Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho



Baixar 57.61 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho57.61 Kb.
II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)



Vitorino Prata Castelo Branco e o primeiro Curso Livre de Jornalismo do Brasil

Osni Tadeu Dias – Mestre em Comunicação Social pela UMESP

Coordenador do curso de Jornalismo da Unigran – Dourados/MS
Resumo: O ano de 2003 marca os 60 anos do surgimento do primeiro curso de Jornalismo do Brasil, criado por Vitorino Prata Castelo Branco. Sua principal contribuição está na originalidade de ter lançado um curso de jornalismo numa época em que não existi­am escolas de Comunicação no país, após várias tentativas frustradas. Em 1943, Castelo Branco inicia uma série de palestras e conferências na sede da Associação dos Profissionais de Imprensa de São Paulo, culminando no primeiro Curso Livre de Jornalismo no Brasil. Em 2004, comemoramos os 100 anos do nascimento desse pioneiro, que foi um ardoroso defensor do diploma de jornalismo. O trabalho, também apresentado em formato livro eletrônico – em CD-ROM, mostra a trajetória intelectual de Castelo Branco, as dificuldades para implantação de seu curso e o reconhecimento tardio, anos depois.
Palavras-chave: História do Jornalismo, História da Imprensa, Vitorino Prata Castelo Branco.
Introdução

Este trabalho visa a construir o perfil biobibliográfico de um dos mais polêmicos pensadores do ensino da comunicação na América Latina e sua respectiva trajetória, buscando assimilar, por sua singularidade, a efetiva contribuição no campo das Ciências da Comunicação. A divisão proposta pelo professor Dr. Marques de Melo classifica Vitorino Prata Castelo Branco como um precursor dentro da comunidade brasileira de Ciências da Comunicação, ao lado de personagens como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini e Danton Jobim, entre outros. Sobre o pensamento comunicacional do biografado, é importante desta­car sua origina­lida­de em lançar um Curso Livre de Jornalismo numa época em que não existi­am escolas de Comunicação no Brasil, apesar de algumas tentativas sem sucesso.



Um visionário

Em 2003 completa-se 60 anos do surgimento do primeiro curso de Jornalismo do Brasil, criado por Vitorino Prata Castelo Branco, considerado um precursor dentro da comunidade brasileira de Ciências da Comunicação, ao lado de personagens como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini e Danton Jobim, entre outros. Sua principal contribuição teórica e metodológica está na originalidade de ter lançado um Curso Livre de Jornalismo numa época em que não existiam escolas de Comunicação no Brasil, após várias tentativas.

No Brasil, o começo do século foi marcado por iniciativas pioneiras na área do ensino da comunicação, sobretudo, em função das transformações pelas quais passava a imprensa, evoluindo então para uma fase industrial, principalmente nas capitais do país. Origi­nalmente surgida nos Estados Unidosi, a idéia de formar quadros responsáveis na área de jornalismo foi tomando corpo no país, sofrendo, tanto aqui como lá, a oposição, o preconceito e a incredulidade dos profissionais da área.ii

O país passava por transformações políticas, sociais e econômicas e a modernização viria a transformar o cenário urbano. Os jornais passaram a utilizar fotografias, ilustrações e a aumentar as tiragens. Em 1918, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), preocupada com o preparo de profissionais, tentou criar aquela que seria a primeira Escola de Jornalismo no país, baseada nos moldes das organizações norte-americanas, em seu Primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas.iii Mas foi só em 1935 que funcionaria, na Universidade do Distrito Federal, o primeiro curso superior de jornalismo. Procurando valorizar a formação humanística do profissional, a iniciativa de Anísio Teixeira foi frustrada, com a extinção da Universidade do Distrito Federal pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, que criou, em 13 de maio de 1943, o Curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia, inaugurado somente em abril de 1948.

Ainda em 1943, Castelo Branco inicia uma série de palestras e conferências na sede da Associação dos Profissionais de Imprensa de São Paulo, culminando no primeiro Curso Livre de Jornalismo no Brasil.

