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A SOCIEDADE PIRACICABANA DO FINAL DO SÉCULO XIX:

CLASSES DOMINANTES, CULTURA E A MEDIAÇÃO DA EDUCAÇÃO



Jaime Patricio Sepúlveda Figueroai
UNICAMP - HISTEDBR

FATEP

jaimepsf26@hotmail.com

Resumo

Esta pesquisa teve como objetivo compreender o papel atribuído à educação no contexto cultural da cidade de Piracicaba, na passagem do Regime Monárquico para o Regime Republicano. A elite piracicabana do final do século XIX instituiu um rol de práticas que constituiu a base ideológica de seu projeto de hegemonia. Ocorre que é possível identificar através de jornais da época, a educação como instância em que este processo encontrou sua mediação. A partir das categorias analíticas da teoria marxista da História, foi implementado um estudo sobre a cultura urbana no Brasil do período citado, seus efeitos na sociedade piracicabana e suas manifestações no campo da educação local. E o processo de desenvolvimento da cultura urbana está intrincado com a cultura escolar piracicabana. O estudo se baseou numa fonte primária específica, o jornal Gazeta de Piracicaba, publicado no final do século XIX. Com esta fonte foi possível evidenciar a concepção de uma linguagem própria de tratamento e referência à elite piracicabana, principalmente, no que tange à elite republicana, num contexto de concepção de educação liberal. Também foram utilizadas fontes bibliográficas especializadas complementares, para o estudo do particular e do geral. Constatou-se que a construção do significado da educação para a sociedade de Piracicaba no período analisado, é produto do projeto de ascensão da elite burguesa local. É para satisfazer os anseios da elite que a educação se torna suporte ideológico do processo de dominação. A educação é, portanto, mediadora dos interesses de classe, e por isso tem servido, em diferentes contextos, de instrumento do poder das classes dominantes. Palavras chaves: 1. Cultura-Brasil. 2. Educação. 3. Educação-História. 4. Piracicaba-História-Séc. XIX.



Abstract

This work has the objective to understand the role was given to the Education in the cultural context of the city of Piracicaba during the transition of the Monarchic regime to the Republican regime. Taking into consideration some of the analytical categories of the Marxist theory of the History, it was developed a study of the urban culture in Brazil, its effects in the field of Education. In a society which is structured in classes that the dominant class institutes practices which give it the ideological support for its project of hegemony. The elites of Piracicaba in the end of Nineteenth Century are not an exception and it is possible to identify in the newspapers of that period the Education as an instance in which this process finds its mediation. The process of urban culture development is intrinsically connected with the also rising educational culture of Piracicaba. The educational culture served as an impulse to the dominant groups. It was the politicians’ sons who first studied in the schools established in the end of the Nineteenth Century and who will later become liberal professionals, lawyers and emergent business men, careers that have a class characteristic due to what they symbolize to the society of that period. This study is based in a specific source, the newspaper Gazeta de Piracicaba, published in late Nineteenth Century. This source gives sustainability to our argument as it shows evidences of the conception of a particular way of treating and referring to the elites, especially the Piracicaban elites, in a context of definition of the liberal Education. Specialized and complementary bibliographies have been also consulted for the study of the particular and of the general. Keywords: Brazilian culture; Education; History of education; Piracicaba in the end of nineteenth century.



Introdução

A nova história cultural vem atraindo a atenção de muitos pesquisadores da história da educação. Para Gatti Júnior e Eurize Pessanha (2005) a cultura escolar compreende a cultura que se estabelece num conjunto de estabelecimentos escolares ou numa determinada área territorial (a cidade, por exemplo). Neste sentido, é compreensível que se criem relações entre escolarização e o desenvolvimento da cidade, já que “a cultura escolar, disseminada em uma cidade em processo de urbanização e modernização, discursiva e física, tem a função de deixar patente a superioridade do progresso e da ação humana sobre a natureza” (GATTI JR.; PESSANHA, 2005, p. 84).

Partindo da vertente marxista da historiografia, Williams passa estruturar o conceito de cultura, e chama de pensamento cultural idealista, toda teoria da história que sustenta a dissociação entre cultura e vida social material:
(...) as possibilidades totais do conceito de cultura como um processo social constitutivo, que cria “modos de vida” específicos e diferentes, que poderiam ter sido aprofundados de forma notável pela ênfase no processo social material, foram por longo tempo irrealizadas, e com freqüência substituídas na prática por um universalismo abstrato unilinear. Ao mesmo tempo, a significação do conceito alternativo de cultura, definindo a “vida intelectual” e “as artes”, foi comprometido pela evidente redução a uma condição de “superestrutura”, cabendo o seu desenvolvimento àqueles que, no processo mesmo de sua idealização, romperam as ligações necessárias com a sociedade e a história, e nas áreas da psicologia, arte e crença, desenvolveram um forte senso alternativo do próprio processo constitutivo humano (WILLIAMS, 1979, p. 25).
Para este cientista, é comum trabalhar o conceito de ideologia a partir da relação que se estabelece entre as classes sociais e as crenças formais e conscientes que ela expressa. Esse é o modo principal pelo qual a produção cultural pode ser relacionada, freqüentemente com muita precisão, com classes sociais ou outros grupos que podem, também, definir-se em outros termos sociais, mediante análise política, econômica ou ocupacional (WILLIAMS, 2000, p. 26).

