Iii seminário docomomo brasil a permanência do moderno sessão Especial Edifício Luciano Costa: Um enfoque apositivo



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III Seminário DOCOMOMO Brasil

A PERMANÊNCIA DO MODERNO

Sessão Especial
Edifício Luciano Costa: Um enfoque apositivo (1)

Luiz Manuel do Eirado Amorim



Resumo

Este artigo apresenta o Edifício Luciano Costa, projetado pelo arquiteto Delfim Amorim, em 1959. O edifício caracteriza-se por uma intervenção em um edifício eclético, construído nos anos 10, para abrigar um edifício moderno de uso misto - comércio e escritório. A intervenção do arquiteto pode ser sintetizada pelo envolvimento do edifício eclético por um véu de elementos vazados, que o preserva para uma futura restauração, e estabelece uma imagem moderna para o empreendimento. O edifício está incluído no conjunto de obras de destaque incluídas no perímetro de tombamento do Bairro do Recife, estabelecido pelo IPHAN, em 1997, estando, portanto, protegido por lei. O artigo discute, frente às pressões de seus proprietários, a oportunidade da restauração da edificação eclética, já que teria sido essa a intenção do arquiteto, ou a manutenção da intervenção do arquiteto, fundamentado nas suas características peculiares.



1. Introdução

No inicio da década de 60 o Bairro do Recife viu nascer uma das mais controvertidas obras da arquitetura moderna pernambucana. Projeto do arquiteto Delfim Amorim, o Edifício Luciano Costa atende à solicitação de reforma e modernização de um imóvel eclético. O autor propõe, no sentido de resguardar parte do edifício eclético, uma membrana de elementos vazados cerâmicos. Desde a sua construção, o edifício vem sendo alvo de intensas polêmicas, envolvendo arquitetos e especialistas do campo da restauração, e leigos que costumam trafegar pelas ruas do Bairro do Recife. Conhecido por uns como ‘véu de noiva’ e por outros como ‘camisa de Vênus’ (talvez pudéssemos chamá-lo de camisa de Vitrúvio - um preservativo arquitetônico), o edifício criou em torno de si defensores e demolidores fervorosos.

As recentes ações dos governos Estadual e Municipal no sentido de revitalizar o Bairro do Recife, aceleraram na coletividade uma pergunta contida no próprio sentido da intervenção arquitetônica proposta: chegou a hora de retirar o ‘véu de noiva’ e restaurar o edifício eclético?

A intenção deste trabalho é analisar com mais profundidade os princípios que nortearam a intervenção elaborada por Amorim, identificar as características essenciais que deveriam ser preservadas e definir diretrizes para uma possível ação no imóvel. Mais ainda, procura caracterizar o edifício como um marco do Bairro do Recife, provavelmente o imóvel que é reconhecido pela grande maioria dos seus transeuntes, e que, por sua importância no campo da arquitetura, poderá polarizar investimentos para ações mais contundentes na revitalização daquele sítio urbano.



2 O edifício eclético

O edifício eclético de que trata esse estudo surgiu no bojo de um dos planos de reforma urbana executados no Recife nas primeiras décadas deste século. Desse conjunto de planos e obras fizeram parte o Plano de Saneamento do Recife (1909-1915), do engenheiro Saturnino de Brito, autor de projeto semelhante para Santos, e o Novo Projeto de Melhoramentos do Porto (1909-1925), que englobava não apenas a ampliação e melhoramento dos serviços portuários, como a reforma de parte do bairro portuário da cidade - o Bairro do Recife (Moreira, 1995: 789).

Essa grande intervenção urbana teve seu início em 1911, e significou, além de uma completa transformação na paisagem urbana da cidade, uma ‘completa reestruturação ambiental e social’ (Lubambo, 1991: 93). A reforma urbana definiu um novo parcelamento do solo, com a ampliação da área de alguns lotes, e conseqüente redução do número de parcelas disponíveis e o aumento no preço de comercialização. Define-se, portanto, uma elitização do bairro - pelo aumento do custo dos lotes e imóveis, e uma especialização das atividades - com a substituição do pequeno comércio e habitação pelo capital mercantil e financeiro (Moreira, 1995: 790). Esse fator de elitização pode ser notado pela adoção de normas rigorosas para a aquisição dos novos lotes, maiores e dotados de infra-estrutura urbana, tais como a obrigatoriedade da construção do imóvel em 12 meses, prorrogável por mais 1 ano, com multa mensal de 1% do valor do terreno. Caso a obra não fosse concluída no período, o terreno voltaria para a posse do governo (Lubambo, 1991: 108).

