Ii encontro cidades novas a construçÃo de políticas patrimoniais: Mostra de Ações Preservacionistas de Londrina, Região Norte do Paraná e Sul do País



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II ENCONTRO CIDADES NOVAS - A CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PATRIMONIAIS: Mostra de Ações Preservacionistas de Londrina, Região Norte do Paraná e Sul do País.


Intervenção Pública: identificação ou enquadramento da memória de Londrina

Adriely Martini de Oliveira1

Graziele Maria Freire2.
Resumo: Esta pesquisa procura analisar a intervenção realizada pela Prefeitura de Londrina – intitulada Aqui tem História – no período de 1993/96, na qual elegeu quatorze (14) locais no centro da cidade – área que corresponde ao xadrez central do planejamento urbano elaborado pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) – como lugares de memória. O estudo busca apreender o jogo simbólico contido nessa relação – poder e memória. A análise do conjunto de placas coloca em discussão o patrimônio material e/ou imaterial, bem como, a memória em Londrina. Põe em discussão, ainda, o objetivo do conjunto de placas que consiste em preservar e, principalmente, transmitir a história da cidade.

Palavras-chave: Memória, Patrimônio, Discurso.


Introdução
Nesses quatorze (14) lugares a Prefeitura fixou placas de bronze com imagens do passado acompanhadas de textos descritivos sobre o seu antigo uso, de tal modo que esses lugares foram instituídos como referenciais históricos, ou seja, locais que expressam memória. Tal fato mostra os espaços de memória de Londrina, seus usos e apropriações, que por meio da intervenção pública, contrapõe o passado ao presente.
Por remeter à idéia de solidariedade entre o passado e o presente, o patrimônio permite que se veja a tradição como fios invisíveis que costuram um espaço-tempo. Indissoluvelmente ligada ao passado, a tradição parece impor-se ao presente como coisa dada, pois tendo assegurado como foi o princípio ousa determinar o futuro. À medida que se fundamenta em garantias que não podem ser postas em dúvida, por ter como testemunho um passado vivenciado e tido como verdadeiro, a tradição constitui quase uma lei. (KERSTEN, 2000, p. 41)
Assim, como elucida a autora, podemos perceber que as placas podem ser compreendidas como um valor estabelecido socialmente, demarcando limites entre o passado e uma orientação de futuro a ser seguida, ou seja, ao instituir importância ao processo colonizador de Londrina e região, o Aqui tem História atribui à CTNP, aos grupos e empresas ligados a ela, um ideal de pioneirismo e modernidade que se constitui, como afirma Kersten (2000), “quase uma lei”, ou como ressalta Pollak (1989), as placas, de certa forma, silenciam as memórias subterrâneas que possivelmente existem em Londrina.
Desenvolvimento
Desse modo, a partir do patrimônio oficial, e, em específico, da intervenção da Prefeitura, a pesquisa pode investigar o discurso existente sobre o passado da cidade e região.
É das práticas discursivas sobre o patrimônio e a memória coletiva da cidade que este projeto se ocupa, tendo como questão, nesse tipo particular de leitura, a contradição existente entre tradição e moderno, mas, sobretudo, a constituição de um campo que, por meio de linguagens icnográficas e discursivas, expressa luta por capital cultural e poder simbólico. (CESÁRIO et. al., 2007, p.9).3
É importante registrar que o projeto Aqui tem História, ao eleger alguns espaços como referenciais de memória, notabiliza indivíduos e grupos e, ao mesmo tempo, silencia outros, apagando demais espaços. Tal fato confere pouca visibilidade aos trabalhadores, pequenos proprietários e outros grupos que também participaram do processo de colonização do norte do Paraná, privilegiando um segmento detentor do capital econômico e/ou político na região4.
Não se pode concentrar num único quadro a totalidade dos acontecimentos passados senão na condição de desligá-lo da memória dos grupos que deles guardavam a lembrança, romper as amarras pelas quais participavam da vida psicológica dos meios sociais onde aconteceram, de não manter deles senão o esquema cronológico e espacial. Não se trata mais de revivê-los em sua realidade, porém de recolocá-los dentro de quadros nos quais a história dispõe os acontecimentos, quadros que permanecem exteriores aos grupos [...]. (HALBWACHS, 2004, p. 90)
Tais lugares foram escolhidos por meio de um registro fotográfico de autoria de José Juliani, feita na década de 1930, a partir de um dos pontos mais elevados existentes no centro da cidade – a Catedral Metropolitana – registrando, em 180º, a paisagem urbana incipiente.5

O fato dos autores do projeto terem fixado os lugares de memória a partir dessa foto do início da colonização de Londrina, acabou por determinar um enquadramento da memória que acentuou lugares de atuação da CTNP ou de grupos e instituições a ela ligados que tiveram uma participação nos anos de fundação e organização da cidade e do município.

