Humberto Mariotti Dialéctica y Metapsíquica (1929)


A tese das “materializações românticas”



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A tese das “materializações românticas”


Não se pense, porém, que o desprezo ficou no que dissemos. Longe disso, ele foi e vai muito além. Quando se trata de contradizer o Espiritismo e de fatos espíritas, tudo parece permitido aos homens de ciência e aos homens de letras. Não há fronteiras para a imaginação, nem limites para o raciocínio.

É assim que, ilustrando o volume com várias fotografias espíritas, os autores reproduzem um quadro de Tissot e o comparam à famosa fotografia da “cabeça materializada”, obtida por Notzing e madame Bisson, com a médium Eva Carriere. Para concluírem: “Antes da época dos flagrantes fotográficos, o grande pintor Tissot mostrou-nos o que acreditava ser a reencarnação de uma mulher amiga, acompanhada do seu Espírito-guia; é uma bela pintura, onde ele reproduziu a impressão de verdadeira beleza, recebida numa sessão espírita. Os métodos mais rigorosos, que hoje se usam, já não permitem essas sublimações do testemunho visual: as câmaras fotográficas mostram as coisas como elas se passam. E vemos que essas figuras e rostos materializados começam pequenos e às vezes desproporcionalmente. Quaisquer que possam ser essas figuras e faces achatadas e amarfanhadas, não são, certamente, materializações em carne e sangue humano”.

Richet escreveu o Traité sem aceitar a tese espírita, mas contudo jamais cometeu a heresia de dizer que as materializações eram fantoches amarfanhados. Encontramos no Traité essa mesma cabeça de que se servem os Wells e Huxley, mas apresentada em outro sentido, ou seja, no bom e verdadeiro sentido que se lhe deve dar: como uma das mais belas fotografias já obtidas, revelando e documentando, de maneira insofismável, uma das fases do processo de materialização. Não tivéssemos essa e outras fotografias obtidas por Notzing e madame Bisson, e esses mesmos ilustres cavalheiros nos acusariam de não havermos surpreendido jamais uma das fases daquilo que chamamos “processo de materialização”. Não teriam dúvidas em utilizar esse fato como argumento “poderoso” contra a teoria da formação progressiva do fantasma, com a matéria plástica do ectoplasma ou teleplasma.

Perguntaremos, porém, a esses ilustres divulgadores do conhecimento, se não tiveram a oportunidade de ver outras fotografias, como a médium Linda Gazzera, constantes do seu livro Fotografias de Fantasmas, no qual elas figuram, não através de clichês, mas nas próprias cópias fotográficas, para que não haja dúvidas.


Mais vale um pássaro na mão


Essas fugas pela tangente representam o método mais freqüente de combate ao Espiritismo, inclusive por parte dos materialistas dialéticos. Para os observadores serenos e sensatos, bastaria essa insistência na deturpação dos fatos e na distorção do raciocínio, para comprovar a seriedade e a importância desses mesmos fatos. Aliás, ainda com Engels, encontraremos o argumento mais apropriado: “A única questão consiste em saber se o pensamento está ou não certo, e o desprezo pela teoria é, evidentemente, a maneira mais segura de se pensar de maneira naturalista, e, conseqüentemente, de modo errado.”

Engels não ficaria mal nas fileiras espíritas. De fato, ele via bem estes problemas. O desprezo pela teoria espírita, única que pode explicar os fenômenos, tem levado esses homens a trair a dialética a todo momento, entrando a fundo e às cegas pela Sofisticaria. A punição da dialética, porém, não se faz tardar. Os que pensam de maneira naturalista, voltando as costas à teoria, terminam de encontro à parede, com a espada do ridículo no peito. Porque a “maneira naturalista de pensar”, a que Engels se refere, é a do pensamento a priori, instintivo, que não provém da razão orientada pelo processo da civilização, mas da herança comum e obscura do passado biológico da espécie. Age por meio de impulsos mecânicos, é um automatismo inconsciente. Dir-se-ia, diante das suas manifestações, que o homem tem a vocação da fuga. Como a lebre, colhida de surpresa na beira da estrada, precipita-se no mato, assim o homem, colhido na sua posição materialista pela surpresa dos fatos supranormais, precipita-se no matagal das lembranças ancestrais. Improvisa teorias e fabrica rótulos com a desenvoltura inconseqüente da avestruz ao enterrar a cabeça na areia. Comete, com uma confiança absurda na impunidade, o crime da desfiguração da verdade, ou passa apenas a negar, indiferente a todas as provas e argumentos, como a criança teimosa que não quer ver a louça quebrada. É o outro lado da crendice, o reverso do fanatismo religioso.

Por isso, o médico Sergio Valle nos lembra, no livro Silva Mello e os Seus Mistérios, recentemente publicado: “Enquanto não se realize o fiat da ciência (que se mantém, teimosamente, orgulhosa e cega), para iluminar os fatos que possuímos, não é justo que uma criatura sensata despreze o que se acha detido, seguramente detido nas suas mãos, por mínimo que seja, pelo que voeja no espaço do fanatismo religioso ou do fanatismo científico”.

Interpretação do homem


O homem, segundo o materialismo, seja ele mecanicista dialético, é um animal pensante. Para Marx, e portanto para o dialético, é ainda o resultado da ação simultânea do trabalho, sobre ele e a natureza. Agindo sobre o meio em que vive, trabalhando-o, ele se modifica a si mesmo. Essa concepção materialista do homem não se enquadraria na doutrina de nenhuma das religiões corporificadas em igrejas. O Espiritismo, entretanto, não a contradiz. Apenas a amplia, ensinando que o princípio inteligente, no homem como no animal, independe do corpo. E por isso é condenado e combatido, ao mesmo tempo e por todos os lados, pelos religiosos e pelos materialistas.

No capítulo III de O Livro dos Espíritos, de Kardec, encontramos esta definição: “O trabalho é lei da natureza, por isso que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.” Logo adiante: “Sem o trabalho, o homem permaneceria sempre na infância, quanto à inteligência.”

A lei de causas e efeitos é o princípio fundamental da doutrina, a evolução constitui a sua própria essência. Por outro lado, não se estruturou o Espiritismo através de formulações hipotéticas. Todo o seu edifício doutrinário se assenta na observação e na experimentação. Richet, que condenava a “credulidade excessiva” de Kardec, já o notara, no Traité. Dialético por natureza, em essência e pelos métodos que emprega, o Espiritismo, se bem estudado, revela-se o legítimo e natural herdeiro do título a que se candidata o materialismo dialético: síntese do conhecimento.

Realmente, o Espiritismo, diante dos mundos em litígio do materialismo e do espiritualismo, não peca por exclusão, não comete o pecado proudhoniano ou marxista da escolha. Na sua estrutura encontraremos aquelas duas concepções, não apenas conjugadas ou ajustadas, mas superadas na transfiguração de um novo corpo – a síntese –, em que a ciência, a filosofia e a religião, as três províncias antagônicas do conhecimento, aparecem encadeadas no verdadeiro “processus” da mais pura dialética, uma resultando da outra.

No Anti-Dühring, Engels lembra as origens do marxismo e expõe a doutrina como a seqüência lógica destas fases: a filosofia, a economia-política e o socialismo. No Espiritismo, a seqüência se tresdobra na ciência, na filosofia e na religião. Partindo da observação e da análise dos fenômenos materiais, de natureza supranormal, criamos a filosofia do ser, e atingimos, logo a seguir, a religião. Esta, porém, não se traduz na organização de uma nova igreja, de um novo culto, de um novo “suborno da divindade”. Nem se traduz no antropomorfismo socialista, erguido no altar da produção. Mas é, ao mesmo tempo, a comunhão de bens, de corações e de espíritos, pela qual todos ansiamos, espiritualistas e materialistas, para a construção do mundo melhor amanhã.

Porque o homem, para o Espiritismo, não é apenas “o último anel da vida animal na terra” (A Gênese, Kardec), nem o produto quase exclusivo da ação simultânea do trabalho; mas também aquele ser que se mostra nos fenômenos de materialização, de aparição, de visão, de voz direta, de incorporação, de psicografia ou de tiptologia, para demonstrar “aos que ficaram” que ele não se extinguiu com a morte, e que o seu conteúdo moral continua a viver e a se desenvolver indefinidamente, na multiplicidade das formas, sem prejuízo da identidade substancial.



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