A família Castelo Branco

Os Castelo Branco surgiram em Portugal na Idade Média, deles se dizendo que “nos campos d’Ourique Cartéis Brancos se chamavam àqueles que, sob a flâmula de Afonso Henriques, o sangue derramaram pela terra portuguesa”.Soldados valentes que eram, os Cartéis Brancos traziam nos escudos o “rompante lyão dourado” da nobreza. Eram os Paio Soares, os Vascos Pais, os Sueiro Eannes, os primeiros Castelos Brancos, enfim. Francisco da Cunha Castelo Branco, capitão de Infantaria do exército português, vindo para o Brasil em 1693, deu início à árvore genealógica dos Castelos Brancos. Na viagem para o Brasil, nas costas do Maranhão, sofreu naufrágio, perdendo sua mulher, D. Maria Eugênia de Mesquita, e todos os seus pertences, salvando-se ele, porém, com três filhas - Ana de Mesquita Castelo Branco, Maria Monte Serrat Castelo Branco e Clara da Cunha e Silva Castelo Branco. No Maranhão, casa-se pela segunda vez, tendo deste novo casamento um filho - Manoel Castelo Branco, chefe de numerosa família, cujos membros se estenderam para o Pará, Ceará, Piauí, Pernambuco e até mesmo para o sul, formando o ramo paulista que se fixou em Brotas e em Rio Claro, no século XIX, e ao qual pertence Vitorino Prata, por parte da mãe, e Castelo Branco, por parte do pai, Pedro Castelo Branco, e do avô – Francisco Castelo Branco. Do ramo nortista, entre os des­cen­dentes de Francisco da Cunha, figura o ex-presidente e general Humberto Castelo Branco.


Principais influências

Castelo Branco, formado em Ciências e Letras, nutria uma grande paixão pela literatura, pela língua portuguesa e também pela poesia. Em seus trabalhos, Machado de Assis sempre aparece nas citações. Prova disso estava no “Curso de Jornalismo”, quando o autor destacava: “ninguém poderá opinar sobre literatura nacional sem ter lido as obras deste imortal escritor”. A exemplo de Barbosa Lima Sobrinho, que fez seu filho Fernando Barbosa Lima ler toda a obra de Machado de Assis e comentá-la, Castelo Branco acompanhou a educação das filhas e as fazia ler desde pequenas.

Otto Groth, que também faz parte de sua formação, é destacado em seu Curso Livre: "o experimentado jornalista alemão Otto Groth, em sua monumental obra ‘Die Zeitung’, aparecida em 1928, preconiza também a instituição de escolas de profissionais de imprensa. Aliás, a maior parte das nações européias já está adotando os cursos de jornalismo, movida pela necessidade de contar com profissionais de verdadeira preparação e capacidade”. Basílio de Guimarães, Humberto de Campos e Rui Barbosa estão também entre as influências mais constantes em seus trabalhos.
A união da classe jornalística

Uma das preocupações de Castelo Branco foi a união dos jornalistas em torno de uma entidade forte. Na década de 30, a própria ABI passara por um processo de divisão, com o surgimento do Clube da Imprensa e da Associação da Imprensa Brasileira. Em seu Curso Livre, dedica um capítulo à ética jornalística e cita Evaristo da Veiga como um dos maiores jornalistas brasileiros. Em seguida, afirma que, há vinte anos escrevendo em jornais, tinha um só desejo: o engrandecimento da classe.

Em 1945, existiam em São Paulo ao menos cinco entidades representativas dos jornalistas. Eram elas: a Associação Paulista de Imprensa, a Associação dos Profissionais de Imprensa, a Associação dos Jornalistas Católicos, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e a Associação dos Cronistas de São Paulo. Castelo Branco dizia que, por dever de ofício, todos os profissionais deveriam fazer parte dessas instituições.