Aqui, cabe ressaltar uma questão pertinente e inquietante, sobre a redução da memória a grupos hegemônicos, o que resulta em uma memória homogeneizada, enquadrada, uma tendência que se observa nos estudos sobre o patrimônio cultural, sobretudo, na história oficial. Esse “enquadramento” da memória, como enfatiza Pollak (1989), além de servir como um referencial do passado – evidencia a disputa em torno da memória – bem como revela uma forma de manter a coesão dos grupos sociais.
O trabalho de enquadramento de memória se alimenta do material oferecido pela história. Esse material pode sem dúvida ser interpretado e combinado a um sem-número de referências associadas; guiado pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais, mas também de modificá-las, esse trabalho reinterpreta incessantemente o passado em função dos combates do presente e do futuro. (POLLAK, 1989, não paginado).
Considerando o levantamento do material e as primeiras entrevistas, uma primeira impressão que se tem é da existência de ambigüidade dos sentidos produzidos pelos lugares de memória. Pois, ao mesmo tempo em que os entrevistados se reconhecem e lembram os locais como históricos e memoráveis, eles não estabelecem uma relação de pertencimento com os locais. Essas impressões sugerem que o objetivo do Aqui tem História não está sendo cumprido, pois, os indivíduos se vêm exteriores ao passado de Londrina.

Em contraponto vemos que os entrevistados não conhecem em detalhes as placas mesmo quando utilizam o espaço de modo constante. O local é tido como um elemento exterior introduzido na vida dos indivíduos, tornando uma memória nova, incompatível com a memória de seu grupo.


Conclusões
Contudo, cabe ressaltar que esse estudo está em andamento, mas, já se pode observar que se por um lado há uma ênfase nos aspectos positivos da colonização dirigida pela CTNP, há um silenciamento de aspectos e questões negativas ou polêmicas.6 Enfim, as placas evedenciam um discurso grandiloqüente, racional, um referencial valorativo de reafirmação do pioneirismo e do regionalismo já presentes na história oficial de Londrina. Tal questão não impede que se reconheça neste projeto um recurso valioso para a educação patrimonial, desde que sejam feitas novas tiragens dos folders, dando maior visibilidade às placas e que os interessados em fazer esse quase despercebido percurso pela cidade, sejam levados a novas leituras dessa intrigante linguagem sobre o passado.
REFERENCIAS
CESÁRIO, Ana Cleide Chiarotti; et.al. PROJETO DE PESQUISA, Memória Coletiva e Patrimônio Cultural: Discursos Sobre a Cidade, UEL/2007.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Centauro Editora, 2004.

KERSTEN, Márcia Scholz de Andrade. Valor e Sentido, os rituais do patrimônio. In: Os Rituais do Tombamento e a Escrita da História. Curitiba: Editora UFPR, 2000.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989. Disponível em: www2.uel.br/cch/cdph/arqtxt/Memoria_esquecimento_silencio.pdf Acesso em: 22 mai 2009.



1 Aluna do 4º ano de graduação do curso de Ciências Sociais/ CLCH/ UEL – ex-bolsista IC/Fundação Araucária, atualmente bolsista Universidade Sem Fronteiras/ SETI. E-mail: adrielymartini@yahoo.com.br

2 Aluna do 4º ano de graduação do curso de Ciências Sociais/ CLCH/ UEL – bolsista Universidade Sem Fronteiras/ SETI. E-mail: grazimfreire@hotmail.com.

3 Esta pesquisa está inserida num trabalho maior intitulado: “Memória Coletiva e Patrimônio Cultural: discursos sobre a cidade”.

4 A propaganda da CTNP exaltou a importância da pequena propriedade como situação de igualdade de condições para os colonos interessados na compra de terras para se fixarem na região.

5 Essa foto faz parte do acervo do Museu Histórico Londrina Pe.Carlos Weiss.

6 Pode-se ressaltar: o desmatamento; o lucro por ela auferido por conta da venda dos lotes urbanos e rurais; a cidade como ponta de fronteira e lugar de passagem para os que se dirigiam às localidades mais distantes do vasto território que a CTNP comprou do governo paranaense.

Centro Universitário Filadélfia – UniFil. Londrina-PR. 13 a 16 de Outubro de 2009.


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