I – diagnóstico



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I – DIAGNÓSTICO


Este diagnóstico constitui versão simplificada das informações sistematizadas por especialistas das diversas áreas do conhecimento em 9 relatórios temáticos, produzidos como parte dos trabalhos contratados para o Plano de Desenvolvimento Ambiental de Vargem das Flores, que permitiram conhecer as características físicas, biológicas e sócio-econômicas presentes no território da bacia de Vargem das Flores. São eles Estudos Demográficos, Caracterização da Ocupação Urbana, Caracterização da Ocupação Rural, Estudos Geológicos, Estudos Hidrológicos, Estudos da Qualidade da Água, Análise da Estrutura Institucional, Análise dos Aspectos Legais e Pesquisas Sócio Econômicas.
Pretende-se, neste documento, propiciar ao leitor visão geral dos temas estudados, lembrando-se que maiores detalhamentos sobre as variáveis analisadas deverão ser buscados nos respectivos relatórios temáticos.
Os estudos do diagnóstico tiveram como unidade de análise as 7 sub-bacias que compõem a bacia hidrográfica de Vargem das Flores, correspondendo às sub-bacias do Ribeirão Betim, Córrego Bela Vista, Córrego Morro Redondo, Córrego Água Suja, Córrego da Laje, Córrego Batatal e de Contribuição Direta ao reservatório. A sub-bacia do córrego Olaria ou Chiqueiro, devido à sua reduzida área, foi, para efeito deste estudo, anexada à de Contribuição Direta. Além disso, alguns dos temas abordados, pela natureza de seus estudos, demandaram subdivisões destas sub-bacias, apresentadas, neste documento, junto a cada item específico.
Para o desenvolvimento dos estudos, realizaram-se levantamentos de dados secundários, dando-se continuidade aos trabalhos iniciados à época da elaboração da proposta técnica, buscando-se varrer toda a bibliografia referente à Bacia. Em seguida, as campanhas de campo e entrevistas com informantes qualificados, foram base para a obtenção de dados primários, contribuindo, sobremaneira, para o entendimento do universo em estudo. Além disso, foram feitas pesquisas sistematizadas junto aos estabelecimentos agropecuários, aos usuários do lago e aos parcelamentos existentes, procurando-se caracterizar o uso do solo na bacia de Vargem das Flores.
Por fim, foram realizados trabalhos de fotointerpretação e outros levantamentos que permitiram conhecer as características físicas, biológicas e sócio-econômicas presentes no território da bacia de Vargem das Flores, os quais serviram não só para a elaboração dos relatórios temáticos, mas sobretudo, para a discussão das possíveis alternativas de ocupação da área, através da análise de cenários ou prognósticos, e identificação dos respectivos impactos no reservatório, a partir dos quais serão propostas as ações efetivas de controle ambiental apresentadas no âmbito desse documento.

I.1 - Geologia


Do ponto de vista geomorfológico, a área caracteriza-se como um planalto com cotas variando entre o nível do lago, cerca de 840 metros, e cotas até 1030 metros, sendo poucas, entretanto, as áreas com altitudes superiores a 950 metros, sempre associadas à presença de rochas expostas isoladas em contornos circulares e ovalados.

A dinâmica natural da área é moderada, não havendo evidência de grandes movimentos de massa, nem entalhamentos enérgicos. Todavia estão presentes terrenos de alta susceptibilidade à erosão, que levaram à formação de profundos e extensos ravinamentos ativados pela ação antrópica, alguns deles provavelmente anteriores à chegada do colonizador e, possivelmente, a maioria ativada durante o Ciclo do Ouro.