Seus discursos, sempre inflamados, por vezes eram acompanhados de homenagens e versos sobre a Imprensa. Em 1º de outubro de 1944, na Associação Brasileira de Imprensa, pronunciou o discurso “Jornalistas do Brasil, Uni-vos”, onde evoca todos os jornalistas a se unirem em torno das associações de classe. Comparando a imprensa ao cristal de rocha, pede a coesão dos colegas para “evitar a desagregação das moléculas componentes do lúcido cristal que deve ser a imprensa indígena!” Neste período, Vitorino já sofria o percalço dos ataques por parte de alguns jornalistas da capital paulistana e, neste mesmo discurso, lamenta a falta de solidariedade dos colegas de ofício, complementando: “E ai do sonhador que pregar a renovação moral e material da imprensa, exaltando a necessidade de criar-se a Ordem dos Jornalistas, a exemplo da Ordem dos Advogados, a fim de controlarem-se as atividades profissionais”... “Será tido como visionário ou simples oportunista, as portas das redações fechar-se-lhe-ão; interditar-se-lhe-ão os artigos; ridicularizar-se-lhe-ão em colunas abertas ou esforços despendidos; procurar-se-lhe-ão anular por todos os meios, os trabalhos realizados; desconhecer-se-lhe-ão os planos e programas, na mais perfeita falta de solidariedade profissional e de descrença na própria capacidade renovadora da classe, bem capaz, se unida e forte, de renascer como a fênix da fábula, ainda que destruída pelo fogo de suas próprias paixões!”

Estas idéias fariam com que Castelo Branco não mais exercesse nenhuma atividade na área jornalística, optando pelo Direito a partir de então.
Em defesa do ensino de jornalismo

Vitorino Prata Castelo Branco foi ardoroso defensor do diploma de jornalismo. Ele afirmava categoricamente: “criaram uma superstição: a de que o jornalismo não se aprende na escola porque para ser jornalista basta ter o dom inato de escrever. É um grave erro, pois que saber escrever deve ser apenas uma das condições, a outra, também indispensável, é saber pensar bem, e só pensa bem, não se afastando jamais da ética profissional, o jornalista que possua boa formação moral”.

Diante das mudanças pelas quais passava a imprensa na época, citava entusiástico o curso de jornalismo nos Estados Unidos, principalmente a Universidade de Columbia. “A Escola de Jornalistas da Universidade de Columbia, fundada em 1912, por Joseph Pulitzer, diretor do famoso ‘World’, por exemplo, é procurada anualmente por mais de 3.000 candidatos, mas somente 60 conseguem ingressar, em vista do rigoroso exame de seleção a que são submetidos”. Afirmou, ainda, que o “New York Times contava à época com quarenta diplomados por aquela Universidade e que raros eram os jornais norte-americanos que não possuíam dois ou mais redatores formados pela Columbia University. Polêmico, indagava: “Se nos Estados Unidos é assim, por que não poderá ser também assim no Brasil?”

Aquariano, vivia além do seu tempo. Com seu Curso de Jornalismo, quebrou a monotonia secular da tarimba, provocou considerável agitação e, em função disso, sofreu muita resistência. E profetizava: “quebrando o rotinismo, outros mais capazes apresentarão novos cursos e, dessa forma, o sopro da renovação e de mocidade, levantará a poeira das velharias jornalísticas para deixar em pleno sol as novas organizações em que cada setor caberá a um técnico especializado”.


Buscando paradigmas

Os trabalhos de Castelo Branco sempre foram voltados para o aprendizado, produzindo obras marcantes na área do Ensino, Direito e Jornalismo. Contudo, o que mais traduz em Castelo Branco seu pensamento comunicacional está assinalado na obra “Curso de Jornalismo”, onde o autor reúne todas as aulas de seu Curso Livre de Jornalismo, que foram publicadas na revista Cursos e sistematizadas no compêndio que originou o livro.

