Humberto Mariotti Dialéctica y Metapsíquica (1929)



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Nem um passo à frente


Quando Engels escreveu o seu artigo contra o método empírico-indutivo de Bacon, ou melhor, confundindo esse método com “o êxtase e a vidência, importados da América”, de que se fazia vítima o empirismo inglês, na pessoa do “eminentíssimo zoologista e botânico Alfred Russel Wallace”, o homem que, simultaneamente com Darwin, apresentou a teoria da evolução das espécies pela seleção natural, o materialismo dialético era uma conquista recente, um equívoco em forma de desenvolvimento, e não nos caberia censurá-lo por essa digna atitude de combate. Engels não poderia entender de outra maneira o “desencaminhamento” de Wallace. Vê-se, não obstante, desse mesmo artigo, que Engels não ficaria no terreno da teoria. Embora mal, com a imperícia de quem jamais se interessara pelo assunto, procurou justificar as suas afirmações, através da observação e da experimentação.

O artigo de Engels foi publicado pela primeira vez em 1898. Devia ter sido escrito, segundo encontramos na edição brasileira da Dialética, em 1878. Engels criticava também os trabalhos de Crookes, Aksakof e Zöllner. É uma crítica violenta e irreverente, em que ele chega a considerar o Espiritismo “a mais estéril de todas as superstições”. Como se vê, a afirmação não era dialética, mas empírica, inteiramente gratuita, e o longo roteiro das experiências espíritas e metapsíquicas aí está para desmenti-la. Mas tinha a sua razão de ser. Podemos dizer, com Hegel, que o Zeitgeist, o espírito da época, a justificava. O que espanta, entretanto, é que ainda hoje, quase um século depois, o artigo de Engels seja a única pauta dos que, como o professor Silva Mello, desejam eliminar do mundo em que vivemos, por incômoda, a realidade dos fenômenos espíritas, sem seguir sequer o exemplo de Engels no tocante à experimentação própria.


O desprezo pela dialética


Dizia Engels, no artigo: “...não se pode desprezar impunemente a dialética.” E dizia bem. Senão, vejamos: observados os fatos com o máximo rigor científico, através de centenas de sessões – nas quais obteve-se, inclusive, na presença de Gabriel Delanne, a célebre e impressionante materialização de Bien-Boa, na casa do general Noel, na Argélia –, Charles Richet se convence da realidade dos fenômenos, escreve o Traité de Métapsychique, A Grande Esperança e O Sexto Sentido, mas só concorda com a sobrevivência depois que a poderosa dialética de Ernesto Bozzano lhe demonstra a obscuridade das teorias que atravancam a sua própria ciência (expressões da carta de Richet a Bozzano, publicada no número de 30 de maio de 1936, da revista londrina Psychic News).

César Lombroso, o grande criminologista e psiquiatra, autor de severas críticas ao Espiritismo, encontra-se, não apenas em uma, mas em várias sessões realizadas em Milão, Gênova e Turim, com a materialização de sua própria mãe, graças à mediunidade de Eusápia Palladino, e proclama o fato com entusiasmo e emoção, na revista milanesa Luce e Ombra. Mas o professor Silva Mello descobre, algumas dezenas de anos mais tarde, em nosso país, que a médium era simplesmente “uma embusteira”, e afirma: “descobriu-se que ela fraudava de maneira sistemática e com a maestria de uma velha perita na questão”. Lombroso, como se vê, não fora mais do que um beócio, deixando-se empolgar pela emoção mais estúpida que se possa imaginar, quando tomou um boneco ou um farsante pela ressurreição da sua própria mãe! Que se admitisse a farsa numa comédia de Hollywood, vá lá, mas na vida de um homem como Lombroso é o que de mais grotesco se possa imaginar.

A frase de Engels se aplica também, como luva, ao caso do trio H. G. Wells, Julian Huxley e G. P. Wells. Não cometeram eles, é verdade, a gafe de negar a realidade dos fenômenos. Pelo contrário, como o Dr. Troise, reconheceram, prudentemente, que os fatos existem e não podem ser riscados da história ou apagados com a esponja da negação. No volume Science of Life, da coleção Man's mind and behaviour, traduzidos e publicados entre nós com os títulos A Nossa Vida Mental, coleção A Ciência da Vida, reconhecem eles: “Não podemos absolutamente rejeitar a evidência de tais fenômenos”. E acrescentam, aliás com muita oportunidade, censurando os que os negam: “Lembremo-nos, segundo Richet, de que grandes cientistas, como Bouillaud, declararam que o telefone era ventriloquia, e cientistas ainda maiores, como Lavoisier, afirmaram decisivamente que não poderiam cair pedras do céu, pela razão muito simples de que no céu não há pedras...”

Não obstante – ah, o desprezo pela dialética! –, terminaram apelando, num desesperado esforço de rejeição à tese espírita, ao “realismo” da Idade Média, para explicar os fatos: “Quando filosofamos – dizem eles – nas horas de recolhimento e de silêncio, talvez essa filosofia não parta unicamente de nós, mas seja o próprio Homem, na plenitude de si mesmo, que se revele através dos nossos pensamentos”.

Entenderam os leitores? Esse Homem (com “H” maiúsculo) é a verdadeira ressurreição da múmia filosófica da controvérsia entre “nominalistas” e “realistas”, arrancada à força dos baús medievais para enfrentar a realidade fenomênica do Espiritismo, em plena era atômica.

A sobrevivência contra a evolução


Mas não fica nisso o desprezo dos autores pela dialética. Depois desse gigantesco retrocesso histórico, afirmam eles, como se dissessem uma novidade: “a morte do indivíduo é um dos métodos da vida” (que dúvida!). E continuam: “Cada indivíduo é uma experiência biológica. Cada espécie progride pela seleção, rejeição ou multiplicação dos indivíduos. Biologicamente, a vida deixaria de continuar para diante, se os indivíduos não tivessem um fim e não fossem substituídos por outros. A idéia da imortalidade individual é absolutamente contrária à idéia da evolução contínua”.

E logo mais, numa dessas tiradas que se repetem de boca em boca e de livro em livro, enquanto alguém não pede, como Sócrates, a definição do seu verdadeiro sentido: “São os moços, e não os velhos, os que desejam a imortalidade pessoal.”

É pena que não mencionem a fonte desse espantoso dado estatístico, pois gostaríamos de confrontá-lo com o número de mocidades espíritas, católicas, protestantes, teosofistas, e dos muitos outros jovens espiritualistas não filiados a nenhuma seita, por que estranho motivo não deixam o terreno exclusivamente aos velhos, monopolizadores modernos da velha aspiração humana da sobrevivência.

Dizer, além disso, que a imortalidade individual é contrária à evolução contínua, é “fazer de conta” que essa imortalidade seja biológica. Ora, absurdo dessa monta ninguém poderia aceitar. Como, pois, interpretar-se a atitude desses homens habituados a lidar com as coisas do pensamento, a acompanhar e divulgar os conhecimentos científicos, senão pelo desprezo à dialética?



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