I encontro para historiadores 2004



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I ENCONTRO PARA HISTORIADORES 2004



PROTESTANTISMO NO BRASIL APONTAMENTOS

SOBRE SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A CULTURA BRASILEIRA

Antonio Gouvêa Mendonça

Universidade Presbiteriana Mackenzie

agmendonca@netsite.com .br

Estamos num encontro de historiadores cujo tema central é o protestantismo no Brasil. Protestantismo no Brasil é um tema genérico e recorrente nos trabalhos acadêmicos que vêm, já com demasiada insistência, se tornando repeticiosos ao permanecer nas instâncias cronológicas da história sem que as idéias propriamente ditas sejam confrontadas com a cultura brasileira. O que quero dizer é que não tem sido tentado o cotejo entre cultura protestante e cultura brasileira. Na oportunidade deste breve trabalho pretendo levantar, de maneira perfunctória, as instâncias da cultura brasileira em que a cultura protestante se faz presente, embora sempre paralela e sem o justo destaque.

Mas, escrevo estas linhas sob o impacto da notícia que recebi , infelizmente de maneira indireta, pois que me veio dos Estados Unidos através de meu colega e amigo Rev. Olson Pemberton, do falecimento de Duncan A. Reily, dia 18 último. Foi-se com ele a figura de um extraordinário historiador do protestantismo no Brasil. Especialista em história eclesiástica, principalmente do metodismo, notabilzou-se entretanto pela sua já clássica obra História Documental do Protestantismo no Brasil, cuja terceira edição está circulando. Ninguém que estude religião no Brasil, especialmente o protestantismo, pode fazê-lo sem passar pela História Documental de Reily.

A primeira edição desse livro, que já nasceu clássico como diz José Carlos de Souza na quarta capa da terceira edição, foi em 1984. Lembro-me ainda que, numa das salas da UMESP, um grupo de pessoas fazia, em mutirão e meio às pressas, o índice de assuntos que a editora pedia. Eu fazia parte do grupo, o que me proporcionou a oportunidade de um primeiro contato com o livro. Vi, com os demais colegas, o que aquele volume representava para a historiografia do protestantismo.

Reily, como ele mesmo disse mais de uma vez, gastou dez anos de sua vida coletando os documentos que compõem o livro. Quase todo o material, coletado penosa e pacientemente, se perdeu numa de suas viagens aos Estados Unidos quando sua bagagem extraviou. Três meses depois é que a companhia aérea encontrou e devolveu a bagagem, e com ela o material dado por perdido.

Trabalhei com Reily durante muitos anos no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Creio que por cerca de dez anos, quando ele se aposentou e mudou-se para Campinas. Fui convidando por Prócoro Velasques Filho para trabalhar naquele Programa dando o curso de Religião no Brasil que era oferecido por Reily. Corria o ano de 1982. Reily preferia ficar no seu campo próprio dando o curso sobre a Igreja no Segundo Século. Foram anos de profícuo convívio com um homem extraordinário, tanto pessoal como intelectualmente. Fica aqui minha homenagem a Duncan Alexander Reily.

Voltemos agora à questão do protestantismo na historiografia brasileira. Quais as razões que levam os historiadores no Brasil a dar tão pouca ou nenhuma importância ao protestantismo no Brasil quando ele já participa de nossa história há quase dois séculos? Como ignorar um grupo religioso que já aparece no censo com mais de 15% da população, que conta com quatro respeitáveis universidades além de numerosas escolas superiores isoladas e muitos colégios, que se inscreve na história do esporte e na vida intelectual do país?

Entre muitas outras, aponto algumas razões para essa omissão. A primeira delas, talvez a mais importante, seria a posição do protestantismo no que se chama de campo religioso brasileiro. Aqui, o protestantismo é sempre considerado como um simples desafio, entre muitos outros, à Igreja Católica. É um grupo religioso de oposição à absoluta hegemonia católica que às vezes incomoda, outras não. O protestantismo no Brasil não tem identidade própria, se identifica dialeticamente face à religião hegemônica, e só assim é entendido. No começo do século XX o protestantismo foi simplesmente incluído entre as religiões não-católicas (Rodrigues, 1904), mais precisamente, mais precisamente, uma religião acatólica..

Nos meus longos anos de vida ecumênica militei, entre outras instituições, na CEHILA (Comissão de História da Igreja na América Latina). Demorou um pouco para que eu percebesse que igreja aqui não era a Igreja Cristã, mas a Igreja Católica. O protestantismo em geral aparecia como desafio a exemplo da majestosa obra organizada por Enrique Dussel 500 Anos de História da Igreja na América Latina (História Liberationis). Nesta obra de mais de setecentas páginas o protestantismo aparece na Terceira Parte intitulada “Desafios Particulares” em menos de cinqüenta páginas. Isso em complemento a outros desafios como as reduções, a escravidão moderna, Comunidades Eclesiais de Base, revoluções na América Central e questões de direitos humanos. O mesmo acontece com outra monumental Historia General de la Iglesia em América Latina 1/1, escrita por Enrique Dussel sob os auspícios da CEHILA. Em 722 páginas são dedicadas 13 ao protestantismo, cujas diversidades são tratadas como seitas. Assim, a CEHILA, instituição ecumênica que vivia, ou vive ainda, de boa parte de contribuições protestantes, tratava, ou trata ainda, o cristianismo reformado como sectário.