No final de 1942, vai para a Argentina participar de um curso na Sociedad Argentina de Periodismo y Redacción, onde recebe o certificado de conclusão com o resultado sobresaliente. Em sua passagem pelo país, tem contato com o Círculo de Periodistas de la Província de Buenos Aires e com a Escola Argentina de Periodismo, da Universidad Nacional de la Plata. Ali, conhece a estrutura da Escola de Periodismo e seus antecedentes, seu primeiro plano de estudos, o regulamento e a início de seus cursos, em 1935. Com a mente repleta de ideais, volta ao Brasil com muito entusiasmo e decide criar um curso de Jornalismo:

“Era, nesta época, um jovem idealista, um jovem cheio de fé, e que acreditava em todo o mundo. Acreditando que as minhas credenciais eram ainda insuficientes, procurei fazer um curso de Jornalismo em uma escola em Buenos Aires – a Sociedade Argentina de Periodismo e Redação – e recebi, ao final do curso, o respectivo diploma com distinção, em 1942, quando, talvez, a maioria aqui presente nem tinha nascido. De modo que se trata de estória antiga e velha. E talvez tenha sido eu o primeiro pro­fessor de Jornalismo diplomado em São Paulo, e também no Brasil”.iv

Somente em maio de 1947 funcionaria em São Paulo a Escola de Jornalismo Cásper Libero, integrada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento, da Universidade Católica de São Paulo.
Curso Livre de Jornalismo

A grande contribuição de Castelo Branco na área da Comunicação se deu no ano de 1943, quando realizou o Primeiro Curso Livre de Jornalismo no Brasil, realizado oralmente, na sede da Associação de Profissionais de Imprensa de São Paulo (APISP), funcionando à época no último andar do prédio Martinelli. Aos alunos, eram entregues apostilas impressas, as quais formaram uma grande obra, somente encontrada na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo.

Para compor o livro, o autor nos mostra 67 referências bibliográficas, ao final da obra, com publicações nacionais e internacionais, que vão desde norte-americanas, francesas, portuguesas a cubanas. A obra encadernada possui 308 páginas em papel buffon, de primeira qualidade, 14 páginas em papel acetinado, também de primeira, e seis páginas em papel couché 24 quilos, de segunda qualidade.

A obra possui dezenas de gravuras coloridas, trazendo a história do jornalismo no Brasil e no mundo, a técnica de reportagem, a imprensa paulistana em 1945, exercícios e questionários. Para a sua divulgação, Vitorino produziu uma sofisticada mala direta em duas cores, ilustrada e impressa em papel especial. Nela, anunciava que o curso era “o primeiro trabalho no gênero, em língua portuguesa, posto à venda nas principais livrarias do Brasil”. Com a ajuda de suas filhas, ainda crianças, ele as enviava pelo correio. É importante notar que o autor esclarece, ainda: “o exercício cotidiano é quem faz o jornalista. Alguns existem que ‘falam’ melhor com a pena do que ‘redigem’, na tribuna do parlamento, uma petição oral. Somente a prática é que faz o mestre, seja no jornalismo, seja na oratória, seja em outra profissão”.

Castelo Branco dividiu o curso em doze meses, com um programa englobando desde a história do jornalismo – passando por Gutenberg, o poder da imprensa, o Jornalismo norte-americano, as vantagens do lead, Ética, Administração e Legislação, bem como incluindo composição, impressão e artes gráficas, várias fotos coloridas e em preto-e-branco e ilustrações em cada capítulo. É importante ressaltar que o projeto gráfico do livro é bastante inovador, sobretudo para uma época em que não havia microcomputadores.

O livro foi composto num tipo redondo, não serifado. Os textos que se referem a alguma citação são sempre serifados e é grande o espaço entre parágrafos, resultando numa diagramação bem leve e arejada, mesclando textos curtos com ilustrações em quase todas as páginas. Além disso, a obra traz poesias abordando a Imprensa e também o “Hino à Imprensa”, de Menotti del Picchia, executado em comemoração ao Dia da Imprensa, a 10 de setembro de 1939.

O aluno era avaliado mensalmente, constituindo assim a parte prática do curso. No último mês letivo, era feito o Exame Final do Curso, por intermédio de um exercício no qual ele comprovaria sua eficiência, estando apto, portanto, para desempenhar qualquer cargo de redação. O aluno deveria redigir um artigo com o tema “O Mundo Após Guerra”, apresentando idéias e sugestões para “a formação do mundo do amanhã”.
O calvário do pioneiro

O Curso Livre de Jornalismo tornou-se por sua vez o primeiro marco bibliográfico do ensino do jornalismo no Brasil. Porém, cercado por muita polêmica – pois não se admitia a possibilidade de aprendizagem acadêmica do jornalismo – a iniciativa de Vitorino Prata Castelo Branco foi considerada ousadia imperdoável, sofrendo ele terrível campanha apoiada pelos maiores órgãos da imprensa de São Paulo.

