Ii encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)



Imprensa Piauiense e os Ideais Republicanos : A atuação do Jornalista David Moreira Caldas no Piauí
Ana Regina Barros Rego Leal

Mestra em Comunicação e Cultura – ECO-UFRJ

Profa. Assistente –UFPI

RESUMO

O presente trabalho aborda a temática republicana no âmbito da Província do Piauí na segunda metade do século XIX, através das manifestações do jornalista David Moreira Caldas nos diversos jornais no qual atuou. Nesse sentido, busca-se resgatar a abrangência do movimento republicano em terras piauienses cuja trajetória conflui totalmente para a figura de David Caldas. As abordagens dos historiadores constituem vasto e variado modo de visão da atuação deste personagem da história política e jornalística do Piauí, indo do mito do “Profeta da República” ao enquadramento como literata, no entanto, este paper busca dar visibilidade ao trabalho do jornalista valorizando sua contribuição para a propagação do movimento republicano.


PALAVRAS-CHAVE: Movimento Republicano, Jornalismo, Política , David Caldas

I

A produção jornalística do Piauí no século XIX, no tocante à questão política, aspecto considerado importante, ainda não chegou a ser suficientemente analisada. Existem registros importantes sobre a origem e o desenvolvimento dos jornais impressos no Piauí, entre 1832 a 1900, mas poucos se detêm no aspecto político do jornalismo praticado à época.

Sem dúvida, em âmbito nacional, o movimento republicano desperta interesse e atenção de vários pesquisadores, alguns dos quais com trabalhos expressivos, que conseguem dissecar a complexa composição desse partido. No caso específico do Piauí, David Caldas é o principal alvo para o qual se dirigem as pesquisas sobre a temática e é sobre sua atuação que iremos discorrer.
II Movimento Republicano no Piauí
As fontes bibliográficas que, de forma direta ou indireta, referem-se ao assunto em questão, não permitem emitir parecer preciso sobre as posições ideológicas das pessoas que de algum modo contribuem para a causa republicana. Seguem, pois, características do movimento pró-república piauiense, sob o enquadramento presente nos livros consultados e sob a análise dos periódicos, a qual permite visualização mais definida sobre as idéias propagadas na época, aqui, no Piauí.

George Boehrer (1950, p.377), em estudo sobre a história do Partido Republicano no Brasil, aborda o movimento no Piauí, afirmando que “...a atividade republicana na província do Piauí foi mais pronunciada do que no Ceará, não atingindo porém um grau notável...”, enquanto para Teresinha Queiroz (1994, p. 218), “...no Piauí, a propaganda republicana vinha da década de 1870, com a ação jornalística e política de David Caldas, que, para isso, fundou os jornais ‘Oitenta e Nove’ e ‘O Amigo do Povo’, este como repercussão imediata do manifesto de 1870. A ação de David Caldas teria sido individual, e um movimento mais amplo nesse sentido só estaria presente, no Piauí, nos meados da década de 1880, tendo à frente os novos bacharéis da Escola do Recife, dentre os quais nomeadamente Clodoaldo Freitas, Joaquim Ribeiro Gonçalves, César do Rêgo Monteiro e Hygino Cunha, cada um com raio de atuação diferente, mas com algo em comum, que era o republicanismo literário.”

O certo é que os princípios republicanos chegam ao Piauí trazidos pela propaganda feita nação afora pelos integrantes do novo partido, que, em 1870, lançam o Manifesto Republicano. A chama pré-republicana encontra em David Moreira Caldas a voz ideal para sua propagação. Originalmente liberal, é eleito deputado por este partido, mas abandona o mandato e a carreira de político, dedicando-se, a partir de então, ao jornalismo, como já abordado. Em 1868, funda O Amigo do Povo, cujo subtítulo, a partir de 1871, passa a ser assim enunciado: Órgão do Partido Republicano do Piauí. Nessa época, David Caldas, consciente das idéias constantes no Manifesto de Quintino Bocaiúva e Saldanha Marinho, as quais coincidem com suas próprias concepções, adere de imediato ao movimento, transformando seu jornal em veículo de difusão dos anseios do Partido Republicano, do qual se faz representante e interlocutor.

Para muitos autores que citam a obra de David Caldas, o seu maior feito consiste na mudança de nome do jornal O Amigo do Povo para Oitenta e Nove, em fevereiro de 1873. O que mais impressiona é o conteúdo do editorial de lançamento da nova folha, carregado de um tom, para alguns profético, mas no qual, por meio de figuras metafóricas, o autor reporta-se a grandes acontecimentos do passado ocorridos, sempre, no ano 89. Assim, conforme a leitura mais comum, profetiza, “...enquanto, porém, não avançamos tanto a ponto de chegar a uma idade quase angélica seja-nos permitido ter a fé robusta de ver a República Federativa estabelecida no Brasil, pelo menos daqui a 17 anos, ou em 1889, tempo assaz suficiente, segundo pensamos para a educação livre de uma nova geração, para a qual ousamos apelar, cheios de maior confiança.” (apud Pinheiro Filho, 1972, p. 30).

Existem controvérsias entre os historiadores quando o assunto é David Caldas. Celso Pinheiro Filho não encontra em seus escritos, vestígios de uma ideologia mais arraigada e sobre O Amigo do Povo é categórico: “...poucos foram os artigos literários ou doutrinários publicados no jornal. Como todos da época limitava-se a criticar os atos governamentais, e refletir pequenas lutas políticas do interior da Província. Para livrar-se dos problemas com o Código Criminal do Império, na parte relativa à imprensa, comentava os fatos do dia como se tivessem acontecido na China ou na Turquia, tratando os personagens por paxás ou mandarins, utilizando conhecida figura de retórica.” (Pinheiro Filho,1972, p. 26-27).

Abdias Neves, ao analisar o editorial declarado profético conclui que “...desse título, Oitenta e Nove e da má interpretação de seu artigo inicial, formou-se a lenda de que David Caldas profetizara a futura mudança de forma de governo, em 1889...” (apud Pinheiro Filho,1972, p. 27). A este respeito, Queiroz (1994, p. 218) não só contesta a tese de profecia como identifica idéias iluministas, “as alusões à Revolução Francesa tanto eram feitas pelo redator liberal, como por David Caldas no editorial do primeiro número do ‘Oitenta e Nove’, editorial que foi inúmeras vezes referido como sendo carregado de um sentido e de um conteúdo proféticos. Nossa interpretação não corrobora esse sentido e sim evidencia a apropriação e a divulgação das idéias iluministas no Piauí, ressalta o sentido revolucionário sugerido por David Caldas em seu jornal radical.”

No entanto, os historiadores acordam com o fato de que David Caldas é único como republicano em seu tempo, não conseguindo seguidores para fundar um partido ou mesmo um clube republicano. Porém, se não existe na província do Piauí um partido republicano devidamente organizado, ao certo, encontram-se simpatizantes e adeptos da causa, uma vez que ele conseguiu imprimir seus jornais por vários anos, tendo sempre um seleto público-leitor. É bem verdade que sua aproximação com os liberais e, conseqüentemente, com o seu antigo partido, facilitam o livre trânsito dos seus impressos na Província, como aqui mencionado: “...em janeiro de 1875 ainda circulava o jornal ‘Oitenta e Nove’. David Caldas, então, via-se às voltas para suprir o déficit de suas contas e equilibrar receitas e despesas. Durante o ano de 1874, havia recebido apenas o valor de 66 assinaturas e rogava aos devedores que tivessem ‘a bondade de mandar satisfazer seus compromissos. Pelo teor do anúncio, o número de assinantes do jornal deveria ser bem superior às 66 assinaturas, cujo pagamento fora integralizado. E, é claro, o jornal também tinha vendagem avulsa. É possível que a tiragem fosse superior a 200 exemplares. Essa observação se contrapõe mesmo às versões do período, informando ao Governo Imperial sobre o nenhum desenvolvimento da idéia de república na Província. Se não havia um movimento formalmente organizado em torno de David Caldas, existia público e interesse pela crítica radical ao regime. É provável que as idéias veiculadas no jornal estivessem próximas das posições do Partido Liberal no ostracismo, mas certamente teriam uma marca rópria. Com relação ao republicanismo no Piauí, são válidas as mesmas observações feitas para com o ateísmo e os movimentos similares. A falta de reconhecimento e de atribuição de importância era uma das formas de negação e de desqualificação sociais desses movimentos.” (Queiroz, 1994, p. 21).

É ponto pacífico, pois, que outras questões ocupam o espaço na imprensa, enquanto o republicanismo no Piauí imerge no ostracismo. Segundo Pinheiro Filho (1972, p. 32), com a morte de David Caldas até a proclamação da República, a atividade jornalística no Piauí se processa “...nos velhos moldes, sem apresentar nada de novo, pois que a Província ficou à margem da fermentação republicana...” e, deste modo, a mudança na forma de governo com o exílio do Imperador surpreende o povo piauiense. Na verdade, se no Rio de Janeiro, capital do País, local onde a propaganda é mais intensa e as conspirações tomam corpo, o povo assiste, nas palavras de Aristides Lobo, à mudança do Império para República, “bestializado”, o que dizer do povo do Piauí, onde pouco ou quase nada se sabe ou se fala sobre República?

Contudo, encontram-se traços republicanos em outras personalidades, mesmo que estas não se posicionem, explicitamente, como republicanos. Clodoaldo Freitas enquadra-se neste perfil. Chega mesmo a ser homenageado como republicano histórico após a mudança de regime. Filiado ao Partido Liberal, assim como, Hygino Cunha, e acusado de republicano pelos conservadores, entre eles Coelho de Resende, funda, ao lado de Antônio Rubim e Marianno Gil Castello Branco, o jornal A Reforma, em 1887, de tendência abolicionista e republicana, o que lhe causa transtornos com a direção de seu partido e com o Marquês de Paranaguá. Mas se durante a Monarquia, Clodoaldo é acusado de republicano, nos primeiros anos de República, é acusado de monarquista.

Hygino Cunha vive trajetória parecida com a de Clodoaldo Freitas. Também vinculado ao Partido Liberal escreve, assim como Clodoaldo, no jornal A Imprensa. Ao que consta, ambos, além de rápidas incursões na política, no caso de Hygino Cunha, bem mais que Clodoaldo, ainda exercem carreira como magistrado e utilizam o cabedal de conhecimentos ideológicos positivistas adquiridos na Academia de Direito do Recife com Tobias Barreto, mormente na questão religiosa, ou simplesmente, na disputa entre Igreja Católica e Estado. Considera-se, também, como republicano, Joaquim Nogueira Paranaguá. Este, em dezembro de 1888, implanta, em Corrente, cidade localizada no extremo sul do Estado, um clube republicano, fato que pouco repercute na capital ou na Província, em decorrência da distância geográfica entre Corrente e Teresina.

Acrescenta-se que o Piauí, como o Brasil, ingressa na República, apaticamente, sem levante com participação popular. A notícia chega a Teresina através de telegrama transmitido no dia 16 de novembro. O povo, ainda surpreso, reúne-se no telégrafo em busca de mais notícias, onde discursam o Capitão Francisco Pedro de Sampaio e o telegrafista Leonel Caetano da Silva, proclamando a República no Piauí. A seguir, se dá a deposição do presidente da Província, Lourenço Valente Figueiredo, e se organiza junta governativa, constituída pelos Capitães Nemésio Reginaldo de Sá e Nelson Pereira do Nascimento e pelo alferes João de Deus Moreira de Carvalho, todos do exército nacional.


III David Moreira Caldas


Falar do movimento republicano no Piauí significa falar de David Moreira Caldas, que se confunde, intrinsecamente, com o movimento. Não existem limites entre a sua pessoa e a propagação das idéias na Província.

David Caldas é possuidor de uma personalidade atípica para o seu tempo. Não consegue se amoldar aos ditames da sociedade monárquica, mas, mesmo assim, começa a trabalhar muito cedo. Aos 19 anos, é promotor público de Campo Maior, cargo que renuncia face a sintomas de depressão nervosa. Dois anos depois, estréia no jornalismo com a folha O Arrebol. Após sua tentativa de estudar direito em Recife, e seu retorno ao Piauí, retoma suas atividades jornalísticas. Em 1863, associa-se a Deolindo Moura e como colaborador, começa no periódico liberal Liga e Progresso, passando, em seguida, para A Imprensa e depois, já com idéias republicanas, ainda que indefinidas, edita o jornal O Amigo do Povo.

Ao longo de sua trajetória, muitos componentes pessoais e políticos juntam-se ao seu caráter e conhecimento. Ser o propagador das idéias republicanas no Piauí é o seu maior título, sobretudo, por ser praticamente o único, salvo a curta atuação de Nogueira Paranaguá já no desembocar da República. Mas, destaca-se ainda, como professor, escritor, político, poeta, linotipista e geógrafo.

As leituras que giram em torno de sua pessoa e os seus próprios escritos abrem, mais e mais, túneis iluminados para uma face desconhecida. Como jornalista, não se limita, como seus contemporâneos, ao debate político em torno de questões pequenas e particulares, mas investe na propagação de idéias maiores. Seus jornais, embora propagadores da ideologia republicana, exploram grande variedade temática. Neles, encontram-se, desde discursos de conservadores sobre questões com os quais o redator concorda, até dados estatísticos da Europa e dos EUA. A literatura também é uma constante em sua vida. Lê a maioria dos livros lançados, tanto de autores nacionais como europeus, enviados, mensalmente, por livreiros do Rio de Janeiro. Após a leitura, traça comentários via imprensa, indicando ou não, sua aquisição e leitura, à semelhança das resenhas mantidas nas revistas informativas brasileiras da atualidade.

Montar o “quebra-cabeça” de personalidade tão polêmica e idealista, talvez nunca seja completamente possível. Citado por alguns historiadores como louco e visionário, caráter contestado por Abdias Neves e Teresinha Queiroz, David Caldas é, na realidade, um místico. Seus escritos transparecem um crente feroz e dão indícios de que ele mesmo acredita-se dotado de dons sobrenaturais, embora não haja elementos suficientes para considerá-lo visionário. Fatos registrados mostram o quanto acredita em sua capacidade de premonição, como o relato redigido por ele mesmo no Oitenta e Nove, fascículo do dia 24 de abril de 1874, número 22. Na nota Sonho Certo, conta que um dos seus sonhos antevê o acidente acontecido com o vapor Junqueira, no rio Parnaíba. No exemplar de 21 de novembro de 1874, número 31, em artigo esotérico, publicado como folhetim, lança os princípios de uma nova ciência, a coincidenciologia, e não conscienciologia, como registram alguns historiadores. Nesse texto, declara-se em formação de trindade humana com Gonçalves Dias e Deolindo Moura, o que tenta provar através de cálculos coincidenciológicos.

Contudo, a sua intrigante personalidade foge, mais ainda, dos padrões do século XIX. David Caldas liberal, depois republicano, consegue se relacionar com alguns políticos oposicionistas, juntando-se a eles quando os projetos que defendem são benéficos para a Província. Coelho Rodrigues, conservador ferrenho, chega a imprimir na sua gráfica, O Conservador. Entretanto, conforme discussão anterior, David Caldas torna-se mais admirado e conhecido pelo conteúdo do editorial de lançamento do Oitenta e Nove, que suscita uma série de questionamentos. Será fruto de uma consciência política e filosófica profunda, utilizada por David, que, analisando o percurso conjuntural do País e do Partido Republicano, prevê a promulgação da República para o ano de 1889? Será que resulta de reflexo de sua influência jacobina, cujos adeptos radicais pregam uma insurreição para o centenário da Revolução Francesa? Será que é profecia? Será que é mais uma de suas “coincidências” e por isso, possível de se provar via cálculos coincidenciológicos?



III.1 O perfil republicano de David Caldas


Enquadrar David Caldas numa das três facções do Brasil pré-republicano é anexar o seu pensamento a uma das correntes filosóficas que predominam nessas vertentes e isso diminui e muito a abrangência de seu trabalho. Na verdade, faltam elementos suficientes para uma identificação inquestionável, que justifique rotulá-lo como jacobino, liberal ou positivista. No período de sua atuação, o positivismo ainda é emergente no Brasil e o jacobinismo ainda pouco difundido, como bandeira de luta. Segundo exposição anterior, Lopes Trovão e Silva Jardim dão muito mais trabalho ao Império na década de 1880. As escolas de direito reproduzem o positivismo com maior afinco, a partir também de 1880. Os militares, nos anos 70, começam a se inquietar, mas o positivismo só se reproduz com maior força, a partir de 1885, dentro das escolas militaristas. Resta, então, a David Caldas, a influência do liberalismo e de sua versão norte-americana, visível ao longo de seus escritos, o que não significa que a Revolução Francesa não esteja presente. Ao contrário, desde os tempos de A Imprensa, David apregoa os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, ao lado da democracia, e mesmo sendo crente em Deus, discorda das relações Igreja X Estado, o que lhe vale um sepultamento do lado externo do cemitério São José.

Acredita-se em maior inclinação de David Caldas para o liberalismo. A princípio, por sua escola ser o Partido Liberal, e iniciar as suas proposições políticas, sob a influência dos grandes teóricos liberais. Depois porque, desde o Manifesto Republicano, identifica-se com Quintino Bocaiúva e Saldanha Marinho, reproduzindo, invariavelmente, artigos que saem da pena dos membros do Partido Republicano, no Rio de Janeiro e, mais adiante, após a realização do Congresso Republicano Paulista, também acompanha de perto a evolução do republicanismo naquele estado. Outro fator que denuncia a sua propaganda nos moldes de Quintino Bocaiúva, ou seja, de forma contundente, mas não tão agressiva, é o seu relacionamento com o Partido Liberal.

O contrato social de Rousseau que prega a democracia participativa ou direta, e, contrariamente a este, o pacto social norte-americano que defende uma democracia representativa, fascinam David Caldas, com a mesma intensidade. No entanto, de certa forma, inclina-se mais a concordar com o sistema representativo, que restringe a participação dos populares no poder, os quais devem se fazer presentes através do voto direto, uma de suas aspirações. A Federação ou a descentralização também são bandeiras dos jornais republicanos no Piauí, que citam a excessiva centralização como um dos mais graves empecilhos para o bom desempenho do sistema monárquico no País, além das dificuldades ocasionadas pelas proporções continentais do Brasil.

Quanto à composição das alas republicanas, que, em nível nacional, têm maior ou menor participação de determinados grupos sociais, parece impossível a identificação no Piauí. Não que se concorde com a idéia de que David Caldas exerce sua pregação “no deserto”, como afirmam historiadores, como Abdias Neves e Celso Pinheiro Filho (1972). Mesmo sem identificar, com precisão, a procedência de seus correligionários, o certo é que não estão entre os grandes proprietários de terra. Mas a prova mais contundente de que ele não pregou à toa, é que o Oitenta e Nove alcança tiragem de 400 a 450 exemplares semanais, figurando como o terceiro maior jornal da Província, igualado somente aos dos órgãos liberal e conservador. Outro fato comprobatório do valor de sua pregação é representado pelas adesões de piauienses ao republicanismo, declaradas em O Amigo do Povo.



III.2 Os jornais de David Caldas

Discutem-se, neste item, os jornais que, de fato, são de propriedade de David Caldas e o têm como redator principal, quais sejam, O Amigo do Povo, Oitenta e Nove e O Ferro em Braza. Os dois primeiros representam o espaço específico destinado à propaganda republicana impressa em terras piauienses, e o último destaca-se por suas peculiaridades panfletárias.

Nesses jornais, que chegam a uma tiragem expressiva dentro do universo jornalístico da província do Piauí, David Caldas demonstra autoconsciência institucional, advinda, sobretudo, de sua convivência com outras produções jornalísticas, literárias e científicas do Brasil e do mundo. Mantém expressiva variação temática, com seções em áreas distintas do conhecimento, como ciências, geografia, artes, literatura e religião, divergindo, totalmente, da produção jornalística do Piauí de então.


O Amigo do Povo

O Amigo do Povo nasce em 28 de julho de 1868, no auge da crise ministerial, em meio à queda do gabinete progressista acarretada por conflitos internos e como reflexo da longa Guerra do Paraguai. As transformações bruscas operadas por Sua Majestade, substituindo-o por um gabinete ultra-conservador e as decepções de David com seu próprio partido, durante seu mandato de deputado, faz com que se posicione de forma diferente em relação ao sistema monárquico constitucional. Assim, a linha discursiva de David Caldas muda drasticamente. Possui referenciais políticos definidos e desacredita da Monarquia como regime ideal para um país com as dimensões do Brasil.

Em O Amigo do Povo, realiza-se não só como político e difusor de idéias, mas como jornalista, com estilo totalmente diverso do praticado pela imprensa local. Nos primeiros números, nota-se liberação maior e fluência verbal não experimentada nos demais periódicos. Critica a Monarquia e os partidos monárquicos, não obstante mantenha-se condescendente com o Partido Liberal. O foco em que concentra todas as suas energias de ataque é a Corte e o Imperador, sem esquecer o esquema conservador que cerceia, em todos os cantos do País,

De súbito appareceo na corte um horrendo cataclysmo; fazendo tremer convulsamente - em sua base- o império todo! (...). O que foi isto? De 16 a 20 de julho, o imperial Vesúvio deitou terríveis lavas sobre a Herculanum constitucional, que jazia descuidadosa na base da montanha traidora (...). N’outros termos: foi uma dessas revoluções que, por mais desastrosas que sejão jamais se reputão criminosas! (...). Foi uma revolução monarchica; dessas que o gênio do mal apatrocina sempre!...” (ERUPÇÃO vulcânica, 1868, paginação irregular).
O alvo principal do jornal é, de fato, a Monarquia, a figura do Imperador e todos que o rodeiam. O Amigo do Povo não poupa ministros, deputados, familiares ou quem quer que se beneficie com o sistema monárquico. Se tivesse um cartunista para retratar as denominações que o redator atribui ao Imperador, seria, decerto, mais rico do que a Revista Illustrada (Rio de Janeiro). É válido observar que as críticas não são infundadas. Em geral, há publicação de estudos comparativos entre o Império brasileiro com repúblicas, quase sempre a norte-americana, como transcrito a seguir:

Máximas e pensamentos

A moderna hydra de Lerna não é combatida por um hércules; entretanto as 7 cabeças renascem sempre que o monstro se lembra de mudar de pelle conforme a sua hedionda constituição...” (MÁXIMAS e pensamentos, 1868, paginação irregular).
A hereditariedade do trono é, na verdade uma usança absurda só admitida entre povos habituados a se considerarem como um rebanho de ovelhas, destinado a ser exclusivamente herdado pelo primogênito, ou na falta - por qualquer outro parente - daquelle respeitabillíssimo postos que tem por cajado um sceptro!” (EDITORIAL, 1868, paginação irregular).

Dissemos mais que os Estados Unidos em 20 presidentes, em 80 annos, não havião gasto talvez um terço do terço do que tinhamos gasto em 38 annos com um só rei. Enganamo-nos involuntariamente (...). Os 37:010:661$000 que despendemos com a família imperial em 38 annos; nos Estados Unidos darião para pagar-se, durante o longo espaço de MIL ANOS, a 250 presidentes da república.” ($37:010:661$000, 1869, paginação irregular).


Para relatar fatos ocorridos no interior da Província, na Corte ou nos demais estados, O Amigo do Povo recorre a um estilo diferente, que desperta a curiosidade do povo. Como descrito, o Brasil é colocado como o reino da Turquia; as províncias, como pachalatos; as cidades, sandjakats ou livahs; o Imperador, sultão ou padichah; os presidentes das províncias, pachás; e os prefeitos, sandjaks ou pachás de uma só cauda. Assim as notícias são publicadas, como neste exemplo: “No livahs de Piripiri o pachá mandou aprisionar o escravo alforriado...”

A admiração pela república vigente nos EUA é perceptível e, invariavelmente, O Amigo do Povo traz artigos do próprio David ou transcrições de outros jornais nacionais, em que os filósofos liberais são quase sempre citados, como a seguir:


No norte o admirável desenvolvimento dos Estados Unidos, onde a energia e a perseverança insitas das raças da Germânia, argumentadas pelas crenças vigorosas dos velhos puritanos, tirou do seio fecundo da terra a opulência, e do seio ainda mais fecundo das verdades de 43, de 68, e de 89 a liberdade, as idéias de alguns publicitas que a Europa chama de sonhos enganadores são magníficas realidades e o progresso é rápido como ainda não se viu em parte alguma (...). A vida está ahi sobretudo nas grandes aspirações da liberdade que vae cada dia transformando o direito público e privado segundo as mais avançadas idéias da o philosofia (...). Quando menos, a tendência progressiva, que precipita a actividade dos outros gaupos americanos, se faria sentir em nossas cousas de maneira que estivessemos no parallelo das nações mais adiantadas da Europa (...). Querer fundar uma sociedade inteiramente nova, sem laços com o passado, como o fizeram Lycurgo, Locke e Sieyes, varrer bem o sólo onde se há de fazer a edificação...” (O QUE são e o que serão os liberaes, 1868, paginação irregular).

Acredita-se que O Amigo do Povo já nasce republicano. Apenas não possui essa denominação, uma vez que não existe uma doutrina e um partido constituídos, no Brasil, na data de sua fundação. Os liberais radicais afastam-se mais dos princípios monárquicos e David Caldas, como redator e proprietário do jornal, acompanha tal tendência, mesmo de longe, através de outros impressos que lhe chegam às mãos, dos quais, com freqüência, faz reproduções e retira deles inspiração para a elaboração de suas matérias. Em 1868, já acredita na República, como se vê abaixo:


A monarchia no Brazil

A monarchia no Brazil é uma traição de homem sedento dos gozos da realeza. O Brasil descoberto por accaso por um portuguez, pertencia a Portugual, como se por ventura pertencesse aos índios, como Portugual aos portuguezes (...). Se não tivesse havido a independência, o Brasil seria governado pelo mesmo Pedro por morte do tal João VI, ora com a independência ficou o mesmo Pedro governando; logo, a independência foi apenas um nome; não representava o grandioso pensamento da Liberdade. Pedro foi um traidor. Declarada a independência elle devia esperar que o Povo escolhesse não só a sua forma de governo, como também o seu chefe. Assim não foi. Pelo contrário, tudo foi imposto: Independência, forma de governo, e chefe! (...). Deus lhe inspire os meios de alcançar essa rehabilitação moral, constituindo-se em República Federativa...” A MONARCHIA no Brasil, 1868, paginação irregular).


A consolidação, tanto do jornal como do seu redator como republicanos, só acontece, em 1871, após muitas adesões às novas idéias que se propagam pelo Brasil. Em Sorocaba, São Paulo, em 1868, os componentes dos Partidos Liberal e Conservador recusam-se a participar da eleição provincial e unem-se para a formação do Partido Republicano. Este fato, embora sem maior repercussão nacional, aparece em O Amigo do Povo, 25 de novembro de 1868, número 10.

Os liberais radicais conspiram em todo o País e tendem mais e mais a romper com os princípios monárquicos e com seu partido de origem. Em dezembro de 1869, Salvador de Mendonça declara-se republicano em artigo que David Caldas lê um mês depois, e que lhe traz emoção, como antes mencionado:


Achavamo-nos fora desta cidade, no lugar Boa Esperança, cerca de 2 kilômetros acima da villa de União, quando, a 30 de janeiro último, tivemos de ler bellos artigos de despedidados illustrados redactores do ‘Ipiranga’. Quando vimos Salvador de Mendonça declarar-se republiicano, foi tal a commoção que sentimos que, digamol-o com franqueza - chegamos a chorar de prazer!” (EDITORIAL, 1870, paginação irregular).
No exemplar de 14 de fevereiro de 1871, O Amigo do Povo transcreve, na íntegra, o Manifesto Republicano, de 1870. A partir desse número, assume, oficialmente, a função de órgão republicano, aqui, no Piauí. Agora, o espaço destinado aos artigos e à defesa da República é mais significativo, enquanto o das intrigas provinciais, cada vez mais reduzido, como descrito no trecho que segue:
Em uma república muda-se a administração periodicamente. Abre-se livre accesso às idéas novas que se tem condensado na atmosfera da opinião pública, e o representante dellas vae poder realisá-las. As resistências naturalmente provém de uma ordem de cousas estabelecidas e consagradas pelos costumes, se atenuam, se suavisam, se applanam, gradualmente, ao atrito constante da discussão, do exame, da luz scientífica.” (EDITORIAL, 1872, paginação irregular).

Na visão do seu redator, a causa republicana está acima de disputas menores e pessoais. As críticas aos partidos monárquicos ocorrem não como debates sobre questões do dia a dia das administrações, mas no patamar da composição e das ideologias por eles defendidas, de tal forma que a democracia, como elemento da propaganda republicana tem espaço garantido em O Amigo do Povo:

Utopias

Há um argumentar contra as idéas novas que perdeu todo o prestígio e a força de ser desmentido pela História - é a ironia com que os que fazem timbre de positivismo acolhem facilmente os princípios como abstrações da theoria, mas os desdenham logo como impossíveis de serem traduzidos no mundo da realidade (...). Não é de hoje que taxa a democracia de pura illusão de poetas, e se escreve o qualificativo de utopia ao lado da crença fervorosa da república. Rousseau que entrevia o ideal da soberania do povo através do servilismo monarchico do reinado de Luiz XIV, descreu da efficacia da democracia, e proclamando quando há de perfeito n’essa forma social, remetteu-se ao céu como só possível aos anjos!...” (UTOPIAS, 1871, paginação irregular).

No que concerne aos seguidores de David Caldas, que muitos afirmam não existirem, acredita-se que o Partido Republicano não chegou a se organizar no Piauí nem os adeptos alcançaram número expressivo, e nem mesmo se pode precisar quantos, mas o fato é que existiram, o que é comprovado em declarações de adesões, encontradas tanto em O Amigo do Povo como no Oitenta e Nove:
Adhesão e anniversario

Estamos autorisados a fazer público que desde 4 do corrente se declarou republicano, sem nem uma reserva, o nosso amigo Sr. Evaristo Cícero de Moraes, pertencente a uma das mais illustres famílias da província, a do fallecido Dr. Casimiro J. de Moraes Sarmento, Piauhyense notável pela sua illustração e severidade de costumes (...). É com verdadeira satisfação que estampamos hoje este pequeno artigo; justamente ao completar um anno que deixamos a redacção da Imprensa, órgão do partido liberal, a fim de nos declararmos franca e ostensivamente - soldado militante e em serviço activo das fileiras republicanas.” (ADHESÃO e anniversario, 1872, paginação irregular).


Oitenta e Nove

Conforme descrição prévia, no início de 1873, David Caldas muda o nome do seu jornal para Oitenta e Nove, que traz a inscrição Monitor Republicano do Piauhy. Nessa época, o Partido Republicano e suas idéias começam a se consolidar no contexto nacional. Os paulistas realizam o I Congresso Republicano, com a presença de representantes de 17 municípios, do qual sai novo manifesto. A questão religiosa está em plena efervescência. David Caldas parece mais entusiasmado com a possibilidade de um governo republicano, o que transparece em seus artigos, a começar pelo editorial de lançamento, que, como discutido antes, prevê a República para o ano de 1889.

De qualquer forma, em termos genéricos, continua com o mesmo estilo do jornal anterior, ou seja, com artigos pró-republicanos e democráticos, denúncias concernentes à situação do Brasil e ao governo monárquico, críticas à Casa Imperial e à figura do Imperador, embora mais amenas. Usa metáforas e comparações para exprimir e noticiar fatos ocorridos no País e na Província, e retratar as polêmicas sobre a questão religiosa, diversificando a temática. A geografia aparece com maior freqüência. Divulga laudas inteiras com dados estatísticos, ora das províncias do Brasil, com detalhes de população total, população escrava, povoação, número de escravos; ora com detalhes de cidades européias e norte-americanas. A coluna de crítica literária conquista mais espaço. Ao que parece, tem, agora, acesso a um número maior de publicações, em geral, doados pela livraria Garnier, do Rio de Janeiro. Livros de Júlio Verne, Victor Hugo, G. Ferry etc. são comentados e indicados para compra. As notícias não se passam mais na Turquia. O emprego de metáforas diminui e o espaço voltado para o debate público local aumenta. O Oitenta e Nove passa a se intrometer, timidamente, nos problemas políticos locais, quase sempre, quando entre os envolvidos está algum amigo pessoal do redator David Caldas, com a observação de que maior abertura para as polêmicas locais não compromete a divulgação da causa maior do jornal, a República.

O excessivo poder do monarca continua em pauta, tanto na esfera dos republicanos, como na dos liberais, que propagam os seus malefícios para o processo desenvolvimentista nacional. Assim, o regime monárquico e o Imperador são “bombardeados” não só pelo Monitor Republicano do Piauí, mas por todos os jornais republicanos do País. Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, formam-se, pouco a pouco, núcleos republicanos, cuja providência primeira é, sempre, editar um jornal para divulgar seus ideais. O fascículo 22, de 24 de abril de 1874, transcreve artigo publicado no jornal A República, do Rio de Janeiro, do qual segue trecho:


Que os governos monarchicos são com raríssimas excepções governos corrompidos, sabemo-lo pela história e por tristes experiências do nosso próprio paiz (...). Bem que estejamos sob regimen de um absolutismo hypocrita, cumpre ouvir os instumentos da monarchia o nome a que elles tem feito direito, em quanto a voz da imprensa não é suffocada pela açaina do poder (...). Venha lembrar-nos que estamos em um regimen monarchico o orgam official e officioso dese beccio anonymo chamado povo, assevere mais uma vez que elle leva muito a bem as delapidações do erario para abonar a firma relapsa de qualquer extravagante incorrígevel que se prenda á real estirpe.” (DUAS palavras sobre a questão D’Aquila, 1874, paginação irregular).

O Oitenta e Nove, a exemplo de O Amigo do Povo, é impresso em tamanho próximo do A4, e perdura até meados de 1875, quando por falta de verbas e de pagamento das assinaturas, não pode mais ser impresso. Sem condições para continuar com o jornal, David Caldas também não tem forças para organizar o Partido Republicano, de forma adequada, até porque atua num Estado, onde os grandes estão a favor do sistema monárquico; os que não estão, não possuem coragem suficiente para declarar; e os que o fazem, não têm coragem para prosseguir na empreitada.

Diante de tal realidade, após a extinção do periódico, ele retorna, por convite expresso do Partido Liberal, para A Imprensa, adotando estilo mais moderado, mas sempre como republicano e opositor da Monarquia. Segundo ele, faz um acordo com o Partido Liberal enquanto este se mantiver fora das garras monárquicas. Em O Papyro, periódico literário publicado em sua tipografia, tem pequena participação como colaborador e publica poesias de sua autoria.

O Ferro em Braza

Sobre esse jornal não há muito o que falar. David Caldas o lança em 27 de agosto de 1877 para fazer frente à propaganda “popelineira”, segundo sua epígrafe. Combater o Barão de Cotegipe e sua política “ditatorial” e “corrupta” é o principal objetivo, mas tem duração efêmera. É curioso o fato de ser impresso em papel vermelho para, segundo o proprietário, dar ao ferro a cor da brasa. As transcrições que seguem dão melhor visão do conteúdo do jornal, também impresso em tamanho A4 e em duas colunas como o Amigo do Povo:

...Não se receiem do Ferro em Braza os homens de bem, d’este ou d’aquelle partido de idéas mais ou menos sãs: pois que a nossa folha será menos um órgão político do que um simples vingador dos brios da nação ultrajada. Embora incandescente, é este um protesto, positivamente: em favor da boa fama da nossa patria, a quem filhos indignos pretendem entregar ao vilipendio de todos os povos civilisados que têm um lugar qualquer no mappa das nações! (...). O que não podemos tolerar é que se constituão os popelineiros como que uns lémares visíveis, a perturbarem o socego público, a crearem embaraços a acção dos vivos ou d’aquelles que sentem deveras palpitar-lhes o generoso coração, onde está grava a imagem da dignidade humana e d’esta terra deslumbrante que nos vio nascer!” (EDITORIAL, 1877, paginação irregular).

Não há espaço para a propagação das idéias republicanas, apenas o reforço de que como republicano não poderia tolerar as inconstâncias do governo conservador. Todas as suas páginas são direcionadas ao combate direto aos “popelineiros” e ao barão de Cotegipe:

Felicitações

Por supporem na gloria ao barão de Cotegipe, muitas felicitações têm sido dirigidas ao seu corrupto cadaver; pro uma multidão de fanaticos de todos os pontos do paiz, que alias não é ainda completamente dos obscurantistas como elles julgão.” (NOTICIÁRIO, 1877, paginação irregular).


Enfim, o discurso político de David Caldas muda de direção com O Ferro em Braza. Seus exemplares não mais transparecem empolgação com a causa republicana, talvez por não ser este o objetivo do jornal ou por descontentamento ante o esfacelamento de seu partido no Piauí e, conseqüentemente, a extinção de seus jornais republicanos.
IV considerações Finais
A história política do Segundo Reinado reflete a formação econômica de um país, que, nos verdes anos da infância, ainda se encontra em processo de formação econômica, socialmente e política. Para construir e estruturar o Brasil, os políticos fazem vigorar a Monarquia Constitucional, que termina por se levantar contra seus próprios feitores. O monarca cresce e passa a manobrar os “fantoches” no teatro da conciliação, fazendo a bel-prazer, o que mais lhe convém, ou melhor, o que os senhores do dinheiro lhe impõem.

O Piauí desse tempo acompanha as “danças do poder”, e a imprensa reflete tão-somente as disputas partidárias, cujas distorções projetam-se nas páginas impressas. A idéia de que política e jornalismo caminham lado a lado remonta há décadas. O fim da conciliação faz o caráter político do jornalismo tornar-se mais nítido, ao tempo em que, acirra as divergências entre liberais e conservadores, que para David Caldas, não são conceituais e, muitas vezes, têm caráter pessoal. A ambigüidade das idéias propagadas pelos partidos monárquicos chega a confundir correligionários e povo, que, da platéia, não consegue diferenciar “gregos de troianos”.

A grande maioria dos jornais ocupa-se com o debate infrutífero em torno da luta pelo poder, cuja visibilidade torna-se maior, à medida que o Imperador opera suas constantes mudanças, que trazem ao País incertezas e prejuízos .

A imprensa piauiense transparece, no período pré-republicano, um perfil que se não chega a ser panfletário, é agressivo, e, muitas vezes, ao extremo. Os jornais de cunho político, principalmente os monárquicos, ocupam-se em colocar nas páginas impressas as brigas e intrigas do cotidiano, ocorridas em todos os lugares da Província e até do País. Muitas vezes, não há preocupação com o progresso nacional ou com os destinos da Província. Não debatem nas suas matérias os fins que devem dar aos recursos orçamentários. Não abrem espaço para a divulgação de idéias opostas às linhas definidas pelos monarquistas. A propaganda republicana não consegue espaço nos jornais de cunho monarquista. Acredita-se que o espaço dado às idéias republicanas no âmbito da imprensa piauiense seja expressivo qualitativamente, mas reduzido em termos quantitativos, principalmente porque os grandes jornais são monarquistas e estão ocupados com suas disputas internas e não somente porque tratem de outras questões, como o abolicionismo, a questão religiosa e a questão militar; que, sem dúvida, são debatidas, principalmente as duas primeiras, mas que não constituem oposição à divulgação dos princípios da democracia e da República.

Neste contexto, David Caldas constitui exceção e, por isso mesmo, a expressão maior da propaganda republicana do Piauí. A sua prática política e jornalística evolui ao ponto de diferenciar-se totalmente da prática jornalística vigente na Província, aproximando-se, cada vez, da dinâmica da imprensa escrita dos grandes centros brasileiros, dos quais invariavelmente recebe jornais, e nos quais, busca inspiração. Considera-se como espaço efetivo dado à causa republicana as páginas dos jornais O Amigo do Povo, que atua por quase cinco anos ininterruptos, e o Oitenta e Nove, que permanece ativo por quase dois anos. Neles, David Caldas consegue expressar o que pensa sobre Monarquia e República, comparando a extensão dos dois sistemas de governo, o papel do Estado em cada um deles, a atuação do chefe de governo, a questão da representatividade, o papel a sociedade civil. Coloca-se, sempre, ao lado da República democrática, pois, em sua opinião, apresenta maiores oportunidades para o progresso do País e engrandecimento filosófico e ideológico dos partidos políticos.

Presume-se que a propaganda republicana por ele praticada sofre influências de, pelo menos, duas das correntes doutrinárias que atuam no Partido Republicano, a liberal e a jacobina, embora seja impossível rotulá-lo numa delas, porquanto seus escritos mesclam, de forma quase harmoniosa, princípios das duas. Todavia, é nítida maior inclinação para o liberalismo, como visto. Primeiro, porque sua formação se completa nas fileiras liberais. É por orientação dos teóricos do liberalismo, que inicia seus questionamentos sobre a Monarquia. Segundo, tem, nos EUA, o maior e melhor exemplo de uma República bem sucedida. Mas entre um texto e outro, encontra-se exaltação à Revolução Francesa. Por outro lado, encampa o combate ao poder exercido pela Igreja dentro do Estado, talvez influenciado por idéias positivistas, consiga divisar o mal dessa união.

A atuação de David Caldas traduz, de maneira geral, a falta de uma centralidade de princípios sobre o republicanismo como forma de governo. Dentro de uma conjuntura desigual, alguns almejam a República representativa e a unidade entre as classes sociais; outros, apenas a Federação e o poder para si; e há quem anseie pela participação popular. David Caldas procura concatenar os princípios básicos de cada uma das correntes, idealizando uma República perfeita e, por isso, utópica. A sua posterior dispersão, acredita-se, constitui fruto provável do seu isolamento geográfico e da distância em relação aos grandes centros de ebulição dos movimentos republicanos.

Alguns outros periódicos políticos, como A Imprensa e A Reforma, abordam a causa republicana, mas sem grande significação no contexto da evolução do movimento republicano, já que não assumem o ideal apregoado por David Caldas.

Diante do exposto, conclui-se que a atuação da propaganda republicana no Piauí é significativa. Considerando os anos em que se iniciam as contestações ao trono até a proclamação da República, cerca de 22 anos, os jornais de David Caldas estão presentes ao longo de sete anos, com uma tiragem representativa, em sua visão, igual a dos veículos liberal e conservador, editados concomitantemente. Com a sua morte, tudo o que resta de seus escritos são os jornais. Da sua biblioteca particular, presumidamente, vasta, não há registros de seu paradeiro, assim como de seu espólio de escritos geográficos e poéticos.

A República chega, conforme cálculos e previsões de David Caldas, mas não como ele a idealiza. O povo, tanto na Corte, como no resto do Brasil, não participa das decisões que levam ao destronamento de D. Pedro II, nem é convidado para opinar sobre o seu destino. O que se instala é uma República militar e ditatorial, que coíbe as ações do Partido Republicano e contraria os princípios democráticos, aceitando os monarquistas convertidos e excluindo a população como um todo. Crê-se que David Caldas, assim como Aristides Lobo, teria se desgostado tanto da forma como a República fora instalada, como do direcionamento dado pelos militares nos primeiros momentos. A sua utopia não permitiria que aceitasse a cruel realidade do Brasil republicano, no início dos anos de 1890.


V REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


PINHEIRO FILHO, Celso. História da Imprensa no Piauí. Teresina: COMEPI, 1972.

QUEIROZ, Teresinha. Os literatos e a República: Clodoaldo Freitas e Hygino Cunha e as tiranias do tempo. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2001.

RÊGO, Ana Regina Barros Leal. Imprensa Piauiense- atuação política no século XIX. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2001.

VI JORNAIS CITADOS


ADHESÃO e anniversario. O Amigo do Povo. Teresina, v.5, n.73, 16 jan 1972.

APONTAMENTOS para uma nova ciência. Oitenta e nove.Teresina, v.2, n.31, 21 nov 1874.

DUAS palavras sobre a questão D’Aquila. Oitenta e nove.Teresina, v.2, n.22, 24 abr 1874.

EDITORIAL. O Amigo do Povo. Teresina, v.1, n.8, 12 nov 1868.

__________.___________. Teresina, v.2, n.32, 14 fev 1870.

__________.___________. Teresina, v.5,n.76, 29 fev 1872.

__________. O Ferro em braza.. Teresina, v.1, n.1, 27 ago 1877.

ERUPÇÃO vulcânica. O Amigo do Povo. Teresina, v.l, n.3, 26 ago 1868.

MÁXIMAS e pensamentos. O Amigo do Povo. Teresina, v.1, n.6, 14 ago 1868.

A MONARCHIA no Brasil. O Amigo do Povo. Teresina, v. 1, n.7, 28 out 1868.

NOTICIÁRIO. O Ferro em braza. Teresina, v.1,n.1, 27 ago 1877.

O QUE são e o que serão os liberaes. O Amigo do Povo. Teresina, v. 1, n.2, 13 ago 1868.



$ 37:010:661$000. O Amigo do Povo. Teresina, v. 2, n.25, 04 out 1869.

UTOPIAS. O Amigo do Povo. Teresina, v.4, n.64, 31 ago 1871.
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