Lombardi (2006) discute o conceito de “cultura” e sua validade para o campo da história, mais especificamente para a história da educação, e propõe que “o entendimento marxiano e engelsiano de cultura é que esta é indissociavelmente ligada à atividade material dos homens e, como as representações, as idéias, as normas, valores, etc., é produto da atividade vital dos homens, de suas relações com a natureza e com os outros homens” (LOMBARDI, 2006, p. 197). E prossegue sustentando que:

São as condições materiais de existência que determinam o que os homens dizem, imaginam e pensam. Nesse sentido, é a produção material de existência que explica as idéias, as representações, as normas e os valores, as teorias e a cultura de uma dada formação social – não o contrário (LOMBARDI, 2006, p. 197).

Segundo a interpretação de Lombardi, Marx e Engels teriam destacado que “o homem possui consciência”, mas não se trataria de uma consciência prévia, nem mesmo de uma “consciência pura”, mas da consciência como um produto social. A consciência enquanto produto social se materializa e se manifesta por meio da linguagem – “que é a consciência real, prática, que existe também para outros homens” (LOMBARDI, 2006, p. 198).

O estudo da imprensa como fonte de pesquisa tem permitido amplas abordagens com relação à educação, “pois sua peculiaridade é revelar o movimento da história em sua dinâmica cotidiana, tal como visto por aqueles que decidem o que noticiar” (ARAÚJO e FILHO, 2005, p. 177). Como fonte de pesquisa, faz-se necessário indicar que:

(...) um órgão de imprensa é veiculador de um ângulo de análise, porém não de somenos importância para nos propiciar o movimento da história, seja ela local, regional ou nacional. Evidentemente, tal fonte não é estritamente histórico-educacional, porém amiúde sua problematização incide particularmente sobre o campo da escolarização, (...) ou mesmo como reprodutora das relações sociais (ARAÚJO e FILHO, 2005, p. 177).

Lucena (2005) explica que o conteúdo ideológico implícito nos discursos que estruturam os artigos publicados nos jornais, está repleto de implicações e sutilezas. Isso ocorre porque os artigos constituem uma manifestação das relações sociais, e neste sentido não podem ser entendidos de forma neutra.

Este autor afirma que a linguagem do discurso é “interação e um modo de produção social” e, portanto, uma vez que também não é neutra, possibilita verificar através dela manifestações das mais diferentes concepções de mundo. “É através da mesma que o conflito se materializa, não podendo ser compreendida como algo separado da sociedade” (LUCENA, 2005, p. 6).

A linguagem do jornal em seu papel de mediar a luta de classes torna-se importante para uma interpretação do fenômeno social. Em Marx, a linguagem é um dos elementos constitutivos da vida em sociedade e é através dela que se confirmam e se realizam os fatos e os acontecimentos que nos ajudam a escrever a história. Para Marx, a linguagem é

(...) a consciência real, prática, que existe também para os outros homens e que, assim existe igualmente para mim; e a linguagem surge como a consciência da incompletude, da necessidade de intercâmbios com os outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim. (...) A consciência, conseqüentemente, desde o início é um produto social, e o continuará sendo enquanto existirem homens (MARX& ENGELS, 2004, p. 56).

Temos, então, que no sentido proposto por Marx e Engels, a linguagem é produto das relações sociais do trabalho. Na obra A Ideologia Alemã estes autores propõem que a classe dominante, em seu movimento de sobrepor os seus interesses sobre os interesses dos demais componentes da sociedade “(...) se coloca no lugar da outra que dominou antes dela, é obrigada, apenas para realizar o seu propósito, a apresentar o seu interesse como comunitário de todos os membros da sociedade, ou seja, na expressão ideal: a dar às suas idéias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas nacionais e universalmente válidas” (MARX & ENGELS, 2004, p. 80).

Na introdução de “História da Imprensa no Brasil”, Sodré propõe que, no que concerne à questão das etapas do desenvolvimento da imprensa no país, é preciso considerar este meio de comunicação em sua integração no “conjunto do desenvolvimento histórico do país” (SODRÉ, 1981, p. 7). O autor também discute que a transição da imprensa artesanal à imprensa industrial representa o próprio desenvolvimento do capitalismo e a ascensão da burguesia, mas alerta:

A nossa imprensa, no que tinha de específico, não mudou com a passagem do Império à Regência, ou do Império à República. Mudou muito, entretanto, quanto ao conteúdo, quanto ao papel desempenhado (SODRÉ, 1981, p. 7).

A agitação social da segunda metade do século XIX revelava o grave problema da desigualdade de oportunidades e de direitos entre as classes sociais brasileiras, e assiste-se ao vislumbrar das muitas discussões em torno de propostas que viessem a significar mudanças de interesse geral.

Questões e reformas refletiam-se na imprensa, naturalmente, e esta ampliava a sua influência, ganhava nova fisionomia, progredia tecnicamente, generalizava seus efeitos – espelhava o quadro que o país apresentava (SODRÉ, 1981, p.256).

Esse é o tempo da abertura da segunda fase destacada e fecunda da história da imprensa brasileira. A primeira tinha sido a da Regência. Segundo Sodré, a imprensa brasileira pouco a pouco vai superando a estagnação imperial. Será a vez dos jornais de cunho liberal florescerem pelo país, como a “Gazeta de Notícias” em São Paulo. Outro exemplo dessa evolução é o caso do jornal fundado pelo Partido Republicano Paulista em 1872, o “Correio Paulistano”, que adotara a linha ideológica reformista.

Neste contexto, é possível incluir a “Gazeta de Piracicaba” na trajetória dos jornais liberais da época.