Na apresentação de seu livro, o autor ressalta a perseguição da qual foi vítima: "este curso tem uma história. É o primeiro, no gênero, em língua portuguesa, e por ser o primeiro teve que sofrer os percalços das novidades. Foi atacado, apupado e apedrejado, mas não foi vencido. Sempre renasceu, como a fênix da fábula, mais forte e mais completo".

O autor considerava o curso uma Escola Elementar de Jornalismo. Para ele, o curso fora organizado e escrito para “aqueles que desejam aprender sozinhos, estudando nas horas vagas, no calor do lar”. A iniciativa fez com que o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo pedisse o cancelamento do registro de sua revista de ensino por ter publicado um curso de jornalismo.

Entre várias acusações, estavam as de que a escola de jornalismo por correspondência era mantida por uma associação de imprensa inidônea e que, com lições primárias, enganava aos incautos, ganhando fortunas com um negócio puramente comercial. Vitorino foi acusado de não ser jornalista e de manter em funcionamento cursos ilegais, pois a manutenção de cursos caberia somente ao governo.

Castelo Branco passou a ser alvo de uma campanha devastadora por parte de jornais de São Paulo. Segundo a família, os jornalistas Maurício Loureiro Gama e Tico-Tico eram os principais articuladores dos ataques contra o criador do curso. A partir de então, começou a sofrer uma grande pressão por parte dos jornalistas.

Anos mais tarde, na Universidade de São Paulo, Castelo Branco declarou: “assim, passei a ser alvo de uma campanha difamatória. As crônicas e notas foram aparecendo em vários jornais a cada dia. Um jornalista, do extinto Diário de São Paulo, publicou um violentíssimo artigo contra mim e contra o curso. Dizia que jornalismo é vocação e não se aprende em escola, e que aquele que se propusesse a ensiná-lo estava abusando da credibilidade pública. Segundo ele, abuso da credibilidade pública era crime e que, portanto, como ilegalidade prevista no Código Penal, eu deveria responder por ele, estando já aberto contra mim, inquérito na 1ª Delegacia Auxiliar de Polícia”.

Em 15 de outubro de 1944, o autor consegue publicar uma defesa em Seção Livre, mediante pagamento, no jornal Folha de São Paulo, num domingo. No final de sua defesa, o autor já anunciava o lançamento de seu livro no ano seguinte. “E depois, um trabalho deste não se extingue com facilidade. Fizeram tudo para matá-lo, quando realizado oralmente, e ele renasceu na revista. Fazem tudo para destruí-lo na revista e ele renascerá, brevemente, nas montras das livrarias, como prova de que é possível ferir o homem, mas nunca sufocar seu pensamento”.v

Assim como a tentativa do general Lee, em 1869, no Washington College, o ensino de jornalismo no Brasil sofreu, de súbito, a oposição de jornalistas, que decidiram atacar Castelo Branco e sua iniciativa. “É interessante destacar que essa significou a primeira reação dos setores profissionais e empresariais ao ensino de jornalismo, o que persistiria depois, também em cursos oficiais. Aliás, o curso de Vitorino Prata Castelo Branco inicia a série de cursos livres de jornalismo que viriam a existir em várias cidades brasileiras, paralelamente aos cursos regulares e até mesmo como um desafio a eles".vi

As conseqüências das campanhas contra Vitorino causaram muitos problemas a ele e sua família. O autor chegou a ficar acanhado, com medo de sair às ruas e ser apontado com aproveitador da credibilidade pública.


Inovador e patriota

Filho de lavradores (Pedro Castelo Branco e Leonor Prata Castelo Branco), Vitorino Prata Castelo Branco nasce a 29 de janeiro de 1904, em Itirapina, comarca de Rio Claro, interior de São Paulo. Casado com Beatriz Paula de Abreu Castelo Branco, teve três filhas: Ana Leonor, Beatriz e Maria Aparecida Castelo Branco.

