vez que seus familiares e companheiros de confiança se entregam ao sono da indiferença! Doravante, pois, aprendendo a necessidade do valor individual no testemunho, nunca deixes de orar e vigiar!” (P. 183)

147. O bom ladrão - Dias antes da prisão de Jesus, discutia-se entre os discípulos a questão da fé e como fazer para adquiri-la, quando o Senhor ensinou: “A fé pertence, sobretudo, aos que trabalham e confiam. Tê-la no coração é estar sempre pronto para Deus. Não importam a saúde ou a enfermidade do corpo, não têm significação os infortúnios ou os sucessos felizes da vida material. A alma fiel trabalha confiante nos desígnios do Pai, que pode dar os bens, retirá-los e restituí-los em tempo oportuno, e caminha sempre com serenidade e amor, por todas as sendas pelas quais a mão generosa do Senhor a queira conduzir”. (PP. 184 e 185)

148. Levi perguntou-lhe como discernir a vontade de Deus nas coisas que nos acontecem. “A vontade de Deus -- explicou Jesus --, além da que conhecemos através de sua lei e de seus profetas, através do conselho sábio e das inclinações naturais para o bem, é também a que se manifesta, a cada instante da vida, misturando a alegria com as amarguras, concedendo a doçura ou retirando-a, para que a criatura possa colher a experiência luminosa no caminho mais espinhoso. Ter fé, portanto, é ser fiel a essa vontade, em todas as circunstâncias, executando o bem que ela nos determina e seguindo-lhe o roteiro sagrado, nas menores sinuosidades da estrada que nos compete percorrer.” (P. 185)

149. Concluindo seu pensamento, o Mestre acrescentou: “Todo homem de fé será, agora ou mais tarde, o irmão dileto da sabedoria e do sentimento; porém, essa qualidade será sempre a do filho leal ao Pai que está nos céus”. (P. 185)

150. Na hora sombria da cruz, disfarçado com vestes diferentes, Tomé acompanhou, passo a passo, o corajoso Messias, mas, tendo acreditado, durante três anos consecutivos, que Deus guardava todo o poder sobre o mundo, não entendia como o Senhor da vida tolerava aquele espetáculo sangrento... O prêmio do Cristo era então aquele monte da desolação, reservado aos criminosos? (P. 186)

151. Nos instantes finais daquele suplício, Tomé percebeu que a voz débil de um dos ladrões se elevava para Jesus, em tom de profunda sinceridade: “Senhor! -- disse ele, ofegante -- lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!...” O discípulo reparou que o Mestre lhe endereçou, então, o olhar caricioso e falou-lhe: “Vês, Tomé? Quando todos os homens da lei não me compreenderam e quando os meus próprios discípulos me abandonaram, eis que encontro a confiança leal no peito de um ladrão!” (P. 188)

152. Inquieto, o discípulo meditou na lição recebida e, horas a fio, contemplou o espetáculo doloroso, até ao momento em que o corpo do Mestre foi retirado da cruz. Começava, então, a compreender a essência profunda de seus ensinos imortais e, possuído de viva emoção, se pôs a chorar intimamente. (PP. 188 e 189)

153. Os quinhentos da Galiléia - Depois do Calvário, verificadas as primeiras manifestações de Jesus no cenáculo singelo de Jerusalém, apossara-se de todos os seus amigos uma saudade imensa de sua palavra e de seu convívio. Em Cafarnaum, a residência modesta de Simão Pedro continuava a ser o parlamento amistoso, mas, ao pé do monte onde Jesus falara tantas vezes, reuniam-se invariavelmente todos os antigos seguidores mais fiéis. (PP. 190 e 191)

154. Falava-se então, naquele ambiente, de que o Mestre voltaria ao monte para despedir-se e tal se deu, numa tarde de céu

muito azul, quando a figura do Cristo assomou no cume iluminado pelos derradeiros raios do Sol. Seu sorriso era meigo como ao tempo glorioso de suas primeiras pregações, mas de seu vulto irradiava-se luz tão intensa que os mais fortes dobraram os joelhos. (P. 192)

155. Jesus não utilizou ali a palavra articulada; todos, porém, lhe perceberam a amorosa despedida e, no mais íntimo da alma, lhe ouviram a exortação magnânima e profunda, na qual o Mestre lhes confiava a tarefa sublime da redenção pelas verdades do Evangelho. Os discípulos seriam os semeadores, eles -- toda a multidão ali reunida -- o fermento divino. “Instituo-vos os primeiros trabalhadores, os herdeiros iniciais dos bens divinos”, disse-lhes Jesus. (P. 192)

156. Para entrarem na posse do tesouro celestial, eles teriam de experimentar muitas vicissitudes -- e Jesus as arrolou ali: a cruz, a ingratidão, os conflitos permanentes com o mundo. “Séculos de luta vos esperam na estrada universal”, advertiu o Mestre, lembrando-lhes ser indispensável imunizar o coração contra todos os enganos da vida transitória, para a soberana grandeza da vida imortal. (PP. 192 e 193)

157. Jesus prometia, porém, dar-lhes a sua paz e sua assistência incessante: “Quando tombardes, sob as arremetidas dos homens ainda pobres e infelizes, eu vos levantarei no silêncio do caminho, com as minhas mãos dedicadas ao vosso bem. Sereis a união onde houver separatividade, sacrifício onde existir o falso gozo, claridade onde campearem as trevas, porto amigo, edificado na rocha da fé viva, onde pairarem as sombras da desorientação. Sereis meu refúgio nas igrejas mais estranhas da Terra, minha esperança entre as loucuras humanas, minha verdade onde se perturbar a ciência incompleta do mundo!” (PP. 193 e 194)