O novo desenho da cidade, baseado na Paris de Haussman, surge da demolição de parte significativa do tecido colonial do Bairro do Recife, originado da progressiva expansão do arruamento espontâneo do antigo Povo do Arrecife. Na demolição sucumbiram edificações e conjuntos urbanos de importância histórica e arquitetônica, como os arcos de acesso ao bairro, remanescentes do Recife fortificado do século XVII, a Matriz do Corpo Santo, a primeira edificação religiosa a ser edificada na cidade, e o seu largo rodeado dos característicos sobrados magros e altos.

O novo plano do Bairro caracteriza-se por um conjunto de vias radiais, traçadas a partir do Cais Alfredo Lisboa, definindo uma morfologia urbana completamente diversa daquela constituída ao longo da ocupação portuguesa. Frutos deste novo parcelamento urbano surgem lotes de forma triangular, favorecendo a exploração plástica das agudas esquinas formadas. Os edifícios situados na Praça Rio Branco, convergência das vias radiais e ponto focal de toda a composição urbana, evidenciam essa característica do novo tecido pela localização dos seus acessos nas esquinas e pelo uso de torres arrematadas por cúpulas de diversas formas e revestimentos. Josué de Castro (1992) expressa, com muita propriedade, a imagem de um Recife moderno que emerge dos entulhos da cidade colonial tortuosa, insalubre e feia:

A Praça Rio Branco faz mesmo lembrar Hamburgo. Pois, não é mesmo um assombro pro viajante que vem da Europa! Quem diria que desse outro lado do Atlântico, no Brasil, país de mestiços e bem nos trópicos, o viajante iria topar com um espetáculo destes, logo no primeiro porto que o navio toca. Espetáculo típico de cidade européia e das grandes. Salta o viajante do paquete, desce ao longo dos armazéns e desemboca mesmo na praça monumental. Cinco avenidas se abrindo em leque, com magníficos estabelecimentos comerciais. Ruas largas, limpas, retas, com as filas inquebrantáveis dos edifícios uniformemente solenes. Bancos, telégrafos, companhias de vapores, ... Prédios asseados, com um ar de homens de poucas palavras, tratando de seus negócios. Fisionomia inteiramente européia dessas bonitas ruas (Castro, 1992: 253).



Figura 1. O Recife Novo visto da Praça Rio Branco. O edifício eclético original é o segundo a direita (Fonte: Departamento de Iconografia da Fundação Joaquim Nabuco)



Figura 2. Bairro do Recife (Fonte: Preservação dos Sítios Históricos, Recife, 1981)

Em um daqueles lotes triangulares, criado com a construção das avenidas Central (atual Rio Branco) e Marquês de Olinda, e o prolongamento das Ruas do Bom Jesus e Dona Maria César, foi construído o imóvel eclético em questão, provavelmente na segunda metade da década de 10 (2). A peculiaridade de sua situação, com frentes voltadas para as principais ruas do novo conjunto urbano, foi determinante para a sua concepção arquitetônica. Dotado de três pavimentos, o edifício organizava-se em torno de um pátio coberto central, para onde se voltavam as circulações dos dois pavimentos superiores. Sua composição era definida a partir de um eixo de simetria tomado pela esquina da Rua do Bom Jesus com a antiga Avenida Central, o que correspondia ao ponto de melhor visada da Praça Rio Branco. Dessa forma, o edifício incluía-se na composição daquele cenário urbano descrito por Josué de Castro, notadamente pela inclusão de uma torre de base circular, coroada por cúpula revestida em chapa metálica, adequando-se ao panorama das torres. Seu térreo apresentava tratamento em bossagem continua, sobre o qual assentavam pilastras coríntias em ordem dupla. Cornija e platibanda contínuas arrematavam a composição. Apresentava como característica particular, o jogo de balcões, com guarda corpo em balaústres, projetados das aberturas de elegantes proporções verticais.

Figura 3. O edifício eclético antes da reforma: detalhe da esquina da Rua Dona Maria César e Avenida Rio Branco (Fonte: arquivo do arquiteto Delfim Amorim)

Internamente, o edifício caracterizava-se pela divisão do plano em salas isoladas, dispostas ao longo das vias públicas e acessíveis por corredores abertos voltados para o pátio triangular interno. Os altos pés direitos conferiam o conforto térmico necessário para a ocupação e bom desempenho das atividades. Neste sentido, o pátio coberto prestava-se como área de exaustão do ar quente, através de um conjunto de esquadrias de veneziana de madeira localizadas abaixo da estrutura de coberta. (3)

Pode-se afirmar que os aspectos que identificavam este edifício no contexto do Recife Novo (expressão usada para se referir ao trecho reformado do bairro) eram, em síntese, os seguintes: (a) a forma e a situação inusitada do lote; (b) a torre, como referência urbana e compositiva do edifício; (c) o pátio central, como elemento de integração visual de suas diversas partes; (d) os balcões, amplamente utilizados nos edifícios ecléticos construídos no período.



