Ii domingo de Quaresma Ano c texto Bíblico Lucas 9,28-36 28 Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para reza



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II Domingo de Quaresma Ano C
Texto Bíblico
Lucas 9,28-36
28 Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. 29 Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante.

30 Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. 31 Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém.

32 Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele.

33 E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias". Pedro não sabia o que estava dizendo.

34 Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os

discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem.



35 Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!"

36 Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.
Lectio divina

As leituras deste domingo convidam-nos a reflectir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.

A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Com Abraão, somos convidados a “acreditar”, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.

A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.

O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projecto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em Homens Novos.
Lucas 9,28-36
Os três sinópticos relatam, com pequenas variantes, o que podemos afirmar ser a apresentação do verdadeiro Jesus ao trio especialmente escolhido como testemunho.

Estamos no final da “etapa da Galileia”; durante essa etapa, Jesus anunciou a salvação aos pobres, proclamou a libertação aos cativos, fez os cegos recobrar a vista, mandou em liberdade os oprimidos, proclamou o tempo da graça do Senhor (cf. Lc 4,16-30). À volta de Jesus já se formou esse grupo dos que acolheram a oferta da salvação (os discípulos). Testemunhas das palavras e dos gestos libertadores de Jesus, eles já descobriram que Jesus é o Messias de Deus (cf. Lc 9,18-20). Também já ouviram dizer que o messianismo de Jesus passa pela cruz (cf. Lc 9,21-22) e que os discípulos de Jesus devem seguir o mesmo caminho de amor e de entrega da vida (cf. Lc 9,23-26); mas, antes de subirem a Jerusalém para testemunhar a erupção total da salvação, recebem a revelação do Pai que, no alto de um monte, atesta que Jesus é o Filho bem amado. Os acontecimentos que se aproximam ganham, assim, novo sentido.

Para o homem bíblico, o “monte” era o lugar sagrado por excelência: a meio caminho entre a terra e o céu, era o lugar ideal para o encontro do homem com o mundo divino. É, portanto, no monte que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta os seus projectos.

Dos relatos, tomando os detalhes mais significativos, procuraremos fazer um compêndio o mais fidedigno possível, ao mesmo tempo que intentaremos descobrir intenções catequéticas e deduzir pareneticamente as lógicas consequências para o nosso tempo atual. Não podemos esquecer que os detalhes são tão importantes quanto o esqueleto da redação.



OITO DIAS: Segundo os outros dois evangelistas, foram seis. Mas o importante, à parte esta pequena diferença, é que o sucesso deu-se imediatamente após um pequeno discurso de Jesus proibindo que declarassem seu título de Messias, profetizando seu fim inglório, os avisos sobre a necessidade da renúncia e finalmente o anúncio de que o Reino seria visto por alguns deles antes da morte dos mesmos. Esta última afirmação é a que será confirmada por esses discípulos escolhidos e precisamente poucos dias após o anúncio efetuado. Isso nos dá pé para explicar o trecho de hoje com uma certeza indiscutível.

O MONTE: Contrariamente ao que ordenavam a lei e o costume judaico, Jesus sobe ao cume de um monte alto. Não era para sacrificar, mas para estar a sós, já que essa região era como se fosse proibida e não se esperava que a multidão estivesse lá. Era o medo aos BAMÁ, os lugares cúlticos nos cumes dos montes.como em 1 Samuel 9, 13 em que os setenta retêm a palavra BAMÁ, onde se celebravam os banquetes rituais após os sacrifícios. Eram lugares, onde a deusa feminina da fertilidade, Asherá, estava representada por um poste de madeira e a divindade masculina ou Matsebá por uma ou duas colunas que a simbolizavam (2Rs 3,2), à semelhança dos totens indígenas. Em Levítico 26, 30, Deus diz: ¨Destruirei seus bamá¨. Antes da monarquia os lugares altos eram lugares de culto a Javé, como vemos em Samuel no lugar antes citado. Depois da construção do templo por Salomão, os lugares altos representavam o envolvimento pecaminoso em cultos pagãos. Salomão construiu lugares altos para agradar suas mulheres(1Rs 11,7), que só 300 anos depois, na época de Josias, foram destruídos(2Rs cap 23). Jeremias ( Jr 19, 5) afirmará que as Bamá, que nos seus dias eram lugares de sacrifícios humanos, constituíram parte da razão da catástrofe de Jerusalém ao ser conquistada por Nabucodonosor em 586 aC. Os samaritanos adoravam no monte Garizim (Jô 4, 20). Jesus, que repudiou o uso mercantil do templo, acostumava orar no alto das montanhas (Mt 5, 1).