No Brasil de fim de século XIX, os jornais iam se tornado um influente meio de propaganda e de debate político. No ano de 1882, é fundado o jornal “Gazeta de Piracicaba” vindo este a se tornar num influente meio de comunicação para a sociedade da época. Acredito que a difusão de sua leitura pelos habitantes letrados desta cidade ajuda a criar um quadro de referências culturais que serão ricas para esta discussão, em torno do objeto, as práticas culturais nacionais que davam o tom à questão educacional.



Cultura nacional.

Chauí (2000) afirma que a nação é uma invenção recente, e esclarece que antes da “invenção histórica da nação” é a palavra pátria, que deriva de um vocábulo latino (pater que significa pai), que ajudava a definir as nacionalidades. A autora define pater como sendo “o senhor, o chefe, que tem a propriedade privada absoluta e incondicional da terra e de tudo o que nela existe (...)” (CHAUÍ, 2000, p. 15).

Baseando-se em Hobsbawm, Chauí estabelece uma periodização para a análise do desenvolvimento que teve o conceito de Estado-nação. Propõe que em sua primeira etapa, difunde-se na Europa do início do século XIX um “princípio de nacionalidade”. Neste processo de invenção da nação, o discurso que se desenvolve nos meios políticos, cujas bases filosóficas são provenientes da economia política liberal, sustenta os vínculos entre a nação e o território.

A própria legitimação do moderno Estado-nação se baseia na necessidade do consentimento de seus cidadãos, porém enfrenta a dificuldade de incluir todos os que habitam o território nacional à sua esfera administrativa. Nesse contexto, o imaginário da nação surge com a difícil tarefa de dar unidade ao que é diviso econômica e socialmente.

O liberalismo que fundamentará os Estados em sua brava disputa por novos mercados durante o século XIX, no entanto, apresenta dificuldades quando é desafiado a operar com o conceito de nação, pois sua interpretação do mundo permite traduzir a realidade a apenas duas referências econômicas: a do indivíduo e a da empresa.

No final do século XIX, a partir principalmente de 1880, o conceito de “nação” passará a ser alvo de debate e irá produzir outro conceito, o de “idéia nacional”, porque o desencadeamento de conflitos sociais trazia à tona as massas trabalhadoras, e esta situação criava no Estado a demanda por algo mais do que simplesmente a passividade da nação. O patriotismo passa a ser substituído pelo nacionalismo, torna-se estatal, e é reforçado “com sentimentos e símbolos de uma comunidade imaginária cuja tradição começava a ser inventada” (CHAUÍ, 2000, p. 18).

O processo histórico de invenção da nação nos auxilia a compreender um fenômeno significativo, no Brasil, qual seja, a passagem da idéia de “caráter nacional” para a de “identidade nacional”. O primeiro corresponde, grosso modo, aos períodos de vigência do “princípio da nacionalidade” (1830-1880) e da “idéia nacional” (1880-1918), enquanto a segunda aparece no período da “questão nacional” (1918-1960) (CHAUÍ, 2000, p. 21).

Sustentando-se no trabalho de Dante Moreira Leite, Chaui afirma que tomando as construções do “caráter nacional” como ideologias, “elas foram, na verdade, obstáculos para o conhecimento da sociedade brasileira e não a apresentação fragmentada e parcial de aspectos reais dessa sociedade” (CHAUÍ, 2000, p. 21). Segundo a definição de “caráter nacional” de Moreira Leite, a elaboração ideológica que corresponde a ela se apresenta sempre como algo “pleno e completo”, seja para caracterizar a cultura brasileira em sua plenitude positiva ou negativa. Como sugere Chauí:

Em outras palavras, quer para louvá-lo, quer para depreciá-lo, o “caráter nacional” é uma totalidade de traços coerente, fechada e sem lacunas porque constitui uma “natureza humana determinada” (CHAUÍ, 2000, p.21).

São os caracteres de uma cultura em formação, com traços positivos e negativos que constituem a idéia de nacional que se desenvolve. Chauí, apoiada em Leite, nos apresenta pensadores da época como Silvio Romero e Afonso Celso, que trazem uma idealização do nacional a partir de características psicológicas, tais como imitação do estrangeiro na vida intelectual, mística do bactério enfermo e fanático, lirista e amigo das palavras retumbantes, afeição à ordem, à paz, e ao melhoramento, hospitalidade, caridade e honradez (CHAUÍ, 2000, p. 22-23).



A educação como mediação do projeto sócio-cultural das elites.

A categoria da mediação nos ajuda a estabelecer os vínculos entre o real e o pensamento, entre a situação vivida pela educação brasileira à época, e o jogo político que subjaz o processo educacional. Com relação ao real é somente por meio de sua historicização que podem ser estabelecidas as condições de realização do fenômeno. Com relação ao pensamento, a mediação impede a redução do fenômeno pela via da metafísica.

Cury afirma que o movimento das mediações enquanto história é relativo ao pensamento, sempre que este último esteja referido ao real. Pelo contrário, quando o pensamento tem pretensões a-históricas, corrobora para o processo de hegemonia da ideologia dominante, pois universaliza uma mediação que se caracteriza pela contradição.

Admitindo que a educação é uma atividade que estimula as práticas sociais e a prática simbólica, analisa-se o papel da imprensa nesse processo. No dia 6 de fevereiro de 1883, a “Gazeta de Piracicaba” apontou para a necessidade de se chegar ao fim um “importante problema”, o da educação nacional. Segundo o artigo, tratava-se de elevar o desenvolvimento intelectual e moral do brasileiro para que o país conquistasse finalmente “sabedoria, justiça, fraternidade” e “liberdade”, ideais originários no processo da revolução francesa:

O homem que lê e que estuda, não só adquire habilitações para todas as funcções da vida prática, como ainda penetra até o segredo das leis que governam esses milhares de mundos, suspensos por sobre a sua cabeça, num movimento incessante, dentro da órbita, que lhes marcou na amplidão infinita o dedo omniponente do Creador.