A Carta Morfológica da Região Metropolitana de Belo Horizonte classifica a maior parte da área como formada de "topos abaulados, com vertentes convexas e vales côncavos". A Carta de Declividades revela grande concentração de terrenos com declividades inferiores a 10% e entre 10 e 20%. Aqueles situados entre 20 e 30% vem a seguir, mais retalhados, e aqueles entre 30 e 47% e acima de 47% caracterizam faixas exíguas, freqüentemente localizados nos pontos de inflexão dos topos abaulados para as vertentes côncavas.
As rochas predominantes na área pertencem ao Complexo Basal Indiferenciado, de idade Arqueana. Tais rochas são biotita-gnaisses, granitóides e migmatitos. Esse substrato é cortado por metabasaltos e metadiabásios aos quais estão associados solos residuais argilosos vermelhos envolvendo blocos arredondados por disjunção esteroidal. Essas intrusivas ocorrem sob a forma de diques subverticais delgados, os mais extensos com orientação para NW e os mais curtos, e menos numerosos, orientados para NE. É ainda da mesma fonte a atribuição ao Grupo Macaúbas de diques clásticos ocorrentes a oeste do reservatório de Vargem das Flores. Esses diques são constituídos de arenitos mal selecionados, silicificados, às vezes feldspáticos e granulometricamente variando de arenitos conglomeráticos a siltitos.
Depósitos aluviais, ou muitas vezes alúvio-coluviais, estão preenchendo, abundantemente, as principais calhas fluviais da área, e baixas vertentes. Sua ocorrência tem grande relevância para o planejamento, quer pela posição em que ocorrem, já naturalmente atraindo ocupação, a implantação do sistema viário, o uso agrícola, a construção de represamentos; quer por sua utilidade, quando areno-cascalhosos ou mesmo argilosos; quer ainda por constituírem domínio geológico muito dinâmico, muito acrescido nos séculos anteriores pelo intenso ravinamento resultante da atividade pioneira da agricultura de subsistência e pastoreio nos terrenos muito erodíveis do manto de alteração dos gnaisses.
Em termos das características geológicas básicas, praticamente todo o substrato local é constituído de Gnaisses e seu manto de intemperismo sendo este, portanto, o suporte predominante da atividade humana na área. Dele resultam a configuração morfológica da área, o caráter típico dos produtos de intemperismo mais expressivos e o dos próprios sedimentos alúvio-coluviais. A ocorrência de importantes maciços de rocha exposta ou sob escasso manto de intemperismo e a proximidade com áreas em dinâmico processo de urbanização conferem-lhes importância econômica potencial como fontes de pedra britada. A condição que ostentam de aqüífero fissural, com a possibilidade de vazões variando previsivelmente entre 5m3/h até valores máximos entre 20 e 30 m3/h para poços tubulares de 60 a 100 m de profundidade, é também relevante dada a inexistência de grandes aqüíferos granulares profundos.
Os diques máficos acima referidos desempenham, em si, papel geotécnico secundário, principalmente para obras superficiais, podendo ser desprezados para fins de planejamento. Não obstante poderão vir a apresentar importância hidrogeológica significativa como septos impermeáveis em relação ao aqüífero fissural dos gnaisses. Quanto a este aspecto, vale acrescentar que costumeiramente exibem-se à superfície como amontoados de blocos esferoidais em que o núcleo muito duro (pedras ferro ou “cabo verde”) está envolto em camada intemperizada de coloração amarelo ocre a vermelho ferrugem. O solo nas áreas de ocorrência é sempre vermelho, argiloso, e o relevo é positivo em relação aos terrenos adjacentes (cristas de centenas de metros a quilômetros de extensão). Possivelmente, a sua alteração por intemperismo propicia a auto-colmatação das fraturas, conferindo-lhes o papel hidrogeológico de septos ou barreiras de permeabilidade.
A segunda unidade geológica em ordem de relevância para fins de planejamento é representada pelas formações aluviais constituídas de sedimentos areno-argilosos presentes praticamente em todos os fundos de vales, excetuadas porções encaixadas em altas cabeceiras. À vista de esses vales, em suas cabeceiras principais ou dos tributários, terem sido fortemente afetados por ativa erosão desde os tempos iniciais da ocupação pelos paulistas, e possivelmente ainda pelas ações volantes de ameríndios, parte significativa desses sedimentos deve ser considerada de origem antrópica. Testemunhos da intensa atividade dessa erosão encontram-se em toda a bacia, mas particularmente concentrados no campo de voçorocas do extremo noroeste em Nova Contagem e imediações.
