Iii seminário internacional enlaçando sexualidades



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III SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES

15 a 17 de Maio de 2013

Universidade do Estado da Bahia – Campus I

Salvador - BA




JOVENS HOMOSSEXUAIS EVANGÉLICOS: “ O que um menino de 13 anos escolheria?”

Vanderlay Santana Reina1

Anadil Nascimento Lima2
RESUMO
Este estudo tem como propósito compreender as dificuldades e conflitos de jovens pertencentes às famílias evangélicas, cuja orientação sexual se define como homoafetiva. A articulação do objeto jovens evangélicos homossexuais, em conflito com a família e a religião evangélica ganha expressividade como problemática ao entender que tanto as famílias quanto a religião passaram por mudanças significativas na contemporaneidade e, consequentemente, produziram mudanças no perfil religioso da sociedade brasileira e nas famílias. Pesquisas têm revelado, o fenômeno da homofobia ocorre mais nos centros urbanos, visível no Município de Salvador, responsável pela agressão e morte de homossexuais. Afirma-se que muitas vezes a rejeição de homossexuais acontece primeiramente na família de origem, principalmente na fase da adolescência quando a experiência sexual diverge dos princípios e valores praticados no contexto familiar. Essa pesquisa é de cunho qualitativo, baseado em estudo de caso, realizada através de entrevistas com cinco jovens, do sexo masculino, pertencentes ao evangelismo, no contexto das famílias populares urbanas. O resultado parcial da pesquisa aponta que a definição sexual aconteceu durante a fase da adolescência. A maioria das famílias, dos entrevistados com base nos princípios do evangelismo vê a escolha de seus filhos como um “mal” que precisa ser curado. Os adolescentes por outro, vivem os conflitos da rejeição/aceitação. Espera-se que os resultados dessa pesquisa possam proporcionar aos profissionais que trabalham com as políticas públicas de apoio aos jovens homossexuais um novo olhar sobre a sexualidade.
Palavras-chave: Famílias plurais, geração, homossexualidade.

A partir de pressupostos “normalizantes” pensamos como em diferentes esferas da sociedade, da ideia segundo a qual algumas pessoas e também as famílias são desestruturadas. A sociologia, ao lado dos estudos antropológicos de parentesco, muito já refletiu acerca dos mecanismos sociais que produzem os ditos “comportamentos desviantes”: numa perspectiva crítica, estas disciplinas vêm demonstrando que aquilo que é considerado desvio não é senão um esforço de padronizar comportamentos dentro de um esquema que a sociedade considera – a partir de uma construção sociocultural – ser o “melhor' e mais “'natural”(REINA, 2008). Já podemos até afirmar com base nos estudos antropológicos demonstram, em definitivo, que o que há de mais natural em nós é antes de tudo cultural (LAPLANTINE, 1988).

Esse estudo, portanto, busca compreender jovens evangélicos, homossexuais, em conflitos com as famílias e a experiência religiosa ganhando expressividade como problemática ao entender que tanto as famílias quanto a religião passaram por mudanças significativas na contemporaneidade e, consequentemente, produziram mudanças no perfil religioso da sociedade brasileira e nas famílias.

Nessa perspectiva de entender a história de exclusão dos jovens, envolvidos em conflitos familiares aqui analisados, percebemos nos depoimentos que a questão das gerações parece constituir dimensão importante de diferenciação e identificação interna, parte integrante das representações que estes grupos elaboram sobre si mesmos e sobre o mundo social. Interessadas em entender como se constitui a questão geracional e o papel assumido pelo “conflito de gerações” nestes grupos de jovens e seus pais, indiretamente com outros membros das famílias e até professores não nos preocupamos em definir ‘de fora’ padrões ‘objetivos’, mas em entender as críticas socialmente construídas para apontá-las.

Desse modo foram realizadas quatro entrevistas. Para sua realização adotamos como critérios determinantes os participantes serem jovens homossexuais, da camada popular urbana, cuja família é ou já foram evangélicas. Dos quatros participantes, entrevistamos hum adulto de 50 anos e três adolescentes entre 17 e 22 anos. Pretendíamos entrevistar as famílias dos participantes, contudo não foi possível, pois os pais não aquiesceram com base, nos princípios da religião evangélica, entendendo que a sexualidade entre sujeitos sociais do mesmo sexo, não podem ser consentido.

Os evangélicos vem se destacando como o segmento religioso que mais cresceu no Brasil no período intercensitário. Em 2000, eles representavam 15,4% da população. Em 2010, chegaram a 22,2%, um aumento de cerca de 16 milhões de pessoas (de 26,2 milhões para 42,3 milhões). As gerações de evangélicos e protestantes do século passado certamente não são homogêneos, diante das transformações e pluralidades que vem ocorrendo nas famílias e na sociedade. Já mencionava Bourdieu (1983, p. “Olhando o modo de vida social, do ponto de vista das gerações, tudo muda o tempo todo”, somos jovens e velhos de alguém”. Essa distancia social, nos permite distinguir o modo como as gerações se diferenciam, no pensar, nas experiências vividas. A orientação sexual, o modo de portanto lidar com a sexualidade não está dissociada da idade/geração em que o individuo está inserido.

