I as partes constituintes



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I AS PARTES CONSTITUINTES


  1. Os momentos constituintes da epopeia de Camões são a Proposição, a Invocação, a Dedicatória e a Narração.




  1. A Proposição d’Os Lusíadas desempenha a função de enunciar aquilo que o poeta se propõe fazer nesta obra. É uma parte introdutória, constituída por três estrofes, em que são sumariamente apresentados os heróis, os feitos em que se notabilizaram e o propósito do poeta de enaltecer e divulgar esses feitos.


3.

3.1 A súplica é dirigida às ninfas do Tejo (Tágides).

3.2 Essa parte da epopeia é a Invocação.

3.3 O poeta invoca um estilo grandioso, sublime, ou seja, um estilo épico que esteja de acordo com os feitos que se propõe cantar.


  1. Na Dedicatória, Camões revela o objectivo, de carácter pessoal, de que o rei D. Sebastião leia a sua obra. Simultaneamente, ao enunciar-lhe o que irá encontrar nesses versos, sugere a grandeza dos feitos pátrios e a sua intenção de que eles sejam divulgados, sejam como um “pregão”da pátria.


II OS PLANOS NARRATIVOS
1.1 A escolha da viagem de Vasco da Gama à Índia como acção fulcral da epopeia é apropriada ao momento histórico em que a obra se situa, porque se vivia então um período de euforia e orgulho nacional. Portugal era o centro das atenções de outros países europeus; muitos portugueses tinham a noção da grandeza do empreendimento e do enorme contributo que os Descobrimentos em geral e a descoberta do caminho marítimo para a Índia, em particular, prestavam ao desenvolvimento da Humanidade. Desenvolvimento a nível económico, mas também científico e cultural.
1.2 No plano narrativo da Viagem, as personagens intervenientes são os navegadores portugueses, de entre os quais se destaca o nome de Vasco da Gama que comandava a armada. Aparece ainda, neste plano narrativo, o Gigante Adamastor, uma personagem criada por Camões com base em elementos mitológicos e que tem, neste contexto, um valor simbólico.
1.3 O conflito narrativo no plano da Viagem trava-se, essencialmente, entre o Homem (os navegadores portugueses) e as forças da Natureza.
1.4 O que lhes confere, ao longo da narração, o estatuto de herói épico é a coragem com que enfrentam os perigos. O episódio do Gigante Adamastor é, nesse aspecto, o mais significativo.

O Gigante é a representação do maior de todos os obstáculos – o medo do desconhecido. E esse desconhecido apresenta-se aterrador, os homens têm medo, mas ao enfrentar o desconhecido e o medo, superam o obstáculo.


2.

2.1 A intervenção da mitologia pagã acompanha a acção fulcral de Os Lusíadas. A iniciar a Narração, quando a armada portuguesa já se encontrava na costa moçambicana, os deuses reúnem-se em Consílio e, por decisão de Júpiter, fica assente que irão ajudar os navegantes a chegar à Índia. Mas o deus Baco opõe-se a esta determinação e tudo fará para impedir que essa chegada se concretize. Por outro lado, Vénus assume-se como protectora dos portugueses e contraria os intentos de Baco. Assim o conflito, neste plano narrativo, desenrola-se entre Baco e Vénus. É um conflito que acompanha passo a passo a Viagem.

Muitas das dificuldades encontradas pelos portugueses apresentam-se na obra como armadilhas de Baco, que só não consegue destruir a armada graças às oportunas intervenções de Vénus.




  1. A História de Portugal aparece encaixada na acção fulcral, por isso não quebra a sua unidade. Grande parte deste plano histórico narra-se em Melinde, onde Vasco da Gama, a pedido do Rei, conta a história do povo português. Dos outros momentos em que surge encaixado o plano da História de Portugal são de salientar as profecias feitas por personagens sobrenaturais. Só eles poderiam contar factos que se desenrolaram depois da viagem de Vasco da Gama à Índia.


3.1. Alguns heróis da História de Portugal apresentados n’Os Lusíadas: Inês de Castro, Nuno Álvares Pereira e D. João I.
3.2. A grandeza épica ou o heroísmo de Inês de Castro advém da dignidade com que enfrenta os que a vêm matar. Defende a vida procurando, com as suas palavras, despertar no Rei a clemência e o sentido de justiça, mas fá-lo sem nunca se humilhar ou renegar o amor que a condena.

A grandeza épica de Nuno Álvares Pereira e D. João I revela-se na força física e psicológica que demonstraram na batalha de Aljubarrota ao lutarem contra um exército muito mais poderoso. Foi a força de ambos que garantiu, com a vitória, a independência de Portugal.


3.3 Revela-se sobretudo no episódio de Inês de Castro, mas também no das Despedidas em Belém, no do Gigante Adamastor e até no da Tempestade.

No episódio de Inês de Castro o poeta expressa os seus próprios sentimentos em relação quer a Inês, quer ao Rei ou aos carrascos. Dá a visão pessoal das causas do assassinato de Inês, conferindo ao Amor a responsabilidade maior da sua morte.