Nas áreas urbanizadas do extremo sudeste da bacia muitas feições antigas foram reativadas pelo aumento dos esgotos sobre elas despejados, e outras foram preenchidas com bota-fora, entulho e lixo. Abertas a jusante e, em geral, sem contenção apropriada, a erosão sobre esses materiais novos tem cedido material para os vales a jusante.
Como grande parte dos efluentes corre em condições naturais, parte em calhas em transformação e outros finalmente canalizados, a eficiência desses escoadouros quanto ao transporte do caudal sólido é muito variada. É forçoso daí concluir que há muito material em trânsito, com destino certo no reservatório de Vargem das Flores, ou nos pequenos reservatórios locais, também expostos ao assoreamento.
A relevância dessas unidades geológicas para a gestão da Bacia repousa, portanto, nos seguintes valores principais: disponibilidade de recursos naturais para atividades extrativas (areias, cascalheiras etc.); existência de aqüífero superficial (vulnerável); armazenamento provisório para recarga do aqüífero fissural; desenvolvimento de atividades agrícolas e urbanização. A instalação de cada uma dessas atividades deve obedecer critérios próprios de compatibilidade relacionados com as características da infra-estrutura geológica da área, bem como associados aos objetivos de sustentabilidade do desenvolvimento da Bacia como um todo e de perenização do reservatório em particular.
Para tanto, torna-se mister conhecer também as unidades de terreno alí identificadas, cada uma desdobrável em sub-unidades conforme suas características locais, e espacialmente reprodutíveis em toda a área, com padrões de comportamento próprios. Definidas como objetos de gestão no âmbito das sub-bacias hidrográficas adotadas como unidades de análise e planejamento para o Plano em questão, foram identificadas três unidades de terreno:
A primeira, e mais extensa, intitulada Superfície de Topo, é a superfície superior, ondulada, do planalto, com formas convexas, de altitude superior a 850m e muitas vezes acima de 900m. A segunda é a superfície eminentemente tabular e arborescente, resultante do entulhamento dos fundos de vales. Será chamada Calha Aluvial. Como a primeira, é uma superfície contínua, que pode ser acompanhada sem interrupção nos baixos vales. Desta unidade, parte encontra-se submersa no reservatório.
A terceira unidade consiste de inúmeras formas naturalmente côncavas ou feições côncavas de origem antrópica, implantadas nos flancos de formas convexas da Superfície de Topo. A esta unidade, que integra formas individuais, descontínuas, dá-se o nome de Superfície de Transição.
A Superfície de Topo é identificada com as formas essencialmente positivas e convexas do relevo, como as partes convexas das colinas, espigões e áreas cimeiras em geral. Entre outras distinções, exibe as seguintes: é a unidade cedente dos materiais, quer pela erosão, laminar ou linear, quer pelo recuo gradual de suas bordas, esta cessão sendo feita diretamente para as áreas aluviais ou através das superfícies côncavas intermediárias. Mercê de sua conformação convexa, é uma superfície dispersora de fluxo em condições naturais.
A segunda unidade, Calha Aluvial, é eminentemente a unidade receptora, que pode crescer sobre as demais, e sobre o reservatório, por assoreamento. É a superfície essencialmente plana dos fundos de vales, ou suavemente arqueada e inclinada nos pontos de descarga intensa de caudal sólido, formando leques aluviais.
Finalmente a terceira, Superfície de Transição, é a superfície eminentemente côncava que estabelece a ligação entre a Superfície de Topo e a Calha Aluvial. Reúne atributos naturais das anteriores; recebe da Superfície de Topo, e cede material próprio e em trânsito para a Calha Aluvial. Na dinâmica natural, a longo prazo, tende a ceder áreas à Calha Aluvial e a tomar áreas originárias da Superfície de Topo. Na dinâmica antrópica convencional, tende a receber lançamentos indiscriminados de terra, entulhos e lixo, em pulsos descontínuos, e a ceder por erosão, continuamente, os materiais lançados ou materiais próprios cuja erosão tenha sido ativada pelo aumento de escoamento superficial. Deve à sua conformação, essencialmente côncava, a tendência à concentração natural de fluxo. Estas unidades estão representadas no Mapa PX-G02, em anexo, e suas características resumidas na Tabela 1.1.