Os sentimentos nobres e as aspirações elevadas, quando irrompem n’alma humana antes de terem dissipado as escuridões da intelligência, são como o gemen que nasce entalado entre as pedras; não vicejam, nem fecundam.

Sabedoria, justiça, fraternidade, liberdade, todas essas manifestações da superioridade de nosso ser intelectual e moral. (GAZETA DE PIRACICABA, 6 de fevereiro de 1883).

A concepção de educação que a imprensa ajudava a difundir, deveria orientar a formação da identidade nacional. Em 14 de janeiro de 1883, a educação era chamada para uma missão onde a nação deve ser colocada em vantagem em relação ao indivíduo:

Educação nacional - O desenvolvimento do sentimento de nacionalidade merece sem dúvida a atenção especial de todos aqueles que receberem a missão de fazer a educação da geração nascente. O indivíduo deve, sob este ponto de vista, ser considerado como pertencendo à uma nação determinada, como parte de um todo no qual ele se confunde; por conseqüência, o desenvolvimento não deve limitar-se a fazer dele um homem, mas também um cidadão que tenha vivo desejo de contribuir por todos os meios ao bem estar dessa sociedade da qual elle faz parte, pronto a sacrificar o seu interesse pessoal pela felicidade geral (GAZETA DE PIRACICABA, 14 de janeiro de 1883).

A idéia de construção da nação é um processo que remete a questão do caráter nacional. No texto do artigo citado, a educação é considerada estratégica para efeito da institucionalização de um “sentimento de nacionalidade”, ou seja, ela é chamada para organizar a nação por meio do Estado, e, sobretudo, com a finalidade de conduzir a sociedade à felicidade. É exatamente a relação que se estabelece entre a educação e os nascentes conceitos de nacionalismo e de liberalismo, que esta pesquisa entende como mediação da educação. Com a leitura do artigo ainda vemos o direito individual enfrentar a limitação imposta pela realização da “felicidade geral”.

Outra mediação possível de ser captada na área da educação é a que ocorre quando a idéia de educação nacional constitui um esforço para se aproximar do modelo estrangeiro de desenvolvimento intelectual. A leitura dos relatos de estudantes no exterior é indício de que neste período havia uma preocupação em promover a jovem geração proveniente dos quadros da elite, através do conhecimento formal adquirido na Europa. Lê-se em 28 de janeiro de 1883:

Brasileiros na Europa – Os estudantes brasileiros em Bruxelas organizaram uma associação literária denominada – União Brasileira – no intuito de exercitarem-se em discussões científicas e de viverem mais relacionados entre si. Funciona há seis meses e consta, por ora, de vinte e quatro sócios, todos brasileiros: nem são admissíveis os estrangeiros. Foram-nos obsequiosamente mostrados um exemplar dos estatutos, que os regem, e outro do relatório dos trabalhos no semestre decorrido, apresentado pelo presidente Sr. Francisco A. Nardy, irmão do nosso intelligente promotor público, Sr. Adolpho Alberto Nardy de Vasconcellos (GAZETA DE PIRACICABA, 28 de janeiro de 1883).

Para a Europa – Seguiu hontem com destino à Europa o sr. Luiz Mancini, sócio da firma Miguel Mancini & Irmão, estabelecida com loja de fazendas e alfaiataria nesta cidade.

Segundo nos consta, aquelle Sr. Se demorara na Itália e em França uns três mezes, aperfeiçoando-se em Pariz, na sua arte de alfaiate e voltando a exercel-a aqui, onde a casa, de cuja firma faz parte conta numerosa freguezia (GAZETA DE PIRACICABA, 1 de junho 1884).

Na publicação de 1o. de maio de 1889, do jornal “Gazeta de Piracicaba”, sobre a difusão da obrigatoriedade da instrução de nível primário, pode-se observar que as aptidões intelectuais mereceram maior consideração do que as habilidades ligadas ao trabalho braçal, referencial comum à época.

As nações modernas, com a descoberta e desbravamento de regiões inteiras desconhecidas, com a fundação de nacionalidades novas, com o aumento pasmoso da população, com a decrepitude das velhas organizações militares, com o advento de indústrias desconhecidas, iniludíveis compreenderão que na luta pela existência os seus cidadãos não teriam de então em diante de contar só com o braço: seria necessário contar antes e acima de tudo com a idéia. Daí a alta conta em que foi tida a instrução, daí, como arma de aperfeiçoamento e luta, o ensino obrigatório (GAZETA DE PIRACICABA, 1o. de maio de 1889).

Imprimem, portanto, um caráter depreciativo ao trabalho braçal, e passam a ver na “razão” a mola mestra para o novo desenvolvimento. É relevante compreender que o conhecimento racionalizado passaria a receber um reforço institucional: a regulamentação dos Grupos Escolares em 1892, no início da república velha, materializado na reunião do ensino seriado num mesmo prédio. Nesta instituição circulava um currículo propedêutico, de conteúdo humanista, conhecimento que corroborava para a divisão de classes, pois correspondia à formação dos quadros dirigentes.

Vai sendo confirmada assim, uma dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, e vemos o nascimento de um conceito de cultura escolar que visava favorecer uma escola que enrijece os pilares das elites. É a construção do princípio educativo em torno da diferenciação social que se apresenta.