Figura 4. Planta baixa dos pavimentos térreo e primeiro do edifício eclético



3 A intervenção moderna

Antes da intervenção moderna, o edifício foi ocupado pela Alfândega, e precedido pelo Banco Agrícola e Commercial de Pernambuco, conforme atesta o Guia Turístico do Recife, de 1935. O seu último ocupante deixou o edifício em péssimas condições de conservação, conforme atestaram os operários que participaram dos trabalhos de reforma. Este parece ter sido um dos motivos da solicitação feita ao arquiteto Delfim Amorim, em 1959, para a reforma com mudança de uso daquele edifício. De fato, o interesse dos novos proprietários era a sua recuperação e otimização do seu potencial imobiliário.

Um dos proprietários do imóvel era o Sr. Luciano Costa Júnior, comerciante de grande prestígio social na cidade. Amorim e Costa Júnior desenvolveram, ao longo dos anos, uma profícua colaboração, que resultou em uma série de empreendimentos, incluindo sua própria residência de férias (1958), localizada no Engenho Poeta, subúrbio do Recife; as residências geminadas na Rua Camboim, l26 (1963); as residências geminadas na Av Conselheiro Aguiar, 4214; uma residência unifamiliar na Rua dos Navegantes, 1130 (1964) e a reforma de edifício de escritórios na Rua Vigário Tenório, 191 (Amorim, Gomes, Oiticica, Salles, & Santos, 1981).

Ao que parece, o desejo dos novos proprietários era a transformação do edifício de gosto eclético, de plano compartimentado, em um "moderno edifício de escritórios", compatível com a tendência do período e com as demandas da área. O programa básico consistia em lojas, no pavimento térreo, e salas de escritório, nos demais pavimentos, obedecendo ao principio do plano livre, viabilizando assim, a adaptação do espaço para qualquer locatário.

Cabe aqui uma pergunta: porque os proprietários não investiram na demolição e construção de um edifício em altura, já que não havia restrições quanto à preservação do imóvel, nem tão pouco restrições para a verticalização da área? Uma possível resposta para essa questão seria os limitados recursos disponíveis. De fato, não havendo na época o instrumento da incorporação imobiliária e/ou facilidades para financiamento de construção, a limitação dos recursos próprios podem ter sido os parâmetros para a definição do empreendimento.

3.1 O estudo preliminar

A primeira proposta apresentada por Amorim é contundente. Ela procura otimizar o volume edificado e transformar a epiderme do edifício, modernizando-a. Esta proposta inicial, não preservava nenhuma das características originais do edifício, o que torna mais importante o entendimento do processo de elaboração da solução final do projeto de reforma. De forma resumida, seu estudo preliminar previa as seguintes intervenções:

(a) A ocupação máxima do volume edificado, com a demolição total das paredes internas e pisos, e a construção de 5 pavimentos, além do pavimento térreo, concebidos como planos livres;

(b) A ocupação do pátio central pelos sistemas de circulação vertical e horizontal, sanitários e poço para exaustão e iluminação. Esta solução reflete o desejo de racionalização construtiva, com concentração dos serviços em uma mesma prumada, localizada na área de menor valor comercial, bem como o desejo de utilização máxima da área disponível. O volume de serviços se destaca do corpo do edifício, em atendimento às exigências técnicas da casa de máquinas e caixa d'água superior. É curioso notar que este volume técnico de coroamento da edificação vem substituir, na linguagem moderna, o elemento vertical da torre da esquina característico das edificações ecléticas do Bairro.

(c) Previa a modificação da fachada do pavimento térreo, com a inclusão de vitrines em ferro e vidro para as lojas comerciais, e a retificação do paramento do edifício;

(d) Propunha a construção de uma varanda corrida em cada pavimento;

(e) Criava, na fachada, uma retícula em concreto, correspondente a altura dos pisos e planos verticais de segmentação da varanda, preenchida por brises verticais e elementos vazados de diversos formatos, numa composição semelhante àquela concebida por Lúcio Costa para o conjunto de edifícios residenciais do Parque Guinle (1948-1954), no Rio de Janeiro. Vale salientar que a utilização do elemento vazado se enquadrava nas investigações desenvolvidas pelo arquiteto em busca de uma arquitetura de diálogo com o clima local, bem como sua utilização como elemento marcante do vocabulário arquitetônico moderno brasileiro. O conjunto de residências para a Fábrica da Tacaruna, de 1953, e o Edifício Pirapama, de 1956, são exemplos felizes de aplicações de elementos vazados antes do Edifício Luciano Costa. A proposta de recobrir inteiramente o edifício com elementos vazados comparece, ainda, em várias obras do arquiteto, como no Colégio Nóbrega (com Heitor Maia Neto) de 1969, e no Seminário Regional do Nordeste (com Marcos Domingues e Florismundo Lins) de 1962, em todos eles atendendo ao interesse de proteger os ambientes da insolação direta, obtendo uma redução da carga térmica do edifício.

Figura 5. Estudo Preliminar: perspectiva.

Essa proposta de intervenção em muito se assemelha a outras posturas de modernização de edificações do centro histórico do Recife. Aliás, essa proposta de atualização de edifícios é recorrente na história da arquitetura, e o próprio Bairro do Recife já havia testemunhado este mesmo processo com a substituição dos muxarabis e rótulas dos sobrados coloniais, por balcões com guarda corpo em ferro fundido e esquadrias de venezianas e vidro, e dos beirais por platibandas em alvenaria adornada, numa aproximação ao gosto neoclássico, predominante na época. Quando da renovação urbana do Bairro do Recife, muitos sobrados sofreram uma reforma nas suas fachadas, procurando uma mimese com os edifícios ecléticos que começavam a ser construídos. Este mesmo fenômeno pode ser notado, mais recentemente, com a retirada dos elementos decorativos do vocabulário clássico e sua substituição por um tratamento compositivo de gosto modernista. É comum, neste período, a aplicação de azulejos e pastilhas cerâmicas nas fachadas, e a substituição das esquadrias de madeira por básculas de ferro e vidro.

Em todas essas condições, um novo repertório arquitetônico é agregado à estrutura do edifício, numa atitude que poderíamos chamar de substitutiva: a epiderme do edifício é modificada para receber uma roupagem mais adequada aos novos tempos.

O estudo preliminar, portanto, enquadra-se nessa premissa substitutiva e modernizadora. Porém, a edificação que hoje conhecemos, é fruto de uma postura diversa. Ela parte do princípio de sobreposição de princípios compositivos e procedimentos técnico-construtivos contemporâneos, sem a remoção da epiderme original do edifício. Segundo informações de contemporâneos (4) o arquiteto Delfim Amorim deliberadamente imaginou o envolvimento do edifício como uma forma de preservá-lo para uma futura intervenção restauradora de suas características ecléticas originais. Assim, o arquiteto abandona a premissa substitutiva e introduz outra que pode ser identificada como apositiva. O interesse, agora, é tentar entender como ocorreu essa mudança de enfoque ao longo do desenvolvimento do projeto, pela confrontação entre os documentos existentes, os depoimentos de profissionais envolvidos na construção e o testemunho do próprio edifício.

3.2 O projeto

O projeto arquitetônico foi concluído em 18 de dezembro 1959 e aprovado pela Prefeitura Municipal do Recife, em 26 de janeiro de 1960. Neste, mudanças significativas podem ser identificadas, quando comparadas ao estudo preliminar. O projeto aproveita, de forma mais eficiente, a estrutura e organização espacial do edifício. Os pisos e pés-direitos originais são mantidos, com a exceção do pavimento térreo, que recebe a inserção de uma sobreloja, aproveitando o pé-direito de 7,50m. A planta obedece aos limites existentes e ordena os espaços internos para servir ao novo uso.

É mantido o mesmo tratamento exterior indicado no estudo preliminar para o pavimento térreo, e confirma-se a entrada do edifício pela Rua Dona Maria César, com a apropriação do antigo acesso por uma das lojas. Quanto à ocupação do pátio interno, algumas mudanças ocorrem forçadas pela decisão de intervir minimamente na estrutura original do edifício. As prumadas dos banheiros são deslocadas para atender a cada sala individualmente. São mantidas no pátio central as circulações verticais e horizontais, área para exaustão e os sanitários de dois conjuntos de salas. As áreas remanescentes do pátio são incorporadas pelas salas voltadas para a Rua do Bom Jesus.

Figura 6. Planta baixa do primeiro pavimento do projeto de reforma

Porém, apesar destas mudanças, o arquiteto permanece com a proposta de envolver o edifício com uma membrana de elementos vazados, agora com outro sentido. Se no estudo preliminar a membrana surge para proteger uma varanda, no projeto, com a manutenção dos pisos originais, o arquiteto opta por uma membrana que intenta homogeneizar o tratamento plástico do edifício. Para tanto, as vigas de suporte dos elementos vazados não correspondem aos níveis dos pisos internos, gerando uma fachada que denuncia a existência de 4 pavimentos, quando na verdade existem apenas 3 pavimentos(incluindo a sobreloja). Da mesma forma, as aberturas no plano de elementos vazados, não correspondem à distribuição das janelas existentes. Ou seja, o arquiteto propõe uma fachada falsa, cuja composição é livremente estabelecida.

A inserção dessa nova fachada não é feita sem uma considerável intervenção na fachada original. O projeto destaca a retirada dos elementos decorativos da fachada e as cercaduras das janelas, bem como os balcões que tanto identificavam o edifício. A estrutura de suporte da nova fachada é engastada na alvenaria original sem que observe o local mais adequado para a sua inserção. Ela interfere na continuidade das cornijas e arquitraves, demole aleatoriamente diversos elementos decorativos e interrompe a bossagem do pavimento térreo original. Essas indicações sugerem que o arquiteto estava mais preocupado com a construção de uma face para o empreendimento, do que com a salvaguarda do edifício eclético. Neste caso, cairia por terra a tese de uma intervenção conservadora por parte do arquiteto, ao menos parcialmente.

Quais teriam sido as razões para as mudanças ocorridas entre o estudo preliminar e o projeto? Uma hipótese, aventada inclusive por Gomes (1994), teria sido a redução do custo da construção. Seria mais econômico encobrir do que reconstruir. Outra hipótese seria fundamentada em problemas de natureza estrutural. A estrutura de alvenaria do edifício original não apresentaria a resistência necessária para absorver os esforços dos novos pavimentos sugeridos no estudo preliminar, exigindo, conseqüentemente, um alto custo para seu reforço. Segundo o engenheiro João Augusto Carvalho, responsável pela obra, o engenheiro Humberto Baltar foi o autor do cálculo estrutural do projeto de intervenção, e esteve presente nas decisões tomadas pelo arquiteto.

3.3 O edifício

Do projeto aprovado para o edifício construído, poucas alterações podem ser notadas (dimensionamento da caixa de elevadores, ampliação do hall de acesso do térreo com a inclusão de parede curva azulejada, nivelamento do plano térreo com a calçada, entre outros), e nenhuma delas indica uma mudança de atitude que tenha sido formulada no projeto. O edifício, porém apresenta uma redução considerável no número de intervenções na fachada eclética, reforçando o hibridismo da proposta. Híbrido, por utilizar um repertório formal moderno em diálogo com o ecletismo do edifício original. Híbrido, porque apresenta duas posturas de intervenção: (a) substitutiva, como no tratamento do pavimento térreo e na ocupação do pátio interno; (b) apositiva, como no envolvimento dos pavimentos superiores e na manutenção dos contornos e características originais de alguns espaços (sala oval, colunas do antigo pátio, manutenção das aberturas nas suas características originais). Híbrido porque o arquiteto deixa latente na edificação dois tipos de espaços: o eclético transformado e o moderno idealizado.

Esses dois instantes do edifício são apresentados aos seus usuários em seqüência. Primeiro o visitante penetra em um edifício de características modernas e, em etapas seguintes, percebe a simbiose dos edifícios ecléticos e modernos, até ser apresentado aos seus referentes máximos, no instante do usufruto da janela. Ali o arquiteto construiu o espaço da ruptura, cujos limites são as sínteses dos edifícios metamorfoseados: a fachada eclética e a película moderna de elementos vazados. Este espaço, anteriormente referido como locus da ruptura (Amorim, 1994: 224) parece ser a grande contribuição arquitetônica contida no edifício.

Figura 7. Edifício Luciano Costa (Foto: Geraldo Gomes)

Outra propriedade ímpar presente na obra é a sugestão contida no envolvimento do edifício eclético. Essa presumível atitude de preservar a fachada eclética para posterior restauração antecipa a recente valorização daquela arquitetura, contrapondo-se à atitude modernista de renegar o "bolo confeitado", e é identificada por muitos como a mais significativa lição dada pelo arquiteto nesta obra. Se essa perspectiva conservadora do arquiteto é verdadeira, ela teria sido tomada não pelo valor arquitetônico do edifício como obra isolada, mas sim por sua inserção em um conjunto urbano harmônico, o que anteciparia futuras posturas interessadas em preservar conjuntos urbanos. Vale salientar que o arquiteto, como consultor do IPHAN, teve oportunidade de discutir e analisar cuidadosamente com os técnicos daquele órgão, critérios e princípios para serem utilizados em ações de restauração e conservação de monumentos. Dessa forma, não seria surpresa se a proposta de intervenção no imóvel eclético tivesse sido formulada com base na premissa de sua conservação para uma futura ação restauradora.

Finalmente, um último aspecto de vital importância para entendimento da obra se refere à idéia de construir uma fachada falsa que carrega em si a imagem do edifício "moderno", e diga-se de passagem, um moderno brasileiro. O véu de elementos vazados se constituiria como uma fachada falsa porque não apenas encobre uma edificação eclética, mas porque ela sugere a existência de quatro pavimentos, quando na realidade a edificação contém apenas três pisos, e as perfurações feitas na película de elementos vazados, não apresenta nenhuma relação com as janelas existentes. Neste sentido, o véu de elementos vazados constitui-se como uma estrutura autônoma e auto-referente.

Em nenhuma outra obra o arquiteto utilizou com tal liberdade destes princípios. É curioso notar que essas atitudes revolucionárias latentes no Edifício Luciano Costa não foram repetidas pelo arquiteto em outras intervenções em edifícios históricos, inclusive aqueles existentes no Bairro do Recife (5). Em projeto de reforma para o edifício nº 191 da Rua Vigário Tenório, solicitado pelo o mesmo Luciano Costa Júnior, Amorim retira toda a epiderme eclética do imóvel e a substitui por pastilhas em cores cinza e branca, ordenadas em panos verticais, em uma composição pobre, simplesmente acomodada à distribuição das aberturas na fachada. Será que aquela postura apositiva não foi aprovada pelo proprietário? E pelo arquiteto? Será que a postura substitutiva demonstrou ser a mais econômica, e portando, a mais adequada para projetos especulativos de modernização de edifícios?

Geraldo Gomes (1994), em seu artigo Delfim Amorim - Documento, parece concordar com essa hipótese. Segundo ele, “o véu de noiva”... se justificaria simplesmente como uma prática visando a redução de custos da obra’ (Gomes, 1994: 79), e fundamenta a improbabilidade de uma postura conservadora do arquiteto nesta obra pela apresentação de uma série de obras em que o arquiteto utilizou uma linguagem plástica que ‘ignorava o contexto tipológico onde seria inserido’, sem seguir aquela postura apositiva. O autor conclui seu artigo afirmando que o arquiteto ‘incorporou e transmitiu, com admirável coerência, o espírito modernista de estética das cidades’, que segundo ele pode ser identificada por sua ‘evidente marca iconoclasta’ (Gomes, 1994: 79),

De fato, das diversas obras que o arquiteto projetou para conjuntos de interesse histórico, a grande maioria delas propunha intervenções marcadamente modernistas. Porém, nas oportunidades que o arquiteto teve, ele procurou integrar a nova edificação ao contexto existente através da incorporação de princípios ou regras compositivas utilizadas nas edificações vizinhas. A reforma que o arquiteto projetou juntamente com o arquiteto Oliveira Martins, na Póvoa de Varzim, em 1947, para o senhor Américo Graça, é um magnífico exemplo. Nele os arquitetos constroem o diálogo entre as edificações vizinhas, pela continuidade das linhas horizontais predominantes, sem, contudo negarem-se a explorar de forma enfática a estética e espacialidade modernas, como demonstrado pela tridimensionalidade da fachada do sobrado. O próprio edifício para o Sindicato dos Despachantes Aduaneiros, citado por Gomes, faz, sutilmente, a passagem entre a escala e ritmo dos sobrados que ocupam a quadra entre a Rua do Bom Jesus e a Avenida Alfredo Lisboa, e a torre moderna de escritórios, voltada para a Praça do Arsenal da Marinha.

É muito difícil especular sobre idéias que, presumivelmente, edifícios podem anunciar. No caso em estudo, o seu autor não está presente para discutir os fundamentos utilizados para o desenvolvimento do projeto, nem tampouco existem documentos que os comprovem. Por outro lado, os edifícios, de fato, nos falam, nos afetam os sentidos, e é a ele sempre que devemos nos reportar, porque arquitetura é antes de tudo obra edificada. No caso do edifício Luciano Costa, mais importante do que as intenções do arquiteto, são as indagações formuladas, e ainda presentes, quando o arquiteto decidiu pelo envolvimento do edifício eclético. O que é interessante discutir agora não é se o edifício é representativo ou não do pensamento do arquiteto. Se ele representa uma antevisão consciente de posturas preservacionistas ou uma atitude revisionista frente aos cânones modernistas, parece ser de pouca importância. O edifício não é apenas importante porque é um exemplar inusitado no conjunto da produção do arquiteto. A obra suplanta o seu autor, porque as questões que ele encerra não podem ser limitadas pelos contornos de sua obra.



Figura 8. Edifício Américo Graça, Póvoa de Varzim, Portugal

(Fonte: arquivo do arquiteto Delfim Amorim)

4 Diretrizes para uma possível intervenção

Porém, essa discussão sobre os fundamentos da intervenção proposta por Amorim passa ao largo das preocupações daqueles que tem no edifício Luciano Costa uma fonte de recursos para a sua sustentação. Os atuais proprietários, herdeiros do empreendedor Luciano Costa Júnior, têm em mãos um edifício de difícil manutenção e, por esse motivo, desejam restaurar a parte eclética do edifício. Acham-se mais compelidos ainda pela oportunidade ímpar de inserir o imóvel no processo de restauração e revitalização do Bairro do Recife, desenvolvido pela Prefeitura da Cidade do Recife, através do Escritório Técnico do Bairro do Recife. Como o edifício está incluído entre os imóveis de destaque incluídos no perímetro de preservação rigorosa do Bairro do Recife definido pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), nenhuma ação de descaracterização poderá ser feita, mesmo porque, o que justificou a sua inclusão como imóvel de destaque, foi a intervenção moderna de Amorim: ‘a intervenção salvadora já se integrou à arquitetura do Recife e deve ser preservada’ (Urb-Recife/IPHAN, 1998).