Adepto da homeopatia, numa época em que esse ramo da medicina não era muito conhecido, tornara-se totalmente contrário aos antibióticos. Para convencer suas crianças a tomar os medicamentos, dizia: “tome filha, isso é para você ficar bonita”. O gosto pela homeopatia o levaria a publicar “O Pêndulo Mágico”, em 1962, cuja obra oferecia um conhecimento e domínio da radies­tesia, orientando também sobre os princípios básicos da homeopatia, con­cluindo com um guia para o tratamento médico homeopático-radiestésico e uma série de medicamentos, segundo a doença. Ao fim do livro, Castelo Branco traz um repertório de algumas moléstias com o respectivo tratamento, hoje largamente utilizado pela homeopatia e pela antroposofia.

Conclui o curso primário com seus pais e o curso secundário na cidade de Rio Claro. Em 25 de maio de 1924, o semanário “A Berlinda”, da cidade de Limeira estampava em sua primeira página uma poesia intitulada “Saudação”, trazendo em seu sexto verso citações ao jovem Castelo Branco:

“Há aqui outro Thesouro,

Cujo nome tem errata:

- Não é - Victorino Prata -,

- E sim - Vitorino Ouro; -

É de dotes peregrinos,

Organização completa

De artístico poeta,

Esse autor de Sonetinhos!”

Aos 22 anos de idade, o jovem Vitorino participava ativamente da vida social e intelectual de Limeira, contribuindo para a “mise en scéne” (revista teatral) intitulada “Ave, Limeira”, uma revista criada por ocasião das festas de Natal da cidade. A revista contava, em três atos e uma apoteose, com 25 números de música dos maestros Mário Monteiro e Francisco Puzzone, riquíssimo guarda-roupa e cinco vistosos canários.

O rapaz amadurece e se torna professor da Escola Normal de Limeira e diretor do colégio São José, de Matão, interior de São Paulo. Em Rio Claro, foi professor da Escola Técnica de Comércio Professor Arthur Bilac. Foi também diretor do Instituto Comercial de Limeira e diretor do Instituto Paulista de Comércio. Tornou-se bacharel em Ciências e Letras e cursou Ciências Contábeis, tornando-se contador pelo Instituto Comercial do Rio de Janeiro.

Introvertido, tinha poucos amigos e inúmeros admiradores. Tinha a personalidade forte e gostava do debate e da oratória. Trocava correspondência com notáveis e recebia diversas cartas de todo o país, elogiosas a seus artigos, conferências ou cursos que ministrava. Patriota, participou de várias marchas e atividades cívicas e criou hinos para todas as entidades a qual presidiu. Nacionalista, discursava sempre pela grandeza, pela unidade e pelo bem do país. Afirmava que “os jornais do interior devem ser, sobretudo, nacionalistas, patriotas e decididos na defesa do Brasil, dos seus heróis, das suas tradições, de suas coisas, fugindo sempre das idéias dissolventes e desnacionalizadoras”.

Com breve passagem por Santos, de janeiro de 1936 a agosto de 1937, em 21 de setembro de 1936 entra em contato em com a Ação Integralista Brasileiravii, cujo gabinete do Chefe Nacional ficava à rua da Quitanda, nº 51, 1º andar, em São Paulo, e oferece um donativo no valor de 50$000 pelo Banco Comercial do Estado de São Paulo. Em 31 de novembro do mesmo ano, a AIB, por meio do Chefe de Gabinete interino e de seu Secretário Assistente, Simões de Castro, agradece a boa vontade do professor em auxiliar a entidade. Na carta, a Ação Integralista, fundada em outubro de 1932, “se julga merecedora dos seus aplausos e até do seu voto nas próximas eleições, em virtude do trabalho que a mesma desenvolve no sentido da unidade nacional”.


Trajetória intelectual

Chegando a São Paulo em agosto de 1937, cria a Associação Educacional de São Paulo, cujo objetivo era difundir a educação popular, por meio de cursos por correspondência, conferências públicas, jornais e re­vistas, a educação cívica e a educação individual, “incutindo em cada brasileiro a fé, o entusiasmo e o otimismo, procurando fazer de cada desanimado ou fracassado um vencedor”.viii

Influenciado por sua passagem pelo litoral paulista, escreve a obra Santos, em 1938, que é um Resumo Histórico e Geográfico, para uso das escolas e colégios, com ilustrações de T. Mendonça.