As classes dominantes, interessadas em instituir um rol de idéias e valores que lhes servissem de instrumento de poder, tiveram influência na definição de uma cultura urbana, e por conseqüência da educação. Também criaram um ambiente favorável ao estabelecimento de uma identidade. O destaque que se dava na imprensa aos médicos, advogados e engenheiros indicam claramente um esforço para o estabelecimento da diferença, daquilo que poderia representar como a que exercia a profissionalização. Profissionais qualificados apareceram estampados juntos dos “capitalistas”, os proprietários de empresas:

Estatística – Diversos jornais referem que uma pessoa que se dedica assiduamente ao estudo do “Almanaque de Laemmert” diz que há na cidade do Rio de Janeiro 995 capitalistas, 870 médicos, 234 advogados, 110 engenheiros, 174 farmácias, 46 drogarias, 17 fábricas de flores de pano, 10 fábricas e depósitos de gelo, 5 lojas de espingardas, 17 fábricas e lojas de espelhos, 105 casas de ferragens, 15 lojas de brinquedos, 202 casas de calçados, 15 fábricas de chapéus e 70 lojas do mesmo gênero, 36 fábricas de chapéus de sol, 262 casas de charutos, cigarros e fumos, 140 barbeiros, 38 cabeleireiros, 72 confeitarias, 180 colégios particulares, 98 açougues, 170 cafés e bilhares (...) (GAZETA DE PIRACICABA, 6 de fevereiro de 1883).

Foi possível encontrar artigos publicados no periódico em pauta, cujo destaque de primeira página indica a importância que a sociedade piracicabana dava as pessoas que logravam estudar medicina ou direito.

Exame – Fez, em S. Paulo, exame de Aritmética, sendo plenamente aprovado, o sr. Antônio de Moraes Barros, filho do nosso amigo Sr. Dr. M. de Moraes Barros (GAZETA DE PIRACICABA, 18 de agosto 1882).

Approvados – No dia 4 do corrente, na Faculdade de Medicina da corte, prestou exame das matérias da 5ª. Série médica o nosso conterrâneo Sr. João Baptista da Silveira Mello, filho do importante fazendeiro deste município Sr. Joaquim da Silveira Mello, sendo plenamente aprovado.

No dia 7, na mesma Faculdade, prestou exame da 6ª. Série de medicina outro nosso conterrâneo, o Sr. Dr. Paulo Pinto de Almeida, sendo approvado com distincção em pharmacologia, medicina legal e toxicologia e plenamente em hygiene.

Felicitamos aos dois distinctos piracicabanos. (GAZETA DE PIRACICABA, 11 de dezembro de 1885).

É no processo cultural em torno do significado da profissionalização dos advogados, médicos e engenheiros que se concretiza uma relação específica de mediação entre educação e cultura. A visão que se difundia de trabalho qualificado é apresentado pelos jornais, num plano dicotômico em relação ao trabalho manual.

Viotti defende que o patriarcalismo no Brasil e o domínio das oligarquias, ao sobreviverem às mudanças do século XIX, associadas à sobrevivência da economia agrária de exportação, atribuem um papel especial ao bacharel. Nesse contexto, o bacharel foi nos centros urbanos, o representante do fazendeiro.

Liga-se a ele por laços de família ou de amizade, não sendo poucos os bacharéis que se converteram em fazendeiros, principalmente nas áreas em que a agricultura estava em expansão. (...)

O melhor testemunho da atitude dos bacharéis é dado pelo comportamento dos intelectuais. Alguns provinham, como Sílvio Romero, de famílias cujas atividades eram ou tinham sido essencialmente agrárias. Outros tinham origem estritamente urbana. Localizando suas atividades nos centros urbanos mais importantes, onde o contato mais íntimo com a cultura européia e com a vida urbana lhes dava relativo distanciamento da realidade rural, opunham-se, às vezes, teoricamente, ao domínio das oligarquias, denunciando a opressão que estas exerciam sobre as populações rurais e urbanas. Criticavam o latifúndio, a escravidão; preconizavam métodos de ensino mais modernos. Continuavam, no entanto, na dependência das oligarquias que queriam combater, ocupando cargos públicos para os quais eram nomeados por interferência de elementos da oligarquia, escrevendo em jornais ou revistas, publicando livros que se destinavam a um público leitor cujos limites não ultrapassavam de muito os da oligarquia ou dos grupos urbanos que compunham sua clientela (...) (VIOTTI, 1977, p. 202-203).

Ainda com relação ao desenvolvimento urbano que constituía o cenário do projeto de ascensão da elite piracicabana, na década de 1870, Piracicaba contava com a Estrada de Ferro Ituana, uma empresa de transporte fluvial a vapor, descaroçadores de algodão, novas técnicas da fabricação de açúcar, dando nova vida aos antigos Engenhos, a Fábrica de Tecidos de Luiz Vicente de Souza Queiroz, o Engenho Central do Barão de Rezende, e iluminação pública que “eram sinais do desenvolvimento econômico e da nova mentalidade capitalista, favorecendo, portanto, um surto cultural, com o aparecimento dos primeiros jornais de certa importância” (TORRES, 2003, p. 182).

Com relação à evolução do quadro político, quando se deu a arrancada republicana na década de 1870, houve a adesão dos piracicabanos ao Manifesto Republicano, e a presença de um grupo de piracicabanos à Convenção de Itu. Seguiram-se as ações do movimento republicano na cidade, como as Sociedades Beneficentes, com a construção da Santa Casa da Misericórdia, o Hospital de Lázaros, a Loja Maçônica, fundada por Prudente de Moraes e outros (TORRES, 2003, p. 182).

