Identidade ocupacional1



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IDENTIDADE OCUPACIONAL1

MARILU DIEZ LISBOA


SER QUANDO CRESCER... – Refletindo sobre a formação da identidade ocupacional
“Ser quando crescer” constitui-se num tema fascinante por se tratar de considerações sobre o futuro, o porvir, uma continuidade na busca da completude da existência, do ciclo da vida dos seres humanos. Fascinante porque o caminho até este futuro se constitui em muito trabalho, desafios, envolvimento humano que, necessariamente, está voltado para a construção, neste caso, a do ser humano como totalidade.

Como pessoas todos nós, elementos da natureza, cumprimos o nosso ciclo. Naturalmente, quanto mais etapas pudermos atingir, experimentar, viver enfim, mais nosso ser no mundo será completo. Assim, “ser quando crescer” traz a perspectiva da possibilidade de completar mais ciclos na vida. Crescer traz uma conotação de desenvolver, construir. Desde que somos gerados iniciamos uma misteriosa construção, engendrada com detalhes que fogem, até hoje, ao nosso alcance, das mais belas que compõem o misterioso universo que até então conhecemos. “Ser quando crescer” faz parte deste processo só que, então, assumido por nós humanos, diferentes dos demais animais que compõem a natureza porque portadores de inteligência e linguagem, o que nos possibilita, portanto, crescer por nossa conta e risco. Se a natureza, ou Deus, ou os deuses, se encarregaram tão perfeitamente de nosso vir ao mundo, nós assumimos o nosso ser no mundo.

Nosso desenvolvimento depende de condições naturais específicas que incluem, necessariamente, um complexo humano que as sustentará.

Quando consideramos a assertiva “ser quando crescer”, não podemos deixar de levar em conta aqueles que se constituem como os responsáveis pelo desenvolvimento de cada indivíduo. Faz-se necessário pensar, então, nos núcleos, aqui nominados como família e sociedade.

O que seria de um filho que nascesse sem ter como base as expectativas do grupo familiar? Como se constituiria a sua identidade? Seria possível que ela viesse a se construir? Em relação à identidade, tudo inicia com a pergunta “quem sou eu? E “quem sou eu” inclui “filho de quem”?

RASCOVSKY (1986, p. 7) nos traz o significado do que possa ser para os pais o filho que irá nascer, significado este que terá um lugar determinante na formação da identidade do novo ser:

Um dia em nossas vidas ocorre o instante decisivo. Até então havíamos sido somente filhos, e agora passaremos a ser pais. Passaremos a realizar ativamente aquilo que havíamos experimentado passivamente. A fazer ao filho o que nos haviam feito enquanto filhos, ou a corrigi-lo. E assim reside a suprema oportunidade de reparar a própria tragédia infantil, ratificando no filho nossa dor e brindando-o com o amor que nos faltou.”

Complementando o autor, podemos dizer que também poderemos brindá-lo com o amor que nos foi dado.

O núcleo familiar é, neste momento, o mais importante para este ser que virá. Na verdade, ele é fruto de um momento, de uma união, independentemente da qualidade desta: se efêmera ou permanente, mas uma união de amor, dentro de circunstância mais ou menos permanente. Será dentro deste núcleo que o ser vivenciará suas primeiras experiências, aquelas que terão um significado forte, porque primeiras e porque na fase de vida em que absorverá intensamente o que lhe oferecerem.

No correr dos primeiros anos de vida outro núcleo, além do familiar, se fará aos poucos cada vez mais presente: o núcleo social. Ele já possuía um significado na vida do novo ser uma vez que a família está imbricada com o social, porque o ser humano somente pode ser compreendido vivendo em sociedade. A intensidade da inserção do social na vida da criança vai tomando vulto já que ela passa a conviver com outros grupos, de fora do núcleo familiar. Dentro desta ampliação do seu universo, vai identificando-se com pessoas, não se identificando com outras, identificações e não identificações estas que servirão como base na formação da sua identidade.

Segundo BERGER E LUCKMANN (1991), a sociedade é uma realidade ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, a partir do entendimento desta como um processo dialético em curso, que compreende três momentos: exteriorização, objetivação e interiorização.

Assim como os fenômenos sociais, o mesmo é verdadeiro com respeito ao ser individual que, simultaneamente, exterioriza o seu ser no mundo social e interioriza o mundo como uma realidade objetiva. Enquanto participante da dialética da sociedade, os autores colocam que o indivíduo não nasce membro da sociedade mas, sim, nasce com uma predisposição para a sociabilidade, tornando-se membro dela.