A ORAÇÃO: como era seu costume Jesus passa grande parte da noite em oração. A oração é o ato mais puro e profundo da adoração que um crente pode oferecer a seu Deus. Jesus, quando tinha um assunto grave, subia à montanha para orar e passava a noite em oração(Lc 6, 12). O acontecimento, do qual os discípulos foram testemunhas, foi uma explicitação do que passava dentro de Jesus. A sua intimidade com a lei (Moisés) e com as palavras dos profetas(Elias). A intenção primeira de Jesus foi a de orar e mostrar seus discípulos como a oração é primária na vida de um seguidor seu. Logo, quando orava, temos a esplendorosa epifania da qual eles foram testemunhas.

A TRANSFIGURAÇÃO: Marcos fala de metamorfose, transformação ou transfiguração. Dá-se muito geralmente entre os insetos desde o ovo até larvas e finalmente o inseto adulto. Lucas evita a palavra metamorfose devido a que entre os greco-romanos era uma palavra que descrevia certos mitos pagãos e fala de como se alterou o rosto e de que suas vestes se tornaram brancas e brilhantes. O fato de que seu rosto fosse outro indica que houve algo mais que um resplendor e dá ocasião a explicar como os discípulos não distinguiam a figura de Jesus ressuscitado. Mateus fala de que sua face brilhava como o sol e que suas vestes eram brancas como a luz, que a vulgata traduz como a neve. Marcos diz que suas vestes se tornaram tão brilhantes e brancas que jamais na terra um pisoeiro poderia purificar. O pisão era uma máquina para operar, mediante a percussão, a apertura e limpeza dos copos de algodão. As traduções falam de lavadeiro ou tintureiro. As descrições feitas pelos diversos videntes na história da Igreja confirmam estas descrições. Os videntes falam da luz como o componente substancial de suas visões. De fato alguns comentaristas afirmam que estas descrições de luz são uma referência ao relâmpago, elemento da cenografia apocalíptica, como em Dn 10, 6. Mas o que viram os apóstolos era uma coisa diferente da visão em Fátima. Jesus era uma realidade física que nesse momento estava transfigurado. De Moisés e Elias não poderíamos dizer a mesma coisa. Além de ser uma garantia para o ensinamento de Jesus, eles são testemunhas de que os mortos no Senhor vivem, ou seja, da persistência da vida além tumba.

MOISÉS E ELIAS: Eram os dois homens que conversavam com Jesus. Para Marcos foi visto por eles Elias com Moisés. Para Mateus Moisés com Elias. Como conheceram os apóstolos que eram semelhantes personagens? Não existiam como hoje desenhos ou pinturas com as quais poderiam identificar os mesmos. Por isso, escutaram seus nomes durante a conversa, ou talvez existiu alguma extrapolação a posteriori para delimitar a companhia de Jesus nesse momento. Sabemos que Moisés podia ser reconhecido pelo brilho de seu rosto, que na figuração cristã aparece como dois chifres de luz e que Elias era o profeta vestido como o Batista. Mas tanto um como outro não poderiam ser identificados unicamente por esses sinais, porque também estavam em majestade (em glória) segundo Lucas, ou seja, deslumbrantes de luz. Ambos, segundo a tradição deviam voltar nos tempos do Messias. De Elias temos o testemunho de Lc 1, 17 sobre o Batista: caminhará com o espírito e o poder de Elias; ou Jo 1, 21:és tu Elias? Perguntam ao Batista. De Moisés temos as palavras do Dt 18,18: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Em I Mc 15, 41 os judeus nomearam Simão chefe e supremo sacerdote, até que se erguesse um profeta fiel. Por isso também João, o Batista, é interrogado se ele era o Profeta(Jo 1,21). Moisés era o representante da lei e Elias era o profeta por excelência, que instaurou a lei nos tempos de Acab (I Rs cap 18). A Escritura, ou, como hoje falamos, a Bíblia, era denominada em tempos de Jesus por Lei e Profetas ou Moisés e profetas (Lc 16,29 ou 24, 27). Isso significa que a palavra de Deus reafirmava tudo o que era conversado. Eles foram vistos em glória ou majestade como alguns preferem traduzir a DOXA grega, ou seja, deslumbrantes de luz. Luz que é imagem do relâmpago que precede a presença divina, porque era a realidade da abertura dos céus, acompanhada pelo trovão, a voz do Senhor (Sl 29,2-3) como apareceu no batismo de Jesus(Mc 1, 10). Deus é luz(I Jo 1, 5) e é na sua luz que vemos a luz(Sl 36, 10). O fato é confirmado pelas visões modernas em Lourdes e Fátima, entre outras aparições recentes.