158. Sagrada emoção senhoreou-se das almas em êxtase de ventura. Foi quando observaram o Mestre, rodeado de luz, como a elevar-se ao céu, em demanda de sua gloriosa esfera do Infinito. Os primeiros astros da noite brilhavam no alto, como flores radiosas do Paraíso, enquanto no monte galileu cinco centenas de corações palpitavam, arrebatados por intraduzível júbilo. Velhos trêmulos e encarquilhados desceram a encosta, unidos uns aos outros, como solidários, para sempre, no mesmo trabalho de grandeza imperecível. Estavam ali anciãs de passo vacilante, unidas às filhas e netas, jovens e ditosas, bem como romanos e judeus, ricos e pobres, ao lado dos antigos discípulos que, cercando a figura de Simão Pedro, choravam de contentamento e esperança. (PP. 194 e 195)

159. Naquela noite fora, pois, confiado aos quinhentos da Galiléia o serviço glorioso da evangelização das coletividades terrestres, sob a inspiração do Cristo, e mal sabiam eles, na sua mísera condição humana, que a palavra do Senhor alcançaria os séculos do porvir. Foi assim que, representando o fermento renovador do mundo, eles reencarnaram em todos os tempos, nos mais diversos climas religiosos e políticos da Terra, ensinando a verdade e abrindo novos caminhos de luz, através dos bastidores eternos do Tempo. (P. 195)

160. Maria - Junto da cruz, olhos fixos no madeiro infamante, a ternura de Maria de Nazaré regredia ao passado em amargurosas recordações. Que fizera Jesus por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu coração? E, assim pensando, recordava o carinho que desde criança o filho dispensava a todas as criaturas, consolando os transeuntes desamparados e tristes, os viandantes misérrimos e até os malfeitores, que o menino levava à própria casa. Depois vieram os trabalhos da missão celestial, em que cegos, aleijados, leprosos, paralíticos foram assistidos pelo filho inolvidável... (PP. 196 e 197)

161. Em meio de algumas mulheres compadecidas com sua dor, Maria notou que alguém lhe pousara as mãos, de leve, sobre os ombros. Era João que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os braços amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se àquele triturado coração maternal e ela se deixou enlaçar pelo discípulo querido. (P. 198)

162. No auge do martírio, Maria dirigiu ao Cristo uma última saudação, dizendo-lhe, simplesmente: “Meu filho! Meu amado filho!...” E Jesus replicou, com significativo movimento dos olhos vigilantes: “Mãe, eis aí teu filho!...” E dirigindo-se de modo especial, com leve aceno, a João, disse: “Filho, eis aí tua mãe!”, uma última lição que dizia que deveria existir no coração humano a mais abundante cota de amor, não só para o círculo familiar, mas para todos os necessitados do mundo. (PP. 198 e 199)

163. Após a dispersão dos discípulos do Mestre, Maria foi residir em Batanéia, onde viviam alguns parentes mais próximos, até que um dia João, vindo de Éfeso, foi buscá-la, convidando-a a residir com ele numa choupana situada a 18 km de Éfeso, que o apóstolo ganhara de um dos membros da família real de Adiabene. Maria foi e, em pouco tempo, a casa de João se transformou num ponto de assembléias adoráveis, onde as recordações do Mestre eram cultuadas por espíritos humildes e sinceros. (PP. 199 a 201)

164. A notícia de que Maria morava ali espalhara um clarão de esperança por todos os sofredores, que buscavam aquela pousada humilde e dali saíam consolados. Enquanto João pregava na cidade as verdades de Deus, Maria atendia em casa os que a procuravam exibindo-lhes suas úlceras e necessidades. (P. 202)

165. A choupana passou a ser, então, conhecida pelo nome de “Casa da Santíssima”. O fato teve origem quando um miserável leproso, depois de aliviado em suas chagas, lhe beijou as mãos, murmurando: “Senhora, sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe Santíssima!” A tradição criou raízes em todos os espíritos. Quem não lhe devia o favor de uma palavra maternal nos momentos mais duros? (P. 202)

166. O modo como Maria confortava os aflitos era peculiar. Eis um dos casos: Um homem muito aflito chegou e perguntou: “Minha mãe, como poderei vencer as minhas dificuldades? Sinto-me abandonado na estrada escura da vida...” Maria lhe enviou seu olhar amoroso e, deixando transparecer nele toda a dedicação enternecida de seu espírito maternal, falou-lhe -- como fazia com todos os aflitos do mundo --: “Isso também passa!... Só o Reino de Deus é bastante forte para nunca passar de nossas almas, como eterna realização do amor celestial”. (PP. 202 e 203)

167. Uma noite, quando meditava sozinha em sua casa, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte. “Minha mãe -- exclamou ele --, venho fazer-te companhia e receber a tua bênção.” Ela o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que lhe inspirava profunda simpatia, e dele ouviu palavras lindas que falavam das belezas do céu e da bondade do Pai. O pedinte era Jesus, que, vindo buscar a querida mãe no regresso à verdadeira pátria espiritual, lhe disse: “Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu reino a Rainha dos Anjos...” (P. 205) (N.R.: Esta resenha deve ser completada com a descrição feita pelo autor da visita que Maria, em espírito, fez aos mártires do Cristianismo encarcerados no Esquilino, conforme se lê nas págs. 207 e 208.)
Londrina, 29/3/1998

Astolfo O. de Oliveira Filho



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