O primeiro momento do processo de sociabilidade é o de interiorização, isto é, quando o indivíduo apreende o sentido de algo, como manifestação de processos subjetivos de outrem, quando o que observa ou sente do outro faz sentido para ele. Naturalmente, o sentido apreendido não necessariamente será congruente, ou, terá correspondência com o que o outro exteriorizou. Os processos da subjetividade do outro poderão não corresponder aos seus mas, mesmo assim, poderão causar um efeito traduzido num sentido determinado para ele. A apreensão começa pelo “assumir” o mundo no qual outros já vivem. Este “assumir” não será um simples “engolir” do outro, mas poderá ser modificado criativamente, poderá ser recriado. Segundo BERGER E LUCKMANN (1991, p. 174),

(...) Em qualquer caso, na forma complexa de interiorização, não somente compreendo os processos subjetivos momentâneos do outro mas compreendo o mundo em que vive e esse mundo torna-se o meu próprio”.

Isto quer dizer que não se trata de uma interparticipação efêmera, mas a interparticipação de um tempo, numa perspectiva ampla, cujas situações são ligadas numa seqüência de inter-subjetividades. Há uma interligação que se estende para o futuro. Daí surge o mais importante, que é uma contínua identificação mútua que transcende o viver num mesmo mundo, mas leva a que cada qual participe do ser do outro. Segundo os autores, o indivíduo torna-se membro da sociedade somente depois de ter realizado este grau de interiorização.

A primeira socialização que o indivíduo experimenta, portanto, no início de sua vida, na infância, é denominada de socialização primária, aquela através da qual torna-se membro da sociedade. A segunda é aquela através da qual o indivíduo já socializado se introduz em outros setores da sociedade, a chamada socialização secundária.

A socialização primária se dá através dos primeiros contatos do ser humano com o mundo que o cerca. Todo indivíduo nasce dentro de uma estrutura social objetiva composta por seres que se constituirão nos outros significativos que se encarregarão do seu processo de socialização. Quem são estes? São seres impostos, “herdados”, como mãe, pai, irmãos, avós, tios etc. Estes acompanharão e serão os responsáveis pela socialização primária do indivíduo, os que fazem parte do mundo social objetivo em que ele nasceu. Assim, mais do que ter nascido dentro de uma estrutura social objetiva, o ser humano se insere num mundo social objetivo dado. Os outros significativos são os responsáveis pela mediação entre o ser o e mundo, modificando este mundo de acordo com sua localização na estrutura social e com as idiossincrasias individuais que fazem parte da história de cada um. Daí se poder concluir que o mundo social é filtrado para a criança de acordo com os valores dos outros significativos e, também, com os valores à posição social do grupo familiar, sua classe social, ou seja, ela participaráda e strutura social objetiva pela via que lhe for mostrada, criando e recriando, naturalmente, mas dentro do filtro estabelecido pelos outros significativos.

A questão das possibilidades de escolhas se insere aí. Os paradigmas serão dados, as oportunidades estarão imbricadas com o contexto, os valores estarão de acordo com as oportunidades de inclusão, de diferentes modos, na estrutura social objetiva. Assim

também estará inserida a formação da identidade profissional, uma vez que ela fará parte da estrutura social, onde os papéis serão desempenhados de acordo com cada grupo social.

A identificação que a criança processa com os outros significativos se dá através de uma multiplicidade de modos emocionais. Os autores afirmam que a interiorização somente se dá quando há identificação. A criança torna seus os papeis e as atitudes dos outros significativos tomando-os para si.

A socialização secundária se constitui na interiorização dos “submundos” baseados nas instituições, portanto com base na complexidade da divisão do trabalho e a distribuição social do conhecimento. Ela exige a aquisição de funções específicas, vocabulários específicos próprios da rotina em uma área institucional. Pressupõe a introjeção de realidades caracterizadas por componentes normativos, cognitivos e afetivos.

Segundo BERGER e LUCKMANN (1991) a socialização secundária pressupõe um processo precedente de socialização primária, ou seja, é uma introjeção do mundo numa personalidade já formada. Assim, neste momento, as limitações biológicas se fazem menos importantes enquanto as propriedades intrínsecas do conhecimento são priorizadas. O componente afetivo que se faz presente na socialização primária, onde a criança se relaciona através de uma forte carga de emoção com os seus outros significativos, cai em intensidade no processo de identificação secundária, que se dá primordialmente pela identificação mútua em quantidade normalmente estabelecida nas comunicações entre seres humanos.

As funções da socialização secundária se caracterizam pelo alto grau de anonimato e formalismo. Ilustrando, nesta etapa, em se tratando da vida de um jovem estudante, por exemplo, o conhecimento ministrado por um professor poderia ser feito por outro sem maiores implicações emocionais para o aluno. Naturalmente, na medida do crescimento infantil a figura do professor vai tomando diferentes significados, podendo esta, nos momentos iniciais de sua socialização, constituir-se num outro significativo, enquanto que, posteriormente, ser mais uma relação apenas em sua vida. No sistema de ensino atual em nosso país, fica marcada esta diferença quando da passagem do quinto para o sexto ano do ensino fundamental. Enquanto até o quinto ano o professor assume a classe, sendo apenas auxiliado por outros responsáveis por matérias como música, inglês e educação física, a partir do sexto ano existirá um professor para cada matéria. É o momento em que se inicia a pré-adolescência, quando o aluno passou pelo processo de identificação primária e inicia suas relações institucionais no papel de jovem, não mais de criança. Os professores passam a ter um significado diferente para os alunos, a carga emocional a eles dispensada se dará em maior grau somente se ocorrer uma identificação, por qualquer razão especial. Caso não, será mais uma relação, institucionalizada, passível de ser substituída sem causar danos em termos de sentimentos de perda.