A CONVERSA: A conversa era sobre o êxito de Jesus que estava a ser realizado em Jerusalém. Evidentemente era sobre a paixão e morte de Jesus e até sobre a sua ressurreição, talvez abrangendo também sua ascensão aos céus. Todos estes eram fenômenos que estavam a acontecer em próximas datas em Jerusalém. De todos os modos o que não podia faltar era a morte de Jesus em Jerusalém como convinha a um verdadeiro profeta que anunciava os planos do Senhor, contrários aos planos dos homens (Lc 13, 33). Essa matéria constituía uma das preocupações mais sérias de Jesus, até o ponto de repetir três vezes a predição e de se sentir angustiado pela proximidade dos sofrimentos que a acompanhavam (Jô 12, 27).

AS TENDAS: Os três apóstolos estavam com sono pesado. Dormiam. E foi ao despertar(32) como nos diz Lucas que viram a glória de Jesus ( sua majestade segundo a vulgata) e os dois homens que estavam com ele. Os outros dois evangelistas omitem estas circunstâncias. Foi ao se afastar de Jesus os dois acompanhantes, que Pedro indicou a conveniência das três tendas ou cabanas(33). As tendas eram o único lugar de acomodação que os israelitas tinham durante os sete dias da grande festa das skenopégia ou Sukoth. Eram verdadeiros carnavais religiosos em que a alegria e a felicidade triunfavam sobre qualquer outro sentimento ou sensação. Pedro usa a palavra Epistates (Praeceptor em latim e traduzida por Mestre em vernáculo; é o Master inglês)) sendo que Marcos conserva o original Rabbi e Mateus traduz por Kyrie (Senhor) que Lucas usará também em outras circunstâncias como 5, 8. Parece que Pedro queria aproveitar o momento sem se dar conta do que estava pedindo, pois acabava de acordar. E foi nesse instante que apareceu a nuvem.

A NUVEM: Segundo o grego a palavra usada é NEFELE. Também temos NEFOS, esta última como palavra geral (nuvens diríamos em português) e nefele como massa limitada, uma nuvem bem formada com contornos definidos. Em hebraico temos AB de Ex 19,19 que os setenta traduzem por coluna de nuvem e que no hebraico é nuvem caliginosa como na vulgata latina é a nuvem que serve de estrado quando o Senhor vem julgar seus inimigos( Is 19 1)cavalgando numa nuvem ligeira ou finalmente como em Mt 24, 30 o Filho do Homem sobre as nuvens do céu. Existe uma outra palavra, ANAN, usada para a coluna de nuvem de Ex 13, 21. Esta palavra sai 80 vezes no AT, indicando em 75 delas a presença de Javé no tabernáculo. É a nuvem que pousará sobre o templo em I Rs 8, 10-11, manifestando a glória de Javé. Essa nuvem era escura durante o dia para se transformar em nuvem de fogo à noite. A nossa nuvem, segundo Mateus, era brilhante (não podemos esquecer que era noite) e uma manifestação da presença divina em glória ou majestade. Por isso os discípulos tiveram medo ao serem envolvidos pela mesma. Era a manifestação de Javé; e sua presença era sentença de morte para quem o visse, tal e como os judeus temiam em Ex 20, 19. É o temor que se apodera de todo humano quando o sobrenatural é sentido como sensação sensível e presente. Isso mesmo vemos nos relatos dos videntes em aparições que são de paz como as que tiveram os pastores em Belém ou Maria com o anjo.