4.1. Estado de conservação

O edifício, de fato, apresenta sérios problemas de conservação. A sua rede de infra-estrutura, já superada depois de 50 anos de uso, precisa ser modernizada. As constantes adaptações do edifício para atender às demandas dos seus condôminos são também causas da degradação física do imóvel.

Outros problemas devem-se ao próprio “encamisamento” do edifício eclético. Como o véu de elementos vazado representa a própria imagem do edifício, a fachada eclética ‘protegida’ não recebeu nenhuma manutenção. Ela encontra-se em estado deplorável, com uma perda considerável dos adornos originais em estuque. Além disso, a retícula de elementos vazados constitui-se em um habitat perfeito para os pombos. A sujeira e o mau cheiro impossibilitam a aproximação dos usuários das janelas.

Para concluir, o suporte da película de elementos vazados, constituído de vigas em concreto armado engastadas na alvenaria do edifício, apresenta a ferragem oxidada em vários pontos e a trepidação causada pelo tráfego pesado de ônibus e caminhões nas artérias circundantes, tem gerado o descolamento de muitos elementos vazados, substituídos, paulatinamente, pelos atuais proprietários, sem seguir, com fidelidade, as características originais da intervenção do arquiteto.



4.2. Diretrizes

Essa vem a ser uma das justificativas pela solicitação formal de remoção do véu de elementos vazados por parte dos proprietários do imóvel. Ela vem colocar de forma objetiva aquela questão que anunciamos no início do texto: retirar ou não retirar o painel de elementos vazados? Restaurar ou não restaurar o edifício eclético?

A população em geral, usuários do edifício e freqüentadores do bairro são, na sua maioria, pela recuperação das características ecléticas do imóvel, principalmente pelo sequioso culto ao velho. Esse sentimento é mais forte hoje, após todo o investimento na reabilitação do Bairro do Recife, particularmente do Projeto Cores da Cidade, da Fundação Roberto Marinho, responsável pela recuperação e pintura dos edifícios ecléticos do Recife Novo. Retirar o véu da noiva significaria revelar para a cidade, a beleza oculta durante esses quarenta anos de reclusão.

Entre os arquitetos, e particularmente aqueles que trabalham na área de preservação, a postura predominante é a de manter o edifício moderno (ou melhor, a sua parte moderna imbricada), retirando alguns dos fechamentos de elementos vazados para possibilitar uma melhor visão do edifício eclético (ou melhor, a sua parte eclética imbricada). Nesse processo, restaria o trabalho de selecionar os melhores ângulos de visualização do edifício, provavelmente aquelas que o valorizariam, como o próprio contexto urbano.

Apesar de conter uma lógica interna, baseada na valorização do aspecto preservacionista da intervenção, esta parece não ser a conduta mais adequada. Primeiro, porque a intenção do arquiteto ao criar a malha de concreto foi ser, além de elemento de composição, suporte estrutural da reticular de elementos vazados cerâmicos. O arquiteto procurou reproduzir um plano de fechamento de uma área interna útil, ou seja, as alturas das aberturas nos elementos vazado fazem crer a presença de um homem, configurando uma escala de referência para a fachada. A abertura de um plano completo conferiria à malha uma importância exagerada, e desvirtuaria aquela proporção definida pelo arquiteto.

Segundo, porque o elemento vazado escolhido, e presente desde o estudo preliminar, sugere uma sutileza no olhar do transeunte. Como nos muxarabis e nas rótulas, o interior não é visto, mas é sugerido; não esta aparente, mas é descoberto (por um olhar atento). A simples retirada de planos de elementos vazados romperia o véu da noiva de forma deselegante.

Por fim, esta atitude pouco acrescentaria ao hibridismo próprio do edifício. O espaço limítrofe é o espaço que deveria ser valorizado, e não os elementos componentes dele. Qualquer intervenção que venha a ser feita, deveria ter como objetivo primordial o de preservar as características deste lugar, valorizando-o. O que significa dizer, corrigir os efeitos da própria inserção da película de elementos vazados, como a interiorização do uso do edifício, gerada principalmente pela supressão de alguns balcões originais, pela vedação das janelas para a instalação de aparelhos de ar condicionado e a falta de conservação das fachadas.

A observação desses aspectos sugere que uma intervenção no conjunto edificado deveria manter e valorizar algumas de suas características mais próprias. A primeira delas seria permitir uma maior acessibilidade ao chamado espaço ou locus da ruptura, através da recriação de alguns dos balcões originais e da abertura das janelas das salas. A segunda, sugeriria a recuperação da fachada eclética, valorizando-a como delimitação daquele espaço, recebendo a pintura adequada, luminosa e em tonalidade contrastante com os elementos vazados. Com essa solução a fachada eclética se revelaria para um olhar mais atento. A terceira, e última, imaginaria a substituição de alguns planos de elementos vazados, por outros modelos de elementos vazados e brises, como imaginado pelo arquiteto em seus estudos iniciais. Seria a oportunidade de aumentar a transparência da membrana moderna, sem desvirtuá-la.

Essas três diretrizes básicas pressupõem uma ação menos radical e mais econômica. Outras ações mais complexas, e conseqüentemente mais caras, poderiam constituir em uma oportunidade de colocar o edifício como objeto de investimento de capital privado, interessado em investir na área. Essas intervenções teriam início pela recriação parcial do pátio interno, e conseqüente redistribuição das circulações verticais (que poderão estar perfeitamente integradas ao pátio) e dos sanitários. Como conseqüência, teríamos uma significativa redução da área útil dos pisos, que poderia ser compensada com a inserção de mezaninos nos pavimentos superiores.

Outra ação oportuna seria a reconstrução da antiga torre, obedecendo a um desenho contemporâneo, como afirmação do desejo de restauração do imóvel original. Paralelo a isso, seria fundamental a abertura do antigo acesso na esquina da Av. Rio Branco e Rua do Bom Jesus, sob a torre, para afirmar os eixos de acesso e simetria dos edifícios eclético e moderno imbricados.

É evidente que um estudo mais detalhado, inclusive de prospecção, iria levantar outras hipóteses e confirmar algumas interpretações apresentadas. Estas ações somadas seriam suficientes para ressaltar as características fundamentais do imóvel, que não se constitui de um edifício deturpado por uma reforma, nem uma reforma que lamenta o suporte que tem. Na realidade, o edifício constitui-se como um híbrido, cujas características e contribuições para a arquitetura são bem mais importantes do que aquelas do edifício original, que sem desmerecê-lo, era mais um edifício eclético do Bairro e, salvo contrário, permanece sendo. Finalmente, o que deve ser ressaltado aqui, é que dentre as edificações existentes no bairro do Recife, o edifício Luciano Costa é único, e como tal deveria ser mantido dentro das características essenciais apresentadas aqui.

Referências bibliográficas

Amorim, L. (1994). Edf. Luciano Costa, o Locus da Ruptura ou Alien, o Monstro da Pós-Modernidade. Revista ArteComunicação, 1(1), 207-231.

Amorim, L., Gomes, G., Oiticica, D., Salles, M., & Santos, P. S. (1981). Delfim Amorim, arquiteto. Recife: Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento de Pernambuco.

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Gomes, G. (1994, Documento: Delfim Amorim. Arquitetura e Urbanismo, p. 71-79.

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Urb-Recife/IPHAN (1998). Revitalização do Bairro do Recife - Proposta de Tombamento a Nível Federal. Recife: Urb-Recife.

Notas


1 Esse texto é uma revisão ampliada e atualizada do artigo intitulado Edf. Luciano Costa, o Locus da Ruptura ou Alien, o Monstro da Pós-Modernidade (Amorim, 1994).

2 Fotos do acervo da Fundação Joaquim Nabuco, datadas de 1915, mostram a execução de suas fundações.

3. Vale salientar que essa descrição do pátio interno do edifício foi dada pelos senhores José Roque da Silva e José Alberto da Silva, respectivamente pedreiro e eletricista da obra de reforma do edifício Luciano Costa. Como não foi possível recolher os planos originais do edifício, essa descrição será tomada como referência para as análises desenvolvidas neste estudo.

4. Em conversa com os arquitetos Armindo Leal, Carlos Alberto Carneiro da Cunha, Moisés Agamenón, Everaldo Gadelha e Geraldo Santana, além de outros.

5. Além destes Delfim Amorim projetou os seguintes edifícios: Bolsa de Valores do Recife (1957), 1º lugar em concurso público, em colaboração com os arquitetos Lúcio Estelita e Waldecy Pinto; Edf. do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros (1963); e edifício situado na Rua da Moeda, nº 149.

Currículo do autor

Arquiteto pela UFPE, em 1982, e PhD em Arquitetura pela University College London, em 1999. É professor associado da UFPE, lecionando no Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo e no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano – MDU.



Endereço para correspondência

Rua do Giriquiti, 205/9

50070-010 - Recife/PE

fax: 81 2126 8311



email: amorim@ufpe.br





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