Nos anos 80 do século passado circulava com insistência o desejo de se criar no Brasil um curso de mestrado em História da Igreja. Entre as instituições que apresentavam condições de criar esse curso estava naturalmente a CEHILA. Seria, assim, um curso ecumênico sustentado com recursos ecumênicos. Como membro da CEHILA Protestante eu vinha acompanhando o desenrolar do Projeto. Um dia, sem mais aquela, aparece em minha sala na UMESP um folheto anunciando o início do curso numa conhecida instituição católica de São Paulo. Até aqui, nada de mais. O local do curso seria aquele mais conveniente, independente da instituição que o abrigasse, católica ou protestante. O problema para mim foi aquele já mencionado. O programa do curso que constava do folheto, extremamente minucioso, trazia o protestantismo num de seus numerosos subitens e, mais uma vez, como desafio à Igreja. Afastei-me então da CEHILA.

Na historiografia brasileira acontece o mesmo. O protestantismo aparece quando se trata da Igreja no Brasil. O autor que dedica mais atenção e respeito ao protestantismo é Fernando de Azevedo em sua notável obra A Cultura Brasileira, no capítulo em que trata das instituições e crenças religiosas, assim como quando trata da educação. Aqui dedica algumas páginas à contribuição dos protestantes, tanto na educação secundária como na superior.

Mas, não tem havido no protestantismo brasileiro bons historiadores? Não se pode negar que houve e continua havendo. Todas as denominações têm publicado suas histórias, no todo ou de modo parcelado, e na pena de bons escritores. Contudo, essas publicações têm padecido de três tipos de obstáculo que as vêm impedindo de penetrar no círculo dos historiadores profissionais: primeiro, trazem, quase todas, as marcas do denominacionalismo triunfalista, assim como uma linguagem hermética de grupo porque são escritas para consumo interno; segundo, porque não dialogam com a cultura brasileira; terceiro, porque são publicadas por editoras domésticas e, por isso, não alcançam as áreas acadêmicas. Quando alcançam estas áreas, o fazem de maneira indireta ao servirem de material secundário para dissertações e teses que, no geral, são condenadas ao ostracismo das prateleiras daquilo que alguém chamou de “saber inútil”.

Neste ponto, nos caberia perguntar: e a obra de Leonard, não constituiria ela uma brilhante exceção? Eu responderia que é e não é. Falemos primeira da mais conhecida entre nós: O Protestantismo Brasileiro, já na sua terceira edição, o que indica o seu consumo continuado desde sua primeira edição há quarenta anos atrás. Os originais, traduzidos pelo Prof. Linneu de Camargo Schützer, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, foi publicado em oito números da Revista de História. Aqui estava em plena academia, entre historiadores. Mas, em forma de livro, em 1963, fechou-se no círculo eclesiástico.

Julgo este livro o primeiro a ser escrito “para fora”, isto é, para o mundo extra-eclésia, mas acho que ainda não atingiu a plenitude do diálogo com a sociedade brasileira apesar de sua promessa de ser “um estudo de eclesiologia e história social”. Isso é compreensível porque a permanência de Léonard no Brasil foi de apenas três anos, tempo insuficiente para que ele empreendesse a tarefa de conhecer a história do Brasil. Um desafio para nós seria um trabalho complementar de “contraponto” ao livro de Léonard fazendo dele uma leitura paralela realmente social e cultural do protestantismo no Brasil. Deixo aqui outro desafio: traduzir e publicar num só volume dois outros trabalhos desse autor e que também se referem ao Brasil, embora focalizem de modo especial os presbiterianos. São importantes seus dois pequenos trabalhos publicados na França: L’Église Presbytérienne du Brésil et ses Expériences Ecclésiastiques (1949) e, principalmente, L’Ulluminisme dans um protestantisme de constitution récente (Brésil), 1953. O primeiro foi publicado, se não me engano ( o exemplar que tenho está muito avariado) num fascículo da Revue d’Études Évangeliques, publicada em Marselha, e o segundo por uma editora de circulação mundial, a Presses Univesitaires de France. Este foi traduzido por Prócoro e Loide Velasques, mas sua circulação foi pequena.

Por fim, falando ainda de Léonard, seria demais propor a publicação em português de sua monumental Histoire Générale du Protestantisme ? Esta obra, em três grandes volumes, é imprescindível ao estudo do protestantismo. O terceiro volume, com o subtítulo Déclin et Renouveau, publicado em 1964, após a morte de Leonard, traz algumas páginas dedicadas ao Brasil. O primeiro volume dedica-se à Reforma (La Réformation) e o segundo ao estabelecimento, ou institucionalização (L’Établissement) do protestantismo. Dado o volume desta obra, sua tradução deveria envolver, num projeto comum, ao menos as três universidades confessionais situadas no Estado de São Paulo através de seus núcleos de estudos do protestantismo e suas respectivas editoras. A publicação deveria atrair alguma editora comercial tendo em vista sua distribuição mais ampla.