I.1.1-Processos Geodinâmicos


Por processos geodinâmicos compreendem-se quaisquer transformações estruturais e das condições de estado da terra, incluindo transformações morfológicas da superfície. Embora interdependentes, os processos geodinâmicos costumam ser agrupados em duas classes: a dos processos endógenos, desenvolvidos à custa da energia interna do planeta, obtida da desintegração dos elementos radioativos, e a dos processos exógenos, devidos à radiação solar, à energia gravitacional dos sistemas Terra - Sol e Terra - Lua (marés) e a associada aos desnivelamentos gerados pelos processos endógenos (orogênese e epirogênese). Considerando esta última modalidade de energia, compreende-se que os processos endógenos constituem uma etapa necessária, ou preparatória, para a instalação de processos exógenos, cujo resultado final tende a ser a anulação desses desnivelamentos. (Estes últimos todavia são permanentemente recriados pela dinâmica interna).
Os processos geodinâmicos que, por sua incidência efetiva ou potencial na área, importa caracterizar objetivamente são os de erosão e movimentos de massa, transporte e deposição (assoreamento). A ocorrência destes processos identificada através de fotointerpretação e trabalhos de campo está documentada através do relatório fotográfico, que integra o relatório temático referente aos Estudos Geológicos.

Tabela 1.1- Unidades de Terrenos

Bacia de Vargem das Flores-Junho de 1997


Unidades de

Características e Comportamento

Terrreno

Forma

Materiais Expostos

Drenagem

Condições de Suporte

Taludes Naturais

Tecnologia

Superfície de Topo

Convexa
(incluem-se ass porções côncavass suaves)

-Solos residuais

pedologicamente evoluídos

-Cascalheiras

-Maciços gnáissicos

-Blocos de diques máficos

-Blocos de arenito conglomerático

-Capas coluviais


-Lençol freático profundo (ausência de fontes)

-Terrenos bem

drenados

-Escoamento natural

disperso

-Limitada resistência ao escoamento concentrado



-Medianas a

boas em áreas de solos residuais bem desenvolvidos

-Sofríveis a fracas nos terrenos de transição


-Estáveis nas áreas nucleares

-Instáveis ou em evolução nas faixas marginais




-Coleta pluvial

-Pavimentos permeáveis

-Fossas sépticas afastadas da superfície de transição

-Evitar sistemas de drenagem concentradores de escoamento
























Calha Aluvial

Plana

-Solos aluviais naturais e antrópicos e (assoreamen-

to e aterro)

-Capas coluviais sobre corpos aluviais


-Lençol freático raso a aflorante

-Áreas permanentemente ou periodicamente alagadas

-Capilaridade


-Variáveis de médias a boas em camadas arenosas espessas e contínuas

-Sofríveis a fracas em domínios argilosos



-Barrancas instáveis

-Coleta pluvial

-Não ocupação de faixas inundadas

-Elevação do piso para novas ruas e construções























Superfície de Transição

Côncava

(embaciada ou

ondulada)


-Solos em evolução

-Saprólitos

-Enchimentos antrópicos capas coluviais

-Blocos de diques máficos



-Lençol freático raso

-Fontes


-Drenagem natural sofrível

-Capilaridade

-Escoamento natural convergente


-Variáveis e passíveis de ocorrências imprevistas

-Instáveis ou em evolução

-Coleta pluvial

-Escadas dissipadoras

-Diques retentores

-Cisternas de infiltração



Fonte: Práxis projetos e Consultoria Ltda.