Torres afirma que antes de ser fundada a “Gazeta de Piracicaba”, outro jornal era editado desde 1874, o “Piracicaba”, que pertencia a Andrade Coelho, e tinha como redator, um promotor público local, o Dr. Brasílio Machado (TORRES, 2003, p. 182). Este jornal teve suas atividades encerradas quando Brasílio Machado mudou-se para São Paulo, em 1886.

No início dos anos de 1880, Piracicaba contava com uma população de pouco mais de 15.000 habitantes, e havia 5.339 escravos. Nessa época a cidade já contava também com trabalhadores de origem européia. Simões (2005) aponta a existência de imigrantes italianos, espanhóis e libaneses dentro da composição social local.

A guerra civil dos Estados Unidos da América contribuiu para aumentar o número de imigrantes no Brasil, e muitos norte-americanos instalaram-se em Santa Bárbara e Piracicaba, trazendo valiosa colaboração à cultura piracicabana, com a fundação de um Colégio de alto nível, além de novas práticas de agricultura (TORRES, 2003, p. 184).

No dia 11 de setembro de 1882, o reverendo norte-americano James William Koger deu início à instalação da Igreja Metodista de Piracicaba, a terceira a ser fundada no Brasil.

O lançamento festivo da primeira pedra, a 8 de fevereiro de 1883, da Igreja Metodista, coincidiu com o início da construção do atual Colégio Nossa Senhora da Assunção, no alto da rua Boa Morte, com lançamento da primeira pedra no dia 22 do mesmo mês. Da cerimônia encarregaram-se o Padre Francisco Galvão Paes de Barros, o Vigário Custódio Soares de Barros, vice-presidente da câmara municipal, o juiz municipal do termo, Dr. Afrodísio Vidigal, e Dr. Adolpho Alberto Nardy de Vasconcellos, promotor público (TORRES, 2003, p. 185).

O Gabinete de Leitura foi instalado em Piracicaba em 1876. Este seria, provavelmente, na interpretação de Torres, “o embrião da primeira biblioteca regular, mas já em 1880 ela vinha por ser extinta, e José Teixeira Mendes, um dos seus fundadores, enviava à Câmara Municipal o seu pequeno acervo, afirmando que era visto ser da competência da Câmara, por ter sido fundada por meio de uma subscrição popular” (TORRES, 2003, p. 186). A Câmara decidiu reorganizá-la e em 1884 passou a funcionar como biblioteca municipal, junto ao prédio da Câmara.

No ano de 1884, a cidade pode ver o surgimento de uma escola no Bairro Alto, e para sua direção foi nomeado o professor normalista Augusto César de Arruda Castanho, que havia recém terminado o curso da Escola Normal da Praça da República em São Paulo.

Mas a realidade das escolas piracicabanas era um quadro formado por escolas mal instaladas e com o desinteresse das autoridades pela instrução pública. Em 1891, o governo municipal de Piracicaba dirigiu ao Governo do Estado uma carta relatando a situação “desmantelada” em que se encontrava a escola pública na cidade, citando ainda que os membros do Conselho de Instrução do Município encontravam-se de viagem e que haveria entre eles, um conselheiro analfabeto.

Nos anos que se seguem, a precariedade das instalações das escolas existentes no município levou alguns piracicabanos a implementar uma campanha para a criação de um fundo, que fosse destinado a angariar recursos para a construção de um prédio destinado a ser um Grupo Escolar. Foi assim que nasceu a “Sociedade Propagadora da Instrução de Piracicaba”, com a participação de membros da elite local (TORRES, 2003, p. 189).

A lei estadual número 88 de 1892 organiza as Escolas Normais. Em abril de 1895 o vereador Manuel de Moraes Barros propôs à Câmara que endereçasse ao Presidente do Estado, pedido para a criação de um grupo escolar acompanhado de uma escola complementar, oferecendo para isso a quantia de 20 mil contos de réis. Nessa época, havia em Piracicaba 14 mil habitantes, com 1337 crianças em idade escolar, e só havia nove escolas públicas que não atendiam a demanda por instrução básica.

Um aviso do Tesouro do Estado de 27 de junho de 1895 comunicava haver recolhida nessa repartição a soma de vinte mil (20.000) contos de réis, reservada pelo Estado para a construção de um Grupo Escolar, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 17 de julho desse ano em terreno contíguo ao da chácara do cidadão Antônio Teixeira Mendes.

Para completar as obras do 1º. Grupo Escolar, a Câmara, que já tinha desapropriado terrenos na rua do Comércio, adquiriu mais cinco braças de frente por quinze de fundo, da chácara de Antônio Teixeira Mendes, do lado da atual rua Ipiranga e já em 13 de maio de 1897 funcionava em sua fase preparatória o que seria nosso atual Grupo Barão do Rio Branco. Este grupo escolar foi conhecido durante muito tempo como Velho, em oposição ao segundo grupo escolar instalado mais tarde no mesmo lugar da cadeia velha, o futuro Grupo Escolar Moraes Barros, conhecido como Novo (TORRES, 2003, p. 197).

A 27 de maio de 1896 o Inspetor Escolar, professor Arruda Castanho, foi nomeado membro do Conselho de Instrução Pública do Estado.

Primeiro presidente civil da república, Prudente de Moraes já tinha sido, no Governo Provisório, presidente do Estado de São Paulo. No seu governo foi criada a Escola Normal, e nessa época, foi iniciada a construção do edifício na Praça da República para nele se instalar a dita escola. A 3 de agosto de 1894 os Drs. Bernardino de Campos, Cesário Motta e J. Guimarães Júnior enviaram a Prudente de Moraes o seguinte telegrama:

Em nosso nome e do Governo de São Paulo vos saudamos como fundador da Escola Normal desse Estado cujo edifício acabamos de inaugurar (TORRES, 2003, p. 197).

Segundo Sodré, é no processo de surgimento de “brechas” no regime imperial, que inúmeros personagens foram colocados no centro da cena política, ou da cena artística e intelectual.

Pela centralização o império procurava destruir a grande força social representada pelas oligarquias provinciais, oligarquias que haviam suportado a direção dos negócios públicos desde a independência e que tinham tornado possível a autonomia brasileira, pela hierarquia de valores de toda ordem que representavam e pela soma de interesses que reuniam.(...) A grande e sólida política imperial (...) descambou (...) para um corte sucessivo, cada vez mais intenso e mais raso nos poderes dos oligarcas, reduzindo-os a expressões nominais, cheias de símbolos bonitos e de títulos e de comendas, mas inexpressivos como forças parceladas e paralelas que dariam equilíbrio ao regime (SODRÉ, 1998, p. 299).

A constituição da “elite letrada” é um dos fatores que devem ser considerados relevantes, quando se trata de localizar a ação desse grupo social no cenário urbano onde se tece o projeto político do país. Nesse tempo, a elite agrária do país se enfraquecia dando espaço para a elite letrada. Neste sentido, Sodré afirma que:

(...) a destruição progressiva da grande propriedade, a sua fragmentação lenta, retirava aos latifúndios a expressão antiga e aos proprietários o caráter de grandes senhores. Ora, essas oligarquias não eram mais do que a fonte e o amparo da elite agrária que delas emanava e dos seus quadros provinha. O enfraquecimento delas representava, em última análise, a destituição pura e simples dessa elite, que apoiara a independência e vinha dirigindo o país. O enfraquecimento da elite agrária, por sua vez, favorecia o advento da elite dos letrados que, apoiados pela obra sistemática do regime, pela fragmentação da propriedade, pela urbanização crescente da existência nacional, pelo aumento dos quadros burocráticos e outros fatores, se sentia com forças para assumir os postos de direção e dar o sentido político das mutações que haviam de surgir nos horizontes, mutações a que haviam de dar o signo teórico dos seus conhecimentos, numa atitude imitativa que ficou sendo um dos defeitos das reformas de qualquer ordem a que temos assistido e que nos trouxeram, por vezes, deformações e prejuízos incalculáveis (SODRÉ, 1998, p. 299-300).

É possível identificar através da imprensa, que os assim chamados “homens letrados" designavam a si próprios uma missão civilizadora. Essa é uma das características do sujeito histórico das elites, ou seja, a de um homem culto que defende o progresso à moda estrangeira. Entende-se que, à época, a idéia de “elite culta” era indicativa de ser educado pelo sistema formal de ensino a que somente poucos tinham acesso, da cultura que era adquirida nos poucos e restritos meios em que se podia tomar contato com o conhecimento científico existente no período.

É no segmento da camada intermediária que quadros foram recrutados e “desempenharam funções de natureza intelectual” (...) “nelas se recrutam ainda os que consomem os produtos do trabalho intelectual, aquilo que se conhece como público para as artes” (Sodré, 2003, p. 30).

Após o processo de independência do Brasil, a classe dominante passou a investir na organização do Estado. Mas para tal empreitada necessitou de mão-de-obra especializada, e por essa razão fundaram-se os primeiros cursos jurídicos, que mantinham uma formação intelectual de cunho elitista, e que aparecia como um ponto de contradição diante da realidade dos milhares de analfabetos que compunham a massa de brasileiros.

Quando se tratava de investir energia e recursos na educação, o Estado privilegiava uma “cultura desinteressada”, sempre pronta para preparar profissionais liberais. Além disso, excluía de seu programa o conhecimento prático do trabalho. É a cultura dos homens das letras em detrimento do homem do trabalho, uma contradição entre uma sociedade capitalista que se impunha, e uma sociedade que realmente necessitava de um desenvolvimento justo.

Os estudantes que, no Brasil, como aliás por toda a parte, vinham da elite da sociedade – do patriciado rural ou daquela pequena burguesia que procurava ascender às camadas superiores – dirigiam-se às aulas e aos ginásios, e daí às escolas das profissões liberais e especialmente às duas faculdades de Direitos. Na sociedade governada pelos interesses materiais de uma oligarquia de grandes proprietários rurais, exploradores de escravos, e pelo idealismo jurídico, cultivado nas duas faculdades, continuadoras das tradições coimbrãs, erguia-se, superior à estrutura social e econômica, a estrutura política, montada pelos homens de Direito, e aprofundava-se, em vez de se reduzir, a distância entre a cultura das elites e a das classes populares, que permanecem em relação àquelas, como a realidade mísera de um pobretão sob um manto de lentejoulas e de pedrarias... A realidade estava, realmente, no violento contraste entre a minoria de letrados e eruditos e a enorme massa de analfabetos (Sodré, 2003, p. 51).

Em Piracicaba, o partido republicano de lastro teórico liberal encontrava na figura de Paulo de Moraes Barros, mais um reforço em seu retorno à cidade como médico:

O Dr. Paulo de Moraes Barros, traz para sua vida civil e pública, um título conquistado pela sua robusta capacidade intelectual (...). Felicitamos a distinta classe a que ele hoje pertence, por contar no seu grêmio mais um confrade que muito a honra (GAZETA DE PIRACICABA, 9 de Janeiro de 1889).

Em 9 de janeiro de 1889, o “ilustrado” Dr. Paulo de Moraes regressa à Piracicaba na condição de médico recém-formado:

Dr. Paulo de Moraes - No sábado último chegou a esta cidade o Dr. Paulo de Moraes Barros formado há pouco pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e digno filho do nosso ilustrado amigo Dr. Manuel de Moraes Barros.

Na estação havia uma banda de música e grande número de amigos que ali foram esperar o trem onde devia vir o Dr. Paulo de Moraes, que acaba de fazer uma carreira brilhante na mesma Faculdade de Medicina e que hoje volta trazendo os louros de seus estudos no seio de sua família e de sua terra que orgulha de lhe ver restituído tão ilustre filho (GAZETA DE PIRACICABA, 9 de janeiro de 1889).

Podemos dizer que concomitantemente à titulação adquirida por estes personagens, há um esforço que os grupos dominantes realizavam para caracterizar a si próprios, contribuindo para a reprodução da classe. A profissionalização nas carreiras liberais consideradas de prestígio reforça a idéia nacional de uma elite letrada, especialmente no plano da urbanização presente em Piracicaba.

Considerações finais

A interpretação da cultura pode se tornar arcabouço do referencial da pesquisa em história da educação brasileira, na medida em que for alicerçada na relação que mantém com a realidade concreta, com as práticas sociais de seu contexto. Baseia-se a interpretação do fenômeno cultural desde o entendimento de que é a produção material da vida como um todo que permite explicar o fenômeno, desde a relação estrutura/superestrutura.

Qualquer análise do fenômeno cultural cuja interpretação venha a trilhar um caminho que apresente dados e fatos, baseados em informações que se detenham apenas no aspecto estrutural da história estará condenada, pois julgará seu objeto em detrimento de uma interpretação do fenômeno cultural. Ora, se o estudo concentrar-se somente nas idéias que se configuraram no período abordado, produzirá um efeito no qual elas sofrerão da fragilidade que corresponde ao que não pode se tornar real, pois não possuem correspondente material. Certamente o conceito de cultura encontra solidez quando pautado pela relação entre as condições econômicas e políticas, ou seja, por meio do estudo da dialética relação estrutura-superestrutura.

Quanto ao uso das categorias marxistas de análise, estas permitem explicar as relações que o objeto pesquisado mantém com a história, melhor dizendo, com a sua própria historicidade. É, portanto, na relação que construímos entre o objeto, a sociedade, e seu contexto histórico que se apreende o fenômeno da educação, uma vez que as categorias dão às práticas sociais e às idéias os seus sentidos.

As práticas sociais representadas por meio da Gazeta de Piracicaba indicam que na escala local, as movimentações políticas e sociais que ocorreram no período do final do século XIX em Piracicaba, possuem relação com o contexto do movimento republicano, bem como com o próprio processo de construção da nação, em busca de traços definidores do Brasil da época.

A imprensa constitui-se no veículo de comunicação das práticas sociais e políticas. O processo de informar, concomitante ao processo de modernização da cidade, é a base para difundir idéias, valores, hábitos. A relação social que se estabelece através da produção material da existência, se estabelece em conjunto com o estabelecimento da linguagem. A linguagem, por sua vez, como vimos, é a consciência real e prática que possibilita a existência em comunidade, que surge, necessariamente, como um produto social (MARX& ENGELS, 2004, p. 56).

A profissionalização nas carreiras de advocacia e medicina traz para o cotidiano de uma cidade do interior paulista, o exercício de relevante papel para o projeto de hegemonia da elite piracicabana. Pode-se dizer que concomitantemente à titulação adquirida por estes personagens, há um esforço que os grupos dominantes realizavam para caracterizar a si próprios, contribuindo para a reprodução da classe. A profissionalização nas carreiras liberais consideradas de prestígio reforça a idéia nacional de uma elite letrada, especialmente no plano da urbanização presente em Piracicaba. Essa faceta do processo histórico revela o processo ideológico que caracteriza uma cultura, e por conseqüência a educação.

O projeto político republicano é o responsável pela difusão de uma escola pública que surge para difundir os valores do liberalismo, mas também agem nesse mesmo contexto, aspectos da construção do sentido de nação, que significou na maior parte do tempo uma ideologização da cultura brasileira.

O caráter urbano que acompanha o desenvolvimento da concepção de educação é um aspecto que dá materialidade a esta interpretação dialética da história, já que era nos centros urbanos em expansão que se dava maior visibilidade ao projeto burguês de organização do ensino brasileiro.

Relacionando a história de Piracicaba com o contexto do estado de São Paulo e o do Brasil, pôde-se entender como esse é um processo que se origina na relação entre o geral e o particular, bem como entre o particular e o geral. Todas as mudanças que começavam a se fazer sentir em Piracicaba articulam-se dialeticamente com o contexto do desenvolvimento do capitalismo. É nesse processo que a construção do significado mediador da educação para a sociedade de Piracicaba é produto do projeto de ascensão da elite burguesa local. Esse também é um processo ideológico, pois não produziria possibilidades de ascensão para os demais componentes da sociedade. É para satisfazer os anseios da elite que a educação se torna suporte ideológico do processo de dominação. A educação é, portanto, mediadora dos interesses de classe, e por isso tem servido em diferentes contextos de instrumento do poder das classes dominantes.


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Fonte primária:



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i Mestre em Educação, na Área de Concentração “História, Filosofia e Educação”, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, desde 2008, sob a orientação do Professor Doutor José Luis Sanfelice. Graduado em Geografia pela UNESP, campus de Rio Claro. Atualmente é professor na Faculdade de Tecnologia de Piracicaba.



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