Pondo ponto final nesta parte dedicada à necessidade de por o protestantismo em evidência na história do Brasil, não posso deixar de mencionar a recente publicação do livro de Alderi S. Matos Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil (1859-1900) .Embora, como diz o título, se dedique aos presbiterianos, constitui-se desde já em referência necessária ao estudo do protestantismo no Brasil.


O espírito e a índole do protestantismo
Se a historiografia brasileira relega o protestantismo a segundo plano, ou mesmo o ignora, a literatura mundial é plena de clássicos trabalhos sobre o protestantismo e sua grande e decisiva influência na construção do chamado mundo moderno. De fato, a Reforma do século XVI rompeu definitivamente com toda a estrutura do mundo medieval e liberou o homem para pensar e fazer. Os grandes princípios do livre exame, da salvação pela fé, do sacerdócio universal, do direito de rebelião, da democracia na igreja local e da legitimidade dos juros e do lucro foram para sempre consagrados como conquistas dos tempos modernos.

A ética protestante do manejo racional do dinheiro e o desempenho no trabalho perpassa a história moderna, seja de maneira positiva ou negativa. Autores importantes têm responsabilizado o protestantismo pelos males do capitalismo, assim como outros reconhecem sua decisiva contribuição para a liberdade e a livre iniciativa, coisas que, apesar de tudo, trouxeram o homem para um posto de dignidade no mundo em contraposição à inexorabilidade do destino social a que estava relegado no mundo antigo. Neste ponto, tenho a impressão de que o nosso protestantismo no Brasil não se inteirou do que representam os princípios que a Reforma nos legou a partir do século XIX, embora alguns deles, mesmo de maneira inconsciente, tenham exercido alguma influência na modernização do Brasil.

Creio que o único trabalho publicado no Brasil que nos chama a atenção para a índole e o espírito protestante de pensar e fazer é o de Richard Graham Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil (1973). Graham, norte-americano, é considerado um dos brasilianistas que mais conhecem o Brasil. Entre outras coisas, o que mais nos chama a atenção no livro é a bipolaridade da ação inglesa no processo de modernização do Brasil: o auxílio material representado pelos financiamentos e envio de máquinas e respectivo know-how assim como, e particularmente, o princípio protestante da salvação individual. À sólida estrutura social vigente, trazida e garantida pelo catolicismo, os ingleses opuseram a “idéia do indivíduo liberto dos grilhões imutáveis das tradições da antiga sociedade” (Graham, 1973; 287). Graham ilustra o que diz citando outro autor, o inglês naturalizado americano, Thomas Ewbank, que escreveu o belo livro A Vida no Brasil (1973): “as relações civis e sociais deveriam romper-se logo”. A observação de Ewbank era de 1856, época em que viveu com sua família no Rio de Janeiro.

O que Ewbank diz só pode ser entendido no contexto da descrição que ele faz do Rio de Janeiro na época em que comerciantes e técnicos ingleses já estavam instalados no Brasil com seus negócios e trabalhos, especialmente na construção de ferrovias.. A moral, a ética e os costumes destes ingleses discrepavam de modo absoluto das práticas que ele via entre os brasileiros. Eram dois mundos opostos. A superação do mundo brasileiro pelo mundo protestante britânico equivaleria a uma verdadeira revolução. Foi o que não aconteceu, ao menos no que se refere “ao espírito do capitalismo”. Contudo, diz Graham, alguns traços da pregação protestante que se infiltraram na sociedade brasileira foram decisivos para o início da modernização. Para ele, o traço mais importante foi a noção do valor e da liberdade do indivíduo.

Outro traço oriundo do protestantismo foi o movimento de secularização da sociedade que, como ele diz , “é essencial ao processo de modernização”. Neste ponto, não podemos deixar de reconhecer que outros sistemas de idéias, como o positivismo, também contribuíram para esse movimento. A idéia de um estado secular já vinha sendo cultivada e a proclamação da República foi seu resultado, para o qual o protestantismo não deixou de contribuir.
Certamente que os missionários norte-americanos que circulavam pelo país no período que antecedeu o advento da República, não deixavam de suspirar pela queda da monarquia e sua substituição por uma república democrática. Temos um belo exemplo numa carta de Martha Watts enviada a alguém nos Estados Unidos em abril de 1890: “O Brasil está indo para frente...eu não escrevi sobre a República, mas digo que a vida tem tido um sentido maior no Brasil desde 15 de novembro de 1889. “ ...todos os homens são livres para louvar a Deus de acordo com o que dita suas próprias consciências neste Brasil beato e dirigido por padres” (Mesquita, 2001; 90).

Fatores que entravaram a contribuição protestante

Richard Graham estende a influência inglesa até 1914, quando é substituída pela norte-americana em todos os sentidos, tanto econômica como ideológica . Daqui por diante a influência do monroismo e de outras ideologias, principalmente a Doutrina Truman, o Plano Marshall e, por último, o Armagedom apocalíptico de Reagan no auge da Guerra Fria exerceram forte predomínio no pensamento protestante brasileiro e na vida das igrejas. A crescente influência vinda do Norte paralisou, no momento em que nascia, o pensamento autóctone do protestantismo no Brasil.

Vou tentar, embora de maneira sucinta, por em sucessão os fatores que direta ou indiretamente entravaram as possíveis contribuições que o protestantismo poderia oferecer à cultura e à sociedade brasileiras.