A VOZ: Evidentemente era a voz de Deus, como no Sinai que se fazia ouvir da nuvem, assim como a glória do Senhor se manifestava nela (Ex 16, 19 e 19, 16). Em II Pd 1, 17 a voz é a de Deus Pai e dele procede o som que proclama duas coisas: 1º)A filiação divina de Jesus como o amado (Mt e Mc) ou como o escolhido (alguns manuscritos gregos de Lc). Qual a diferença? Escolhido indica uma direção messiânica e amado aponta a uma filiação única porque o superlativo não existe em hebraico. O grego ressalta esse adjetivo que se transforma em atributo, especialmente por ser precedido do artigo definido que transforma o simples amado em aposição pessoal ¨o amado¨. O sentido seria o meu filho primogênito ou único. Ambos eram especialmente objeto de um amor de escolha especial. Como o substantivo empregado em grego é Huiós, devemos descartar a tradução de servo, que em grego seria Pais. É a mesma voz que no batismo de Jesus o representa como o meu filho, o amado. Pedro, na segunda de suas cartas, nos diz ter sido testemunha da majestade do Senhor Jesus Cristo ao ter recebido este a glória e honra da parte de Deus Pai, quando da excelsa glória(= nuvem) fez chegar esta voz: Este é meu Filho, o amado, em quem comprazido me orgulho. 2º) O mandato de escutá-lo como antigamente se escutou Moisés ou a voz de Elias como a voz de Deus em cujo nome falavam. Por isso desaparecem tanto Moisés como Elias e fica Jesus sozinho. Ele é a vontade do Pai e representa os planos da grande obra salvífica que está prestes a revelar no seu êxodo em Jerusalém.

Síntese conclusiva
O relato da transfiguração de Jesus, mais do que uma crónica fotográfica de acontecimentos, é uma página de teologia; aí, apresenta-se uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que através da cruz concretiza um projecto de vida.

O episódio está cheio de referências ao Antigo Testamento. O “monte” situa-nos num contexto de revelação (é “no monte” que Deus Se revela e que faz aliança com o seu Povo); a “mudança” do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29); a nuvem indica a presença de Deus conduzindo o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22;10,34).

Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23). Eles falam com Jesus sobre a sua “morte” (“exodon” – “partida”) que ia dar-se em Jerusalém. A palavra usada por Lucas situa-nos no contexto do “êxodo”: a morte próxima de Jesus é, pois, vista por Lucas como uma morte libertadora, que trará o Povo de Deus da terra da escravidão para a terra da liberdade.

A mensagem fundamental é, portanto, esta: Jesus é o Filho amado de Deus, através de quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e Profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que, n’Ele, irá acontecer. Essa libertação definitiva dar-se-á na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus.

E o “sono” dos discípulos e as “tendas”? O “sono” é simbólico: os discípulos “dormem” porque não querem entender que a “glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas, no deserto?) parece significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus.

Apêndice
Dos Escritos do Magistério
A Transfiguração convida-nos a abrir os olhos do coração para o mistério da luz de Deus, presente em toda a história da salvação. Já no início da criação, o Todo-Poderoso diz:  "Fiat lux Faça-se a luz!" (Gn 1, 3), e verifica-se a separação entre a luz e as trevas. Como as outras criaturas, a luz é um sinal que revela algo de Deus:  é como o reflexo da sua glória, que acompanha as suas manifestações. Quando Deus aparece, "o seu esplendor é como a luz, das suas mãos saem raios" (Hab 3, 4 s.). Como se afirma nos Salmos, a luz é o manto com que Deus se reveste (cf. Sl 104 [103], 2). No Livro da Sabedoria, o simbolismo da luz é utilizado para descrever a própria essência de Deus:  a sabedoria, efusão da glória de Deus, é "um reflexo da luz eterna", superior a todas as luzes criadas (cf. Sb 7, 26.29 s.). No Novo Testamento, é Cristo que constitui a plena manifestação da luz de Deus. A sua Ressurreição debelou para sempre o poder das trevas do mal.

Com Cristo ressuscitado a verdade e o amor triunfam sobre a mentira e o pecado. Nele, a luz de Deus já ilumina definitivamente a vida dos homens e o percurso da história. "Eu sou a luz do mundo afirma Ele no Evangelho Quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8, 12).

(Papa Bento XVI, Angelus, Festa da Transfiguração do Senhor Castel Gandolfo, 6 de Agosto de 2006)

Recorda-nos isto também a página evangélica deste domingo, voltando a propor a narração da Transfiguração de Cristo no monte Tabor. Enquanto estavam atónitos diante do Senhor transfigurado, que discorria com Moisés e Elias, Pedro, Tiago e João foram repentinamente envolvidos por uma nuvem, da qual saiu uma voz que proclamou: "Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O!" (Mc 9, 7).