Erosão


Em nossas condições de clima, a erosão natural é um processo eminentemente dependente dos fatores geológicos (infra-estrutura) e dos ligados às características da cobertura vegetal (superestrutura). A presença humana altera mais ou menos drasticamente o quadro da superestrutura e localizadamente o da própria infra-estrutura (atividades de mineração, operações de terraplenagem, aração, capina).
Os processos de erosão podem ser esquematicamente agrupados em dois tipos básicos: a erosão laminar (sheet erosion) e a linear (gully erosion). Na erosão laminar, partículas do solo superficial são, individualmente, destacadas pela ação de agentes diversos e assim disponibilizadas para o transporte, que pode ser feito pelo vento (regiões áridas), ou em superfícies descobertas por terraplenagem, aração, capina, e pela água em escoamento disperso.
A erosão linear começa a ocorrer quando, sob condições topográficas determinantes, os filetes convergem, ou quando esta convergência é imposta por trilhas implantadas por animais e pela ação humana (trilhas, estradas, valas divisórias, canaletas de drenagem). Na erosão linear acentua-se a influência das características do terreno na configuração que vão assumindo as feições resultantes da erosão. Para a erosão do tipo voçoroca, extensamente ocorrente na área, embora não revestida sempre de uma completa tipicidade, em estágios avançados do seu desenvolvimento, prevalece um conjunto de fatores geopedológicos predisponentes e climáticos, atuantes, quais sejam: o substrato gnáissico revestido de espesso manto de intemperismo pedologicamente diferenciado; regime de chuvas de verão concentradas no período de outubro a março, seguidas de acentuada estiagem no período de abril a setembro. Os primeiros proporcionam horizontes superficiais de solos argilosos, vermelhos, dotados de coesão significativa para a manutenção de paredes subverticais por períodos prolongados, seguidos descendentemente de materiais de tonalidades variadas, predominando o róseo, siltosos, e do saprólito, também envolvido no processo erosivo. O fator climático proporciona as chuvas torrenciais, que promovem a erosão superficial e desbarrancamentos, e as chuvas prolongadas, que respondem pela elevação do lençol freático, sempre oscilando no saprólito e no material siltoso.
A ação solidária do escoamento hipodérmico nas zonas siltosa e saprolítica, promovendo a erosão interna, e do escoamento superficial, promovendo erosão e remoção dos materiais erodidos, respondem pelo essencial da dinâmica desse processo, que se aquieta naturalmente na estiagem. Em condições naturais, o processo evanesce com o tempo quando a feição se aproxima, sem transpô-lo, do topo da vertente.
As voçorocas ativas estão extensamente distribuídas na área e particularmente concentradas na porção noroeste, região de Nova Contagem. É praticamente impossível, encontrar uma de tais feições da qual se possa dissociar inteiramente o contributo humano. Sem a pretensão de oferecer datações rigorosas, as mais antigas e abrigadas de uma ação humana efetiva atual, já inteiramente retomadas de vegetação, ou com seus contornos acentuadamente suavizados, poderão ser mesmo anteriores à chegada dos Bandeirantes, mas terão contado com a contribuição antrópica indígena, muito mais eficaz do que se lhe tem atribuído; de idade intermediária são as do Ciclo do Ouro, provocadas por roçados, por caminhos de boi e valas divisórias. A fase atual, de estradas rurais, do trator agrícola, da monocultura e da urbanização, é uma fase de abertura de feições novas, de reativação, e de entulhamento, também propositado e muitas vezes mal conduzido.
Os locais típicos de ocorrência das voçorocas são os flancos da Superfície de Topo, que, ao cabo do processo, cede as áreas afetadas para a Superfície de Transição. As outras modalidades de erosão linear e laminar podem desenvolver-se igualmente na Superfície de Topo e na Superfície de Transição.

Movimentos de Massa


Embora pudessem ser incluídos em erosão, tomada em sentido lato, vale a pena distinguir os movimentos de massa porque nestes, diferentemente da erosão, as partículas são mobilizadas coletivamente, podendo envolver porções de solos e de rochas em escorregamentos bruscos ao longo de uma superfície, coincidente ou não com descontinuidades geológicas pré-existentes.
Nos trabalhos de foto-interpretação não foram indentificadas feições reliquiares inequivocamente atribuíveis a fenômenos do tipo. Todavia em muitas áreas côncavas da Superfície de Transição, ou nas transições estreitas da Superfície de Topo para a Calha Aluvial, há indícios de terem ocorrido escorregamentos. Estes escorregamentos poderiam ter sido ativados localmente por processos naturais, como, por exemplo, por perda de resistência conseqüente a entulhamento do vale e ascensão do lençol freático ou reentalhe devido à remoção de níveis de base locais.
Não obstante esta indefinição quanto a processos generalizados de movimentos de massa em passado remoto, sem dúvida justifica-se tratar tais indícios de instabilidade com espírito conservador e preventivo, principalmente nas hipóteses de construção residencial e de execução de cortes viários ou para a geração de áreas planas.
Os processos de escorregamento tendem a situar-se preferencialmente no interior da Superfície de Transição e no seu contato com a Superfície de Topo.

Transporte


O transporte é processo natural, igualmente passível de influência antrópica, que dá seqüência ao conjunto de transformações do grupo aqui tratado de processos geodinâmicos. Nas condições de erosão eminentemente hídrica, a água, sob efeito da gravidade, é agente e veículo de transporte, com eficácia tão maior quão mais concentrada em seu escoamento e quão maiores os gradientes disponíveis. Em situações de gradientes tênues e em superfícies rugosas ou leitos irregulares ou com bloqueios de dimensões variadas, o transporte é pouco eficiente e demanda tempo variável para transferir os materiais erodidos do sítio de que tinham sido removidos para o sítio de sua disposição final, em condições naturais o mar ou grandes depressões ocupadas por lagos. É o transporte profundamente afetado pela atividade antrópica, podendo ser quase inteiramente neutralizado pelos barramentos de grande porte, com tempos prolongados de residência, que proporcionam a deposição integral dos materiais arrastados e das suspensões mecânicas. Nos reservatórios de porte médio e pequeno, parte significativa dos finos pode transpor o barramento. Materiais dissolvidos podem transpor os reservatórios dentro dos limites de solubilidade permitidos pelas condições do meio.
Em condições naturais, as taxas de materiais transportados nos cursos d’água são acentuadamente pulsativas, dependendo da capacidade e competência destes, por sua vez condicionadas ao fator pluviosidade. Desta forma, mesmo em distâncias pequenas, contadas no máximo em dezenas de quilômetros, os materiais em trânsito podem sofrer numerosas paradas entre o ponto de saída e o de acomodação final.
No caso da bacia de Vargem das Flores duas circunstâncias criadas pela ação antrópica geram efeitos exatamente opostos: o efeito imperioso do bloqueio ao transporte gerado pelo barramento, criando um nível de base artificial representado pelo espelho d’água e em contrapartida praticamente todo o resto das atividades na bacia estimulando o transporte. Com efeito, o desmatamento e introdução de pastagens de criação extensiva, a agricultura e suas práticas preparatórias (aração), ou de trato cultural (capina), as estradas vicinais; a atividade de mineração de agregados e de areais; a urbanização, com o bloqueio à infiltração pelos telhados, vias asfaltadas e pátios cimentados e os sistemas de escoamento pluvial; tudo, no conjunto, concorre em geral para reduzir as taxas de infiltração e de evapotraspiração, para a concentração do escoamento e para a remoção de rugosidades, aumentando muito a eficiência do transporte.