O protestantismo chega ao Brasil e se defronta com uma cultura construída sob a égide do catolicismo desde o início da colonização. É fato que a Igreja Católica não passava por bons momentos, em especial no Segundo Império. O regime regalista e a ausência dos jesuítas, expulsos no período pombalino, aliados ao “bando de idéias novas” procedentes da Europa, expressão consagrada de João Cruz Costa, particularmente o “spencerismo” e o positivismo comtiano, contribuíram para o desconforto da Igreja. Mas, mesmo assim, a cultura católica, sob a qual toda o cotidiano se organizava e funcionava, não oferecia lugar para o “modo de ser protestante”. Os padrões de dupla moral, o panteão santorial com seus numerosos feriados e festas, os cerimoniais pomposos e procissões, nada se coadunava com a moral vitoriana do protestantismo aliada ao empenho e à racionalidade da vida. Nesse choque cultural o protestantismo não levou a melhor.

Mais tarde, já na vigência da República, a Igreja Católica romanizou-se e, com o apoio de Roma, retomou alguns espaços, embora outros tenham permanecido fora do seu alcance, como o constante confronto com a diversidade religiosa e a secularização da sociedade. Alguns estudiosos entendem que a separação entre religião e Estado, como um dos resultados da República, constitui uma falácia histórica porque a Igreja jamais deixou de participar, ou ao menos influir, na direção do Estado. De fato, a conduta de governantes e políticos em geral, com a exceção de alguns que fazem questão de ostentar presença em reuniões pentecostais massivas, pendem sempre para a Igreja Católica, como o presidente anterior, claramente conhecido por sua posição de extrema esquerda, não deixou de fazer suas visitas ao Vaticano. Isso pode ser entendido de duas maneiras: ou por conta da cultura religiosa fortemente embutida na mentalidade brasileira, ou a ostentação de uma falsa religiosidade. Mas, o fato é que o protestantismo não conseguiu inserir-se na cultura brasileira, especialmente na política. Neste ponto, porém, não se pode deixar de abrir exceção para os luteranos, cuja história é diferente. Talvez sua demora em se inserir na cultura tenha decorrido mais do choque de etnias do que de fatores propriamente religiosos. Seria necessário um estudo à parte.
Agora, alguns fatores internos do próprio protestantismo recebido das missões. São fatores de caráter teológico que, encontrando condições sociais propícias por parte dos brasileiros, foram aceitos sem dificuldade. O primeiro desses fatores foi a doutrina da “igreja espiritual”, trazida pelos missionários e mantida aqui por convicção ou talvez por conveniência. Essa doutrina fora desenvolvida nos Estados Unidos, principalmente por J. H. Thornwell e se destinava a justificar a escravidão. Partia do princípio de que cabiam à Igreja exclusivamente os assuntos espirituais, como a conversão e a conduta moral. A César, isto é, ao Estado, competiam as questões de ordem política e a jurisprudência (Reily, 2003; 42). Essa doutrina, de grande influência no Brasil, sempre serviu para justificar a ausência dos protestantes na política, o que significa certa indiferença, ou mesmo repúdio, às coisas do mundo. Indiferença diante da realidade social.

Certa vez, visitando meus familiares no interior de São Paulo, ouvi de um presbítero da Igreja Presbiteriana Independente local a insólita declaração de que era sebastianista. Eu estava ainda no curso secundário e mal sabia do que se tratava e não mais tive oportunidade de me encontrar com ele para pedir que me esclarecesse tal coisa. Não se tratava de pessoa letrada, era um trabalhador rural que também tocava uma olaria primitiva de propriedade de seu patrão. Mas não deixava de ter suas luzes, pois que liderava sua congregação e sempre a representava com certo destaque nas reuniões conciliares em São Paulo. Ouvi a mesma coisa de outras pessoas nessa época de minha vida, na zona rural onde vivia meu pai. A explicação só podia ser esta: havia entre os sertanejos, independente de suas crenças religiosas, uma visível mentalidade messiânica que se exprimia pelo vocábulo sebastianismo que possivelmente incluía, além da lenda sebastianista vinda com os portugueses e tão propagada pelo Pe. Antonio Vieira, o mito da terra sem males dos tupi-guarani. Isto talvez ajude a entender porque as primeiras congregações protestantes, em especial as presbiterianas, assumiram desde logo visível feição messiânica.

Neste ponto, a mensagem religiosa, principalmente a veiculada pela maioria dos hinos que começaram a circular nas igrejas na passagem do século XIX para o XX, cânticos que chamei em trabalho anterior de messiânicos e de peregrinação, encontra solo propício na camada social que compunha as congregações, cuja mentalidade abrigava o messianismo sebastianista.

Em meados do século XIX debatiam-se nos Estados Unidos duas correntes teológicas antagônicas: o pós-milenismo e o pré-milenismo.

O pós-milenismo tinha como pano de fundo o mito do progresso social pregado pelo “spencerismo” e teologicamente encampado pelo teólogo presbiteriano William E. Boardman influenciado pelo metodismo. Boardman, em 1859, iniciou um movimento que apontava para a possibilidade de uma vida de perfeita santidade, o que significava uma melhoria progressiva e constante da sociedade através dos indivíduos aperfeiçoados. Esse progresso, portanto, viria pela ação normal da igreja que prepararia a segunda vinda de Cristo. O grande pregador do pós-milenismo foi Jonathan Edwards no século XVIII que, assim, incentivou sobremaneira a empresa missionária norte-americana a partir do século seguinte. O reino de Deus, já a caminho, devia ser compartilhado com outros povos.

Se a concepção pós-milenista descartava o sobrenatural, o pré-milenismo era radicalmente sobrenaturalista porque se baseava na incapacidade total do homem para se aperfeiçoar. Assim, o milênio só seria possível com a volta de Cristo para implantá-lo. Essa concepção ganhou grande força a partir dos anos 70 do século XIX. O resultado foi o progressivo distanciamento entre a igreja e o mundo, incompatibilizando-a com projetos de melhoria social. A igreja, voltada para si mesma, concentrou-se na evangelização e nas missões estrangeiras. A função da igreja seria a de simplesmente ”tirar tições da fogueira” (plucking brands from the burning). A expressão é de H. Shelton Smith (1963; vol III, p. 314) que repete Zacarias 3, 2b: “...não é este um tição tirado do fogo?” O pré-milenismo chocou-se de frente com o Evangelho Social, assim como contra qualquer forma de compromisso com mudanças estruturais da sociedade.

O pós-milenismo foi inteiramente superado no Brasil pelo pré-milenismo, tanto pela mentalidade messiânica da camada social que recebeu a mensagem missionária, como pela virada teológica de líderes como Eduardo Carlos Pereira e Alfredo Borges Teixeira, ambos presbiterianos. Sobre o primeiro, ouvi de antigos membros da igreja que ele pastoreava, que todos os sermões dos últimos anos de sua vida passavam pelo tema do milênio iminente citando com insistência o autor então em voga: F. Godet (1886/88).

Quanto ao segundo, professor de teologia por várias décadas na Faculdade de Teologia Presbiteriana Independente, em São Paulo, não há dúvidas a respeito de sua conversão ao pré-milenismo. Testemunha-o ele mesmo em seu livro Maranata, publicado em 1921 e reeditado em 1971 pela Missão Brasileira Messiânica que se auto-identifica na primeira página do livro como “entidade nacional, exclusivamente religiosa, interdenominacional, pré-milenista e fundamentalista”. Isto nos faz supor que o pré-milenismo ainda permanece na mentalidade do protestantismo nacional com as conseqüências já apontadas.

O historiador e sociólogo do protestantismo, Jean-Pierre Bastian, autor de vários trabalhos importantes sobre a América Latina, classifica as primeiras congregações protestantes nesta parte do mundo como sociedades de idéias. Quanto ao Brasil, sempre discordei de Bastian, pois que as condições peculiares da sociedade brasileira não permitiram a politização das camadas mais baixas da população; ao contrário, a mensagem religiosa as “afastou do mundo”. Acredito que Bastian tenha razão quanto a outros países da América Latina, México por exemplo, em que o grau de participação política desenvolveu-se ainda no período colonial.

Penso que, pelo seu efeito paralisante, o pré-milenismo produziu sério entrave no desenvolvimento normal do protestantismo no Brasil. A indiferença pelo mundo produz efeito contrário ao próprio princípio protestante da ação no mundo para a glória de Deus. O pré-milenismo produz uma espécie de ascetismo comunitário infenso à racionalidade objetiva do protestantismo, não importando suas versões teológicas, sejam calvinistas ou arminianas. Sabemos que o puritanismo, do qual somos herdeiros, agia no sentido da ascese mundana, da ação no mundo como vocação divina. Nada mais contrário a esse espírito do que o pré-milenismo.

Nada mais perigoso do que as idéias, já disse alguém. Nossas idéias, e com elas as teológicas, estiveram sempre fora do lugar. Nosso pensar teologicamente o mundo tem sua matriz e motivação noutro lugar. Pensamos em descompasso com o nosso mundo e, por isso, ficamos isolados. Quando as condições sociais e políticas de nosso país exigiam que a força do pensamento protestante trouxesse alguma contribuição, ele continuou atrelado ao pré-milenismo, à ideologia da doutrina Truman, à dependência do Plano Marshal e ao terror apocalíptico do Armagedom da Guerra Fria.
A contribuição protestante apesar dos entraves
O protestantismo é a religião da Palavra, a palavra escrita e a palavra falada. Tanto a palavra falada como a escrita têm muito pouco de rito. Como a palavra muda, muda também o rito e a face do mito. As religiões rituais, pelo ritual, recuperam constantemente o mito pretendido na sua pureza original; as não rituais reinterpretam constantemente o mito, atualizam-no. Em outras palavras, fazem constantemente releitura do mito original. É o caso do protestantismo que, pela livre interpretação do texto sagrado, reconstrói o mito fundante do sistema de crenças.
Estou falando de mito. É necessário que, entre os diversos sentidos deste termo, eu diga a qual deles me refiro. Sob o ponto de vista teológico, ou simplesmente religioso, quer incorpore fatos ou não, mito é um símbolo que transmite verdade profunda a respeito da existência humana e da realidade sobrenatural. O mito é o recuo à uma realidade última que só pode ser entendida por uma narrativa que não tem antecedente e, por isso, tem de ser conhecido e interpretado. Uma religião ritual narra e atualiza o mito, enquanto que a não ritual narra-o e interpreta-o.