Em 1952 ingressa na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, finalizando o curso em 1956, com a média final de 7,5 no 5º ano. Também na área de Direito, conclui doutorado pela Universidade de São Paulo em 1958.

Recebeu inúmeros certificados e homenagens, na área de comunicação, filosofia, letras e direito. Na área de jornalismo, participou de cursos de aperfeiçoamento na USP e na Sociedade Argentina de Periodismo e Redação, atuando também em rádio, com um programa ao vivo na Rádio Gazeta.

Em sua trajetória no jornalismo, fundou e dirigiu os periódicos “Cursos”, da As­so­ciação Educacional de São Paulo; “O Commercial” e “Pátria”, em Limeira e “Mocidade”, em Matão, todos ligados à área da educação. Também em Limeira, foi durante muitos anos colaborador do jornal “O Limeirense”, onde iniciou sua carreira no jornalismo por meio do diretor Luciano de Araújo. Em Matão, colaborou para “A Comarca”.


Reconhecimento tardio

Alguns anos depois, a Associação Paulista de Imprensa, em seu Jubileu de Prata, decide homenagear todos os jornalistas associados com mais de 25 anos de imprensa com um diploma de Honra ao Mérito e premia Castelo Branco em 1º de maio de 1958.

Depois de muita luta e sofrimento, às vésperas do golpe militar de 64, Mauricio Loureiro Gama, publica um editorial com o título “Jornalismo”, onde diz que para se ter orgulho da profissão, é preciso exercê-la qual um sacerdócio, com coragem, sinceridade e pureza d’alma. E cita seu até então desafeto Castelo Branco. “Perante os interesses legítimos da pátria, o jornalista idôneo tem a mesma responsabilidade do professor. Ambos defendem ideais e idéias. E ambos porfiam quase na mesma lida sem desfalecimentos, lutando para edificar o país melhor de amanhã, agitando e esclarecendo, na mesma constante formação de novos caracteres, firmes e patrióticos ou céticos e dissolventes, segundo as expressões de Vitorino Prata Castelo Branco”.ix

Em novembro de 1986, A Universidade de São Paulo inicia o I Curso de Aperfeiçoamento para Professores de Jornalismo, em conjunto com a Editora Abril e a Gazeta Mercantil. A abertura contou com a presença de Luis Beltrão, Pompeu de Souza e Vitorino Prata Castelo Branco que, na ocasião, recebeu uma medalha das mãos da ministra da Educação, Esther de Figueiredo Ferraz. Emocionado, declarou: “me considero perfeitamente pago pela minha idéia jovem de quarenta anos atrás”.



Bibliografia

Jornalismo:



Curso de Jornalismo. Editora Castelo Branco, São Paulo, 1945.

Jornalistas de Todo o Brasil, Uni-vos! Discurso na Associação Brasileira de Imprensa, 1944.

A Renovação da Imprensa. Discurso na Associação dos Profissionais de Imprensa de São Paulo, 15/10/1943.

O Jornal e o Livro. Conferência na Biblioteca Municipal de São Paulo, 20/05/1943.

Cultura Jornalística. Discurso no Centro Gaúcho de São Paulo. 01/04/1943.

História:



Santos, Resumo Histórico e Geographico para uso das Escolas e Collegios. Associação Educacional de São Paulo, São Paulo, 1938.

Um Esteio da Liberdade na Corte do 2º Império. Sugestões Literárias S/A, São Paulo, 1973.


Seleções Castelo Branco (Separatas da Revista Cursos):

Datilografia em Seis Dias - Sem Professor. Editora Castelo Branco, São Paulo, 1949.

Lucros ou Perdas? Editora Castelo Branco, São Paulo, 1949.

Guia para os Mimeografistas. Editora Castelo Branco, São Paulo, 1949.