As realidades interiorizadas a partir da identificação primária necessitariam de “graves choques” para que se desintegrassem. Já as interiorizadas na identificação secundária poderiam ser destruídas muito mais facilmente e sem os traumas que as interiorizadas na primeira infância poderiam provocar. Nesta medida pode-se concluir, à semelhança do que propõem os estudos desde a psicanálise, sobre a importância das figuras aqui chamadas de outros significativos, seu papel, as posturas adotadas, os valores que propiciarão como introjeção às suas crianças, e outros fatores decorrentes como determinantes do que será o ser humano pelo qual se responsabilizam. Na socialização primária o introjetado se constituirá em marcas definitivas, salvo “graves choques”, que se constituirão como parte do indivíduo até o fim de sua existência.

A construção da identidade ocupacional está diretamente vinculada à identidade pessoal, a qual vimos nos referindo deste o início deste capítulo. Segundo BONELLI (1995) são mesmo inseparáveis uma vez que incluem todas as identificações do indivíduo feitas ao longo da existência. Ocorre que, com base nestas identificações, a formação da identidade ocupacional se dá através da auto-percepção em termos de papéis ocupacionais ao longo do tempo.

O “querer ser” se repete no que tange ao campo profissional. Daí correr-se o risco do adolescente idealizar figuras sem base na realidade, confundindo, muitas vezes, a pessoa com o fazer, o sucesso ou a satisfação de outro no trabalho com as características do trabalho. Ou seja, pela identificação deixa de ver objetivamente as particularidades do fazer profissional e outros fatores que compõem este fazer.

Paralelamente à importância da família na formação da identidade pessoal e, com referência ao presente trabalho, que estuda a identidade ocupacional, faz-se importante considerarmos a concepção da identidade enquanto produção não pressuposta, isto é, não como algo dado, mas como uma construção que se processa através de mudanças, do que CIAMPA (1993) denomina de metamorfose.

O autor enfatiza que a identidade é a articulação temporal, no presente, do passado (história de vida) e do futuro (projeto de vida). Segundo CIAMPA (1993, p.160), temos que:



“Identidade freqüentemente é vista como representação (representada), vista como dada; vimos que considerá-la só do ponto de vista representacional (enquanto produto) deixa de lado o aspecto constitutivo (enquanto produção) bem como as implicações recíprocas desses dois momentos”.

Isto significa que se considerarmos a identidade enquanto produção estaremos abertos para a compreensão de uma construção, de um desenvolvimento da identidade enquanto metamorfose.

CIAMPA (1993, p.163) nos ajuda com sua concepção de identidade pressuposta, ou seja, como algo dado, pronto, definido, colocando que sob este enfoque:

(...) retira-se o caráter de historicidade da mesma, aproximando-a mais da noção de um mito que prescreve as condutas corretas, reproduzindo o social.”

A identidade ocupacional, portanto, se constitui como um processo, diretamente vinculado à construção da identidade pessoal, inseparável, intransferível, sendo que os papéis profissionais serão construídos necessariamente com base no que é significativo ao sujeito, principalmente quando este possui uma margem de escolha. Caso não haja esta possibilidade frustrações podem ser previstas e consideradas importantes no presente e no futuro.

BIBLIOGRAFIA2

ABERASTURY, A. e KNOBEL, M. Adolescência normal. 10 ed. Porto Alegre.

Artes Médicas, 1992. 92 p.

BERGER, P. e LUCKMANN, T. A construção social da realidade. 9 ed. Petrópolis. Vozes, 1991. 247 p.

CIAMPA, A. C. A estória do Severino e a história da Severina. 3 ed. São Paulo.

Brasiliense, 1993. 242 p.

FREUD, S. Psicologia de las masas. In: Obras completas de Sigmund Freud.

Madrid. Biblioteca Nueva, 1967, V. 1.

LISBOA, M. D. Orientação vocacional/ocupacional: projeto profissional e

compromisso com o eixo social. São Paulo, 1995. Dissertação

de Mestrado em Psicologia Social - PUCSP, 250 p.

RASCOVSKY, A. Conocimiento del hijo - desde su nacimiento hasta la

adolescencia. 5 ed. Buenos Aires. Orion, 1986. 243 p.




1Texto adaptado pela autora do publicado no livro: Psicodinâmica da Escolha Profissional. Organizadora: LEVENFUS, R. S.2ª ed. Porto Alegre. ARTAMED.

Proibida reprodução ou publicação deste material sem autorização prévia da autora.

E-mail: marilu@instserop.com.br


2 Texto adaptado pela autora do publicado no livro: Psicodinâmica da Escolha Profissional. Organizadora: LEVENFUS, R. S. 2ª ed. ARTAMED..

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