O protestantismo, com seu princípio de livre exame, do acesso autônomo ao texto sagrado, deixou o crente frente a frente com as narrativas fundantes de sua fé. O protestante, ao ler a Escritura, fica diante de duas vias de interpretação que não são necessariamente excludentes: a via de sua liberdade de consciência e a via do senso comum da igreja. Não havendo nenhuma intermediação autoritativa sacerdotal, o crente protestante é livre. É certo que alguns teólogos chegaram ao extremo, nessa liberdade, de tentar excluir o próprio mito em nome da racionalidade.

O protestantismo, por seu princípio maior, que é exatamente o da liberdade, tem de conviver com os extremos, e o extremo da desmitologização transforma a religião, e sua teologia, em simples filosofia. Seria este o caso do protestantismo se tal tese vingasse. Entretanto, há que se reconhecer que o outro extremo, o de sublinhar fatos secundários em desfavor do ensino propriamente dito, afasta a fé da realidade e da ação no mundo, o que também não é próprio do protestantismo.

Ler e interpretar a Escritura. Isto tem, apesar de tão simples, duas implicações fundamentais: o protestante tem de ter acesso às letras, tem de ter instrução; o protestantismo nunca foi e nunca será uma religião de massa. A leitura, a instrução, forma indivíduos conscientes da realidade e de si mesmos e possibilita a construção de uma ética de responsabilidade diante do mundo; a religião de massa vive de “slogans” , diríamos de “mantras” que, como se fossem vozes de comando de cunho militar, mobilizam as massas de cá para lá sem nenhuma racionalidade ou sentido. Não forma consciências livres. Tenho me recusado, apesar de muitas críticas, a aceitar as novas religiões como continuum do protestantismo. O protestantismo forma consciências livres e racionais, é por natureza contestatário e, por isso, não se deixa levar para um lado e para outro sem crítica. As igrejas protestantes são comunidades ligadas pelo amor solidário fundado na fé comum, mas compostas por indivíduos de consciência livre.

Um quadro de H. Valkenberg, datado de 1883, intitulado “Domingo à tarde no País Baixo”,* mostra uma cena de culto típica do protestantismo: uma sala pequena e simples, homens, mulheres e crianças atentos ao pregador com a Bíblia aberta à sua frente e, alguns deles, inclusive crianças, com a sua própria também aberta. Pessoas reunidas, em qualquer lugar e sem formalidade alguma, tendo a Bíblia como centro, eis a essência do protestantismo. Não multidões.

Eu diria sem restrições que a educação é o fundamento do protestantismo. Sem a letra e a Palavra não há protestantismo. O protestantismo no Brasil começou com a distribuição de Bíblias. As pessoas começaram a ler a Bíblia e depois a cantar os hinos; não se converteram em massa através de milagres, mas pela leitura. O quadro de Valkenberg se reproduziu infinitamente pelos sertões e vilas do Brasil. Houve um protestantismo mesmo antes de haver igrejas protestantes.

Se as missões internas nos Estados Unidos (home missions) tinham a preocupação fundamental de educar antes para que a religião se tornasse possível depois, entende-se porque as missões estrangeiras (foreign missions) confundiram, no bom sentido, educação com evangelização. Os adultos convertidos se alimentavam da palavra falada e as crianças eram preparadas para a futura igreja nas escolas paroquiais e na escola dominical. Vieram os colégios com sua educação pragmática e técnica, mas sem abandonar as humanidades. Vieram os cursos superiores, ainda voltados para a técnica. O ensino técnico, prático, fruto do pragmatismo, atendia às necessidades dos jovens países da América Latina. Os cursos técnicos superiores deram grande prestígio às escolas protestantes.

* Capa do livro de Rivera, Paulo Barrera, Tradição, transmissão e emoção religiosa,, São Paulo, 2001

Temos hoje no Brasil quatro importantes universidades protestantes, sendo três delas no Estado de São Paulo. Além delas, numerosas escolas superiores isoladas ou federadas estão em plena atividade e no caminho de no futuro virem a ser centros universitários ou universidades. Continuam os grandes colégios protestantes a prestar relevantes serviços à sociedade brasileira.

O protestantismo representa um povo que lê e pensa. Contudo, esta sua essencialidade parece não ter contribuído para a formação das idéias no Brasil. Esta é uma questão que está para ser discutida entre as igrejas e suas escolas. Por que a filosofia e as ciências sociais não ocuparam até hoje lugar de destaque, ou mesmo não conquistaram lugar algum, nas universidades protestantes no Brasil? E isto apesar do princípio de liberdade?

Há várias maneiras de explicar esse fato. Não vou me alongar nisto. Levanto simplesmente a questão: somos livres para pensar, mas temos medo ou somos impedidos de fazê-lo. Pois imagino que nossas universidades estão deixando até agora passar a oportunidade de exercitar o pensamento filosófico, político e sociológico que poderia contribuir para o avanço da sociedade brasileira. Lembro-me que o ensino deficiente da filosofia nos seminários levava alguns estudantes a procurar um dos cursos disponíveis em São Paulo, que se situavam na USP e na São Bento, hoje PUC-SP. A maioria preferia esta porque os que iam para a USP, mais favorável porque oferecia curso noturno e gratuito, eram objetos de desconfiança por parte da Igreja. O argumento era que, se era para enfrentar a filosofia, que se buscasse uma escola cristã e não uma reconhecida como atéia e materialista. Medo da filosofia.

O protestantismo precisa aproveitar a força de suas universidades para influir também no pensamento. Aqui, ao lado da filosofia ponho, em igualdade de condições, a própria teologia. Os cursos teológicos são hoje reconhecidos e as universidades podem criá-los com liberdade dentro dos parâmetros acadêmicos válidos para quaisquer outros cursos. É a oportunidade que temos de criar mentes teológicas independentemente do exercício da profissão pastoral, da vocação para tal. À semelhança de outros lugares no mundo, os que formados em teologia numa universidade desejassem exercer a vocação ministerial, fariam um curso complementar em seminários eclesiásticos de sua tradição. Penso que estamos neste caminho.

O protestantismo só ocupará lugar de destaque no Brasil quando passar a influir no pensamento, além da racionalidade da ação. O protestantismo tem contribuído com notáveis professores que atuaram e atuam nas universidades, inclusive em importantes universidades públicas. Contudo, boa parte deles teve dificuldades com suas igrejas porque elas não conseguiram e continuam não conseguido valorizar, ou compreender, a essência da liberdade de pensamento. Vou, de passagem, citar alguns nomes entre os que já morreram, e só entre presbiterianos que atuaram na Universidade de São Paulo: Otoniel Mota, Lívio Teixeira, Theodoro Henrique Maurer e Isaque Nicolau Salum. Atualmente há vários protestantes atuando em universidades. Valeria a pena fazer um levantamento para avaliarmos a contribuição protestante no ensino universitário atual.

Na educação básica é que se encontra a maior contribuição dos protestantes. Pertencem à história da educação brasileira os livros de leitura de Erasmo Braga, a conhecida Série Braga, de Eduardo Carlos Pereira, suas duas gramáticas (Gramática Histórica e Gramática Expositiva da Língua Portuguesa), e Júlio Ribeiro com seus vários trabalhos lingüísticos, entre eles a Gramática Portuguesa, a Questão Gramatical, a Nova Gramática da Língua Latina e outros trabalhos. No campo da matemática destacou-se Antonio Bandeira Trajano, autor da primeiras obras sobre essa matéria escritas no Brasil: a Aritmética Elementar, a Aritmética Primária, a Aritmética Progressiva e a Álgebra Elementar (Matos, 2004; p. 318).

Se no ensino das línguas os protestantes se destacam com mais facilidade, certamente como conseqüência do valor que o protestantismo dá aos estudos lingüísticos, a literatura, assim como outros campos da arte, com exceção da música, já não lhes oferece tanto espaço criativo. Por isso, as obras literárias, principalmente na prosa, já surgem entre protestantes colocados à margem de suas igrejas, por circunstâncias que não podem ser analisadas aqui. Assim, ainda de Júlio Ribeiro, temos O Padre Belchior de Pontes (1877), A Carne (1888), de Otoniel Mota Perde-Ganha (1937), Selvas e Choças e Amor que Santifica, Horácio Nogueira O Índio Penhai, Orígenes Lessa O Feijão e o Sonho, O Evangelho de Lázaro, etc. Entre os vivos podemos citar, por sua origem protestante, Josué Montello com Degraus do Paraíso, livro que reflete sua experiência protestante.

Dos escritores que trabalharam dentro dos limites de suas denominações, embora em alguns casos com frágil perfil literário, não se pode dizer que contribuíram para a cultura brasileira. Como exemplos eu citaria Adolfo Machado Correia, com Maria da Graça, romance extremamente ingênuo, Munguba Sobrinho com Tríplice Vitória do Amor, Ernani Souza Freitas com Outro nome para Mara e Myrtes Mathias com Antes que caiam as estrelas. Elter Maciel (1988), que analisou estes romances, atribui a ingenuidade literária que eles refletem ao pietismo generalizado dos protestantes. Pessoalmente, entendo que ao pietismo deve-se acrescentar as peias de certo moralismo distanciado da realidade humana. Na poesia eu destacaria Gióia Júnior e Mário Barreto França como bons poetas mas que, pelas circunstâncias, não alcançaram espaço na literatura brasileira.

Nas demais artes o protestantismo só alcançou destaque na música, chegando a dar alguns passos na arte cênica. São tradicionais os autos de Natal que parecem ir se distanciando das igrejas. Esses autos, além do aspecto dramático-religioso de que eram portadores, desempenhavam papel pedagógico no sentido de despertar vocações para arte teatral, como de fato aconteceu. Isto, não só quanto à representação, mas também quanto à produção de peças por parte de membros das igrejas. Por outro lado, no período de certa presença, ao menos literária, do Evangelho Social entre nós, algumas peças surgidas na sua atmosfera foram encenadas nas igrejas. Como se sabe, neste caso, o Evangelho Social refletia certos aspectos do romantismo, entre eles a superação da distância entre as classes sociais através de profissões e casamento. Peça como O Filho do Sapateiro, por exemplo, foi muito representada nos palcos das igrejas. Como resultado, surgiram alguns expressivos grupos de teatro que alcançaram algum destaque fora das igrejas.

Como nunca foi bem visto pelo protestantismo, como mostra a alegoria do famoso quadro Os dois caminhos, o teatro foi desaparecendo das igrejas. Só restou a música. A música religiosa barroca foi muito cultivada desde o período colonial no Brasil. Estão sendo seguidamente descobertas peças produzidas principalmente nas velhas igrejas do interior de Minas Gerais. Creio, porém, que a música coral foi trazida pelo protestantismo. Desde a primeira compilação de salmos e hinos feita por Sara Kalley em 1861, as partituras já apareceram preparadas para o cântico a quatro vozes.

O cântico coral litúrgico desenvolveu-se no Brasil em duas etapas. A primeira, acredito ter sido a coletânea denominada Coros Sacros, de origem batista e organizada pelo letão Arthur Lakschvitz que chegou ao Brasil em 1925. A coletânea, composta de oito fascículos, foi iniciada em 1931. Mais tarde foi unificada em um volume com 190 hinos para corais mistos, masculinos e femininos. Coros Sacros circulou por todas as igrejas brasileiras. É possível que ainda circule. A segunda etapa surgiu entre os presbiterianos com o trabalho de missionária Evelina Harper iniciado na década de 40 no Instituto José Manoel da Conceição, em Jandira-SP. O estilo, nesta etapa, já é completamente diferente. O coral do chamado JMC percorreu o Brasil executando clássicos como Sibelius, Beethoven, Handel e Bach, assim como hinos de Salmos e Hinos e Cantor Cristão.

Foi grande a influência de Evelina Harper no desenvolvimento de um novo estilo de música coral no Brasil. O continuador de sua obra foi João Wilson Faustini que, em 1958, começou a lançar a coletânea Os Céus Proclamam com composições próprias, traduções e adaptações e auxílios litúrgicos. Sob tão grande influência surgiram regentes, corais e organistas importantes como, por exemplo, Elisa Freixo. Muitos CDs estão sendo produzidos, tanto com os hinos clássicos como modernos. Nos clássicos destacam-se os esforços de Dorotéa Kerr.

Só resta destacar agora a contribuição do protestantismo para as festas religiosas que se popularizaram. Natal e Dia das Mães. As comemorações de Natal, tal como são feitas hoje, isto é, nas igrejas como parte do calendário cristão, incluindo-se os pinheirinhos enfeitados de flocos de neve, quer dizer, de algodão, foram trazidas pelos protestantes logo no início de suas atividades no Brasil. Esparramou-se pelo comércio, inseriu-se na cultura brasileira. Mas, como o protestantismo, em especial o do Brasil, não se pauta pelo calendário cristão, o que significa alto grau de secularização do tempo, muitas igrejas comemoram o Natal no domingo mais próximo ao dia 25 de dezembro a fim de liberar seus fiéis para as comemorações profanas. O Dia das Mães, iniciado nos Estados Unidos no começo do século passado, veio logo para o Brasil sendo comemorado no horário da Escola Dominical. Entrou na cultura brasileira ao ser absorvido pelo comércio.
Considerações finais
Procurei neste trabalho mostrar a força do protestantismo e como ele mostrou-a em alguns aspectos de sua história no Brasil, assim como, por razões diversas, tem sido impotente para se firmar na cultura brasileira. Sua força na educação, por exemplo, denota-se em suas universidades, especialmente nas áreas da tecnologia e da prática, mas não se impõe no setor do pensamento. Chamei a atenção para a necessidade de reforçar nelas o setor de humanas, aproveitando ao mesmo tempo a abertura para os estudos teológicos como componentes da universidade e sem o compromisso dogmático exigido nas escolas de formação teológica profissional.

Outra preocupação demonstrada foi a de produzir, traduzir e publicar livros que veiculem o pensamento teológico, filosófico e social do protestantismo fora do exclusivo âmbito eclesiástico e, para isso, fazer parcerias com editoras seculares que distribuam amplamente essa produção.

Na arte, e aqui falo da música, que já permeia alguns setores da cultura brasileira, estamos em momento propício para inserir nossos corais, madrigais, bandas e orquestras no circuito artístico brasileiro.Várias igrejas, universidades e grupos musicais estão preparados para isso.

O censo de 2000 indicou que perto de 16% da população brasileira é evangélica, o que representa substancial aumento em relação aos censos anteriores. Hoje, no Brasil, há cerca de 26 milhões de evangélicos, portanto. Calcula-se que nesse número, 5 milhões pertencem ao grupo chamado protestantismo histórico ou tradicional, mas se incluirmos as Assembléias de Deus, igrejas que avançam rapidamente no campo da educação tanto secular como teológica, os evangélicos mais ligados aos princípios protestantes serão bem mais de dez milhões. São cálculos que faço de maneira aproximada, sem pretensão de exatidão. 


R e f e r ê n c i a s b i b l i o g r á f i c a s
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