No episódio das Despedidas em Bélem, Vasco da Gama, narrador participante, revela a sua emoção ao recordar o momento da partida de Lisboa e toda a sua narrativa se centra nos sentimentos vividos pelos que partiam e pelos que ficavam.

No episódio do Adamastor, a figura do Gigante humaniza-se pela emoção com que conta a sua história de amor. Transforma-se de Gigante aterrador num sentimental, vítima de um amor que o destruiu.

No episódio da Tempestade é o Amor, representado por Vénus e pelas belas ninfas, quem consegue domar a fúria incontrolável dos ventos. O sentimento amoroso triunfa sobre o cumprimento da missão de que estavam incumbidos.

5.

5.1 A Narração d’Os Lusíadas começa quando a acção fulcral já se encontra numa fase adiantada porque essa opção faz parte das regras da epopeia clássica.
5.2 A acção fulcral abarca o espaço de tempo que os navegadores levaram a chegar de Moçambique à Índia, com paragem de alguns dias em Melinde, o da permanência na Índia e o da viagem de regresso a Lisboa, da qual pouco sabemos, para além duma paragem simbólica numa ilha imaginária – a Ilha dos Amores.
5.3 Para contar factos que são anteriores à viagem utiliza-se a narração retrospectiva. Um dos participantes da viagem assume o papel de narrador e apresenta feitos do passado. Os factos posteriores à viagem são narrados como profecias, por seres sobrenaturais
5.4.

• Narram factos ocorridos antes da chegada de Vasco da Gama a Melinde os episódios do Consílio dos Deuses, de Inês de Castro, da Batalha de Aljubarrota, das Despedidas em Belém e do Gigante Adamastor.


• Apresentam factos que irão decorrer depois de concluída a viagem de Vasco da Gama o episódio do Consílio dos Deuses e o do GiganteAdamastor. No primeiro Júpiter anuncia que os portugueses terão durante muito tempo o domínio dos mares do Oriente, pois isso está prometido pelo Fado eterno e portanto, inevitavelmente, um dia acontecerá; no segundo, o Gigante apresenta relatos de naufrágios futuros.
III ESTRUTURA INTERNA / ESTRUTURA
EXTERNA

  1. Por dez cantos.


2.

2.1 Nos Cantos I e II, os navegadores encontram--se no elemento “água”. Nos Cantos III e IV, no elemento “terra”. No Canto V, embora esteja em Melinde, faz-se a narração retrospectiva da viagem desde Lisboa à costa oriental de África, portanto a acção narrada desenrola-se no elemento “água”, bem como a do Canto VI. Nos Cantos VII e VIII, os navegadores encontram-se no elemento “terra” e nos Cantos IX e X encontram-se no elemento “água” pois estão de regresso a Portugal e simultaneamente no elemento “terra” porque estão supostamente parados numa ilha imaginária de significado simbólico.
2.2. A alternância “água” / “terra” é feita de dois em dois Cantos até que, nos últimos há como que uma fusão dos dois elementos.
3.

    1. Situam-se nos Cantos V e VI, respectivamente.




    1. Há quatro Cantos anteriores e outros quatro posteriores.


3.3 Sugere que a estrutura foi pensada ao pormenor. Pretendeu-se dar um equilíbrio na alternância mar/terra e pôr nos Cantos centrais da obra os pontos altos da vitória do Homem.
IV CONTEXTO HISTÓRICO / LITERÁRIO


  1. As motivações históricas prendem-se com o desejo de imortalizar a conquista dos mares levada a cabo por um pequeno país, de poucos recursos, ou seja, dar aos Descobrimentos portugueses a dimensão de um feito épico. As motivações literárias enquadram-se no espírito renascentista de fazer renascer os modelos artísticos da Antiguidade greco-latina, nomeadamente a epopeia, considerada a expressão mais alta da poesia.


2. Os Lusíadas, tal como as epopeias clássicas que lhe serviram de modelo, nomeadamente a Eneida, estão divididos em Cantos e iniciam-se pela Proposição, seguida de uma Invocação. Os Lusíadas apresentam ainda a Dedicatória, antes do início da Narração, o que não acontece nas epopeias antigas. A Narração começa quando a acção já está numa fase avançada e os acontecimentos iniciais são narrados em retrospectiva. Os protagonistas são de alta condição social e grande valor moral. À semelhança, também, do que acontece nas epopeias clássicas os deuses da mitologia greco-latina intervêm na acção levada acabo pelos homens.
2.1 Esta identidade é propositada. Está de acordo com os princípios artísticos do Renascimento de que a obra literária deve seguir os modelos da Antiguidade Clássica e as normas por que se regiam Adamastor, vencendo o medo, Vasco da Gama enfrenta o desconhecido, como que o obriga a dar-se a conhecer. Em ambas as situações a vontade férrea de seguir em frente, de alcançar o objectivo a que se propôs dá-lhe a força necessária para triunfar.


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