I. Introdução



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A popularização da experimentação com interfaces humano-computador através do Macromedia Flash

I.Introdução


O Macromedia Flash MX 2004 é um software de desenvolvimento de animações, aplicações e outros produtos interativos. Ele conta com uma linguagem de programação simplificada chamada Actionscript 2 que permite controlar o comportamento dos elementos e fazer processamentos de dados simples. Na Web, é possível integrá-lo diretamente com banco de dados e fornecer aplicações que atualizam dados em tempo real. Também pode servir áudio e vídeo através de fluxo de dados (streaming). Os arquivos gerados costumam ser pequenos o suficiente para serem funcionais mesmo em conexões de banda estreita.
Todas essas funcionalidades não se comparam com o fator decisivo para sua popularização: a facilidade de uso. Graças a ele, a experimentação em hipermídia se tornou brincadeira de adolescentes e a técnica como um todo se transformou.

II.História


O Macromedia Flash foi lançado ainda com o nome de Future Splash em 1996 com o objetivo de criar páginas de abertura e pequenas animações que podiam ser visualizadas no navegador mediante a instalação de um pequeno plugin. Na época, havia grande incompatibilidade entre os navegadores disponíveis e não era possível criar layouts elaborados usando somente a linguagem HTML. A proposta do Future Splash era justamente acabar com esses problemas, renderizando seu conteúdo da mesma forma em qualquer navegador e possibilitando maior controle sobre a aparência da página.
Ao ver o grande potencial que a ferramenta tinha, a Macromedia compra seus direitos e rebatiza o software com o nome de Flash. Não foi preciso fazer muito esforço de propaganda para a ferramenta cair no gosto popular. Ela apresentava as seguintes vantagens:


  • fácil de aprender a usar

  • arquivos pequenos por serem baseados em vetores

  • plugin menor que outros concorrentes multimídia

A Web estava começando e os websites eram muito simples. A influência que a estética televisiva exercia incentivou a procura por tecnologias que pudessem tornar a experiência de navegar mais atrativa. José Carlos Caribé, o maior divulgador da ferramenta no Brasil nessa época, criou um simples banner que emitia a voz de dois personagens e com isso ganhou uma matéria inteira no jornal O Globo[1]. Os internautas estavam ávidos por novidades e o Flash veio bem a calhar.


Muitas pessoas fizeram cursos para aprender a usar a nova ferramenta, mas a forma como ele se popularizou foi à partir da própria Internet. A Macromedia sempre disponibilizou a qualquer um o software completo em regime de expiração. Ela também plantou e cultivou várias comunidades virtuais de desenvolvedores. A lista de email FlashBrasil, fundada por Caribé, chegou a ter mais de 17.000 inscritos no total.

III.Estabilização no mercado


Inicialmente, os empresários não acreditavam que a ferramenta poderia ser utilizada para fins comerciais e a experimentação ficou restrita a websites pessoais. Entretanto, trabalhos como Eye4U (www.eye4u.com ) e GaboCorp ficaram tão famosos que acabaram por influenciar toda uma geração de webdesigners. Essas experiências tiveram sucesso porque trouxeram vários elementos da linguagem do cinema e da televisão [2].
Em breve, as introduções em Flash começaram a contaminar as centenas de novos websites institucionais que entravam no ar todo dia. Diante de tamanha concorrência, os empresários queriam um diferencial para chamar a atenção para seu website e alguns acreditaram nos produtores que asseguravam que a introdução em Flash seria ideal para isso. Infelizmente, a priorização do meio em detrimento do conteúdo acabou por causar dor de cabeça em internautas impacientes, que eram obrigados a assistir a introduções animadas da logomarca da empresa dando piruetas.
Muitos empresários se sentiam felizes, talvez sentindo como se tivessem abertos o canal de televisão exclusivo de sua empresa. Mas seus clientes, com certeza não gostavam de toda aquela animação gratuita e desinteressante. O resultado é que logo veio a conscientização e o Flash caiu em desgraça [3].
Enquanto tudo isso acontecia, a Macromedia reposicionou seu produto para dar ênfase no uso de seu produto como interface de aplicações complexas que rodavam no ambiente Web. O Java já exisitia há muito tempo, mas não tinha caído no gosto popular da Web primeiro porque para criar aplicações era preciso ter razoável conhecimento da sua linguagem de programação e segundo porque seu plugin exigia muito processamento do computador.
Com o nome de Rich Internet Application, a Macromedia conseguiu incentivar a criação de um nicho promissor para sua plataforma e hoje temos diversos exemplos de aplicações que trouxeram excelentes ROI para seus investidores [4]. São usadas para apoiar vendas diretas ao consumidor através de personalizadores de produtos, assistentes de escolha de produtos e simuladores de ambientes. No campo da educação à distância (elearning) também é notável a sua penetração.
Isso não significa dizer que Flash hoje se resume a aplicações ricas. Na realidade, ele é ainda muito utilizado em websites institucionais, agora de uma forma mais comedida, mais como adereços às interfaces. Porém, foi nas ações promocionais que ele despontou como suporte ideal. As campanhas de banners animados e hotsites interativos feitos em Flash fazem parte da agenda de toda agência de propaganda que veicula na Internet.

IV.Na vanguarda das interfaces computacionais


Graças a toda essa influência da estética de televisão e da publicidade, o estado-da-arte das interfaces em Flash revela a ênfase no apelo emocional, na estimulação sensorial e na imersão visual-auditiva [5]. É claro que muitas vezes essas características desejáveis são levadas ao extremo e acabam prejudicando a usabilidade e amigabilidade das interfaces. Porém, como há uma grande quantidade de pessoas produzindo rapidamente novos trabalhos com essa orientação e o caráter público dos mesmos, é possível identificar o surgimento de novos padrões de interação e desenho da interface que estão influenciando todo o ambiente computacional. Eric Eaton destaca uma funcionalidade crucial do Flash nesse sentido (tradução livre) [6]:
A variedade de possibilidades que o simples modelos de construção de mouseovers que o Flash oferece é em parte responsável pelo seu sucesso nos círculos de novatos no design de interface. Já que as conseqüências dos mouseovers não são tão grandes quanto a dos cliques, os designers podem alargar as definições de interações aceitáveis. Assim que esses tipos de interações se tornarem mais comuns, um novo paradigma de interação se estabelecerá.
Os ícones do Photoshop já não são mais os mesmos. O Media Player da Microsoft tomou o formato arredondado e abusa de efeitos de luz e sombreamento. O Norton Anti-Virus agora tem uma interface colorida e cheia de degradès, característica dos vetores por excelência. O Icon da Ibest é o máximo em fluidez nos botões.
Tudo essa transformação aconteceu de supetão. Até o ano 2000, era raro encontrar uma interface de software que usasse elementos diferentes da biblioteca padrão de elementos de interface fornecidas pelo sistema operacional. No caso da plataforma Windows, essa biblioteca mudou completamente com o advento do Windows XP. O fundo cinza deixou lugar para o amarelo claro. Esse amarelo, por sua vez cria mais contraste com o azul dos destaques. No final das contas, a interface do sistema operacional se tornou mais visualmente atrativa e aprazível.
É claro que os designers desses softwares não estavam simplesmente copiando o que estava sendo feito de bom com o Flash. O Flash foi o suporte decisivo para a formação de um movimento de designs de interface cada vez mais atrativos que aconteceu na Web. Websites em HTML também dão suporte para esse movimento, mas é no Flash que ele se exprime com toda sua exuberância.
E é fácil responder o porquê. Criar uma interface atrativa no Flash é muito mais fácil do que em qualquer outro programa, em qualquer categoria. O designer tem à disposição ferramentas de desenho livre de um lado na mesma tela em que podem adicionar botões e alterar seus respectivos estados em relação à posição do mouse (over, down, etc). A edição do comportamento desses botões é acionada pela abertura de um painél extra e a linguagem de script utilizada apresenta uma curva de aprendizado bastante tranquila. Não é preciso saber programar quase nada para criar um menu de navegação, um formulário simples e até mesmo um jogo.
A experimentação que ele permite levou até mesmo ao estabelecimento de um novo gênero de conteúdo na Web. Os infográfico interativos conseguem realizar o sonho da multimídia no sites noticiosos. São peças destinadas a explicar um conceito ou contar uma história aproveitando recursos que só o computador oferece [6].
O documentário Becoming Human (www.becominghuman.org) é um dos melhores exemplos de como a linguagem de vídeo pode ser muito bem combinada com textos e interatividade. Enquanto se escuta uma breve apresentação de um locutor, imagens se alternam usando transições típicas da televisão. Em dado momento, é possível parar ou não a locução e ler um texto que aprofunda mais o que está sendo dito. Além dessa integração, há seções onde é possível uma visita virtual a um campo de escavações, ver crânios de hominidas em 3 dimensões e vídeos das regiões remotas a que os arqueólogos se aventuram.

V.Conclusão


Todas essas utilizações experimentais do Flash, mas mais especialmente esta última, estão abrindo picadas que podem muito bem serem trilhadas pela TV Interativa que ainda está por vir. É claro que não irá funcionar a transposição do conteúdo da Web para esse novo meio, já que a Web, apesar de todos os esforços multimídia, ainda é essencialmente baseada em texto. E texto não combina com televisão. Mas, os modelos de interação e o design da interface podem muito bem serem adaptados. O grande desafio dessa nova televisão será encontrar uma forma de unir interatividade ao conteúdo áudio-visual que já tem história de décadas e isso já está sendo feito em menor escala pelas experimentações em Flash. Aproveitar essa experiência será essencial para aqueles que desejam participar das definições desse novo meio.

Referências

[1] Frederick van Amstel, "O Pai do Flash no Brasil", FlashMasters, 2003. Entrevista disponível em
http://www.flashmasters.com.br/?site=artigos&as=mostra&id=43

[2] Alice de Lemos, Alice Vargas, Daniela L. Silva et. all, "Análise Estética de um Website: Gabocorp", UFBA, 98. Disponível em: http://www.facom.ufba.br/artcult/gabocorp/index.html

[3] Jakob Nielsen, "Flash: 99% Bad", Alertbox, 2000. disponível em: http://www.useit.com/alertbox/20001029.html

[4] Chris McGregor, "RIAs that Work", Flazoom, 2003. Disponível em: http://www.flazoom.com/news.shtml

[5] John Lenker, "Train of Thoughts: Designing the Effective Web Experience", New Riders, 2002, pag. 269.

[6] Eric Eaton, "Designing Web Interface Elements", Rockport Publishers, 2003, pág. 179.



[7] Maish Nichani e Venkat Rajamanickam, "Interactive Visual Explainers — A Simple Classification", Elearningpost, 2003. Disponível em:
http://www.elearningpost.com/features/archives/002102.asp


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