Arte de Fazer Versos. Editora Castelo Branco, 2ª edição, São Paulo, 1949.

Versos Simplesmente. Editora Castelo Branco, São Paulo.

Curso de Eloqüência: a Arte de Falar em Público ao Alcance de Todos. 5ª edição, São Paulo, 1950.

O Pêndulo Mágico. Editora Melso S/A, 1ª edição, Rio de Janeiro, 1962.

A Arte de Falar em Público, 3ª edição, São Paulo, 1969.

Um Esteio da Liberdade na Côrte do 2º Império. Sugestões Literárias S/A, São Paulo, 1973.

Direito:


A Naturalização de Estrangeiros. Gráfica-Editora Michalany Ltda., São Paulo, 1960.

Aprenda Sozinho Direito Romano. Editora Pioneira, 1ª edição, São Paulo, 1965.

Como se faz uma Defesa Criminal. Sugestões Literárias, 6ª edição, São Paulo, 1968.

Crimes Contra o Patrimônio. Sugestões Literárias, 2ª edição, São Paulo, 1968.

O Advogado em Ação. Sugestões Literárias, 5ª edição, São Paulo, 1969.

Prática Penal na Segunda Instância. Sugestões Literárias, 1ª edição, São Paulo, 1970.

Direito Penal, Parte Geral. Sugestões Literárias, 1ª edição, São Paulo, 1970.

Crimes Sexuais. Sugestões Literárias, 3ª edição, São Paulo, 1973.

Aulas de Direito Penal. 2ª edição. Livraria Freitas Bastos, São Paulo, 1986.

A Defesa dos Empresários nos Crimes Econômicos. 1ª edição. Livraria Freitas Bastos, São Paulo, 1982.

Criminologia Geral. 1ª edição. Livraria Freitas Bastos, São Paulo, 1980.

O Advogado e a Defesa Oral. 2ª edição. Livraria Freitas Bastos, São Paulo, 1979.

O “Habeas-Corpus”. Edição Especial em fita cassete, 1978.

Notas




i SODRÉ, Nelson Werneck. A História da Imprensa no Brasil. Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1966, p.315.

ii RIZZINI, Carlos. O Ensino do Jornalismo, Rio de Janeiro, 1953, pág. 44.

iii SÁ, Victor de. A Escola de Jornalismo in Um repórter na ABI. Ed. A Noite, Rio de Janeiro, 1955, pág. 220.

iv USP, Ensino de Jornalismo, 1989.

v Nota publicada no jornal Folha de São Paulo, domingo, 15 de outubro de 1944, página 24.

vi MARQUES DE MELO, José. Contribuições para uma Pedagogia da Comunicação, Edições Paulinas, 1974, pág. 17.

vii O integralismo foi criado e orientado pelo escritor Plínio Salgado, antigo político do Partido Republicano Paulista. O movimento proclamava-se nacionalista e tinha como lema “Deus, Pátria e Família. No ano seguinte, em 10 de novembro, por meio de um documento (Plano Cohen) forjado por um oficial integralista, Getúlio Vargas projeta um golpe de Estado a partir de duas medidas: fechamento do Congresso e outorga ao país de uma nova Constituição, previamente preparada”.

viii A Associação Educacional de São Paulo tinha, entre outros objetivos, difundir a educação cívica, pregando os deveres dos cidadãos brasileiros para com Deus, para com a Pátria e para com a família. Curiosamente, foi fundada a 7 de setembro de 1937, dia da Independência do Brasil. Segundo as filhas, Vitorino era também muito católico. Sua família era numerosa: ele tinha também sete netos e 12 bisnetos.

ix Texto publicado em 20 de fevereiro de 1964 no jornal Gazetilha, do então editor Maurício Loureiro Gama.


Catálogo: alcar -> encontros-nacionais-1 -> encontros-nacionais -> 2o-encontro-2004-1
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> Jornalismo e Lingüística: uma proposta de InterComunicação Érika de Moraes
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> Odilon sergio santos de jesus
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
2o-encontro-2004-1 -> O marketing social na história da criaçÃo de marcas1 Prof. Ms. Rodrigo Piemonte Ribeiro2


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal