Iii encontro da anppas 23 a 26 de maio de 2006



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III Encontro da ANPPAS

23 a 26 de maio de 2006

Brasília-DF

O Diagnóstico Socioambiental de duas Microbacias Hidrográficas de Brasília como Subsídio para uma Pesquisa Participante

Isabel Campos Salles Figueiredo- mestranda em Ecologia (UnB)

Maria do Socorro Rodrigues- Professora do Departamento de Ecologia (UnB)

Vera M. Lessa Catalão- Professora da Faculdade de Educação (UnB)


Resumo: Esse artigo relata os resultados de um diagnóstico socioambiental realizado junto à comunidade rural do Córrego do Palha (Brasília-DF). Esse diagnóstico foi realizado como uma das etapas da pesquisa participante de um projeto de extensão universitária cujo tema é educação ambiental não-formal com enfoque na água. Aspectos relativos à qualidade da água e estado de conservação de duas microbacias da comunidade foram investigados de maneira participativa. Além disso, com base em entrevistas, foram coletadas informações sobre como a comunidade utiliza os recursos hídricos locais e que conhecimentos e percepções ela tem dos mesmos, bem como dados sócio-econômicos da população. Os resultados alcançados foram a construção participativa e coletiva de conhecimento sobre a realidade socioambiental local fruto da parceria firmada entre universidade e comunidade. Esse conhecimento gerado pode ampliar as iniciativas e ações de educação ambiental na comunidade, fundamentais para gerar mudanças locais e estimular a conservação ambiental na região.

Atualmente a atenção que tem sido dada ao tema água não está restrita a apenas uma área específica. Esse recurso natural tem sido objeto de debates internacionais sobre usos, conflitos e gestão das águas há pelo menos 35 anos quando a Organização das Nações Unidas assumiu a coordenação dessas discussões (Assunção e Bursztyn, 2002).

No Brasil a preocupação com a gestão das águas também se intensificou com o passar dos anos, mas foi apenas em 1997 que surgiu uma lei federal que sintetiza as principais diretrizes e recomendações das grandes conferências internacionais. A Lei Nº 9.433/97 que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Brasil, 1997) é hoje a referência de vanguarda para a gestão das águas no Brasil.

Todo esse quadro nacional e internacional evidencia a posição estratégica da água para o desenvolvimento das nações e para a manutenção de seu equilíbrio socioambiental. Por isso, as águas já não podem ser encaradas como uma questão somente técnica, e “para sua correta gestão, deve-se dar a devida dimensão social e política” (Fundação SOS Mata Atlântica, 2005:05), o que pode ser feito através de processos de educação ambiental.

Um dos principais motivos para a relevância desse tema em trabalhos de educação ambiental (EA) é a fragilidade em que se encontra esse recurso natural essencial à vida. Por isso, dentre os problemas ambientais enfrentados hoje, a crise da água talvez seja a mais grave, já que a situação de sua escassez em termos de quantidade e qualidade afeta, em maior ou menor grau, todos os países do mundo, inclusive o Brasil (Christofidis, 2002). A distribuição irregular (espacial e temporal) desse recurso no planeta e a sua crescente deterioração, aliadas ao pouco conhecimento sobre as águas e à falta de alternativas para a moradia e abastecimento geram situações complexas que acabam por envolver não só as populações que estão diretamente imersas nesses contextos como também o restante da sociedade. A educação ambiental surge, então, como uma das possíveis alternativas para a solução desses conflitos.

Mas para participar ativamente dos processos da gestão das águas, sejam eles realizados pelas instâncias formais de tomada de decisão ou através de iniciativas de caráter local, é importante que as pessoas saibam “identificar as origens do problema, de que forma os vários fatores interferem na questão, qual é o papel de cada setor da sociedade, o que vem sendo feito, quais são os cenários e planos futuros” (Fundação SOS Mata Atlântica, 2005:06).

Por essa razão muitos trabalhos têm sido realizados em uma perspectiva de gestão e sustentabilidade das águas (Ex: Saito, 2001; Berlinck, 2003; Berlinck et al., 2003), principalmente no âmbito de comitês (ou pré-comitês) de bacia hidrográfica como sugerido pela PNRH.

O presente trabalho também reflete essa preocupação com o tema recursos hídricos, a educação ambiental não-formal e a participação social. O objetivo do artigo é relatar os resultados do diagnóstico socioambiental integrante de uma pesquisa participante realizada em uma comunidade rural do Distrito Federal. Esse trabalho é parte de uma dissertação de mestrado intitulada “Nossas águas, nosso Palha: educação ambiental e participação na comunidade rural do Córrego do Palha” que se situa dentro de um contexto mais amplo, o do projeto de extensão universitária “Água como matriz ecopedagógica” (Catalão e Rodrigues, 2003).



A pesquisa participante como referencial metodológico


A pesquisa participante (PP) é uma maneira relativamente nova de produzir conhecimentos. A sua origem conceitual e metodológica se dá entre as décadas de 60 e 80 na América Latina (Brandão, 2005), onde foi construída uma proposta diferenciada de pesquisa que reunia as bases de uma educação popular com forte conotação sócio-política e os princípios de uma sociologia embasada no conceito de investigação-ação (Gajardo, 1999).

As primeiras experiências de PP foram colocadas em prática dentro de movimentos sociais populares, e tinham forte compromisso com ações sociais de cunho popular (Brandão, 2005). Mas embora essa linha de pesquisa tenha surgido, sobretudo, na esfera da educação, hoje ela se tornou referência para processos emancipatórios em geral (Demo, 2004) e “um dos campos onde com mais criatividade, multiplicam-se experiências de investigações participativas associadas a alguma forma de ação comunitária, é o das ações ambientais” (Brandão, 2005:265).

Como a construção do arcabouço da PP foi muito rica em termos de influências e fundamentos, era de se esperar que uma grande diversidade de propostas emergisse desse “caldeirão”. Hoje não é mais possível reconhecer uma tendência única ou dominante de PP a nível teórico, metodológico ou em relação ao seu horizonte de ação (Brandão, 2005), mas é possível reconhecer alguns traços comuns nessas diferentes alternativas Gajardo (1999). Hall (1981 apud Demo, 1999) identifica sete características que sintetizam os fundamentos da PP. Abaixo estão transcritos esses princípios convergentes (p. 121-122):


  1. O problema se origina na comunidade ou no próprio local de trabalho”

  2. A finalidade última da pesquisa é a transformação estrutural fundamental e a melhoria de vida dos envolvidos. Os beneficiários são os trabalhadores ou povo atingido”

  3. A PP envolve o povo no local de trabalho ou a comunidade no controle do processo inteiro de pesquisa”

  4. A ênfase da PP está no trabalho com uma larga camada de grupos explorados ou oprimidos: migrantes, trabalhadores, populações indígenas, mulheres”

  5. É central para a PP o papel do esforço à conscientização no povo de suas próprias habilidades e recursos, e o apoio à mobilização e organização”

  6. O termo“pesquisador” pode referir-se tanto à comunidade ou às pessoas envolvidas no local de trabalho, como àqueles com treinamento especializado”

  7. Embora aqueles com saber/treinamento especializado muitas vezes provenham de fora da situação, são participantes comprometidos e aprendizes num processo que conduz mais à militância do que ao distanciamento”

Da mesma maneira que os “tipos” de PP são muitos, também há muita variação entre os modelos propostos para o seu desenvolvimento (Brandão, 2005). A estrutura de pesquisa participante que norteou esse trabalho específico foi baseada na proposta de Le Boterf (1999) onde a PP se desenvolve em quatro fases (Montagem institucional e metodológica da pesquisa participante; Estudo preliminar e provisório da região e da população envolvidas; Análise crítica dos problemas que a população considera prioritários e que seus membros desejam estudar e resolver; Programação e Aplicação de um plano de ação que contribua para os problemas encontrados) que sempre envolvem momentos de retroalimentação.

Neste artigo, a segunda fase da metodologia de Le Boterf (1999) será detalhada em três etapas: “a identificação da estrutura social da população pesquisada; a descoberta do universo vivido pela população de pesquisados e dos principais acontecimentos de sua história; e o recenseamento dos dados sócio-econômicos e tecnológicos” (p.54).

Diagnósticos socioambientais como subsídio à pesquisa


Mesmo entre os diferentes tipos de pesquisa participante, a existência de uma fase inicial, mais ou menos estruturada, de reconhecimento da realidade local é praticamente um consenso entre os diferentes autores e metodologias (Demo, 2004). Nas pesquisas em educação ambiental essa também é uma prática cada vez mais recomendada (ex: Carvalho, 1998; Dietz e Tamaio, 2000; Layrargues, 2000). Os diagnósticos servem de subsídio aos educadores ambientais para que estes conheçam melhor o lugar em que estão atuando, além de também serem referenciais importantes para que o pesquisador seja mais conhecido e passe a se envolver mais com as pessoas com quem está trabalhando. Além disso, eles são uma ferramenta essencial para a produção coletiva de conhecimentos sobre a realidade local.

As formas de se realizar diagnósticos são muito variadas e devem ser adaptadas às necessidades de cada grupo que participa dessas atividades (Carvalho, 1998). Muitas vezes não é possível ou mesmo desejável fazer um diagnóstico socioambiental muito elaborado durante a fase inicial da pesquisa, principalmente quando se está trabalhando com comunidades que muitas vezes estão cansadas de estudos investigativos que na maior parte das vezes não geram resultados concretos (Le Boterf, 1999). Porém, nesse caso específico optou-se pelo aprofundamento do diagnóstico na fase inicial devido à falta de informações científicas específicas sobre a comunidade do Palha, especialmente sobre os seus recursos hídricos locais1.

Dentre as técnicas disponíveis para a realização dos levantamentos estão o uso de indicadores socioambientais e ferramentas que buscam capturar elementos mais sutis como as percepções e sentimentos daqueles envolvidos com a realidade pesquisada. Mas, apesar da diversidade de estratégias que um diagnóstico pode adotar, a participação da comunidade nesse momento de “mergulho” na sua realidade é fundamental.

Um diagnóstico participativo é mais desafiante, já que se propõe a incluir o maior número de visões e de pessoas. Por isso, os resultados desse tipo de abordagem são bastante positivos, principalmente no que se refere ao aprendizado e envolvimento da comunidade (Fundação SOS Mata Atlântica, 2005). O grau de participação e de envolvimento da comunidade nesses levantamentos da realidade local pode variar, mas é importante lembrar que “não importa apenas o olhar técnico sobre as questões ambientais, mas sim o olhar social sobre elas. Esse olhar também pode ser profundo e com detalhes importantes, mas, principalmente, será um olhar compartilhado pelas pessoas, capaz de gerar compreensão sobre a transformação da natureza, ou seja, do meio ambiente como parte da própria humanidade” (op. cit.:26).

Além de participativa e rica em técnicas para o levantamento da situação em questão, a investigação do universo da comunidade estudada, sempre que possível, não deve “partir do zero”, e sim vir acompanhada de uma pesquisa de dados objetivos sobre a realidade socioambiental situados em seu contexto regional (Le Boterf, 1999).
O núcleo rural do Córrego do Palha e seu contexto socioambiental

A comunidade do Palha (15º13’41”S 47º50’04”W) se localiza na porção noroeste da cidade de Brasília, Distrito Federal (DF), mais precisamente no Núcleo Rural do Córrego do Palha. Esse núcleo rural de aproximadamente 70 hectares se insere em uma região rica em nascentes e cursos d’água onde se estabeleceram áreas rurais remanescentes“destinadas a abrigar usos compatíveis com a dinâmica rural, resguardando o uso agropecuário e agroindustrial, visando à preservação dos recursos naturais existentes” (Distrito Federal, 1997).





Figura 3.2. Localização da comunidade rural do Córrego do Palha em Brasília-DF (adaptado do mapa de macrozoneamento do PDOT ( Distrito Federal,1997)).

A comunidade rural do Córrego do Palha foi fundada por volta de 1956, por uma família de pioneiros na construção de Brasília. Os fundadores viveram isolados no Vale do Palha até 1964, quando se iniciou a doação de parcelas de terra a familiares e amigos. Foi a partir de 1977 que o parcelamento das terras e o conseqüente adensamento populacional foi intensificado (Lara, 1998), e desde então a comunidade cresceu muito. Hoje não se sabe qual é a população exata, mas estima-se que existam mais de 900 habitantes (CAESB, 2004) em cerca de 135 lotes (Fonseca e Netto, 2001).

A comunidade possui uma associação de moradores, a Associação dos Produtores Rurais e Preservadores Ambientais do Vale do Palha (AsPalha). A AsPalha foi fundada em 1995 por um grupo de moradores da comunidade, e desde então a associação vem lutando pela regularização fundiária e melhorias na infraestrutura da comunidade. Outro ponto forte da associação é seu engajamento na defesa do meio ambiente, especialmente na preservação de uma nascente local que abastece quase todos os moradores.

Segundo Fonseca (2001), o núcleo rural do Córrego do Palha, assim como todo o DF, está totalmente inserido na área nuclear do Bioma Cerrado. O clima predominante da região é o Aw (Tropical de Savana), segundo a classificação de Köppen, com uma estação chuvosa que começa em outubro e termina em abril e uma seca que vai de maio a setembro.

A vegetação original dessa região era composta por matas de galeria, campos e cerrado, além de pequenas manchas de florestas estacionais (Ramos, Nóbrega e Cardoso, 2001). Atualmente a vegetação de cerrado foi parcialmente substituída por áreas construídas, pastagens, áreas cultivadas e plantações de eucalipto. A vegetação ripária também foi suprimida em alguns locais, mas continua bem preservada na área de nascente do Córrego do Palha.

Em termos hidrográficos, a comunidade está inserida na Região Hidrográfica do Paraná que é responsável por 64% da drenagem do Distrito Federal. Uma das sub-bacias que contribui para formação dessa região hidrográfica é a do Lago Paranoá que ocupa uma área de 1.034,07 km², cuja bacia de captação dos principais cursos d’água drena o sítio urbano da cidade de Brasília. Essa sub-bacia é composta por cinco unidades hidrográficas: Santa Maria/Torto, Bananal, Riacho Fundo, Gama e Lago Paranoá. A maior dessas unidades hidrográficas em termos de área é a do Lago Paranoá que inclui, além do próprio lago, as áreas de drenagem de pequenos córregos que contribuem diretamente com ele. Dentre esses córregos estão os córregos do Palha e do Palhinha, afluentes diretos do Lago Paranoá, localizados na sua porção norte, entre os córregos do Jerivá e do Taquari (Ferrante, Racan e Netto, 2001).

O Córrego do Palha é um córrego de 1ª ordem que nasce dentro do Núcleo Rural do Córrego do Palha e possui cerca de 1.600m de extensão. A sua nascente principal é um olho d’água represado que recebe o nome de “mina” e que se localiza em uma área com vegetação ripária bem preservada e de acesso restrito e que abastece toda a comunidade. Já o Córrego do Palhinha possui cerca de 600 m de extensão e recebe, na sua porção final, águas de outros dois córregos de primeira ordem (sem nome).

O contexto socioambiental na qual a comunidade rural do Córrego do Palha está inserida é de muito conflito em termos de uso e ocupação do solo. Além de ter uma situação fundiária não regularizada e estar localizada em duas áreas de proteção ambiental (APA do Planalto Central e a APA do Lago Paranoá) e proteção permanente, o Palha também sofre com a situação ambiental do DF como um todo.

Essa situação tem raízes na própria ocupação da cidade de Brasília que, embora teoricamente planejada, ocorreu de forma descontrolada, sobretudo a partir da década de 80 (Salles, 2002), o que faz com que a cidade sofra até hoje as conseqüências desse modelo de desenvolvimento comum ao DF como um todo. Mas, se por um lado esse modelo de ocupação do solo decorre da falta de planejamento, ele também pode ser considerado fruto do controle rigoroso do crescimento de Brasília em alguns locais (Abers, 2003). Segundo essa autora, a emergência de uma demanda reprimida por moradia foi uma das pressões que levou determinadas regiões da cidade, especialmente aquelas inseridas na bacia do Paranoá, a incorporar diferentes tipos de invasões.

Os resultados desses processos podem ser observados na forte pressão atual sobre os recursos naturais, o que coloca em risco o uso sustentável da água, dos solos, da fauna e da flora em virtude do forte crescimento populacional e da intensificação das atividades econômicas nos setores agropecuário, industrial e de serviços no Distrito Federal (SEMARH, 2005).  

No âmbito específico dos recursos hídricos, já figuram situações de graves conflitos ambientais em todas as principais bacias hidrográficas do DF (SEMARH, 2005), e a bacia do Lago Paranoá onde a comunidade do Palha está inserida não é exceção. Segundo o CDRH (2005) a falta de planejamento durante a ocupação do solo do DF e o rápido crescimento da população geraram uma série de problemas socioambientais.

Somando-se a isso, o clima e a composição da rede hidrográfica local agravam ainda mais a problemática dos recursos hídricos. Além disso, o DF se encontra inserido em um planalto que, apesar de ser uma área rica em nascentes, possui cursos de água pouco extensos e com vazões modestas, o que acaba gerando limitações na quantidade de água disponível para o abastecimento (CDRH, 2005). De acordo com dados publicados pelo CDRH (2005), a Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente afirma que a disponibilidade hídrica do DF já se encontra abaixo do ideal.



Metodologia


O diagnóstico socioambiental realizado com a comunidade do Palha foi construído através do que Le Boterf (1999) chamou de“pesquisa estruturada” fundamentada em um quadro teórico e com apoio em diferentes procedimentos de coleta de dados relativos a aspectos biofísicos, demográficos, econômicos e sociais. Porém, o diagnóstico também foi realizado com o apoio de uma abordagem qualitativa não estruturada que permitiu o envolvimento do pesquisador com o grupo pesquisado.

As informações a respeito da realidade sócio-econômica, bem como o levantamento da participação dos moradores em trabalhos de educação ambiental e outras atividades comunitárias foram obtidas mediante a realização de entrevistas estruturadas (Bernard, 1995) por meio de dois questionários compostos por questões abertas e fechadas. A aplicação dos questionários ocorreu durante os meses de junho de 2004 e fevereiro de 2005, e contou com o auxílio de alguns jovens comunitários e funcionários da AsPalha, além de alunos da UnB.

O questionário 1 foi aplicado a uma amostra de 50% dos terrenos da comunidade (n=97), selecionados a partir de uma listagem de moradores atualizada em 2004. O questionário 2 foi aplicado posteriormente apenas a residentes de 50 terrenos, ou seja, 26% do total de terrenos da comunidade. Apesar dessa amostragem não ter repetido o procedimento anterior, ela pode ser assumida como representativa da comunidade.

Durante a realização da etapa sócio-econômica do diagnóstico socioambiental, três grandes questões nortearam a coleta de informações: Quem são os moradores da comunidade do Palha? Como vivem? Como se dá a participação e envolvimento comunitário no Palha?

Sob o enfoque ambiental, foi dada ênfase ao diagnóstico da questão hídrica local. A seguir, estão os quatro itens que nortearam a obtenção de dados referentes à etapa ambiental do diagnóstico.

Análise da qualidade da água

A análise da qualidade de água incluiu a determinação de indicadores biológicos, físicos e químicos. Essas análises foram realizadas em nove pontos de coleta, seis localizados no Córrego do Palha e três no Palhinha. As estações de coleta foram escolhidas de acordo com a possibilidade de acesso, já que se localizam, em sua maioria em propriedades privadas de acesso restrito.

A demarcação das estações de coleta contou com a participação ativa de dois funcionários da AsPalha e de dois jovens da comunidade. Essas pessoas, por terem um grande conhecimento da área, deram sugestões valiosas nesse momento do trabalho. Além disso, também colaboraram na coleta de dados e de água, tendo sido essenciais para a aproximação entre a equipe de pesquisadores e os donos das propriedades amostradas.

Os parâmetros de qualidade de água foram investigados em dois momentos do ciclo sazonal, na seca (setembro de 2004) e na estação chuvosa (março de 2005).

A água da nascente utilizada para consumo da população teve sua potabilidade testada de acordo com padrões estipulados pelo Ministério da Saúde (2004).



Investigação da integridade ambiental das microbacias

A integridade ambiental dos córregos como um todo e a situação de suas margens foram analisadas através do protocolo de avaliação visual rápida proposto por Callisto et al. (2002). Esse protocolo permite a avaliação da diversidade de habitats do corpo d’água baseada na observação visual. O trecho do córrego em estudo é então classificado como impactado, alterado ou natural de acordo com a pontuação recebida.
Diagnóstico da utilização da água pela comunidade

Esse diagnóstico foi realizado a partir das respostas obtidas no questionário 1. Foram investigadas a origem e tratamento da água para o consumo, os usos dados à água nas propriedades, o sistema de coleta de esgoto e águas servidas e a presença de corpos d’água ou minas dentro das propriedades.


Levantamento dos conhecimentos e percepções da comunidade acerca do meio ambiente local

Esse levantamento foi realizado com base nas respostas dadas às perguntas dos questionários com os seguintes enfoques: percepção ambiental dos moradores em relação aos aspectos na mudança da paisagem, recursos hídricos e qualidade de vida local e conhecimentos sobre meio ambiente.



Resultados e Discussão


Foram dois os principais resultados do diagnóstico socioambiental. O primeiro foi a participação da comunidade durante essa fase, o que contribuiu para o seu envolvimento com a proposta de pesquisa, e o segundo foi a produção conjunta de conhecimento sobre a realidade estudada.

A participação dos moradores locais durante essa fase da pesquisa ocorreu em diferentes momentos e intensidades. Uma reunião entre a universidade e a comunidade originou um plano elaborado a partir das necessidades apontadas pela comunidade e das possibilidades de inserção da UnB. Esse foi o marco inicial da pesquisa participante desenvolvida no Palha. A participação da comunidade também foi forte durante a fase de planejamento do diagnóstico, quando os pontos de coleta de água foram visitados e selecionados e a melhor estratégia foi escolhida para a aplicação dos questionários. A população tomou conhecimento da pesquisa realizada por meio de um informativo mensal e uma reunião comunitária da Aspalha, e durante as entrevistas pôde dar sua opinião e contribuições para a construção do conhecimento sobre a realidade local. Assim, a participação dessas famílias no momento das entrevistas não se limitou a responder as questões contidas nos questionários, havendo um diálogo entre os entrevistadores e entrevistados que também pode ser considerado um momento educativo. Durante a realização da etapa ambiental do diagnóstico, os moradores cujas propriedades foram analisadas participaram ativamente da coleta de água e investigação da situação ambiental dos córregos. Os resultados das análises de água também foram discutidos com esses moradores, bem como as medidas necessárias para a melhor preservação ambiental. Por fim, a associação de moradores também participou ativamente da discussão dos resultados obtidos pelo diagnóstico em reuniões de feedback.

Já os resultados do diagnóstico sócio-econômico indicaram que a comunidade do Palha já não mantém mais a sua vocação rural original apesar da criação de animais e cultivos para o consumo próprio. A comunidade está muito mais próxima a um bairro urbano em pleno crescimento.O adensamento demográfico atual tem origens na fundação da comunidade e continua atualmente como resultado da vinda de imigrantes, principalmente do Nordeste do país e do parcelamento e venda irregular de lotes que variam entre 100 e 75.000 m2.

A comunidade do Palha também se mostrou bastante heterogênea em vários aspectos como atividades econômicas desenvolvidas, renda e escolaridade dos moradores. O que pôde ser observado é que escolaridades mais baixas parecem estar relacionadas aos salários menores.