Assoreamento


A conjunção do bloqueio a jusante com o estímulo ao transporte a montante com certeza tenderá a promover o rápido assoreamento, inicialmente das porções próximas dos estirões de entrada no reservatório e posteriormente nas porções distais no interior do reservatório e também nas várzeas que antecedem a entrada. No quadro até aqui vigente são escassas (e apenas por coincidências de interesses imediatos pode alguma atividade estar contribuindo para retardar o alcance do estágio final acima referido) as possibilidades de sobrevivência do reservatório em suas plenas condições operacionais. Antes disso, entretanto, inúmeros pequenos reservatórios situados na Calha Aluvial e na Superfície de Transição estarão retendo material e retardando timidamente o assoreamento do lago, quando não feitos precavidamente em posição lateral.
Existindo, portanto, em curso um processo de erosão intensa na bacia, um processo de transporte de crescente eficiência, e um destino certo fixado pelo barramento, mais proveitoso é lançar uma luz sobre as consequências mais danosas do processo de assoreamento, com vistas a mobilizar autoridades e população com a meta não de prolongar a vida útil do reservatório, mas de garantir a sua perenidade.
Para o reservatório as consequências danosas mais óbvias do assoreamento são: a perda de capacidade de armazenamento, e assim de contribuir para o abastecimento da RMBH; a perda dos valores cênicos; a perda de profundidade, limitando seu uso para certos esportes ou para embarcações de turismo; a eutrofização difícil de remover por causa dos resíduos orgânicos inclusos nos sedimentos depositados rapidamente; o bloqueio de braços menos ativos pelos sedimentos trazidos ao longo dos mais ativos; a criação de verdadeiras armadilhas para banhistas desavisados. Na Calha Aluvial imediatamente a montante o soterramento de áreas alagadiças e brejos; transferência, ou mais propriamente surgimento de áreas desse tipo mais a montante; propagação para montante de áreas inundáveis; soterramento de vias e pisos de habitações lindeiras; comprometimento das condições de escoamento pluvial e de esgotos domésticos; ascensão do nível d’água e criação de condições de insalubridade em áreas atualmente salubres. Por consequência de todos os danos anteriormente previstos, demandas crescentes por intervenções corretivas, e portanto não geradoras de riqueza, competindo com demandas por investimentos geradores de riqueza.

I.1.2 - Unidades Geográficas


Com o objetivo de compatibilizar as unidades de terreno e os processos geodinâmicos observados às unidades de análise adotados para os demais temas do PDA Vargem das Flores, apresentam-se as seguintes observações por sub-bacia.

Sub-bacia de Contribuição Direta ao Reservatório


A sub-bacia de Contribuição Direta é em verdade um conjunto de microbacias que vertem diretamente para o reservatório. O único curso d’água permanente de vazão não insignificante é o córrego Olaria do Chiqueiro. Exceto pelo próprio reservatório, que, em sentido lato, pode ser considerado parte integrante da calha aluvial, integram essencialmente essa sub-bacia terrenos da Superfície de Topo e da Superfície de Transição. À primeira pertecem porções de maciços elevados da margem sudeste, e algumas penínsulas de relevo colinoso a oeste, norte e nordeste. Essas projeções peninsulares em muitos pontos alcançam o reservatório sem passagem pela Superfície de Transição. A esta pertencem os vales curtos e de declividade acentuada, a sudeste e sudoeste.
O recortado do contorno favorece a implantação de modalidades diferenciadas de ocupação e uso do solo nas áreas peninsulares e o isolamento de áreas florestais dotadas de costões que mergulham diretamente no reservatório. Especialmente a sudeste, área de exposição rochosa e de relevo particularmente movimentado e rugoso, projetos de ocupação e uso do solo devem ser altamente seletivos. Nas costas mais baixas das áreas restantes, que são do ponto de vista físico francamente receptivas a formas adensadas de ocupação, caso esta venha a ser ordenada, critérios rigorosos devem ser observados de forma a prevenir e a conter os processos erosivos e a evitar a poluição do reservatório através de fossas e lançamento direto de esgoto.

Sub-Bacia do Córrego Batatal


É uma pequena sub-bacia, grosseiramente elíptica, de pequena excentricidade, que tem início no extremo sudoeste em terras de relevo íngreme e de exposições rochosas, que se fecham em ferradura em torno de pequena calha aluvial, sobre a qual convergem em leque os vales tributários. A área inclui-se tipicamente na Superfície de Transição, emoldurada em estreita faixa da Superfície de Topo e envolvendo estreita faixa da Calha Aluvial.
Na porção norte (margem esquerda) foi implantado um loteamento com ruas dispostas em malha retangular, indiferentemente ao relevo e às características do terreno, prevendo-se a rápida remoção de expressiva cobertura vegetal. O fundo do vale certamente contém materiais pouco resistentes em terreno mal drenado, podendo isto resultar em complexos problemas de fundação e de prevenção da ascensão capilar em habitações construídas ao rés do chão, sem preparação adequada. Além do já exposto, é previsível a ocorrência de escorregamentos. O golfo por onde desemboca o córrego corre o risco de assoreamento rápido não obstante a pequena extensão da bacia.

Sub-Bacia do Córrego da Laje


Área morfologicamente semelhante à anterior, todavia mais ramificada e com porção significativa em terrenos da Superfície de Topo, embora ainda predomine a Superfície de Transição. Maior diferenciação de elementos associados às três superfícies representativas das Unidades de Terrenos proporcionam espaço mais fecundo de implantação de modalidades de ocupação e uso indicados para a área anteriormente descrita.

Sub-Bacia do Córrego Água Suja


É uma bacia desenvolvida no sentido norte-sul simetricamente disposta ao longo do curso d’água que lhe empresta o nome. Deste, os tributários mais expressivos, ambos pela margem direita, são o córrego do Retiro, que drena a mancha urbanizada de Nova Contagem, e o do Cedro. De todas as sub-bacias, é esta a que apresenta proporcionalmente as feições mais expressivas de erosão do tipo voçoroca, de várias gerações.
Já muito impactada por urbanizações em Nova Contagem e Icaivera, merecedoras de importantes objeções no plano concepcional e principalmente executivo, a área deve ser tratada com absoluto rigor em termos de revisão dos planos urbanísticos desses núcleos, e de emprego de tecnologias de implantação.
Estando presentes inúmeras feições de erosão do tipo voçoroca, a Superfície de Topo encontra-se acentuadamente retalhada pela Superfície de Transição. Quanto à Calha Aluvial, apresenta extensões expressivas a sul de Icaivera e penetra também às vezes profundamente os eixos dos tributários.

Sub-Bacia do Córrego Morro Redondo


De todas, embora se notem sinais evidentes de desruralização, é a área menos exposta a curto prazo ao impacto de urbanização e a que tem, comparativamente, maiores extensões expressivas e contínuas da Calha Aluvial ao longo do córrego Morro Redondo e de alguns tributários. Na Superfície de Topo alguns maciços isolados pontificam, compartimentando acentuadamente a hidrografia.
Dada a proximidade em relação à BR-040, e à CEASA, possivelmente a atividade agropecuária especializada poderá ser incrementada por algum tempo na substituição à tradicional, mas atenta ao pulsar do mercado imobiliário na expectativa de negócios melhores com os condomínios de chácaras e com a urbanização convencional.

Sub-Bacia do Ribeirão Betim


É de todas a mais extensa e mais complexa, por suportar extensões dinâmicas da mancha urbanizada de Contagem, quer em prolongamentos contínuos, quer em assentamentos isolados. Quanto às Unidades de Terrenos, observa-se um certo equilíbrio entre as áreas integrantes da Superfície de Topo e as da Superfície de Transição. A Calha Aluvial é inexpressiva nas cabeceiras e já praticamente escondida, ou estrangulada na parte mais urbanizada, só adquirindo expressão significativa a partir da confluência dos córregos da Praia e das Abóboras.

Sub-Bacia do Córrego Bela Vista


Em relação aos núcleos urbanos a sul e a leste, experimenta mais tardiamente o processo de urbanização, todavia de forma preocupantemente dinâmica e destituída de critérios sadios. Em extensões significativas praticamente só ocorrem áreas integrantes da Superfície de Topo e da Superfície de Transição. Maciços vegetais remanescentes estão localizados muito estrategicamente em relação às áreas mais urbanizadas a leste e a sul.
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