Quando se tem a graça de fazer uma forte experiência de Deus, é como se se vivesse algo de análogo àquilo que aconteceu com os discípulos, durante a Transfiguração: por um momento, saboreia-se algo daquilo que constituirá a bem-aventurança do Paraíso. Em geral, trata-se de experiências breves, que por vezes Deus concede, de maneira especial em vista de árduas provações. Porém, a ninguém é dado viver "no Tabor" enquanto estiver nesta terra. Com efeito, a existência humana é um caminho de fé e, como tal, progride mais na penumbra que na plena luz, não sem momentos de obscuridade e até de total escuridão. Enquanto estamos aqui em baixo, o nosso relacionamento com Deus realiza-se mais na escuta do que na visão; e a própria contemplação tem lugar, por assim dizer, de olhos fechados, graças à luz interior acesa em nós pela Palavra de Deus.

A própria Virgem Maria, embora fosse a mais próxima de Deus entre as criaturas humanas, caminhou dia após dia como numa peregrinação da fé (cf. Lumen gentium, 58), conservando e meditando constantemente no seu coração a Palavra que Deus lhe dirigia, tanto através das Sagradas Escrituras como mediante os acontecimentos da vida do seu Filho, nos quais reconhecia e acolhia a voz misteriosa do Senhor. Eis, então, o dom e o compromisso para cada um de nós no período quaresmal: ouvir Cristo, como Maria. Ouvi-lo na sua Palavra, conservada na Sagrada Escritura. Ouvi-lo nos próprios acontecimentos da nossa vida, procurando ler neles as mensagens da Providência. Enfim, ouvi-lo nos irmãos, de maneira especial nos pequeninos e nos pobres, nos quais o próprio Jesus exige o nosso amor concreto. Ouvir Cristo e obedecer à sua voz: este é o principal objectivo, o única que conduz à plenitude da alegria e do amor.

(Papa Bento XVI, Angelus, II Domingo de Quaresma, 12 de Março de 2006)

1. «Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu ao monte para orar» (Lc 9, 28). Começa assim o Evangelho da Transfiguração de Cristo, que caracteriza este segundo Domingo da Quaresma. O evangelista Lucas realça que Jesus se transfigurou «enquanto rezava» num monte alto, mergulhado no diálogo íntimo e profundo com Deus Pai. Da sua pessoa irradia-se uma luz resplandecente, a antecipação da glória da Ressurreição.

2. Todos os anos, em preparação para a Páscoa, a Quaresma nos convida a seguir Cristo no mistério da sua oração, fonte de luz e força no momento da provação. De facto, rezar significa mergulhar com o espírito em Deus numa atitude de adesão humilde à sua vontade. Deste abandono confiante em Deus provém a luz interior que transfigura o homem, fazendo dele uma testemunha da Ressurreição. Isto só pode verificar-se escutando Cristo e seguindo-O docilmente até à paixão e à cruz. Por conseguinte, é para Ele que devemos olhar, «porque só nele, Filho de Deus, há salvação».

3. Desejei dirigir esta exortação ao mundo inteiro há 25 anos, precisamente no início da Quaresma, com a Encíclica Redemptor hominis (cf. n. 7). Se o homem deseja compreender-se profundamente a si mesmo, escrevi então, deve aproximar-se de Cristo, deve entrar nele, deve «apropriar-se» e assimilar toda a realidade da Redenção (cf. n. 10). Como permanece actual esta verdade, também hoje!

A Virgem Mãe do Redentor nos ajude a recomeçar a partir de Cristo, para construir um mundo com uma dimensão verdadeiramente humana.

(Papa João Paulo II, Angelus, 7 de Março de 2004)



Dos Escritos dos Padres da Igreja
«O Mistério da Crucifixão e a Beleza do Reino de Deus»
Esta montanha da Transfiguração é o sítio dos mistérios, o lugar das realidades inefáveis, o rochedo dos segredos escondidos, o alto dos céus. Foram aqui revelados os segredos do Reino futuro: o mistério da crucifixão, a beleza do Reino de Deus, a descida de Cristo aquando da sua segunda vinda na glória. Sobre esta montanha a núvem luminosa cobre o esplendor dos justos; os bens do tempo futuro realizam-se já. A núvem que envolve a montanha prefigura o arrebatamento dos justos aos céus; mostra-nos já hoje o nosso aspecto futuro, a nossa configuração a Cristo...

Enquanto caminhava no meio dos discípulos, Jesus tinha falado com eles acerca do seu reino e da sua segunda vinda na glória. Mas, porque talvez eles não tivessem ficados suficientemente certos do que lhes tinha anunciado a propósito do reino, quis que se convencessem totalmente no fundo do seu coração e que os acontecimentos do presente os ajudassem a acreditar nos acontecimentos futuros. Por isso, no Monte Tabor, fez-lhes ver aquela maravilhosa manifestação divina, como uma imagem prefigurativa do Reino dos céus. É como se lhes dissesse: "Para que a demora não provoque a vossa incredulidade, em breve, agora mesmo, 'eu vo-lo digo em verdade: alguns dos que estão aqui' e que me escutam 'não conhecerão a morte sem que tenham visto vir o Filho do homem na glória do seu Pai' (Mt 16,28)". "Seis dias depois, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e leva-os à parte ao alto de uma montanha. E foi transfigurado diante deles"...

"Como é terrível este lugar: é a casa de Deus e a porta do Céu" (Gn 28,17). É para lá que nos devemos apressar.

(Anastácio do Sinai, monge ( - depois de 700), Homilia para a Transfiguração)


A Transfiguração, um esplendor do Reino
Os evangelistas sinóticos – Mateus, Marcos, Lucas – narram o evento da Transfiguração de modo quase idêntico: Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João – os dois últimos são irmãos -, mais vezes companheiros seus privilegiados “porque eram mais perfeitos do que os outros”, afirma S. João Crisóstomo; Pedro, porque amava a Jesus mais do que os outros, João porque era amado por Jesus mais do que os outros, e Tiago porque se unira na resposta do irmão: “Sim, podemos beber do teu cálice”(cf. Mt 20,22).

Jesus os conduz à parte a uma “alta montanha”, lugar por excelência das manifestações divinas; dirá a Tradição: o monte Tabor. Ali ele aparece radiante de uma luz esplêndida que emana “tanto de seu rosto brilhante como o sol” como de suas vestes – obra do homem, da cultura humana – e se irradia pela natureza circunstante, como o mostram os ícones.

Moisés – a lei – e Elias – os profetas – aparecem e conversam com Jesus. A primeira aliança aponta para a última. Lucas precisa que a conversa tem como tema o êxodo, a partida do Senhor. Pedro, em êxtase, sugere construir três tendas, na esperança de poder permanecer longamente naquele estado. Mas tudo está envolvido pela “nuvem luminosa” do Espírito, da qual ressoa no coração dos três discípulos agitados, prostrados com a face por terra, a voz do Pai: “Este é o meu Filho, o amado, escutai-o!”. Depois, tudo desaparece, e permanece Jesus, sozinho, que ordena aos três guardarem segredo a respeito do que tinham visto, “até que o Filho do homem ressuscitasse dos mortos”.

A partir do fim das perseguições romanas contra os cristãos, no século IV, foram edificadas diversas igrejas no Tabor. Sua dedicação parece estar na origem da festa que, a partir do VI século, difundiu-se por todo o Oriente Médio. No calendário ocidental foi estavelmente introduzida em 1457, pelo papa Calixto III, como reconhecimento pela recente vitória contra os turcos. Os evangelhos não permitem fixar, no ritmo anual, uma data para a Transfiguração. Com a intuição cósmica que o caracteriza, o Oriente fixou a data de 6 de agosto, grande meio-dia do ano, apogeu da luz do verão. Nesse dia se abençoam os frutos da estação; muitas vezes, nos países da bacia do Mediterrâneo, é a uva o fruto por excelência abençoado. O Ocidente, menos sensível ao alcance espiritual do acontecimento, mesmo conservando a festa da Transfiguração em 6 de agosto, preferiu acrescentar uma segunda celebração antes da Páscoa, no segundo Domingo da Quaresma, de tal modo seguindo mais de perto a cronologia da vida de Jesus.

No Oriente, a festa põe o acento na divindade de Cristo e no caráter trinitário de seu esplendor. “Conversando com Cristo, Moisés e Elias revelam que ele é o Senhor dos vivos e dos mortos, o Deus que tinha falado na lei e nos profetas; e a voz do Pai, que sai da nuvem luminosa, “dá-lhe testemunho”, recita a liturgia bizantina.

Contudo, a Transfiguração não é um triunfo terreno, que Jesus sempre rejeitou em sua vida – e aqui está o erro de leitura de Calixto III; nem mesmo é uma emoção espiritual para degustar – eis o erro de Pedro. É um lampejo, um esplendor daquele Reino que é o próprio Cristo, uma luz que é também a da Páscoa, do Pentecostes, da parusia quando, com o retorno glorioso de Cristo, o mundo inteiro será transfigurado.

Moisés e Elias, já o dissemos, falam com Jesus a respeito de sua partida, de sua paixão: apenas esta última fará resplandecer a luz, não no cume do Tabor, a montanha que simbolicamente representa as teofanias e os êxtases, mas no próprio coração dos sofrimentos dos homens, de seu inferno e, enfim, de sua morte. A liturgia ainda nos ajuda a entender: “Ouvi – diz o Pai – aquele que através da cruz esvaziou o inferno e dá aos mortos a vida sem fim”.

Para a teologia ortodoxa, a luz da Transfiguração é a energia divina (de acordo com o vocabulário precisado no séc. XIV por Gregório Palamas), isto é, o resplandecer de Deus: o mesmo Deus que, enquanto permanece inacessível na sua “supra-essência”, se torna participável aos homens por uma loucura de amor. Daqui a compreensão da importância desta festa para a tradição mística e iconográfica.

O resplandecer, o esplendor divino é tal que joga por terra, na montanha, os apóstolos. Mesmo assim, no Tabor ele permanece uma luz externa ao homem. Ora, ela nos é doada – como centelha imperceptível ou rio de fogo – no pão e no vinho eucarísticos. Então nossos olhos se abrem e nós compreendemos que o mundo inteiro está impregnado dessa luz: todas as religiões, todas as intuições da arte e do amor o sabem, mas foi necessário que viesse o Cristo e que nele acontecesse aquela imensa metamorfose – assim os gregos denominam a Transfiguração – para que enfim se revelasse que, à nascente dos veios de fogo, de paz e de beleza presentes na história, existe, vencedor da noite e da morte, um Rosto.

(Extraído de «As Festas cristãs», de O. Clèment)



Como é bom para nós estarmos aqui!
Como é bom para nós estarmos aqui! (Mc 9, 5), exclamou São Pedro. Quem, com efeito, consentiria em receber as trevas em lugar da luz? Vede o nosso sol: como é belo, como agrada aos olhos, como é bom! Como desejamos contemplá-lo, como brilha, como são cintilantes os seus raios! E a vida, vede como a vida é doce, e quanto amamos a vida!

Mas esta Luz de onde procede toda luz, quanto não será mais desejável e mais doce ao coração! E a Vida em si, de onde decorre toda a vida, na qual temos todos a existência, o movimento e o ser (At 17, 28), quanto não será mais digna do nosso amor e da nossa sede! Mas não há um desejo, por mais ardente, nem um pensamento, por mais profundo, que possam dar a medida de sua suprema grandeza. Ela excede toda comparação, escapa a toda medida. Como medir um ser infinito, que o pensamento não pode conceber? Esta Luz excede todas as criaturas da natureza. Ela é a Vida que venceu o mundo: como não seria infinitamente agradável permanecer junto dela?

Assim, não é descabida a reflexão de Pedro. No entanto, era preciso que o Bem supremo não estivesse reservado apenas para os que se encontravam no Tabor. Era preciso atingir todos os fiéis, encontrar o caminho de seus corações, para que um maior número pudesse participar daquela grande graça! Era preciso que se consumassem a Cruz, a Paixão e a Morte de Cristo. Não era bom que permanecesse no Tabor aquele que devia resgatar o mundo com seu próprio sangue, sendo esse o objetivo da Encarnação.

Pedro, se tivesses permanecido no Tabor, não teria sido cumprida a promessa que te fora feita; tu não terias sido o depositário das chaves do Reino; o paraíso não teria sido aberto ao ladrão arrependido; a arrogante tirania da morte não teria sido abolida; o inferno não teria sido destroçado: os patriarcas, os profetas e os justos não teriam sido libertados de seus abismos; a natureza humana não teria revestido a glória incorruptível.



(São João Damasceno, presbítero, Homilia XVI, In Transfiguratione (Patrologia Grega 96, 570))





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