No que tange aos aspectos ambientais, os resultados são bastante complexos. Mesmo com águas de boa qualidade segundo CONAMA (2005), o Córrego do Palha é utilizado quase que exclusivamente para o abastecimento, havendo também um pequeno uso não-consuntivo para o lazer. Essas informações contrastam com aquelas sobre o uso do Palha no passado, onde quase um quarto da população utilizava suas águas para outras finalidades. Por ser fonte de água para a população, o Córrego do Palha e em especial a sua nascente (mina) são bastante conhecidos e respeitados.

A maioria dos entrevistados, especialmente aqueles que residem na comunidade há mais tempo, perceberam mudanças no Córrego do Palha e no seu entorno ao longo do tempo. Grande parte considera que o córrego e suas matas estão bem preservados. Mas mesmo entre esses moradores existe a percepção de que alguns trechos da microbacia estão mais impactados do que outros.

Mas apesar do bom estado de conservação da microbacia do Palha, segundo o protocolo de Callisto et al. (2002), essa região não está livre de preocupações do ponto de vista ambiental. Desde a sua fundação, esse núcleo rural vem sofrendo com o parcelamento de lotes e conseqüente adensamento populacional. Além disso, áreas frágeis do ponto de vista ambiental como topos de morro, margens de córrego e locais ricos em nascentes naturais também foram ocupadas desordenadamente.

A maioria das fossas da comunidade não é adequada do ponto de vista sanitário e a população só realiza tratamento superficial (filtração simples) da água da mina, que foge do padrão estipulado para consumo humano (Ministério da Saúde, 2004. Essa é uma realidade comum nos corpos d’água do DF (CDRH, 2005) e mais especificamente da bacia do Lago Paranoá e que tem como causa o precário sistema de saneamento básico existente.

No caso do córrego do Palhinha essa já é uma realidade. Essa microbacia não pode mais ser caracterizada como um curso d’água de aspecto natural em alguns de seus trechos segundo Callisto et al. (2002).

Na investigação da percepção dos moradores, o Palhinha não foi lembrado inicialmente pela maioria dos entrevistados. Depois de feitas algumas explicações, alguns entrevistados relataram ter reconhecido a microbacia como tal e ter percebido mudanças na mesma ao longo dos anos. As mais significativas em termos de citações foram o aumento do despejo de lixo e esgoto no leito e a diminuição da quantidade de água.

A comunidade ainda mantém o controle da situação, pois protege muito bem a área da nascente principal do Córrego do Palha, de onde a água para o abastecimento é captada. Além disso, a associação de moradores tenta instruir as pessoas sobre a forma correta de construção de fossas e banheiros e como evitar o desperdício de água, principalmente durante a estação seca, quando já existe um racionamento de água.

Considerações finais


A investigação permitiu verificar que a comunidade possui um histórico de envolvimento com as questões ambientais e seu engajamento responsável no presente trabalho propiciou a construção coletiva de conhecimento, tendo como foco a bacia hidrográfica. Os resultados sugerem que a comunidade possui grande potencial para atuar na preservação do meio ambiente a médio e longo prazos.

A partir desse cenário existe uma grande abertura para ações de educação ambiental voltadas para a compreensão das relações entre o homem e a natureza, especialmente no contexto local, gerando assim mudanças nas atitudes e conseqüentemente uma melhora na qualidade de vida. É apenas de maneira participativa e dialógica que a universidade pode se propor a apoiar as comunidades a enfrentar os seus problemas da forma mais adequada à sua realidade particular.




Referências Bibliográficas

Saito, Carlos Hiroo. 2001. Gestão de Bacias e Participação. In: A. L. T. Aquino; N. Mininni Medina (org.) Gestão de recursos hídricos em bacias hidrográficas sob a ótica da educação ambiental. (29-46). Brasília: MMA.



SEMARH. 2005. Os Recursos Hídricos no Distrito Federal. In www.Semarh.df.gov.br (acesso em 12/02/2005).

1 Essas informações seriam necessárias para o desenvolvimento das ações de educação ambiental baseadas na realidade da comunidade, além de poderem subsidiar outros trabalhos acadêmicos e as próprias decisões da comunidade no que diz respeito à gestão dos recursos hídricos.






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