Historicamente a sociedade desenvolveu-se tendo idade e o sexo/gênero, como critérios fundamentais de organização e integração social, principalmente de participação na divisão social do trabalho, foi construindo, ao mesmo tempo, formas organizativas outras que redundaram em discriminação, marginalização ou exclusão igualmente baseadas na idade - assim como em critérios relativos ao gênero. Ora, exatamente por essa amplitude ou heterogeneidade identitária é que podemos entender o significado dado por Mannheim (1928), que podemos viver no mesmo tempo histórico com outras pessoas mas esse mesmo tempo histórico não é igual para todos. O que significa dizer que as unidades de geração poderão apresentar particularidades, também segundo as várias ligações identitárias de gênero e de classe social dos que as compõem.

A família tem sido vista, como um dos eixos relevantes para a inclusão dos sujeitos sociais, concordando (CASTELS,2010) por que não jovens homossexuais. Contudo, muitas vezes é de onde parte o primeiro contato com a violência social, com a homofobia, deixando os jovens, sem apoio e vulneráveis as agressões sociais. A religião, assim, como a família, usa do proselitismo religioso para condenar as relações afetivas fora do casamento heterossexual, a intensidade com ocorre será determinante levando em consideração a classe, gênero e gerações, na rejeição/aceitação dos homossexuais.

O caso brasileiro em 2011 quando da legalização da união homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal – STF, a CNBB assim se pronunciou nos meios de comunicação: “A pluralidade tem limites. Afeto não pode ser parâmetro para constituição de união homoafetiva estável”. Sabemos que a igreja Católica não está sozinha nesta afirmação. Esse comportamento em famílias plurais – famílias cujos membros professam crenças diferentes – foge das expectativas esperado dos gêneros, seja masculino ou feminino. Essas expectativas podem ainda mostrar-se em um processo de definição ou de escolha, em sujeitos na fase de desenvolvimento ou até na adultez, como será mostrado neste estudo. Pesquisas têm revelado, o fenômeno da homofobia ocorre mais nos centros urbanos, visível no Município de Salvador, responsável pela agressão e morte de homossexuais, registros constantes na imprensa falada e escrita.

A sexualidade e a experiência religiosa “são domínios que modelam a subjetividade dos sujeitos, conduzindo a distintas formas de percepção e de vivência do mundo e das relações sociais, que são continuamente reelaboradas no fluxo da experiência social” (HEILBORN, 2005). A prática da homossexualidade fere o “modelo” de sexualidade exigida pelo evangelismo de relações heterossexuais em uma perspectiva de reprodução, através do casamento cristão.

A adolescência tem sido vista como o momento de grandes descobertas, principalmente no que se refere à sexualidade. No entendimento de Heilborn “representações, valores e comportamentos relativos à sexualidade e gênero vão se consolidando no decorrer da adolescência”. É nessa fase do desenvolvimento que o adolescente vai precisar principalmente, do apoio familiar, dos professores e grupos de pares. Relatos escutados nos atendimentos à adolescentes do PRO HOMO3, estes afirmaram ser muito difícil assumir uma orientação sexual quando essa diverge dos princípios da família de origem, acarretando muitas vezes a autorejeição. O adolescente se sente dividido, sofrido por se reconhecer “diferente” do padrão praticado no contexto social, vivenciando conflitos, rejeições e ameaças por parte dos pais e outros membros da família (HEILBORN, 2005, p.225).

Essa conduta, em famílias plurais foge do cotidiano de famílias não plurais, onde o indivíduo cresce e se desenvolve assimilando e aprendendo os princípios religiosos, ensinado pela sua família de origem, que “O homem foi feito para mulher e a mulher para o homem”, como é citado na Bíblia4. E assumir a opção sexual quando essa diverge da moral cristã pode exigir esforço e atitude diante da qual o adolescente não se sente preparado, maduro e/ou adulto.

Há tentativas de exclusão dos homossexuais da sociedade, essa marginalização, começa muitas vezes da não aceitação. Essa divergência é citada por Heilborn, (1999), ao explicar que a “sexualidade e experiência religiosa são domínios que modelam a subjetividade dos sujeitos, conduzindo a distintas formas de percepção e de vivência do mundo e das relações sociais, que são continuamente reelaboradas no fluxo da experiência social.   Concomitante, as gerações assimilaram e constróem um modo de viver e se relacionar diferentes de epocas anteriores, incorporando novos pensamentos, condutas e práticas constituidas, menos conservadoras, rompendo muitas vezes com valores tradiconais, seja das familias, seja da religião ou até da sociedade global. 
 O estudo 

     Relataremos, a seguir, os elementos das entrevistas associados aos conflitos familiares e intergeracionais. Inicialmente, apontaremos elementos derivados da família de origem dos entrevistados. Posteriormente, elementos das entrevistas inferidos das relações familiares, e, ao final, apresentaremos uma conclusão.

     Foi possível identificar aspectos relacionados a classe social, raça, gênero e gerações. Apresentamos a seguir o perfil dos entrevistados conforme os critérios predefinidos na operacionalização da investigação.
QUADRO - PERFIL DOS ENTREVISTADOS – 2012




Nome *


Idade


Cor


Sexo


Ocupação


Escolaridade


Religião Origem


Religião Atual

Fabrício

22

Pardo

Masculino

Desempregado


Médio incompleto


Católica


Igreja Ramo da Videira


Marcelo

50



Negro


Masculino


Cabeleireiro


Médio completo


Adventista


Igreja Batista

Ricardo


17

Pardo

Masculino

Desempregado

Médio completo

Católica

Sem religião

Junior

22

Pardo

Masculino

Desempregado

Médio completo

Neopentecostal

Igreja Deus e Amor

*Os nomes utilizados são fictícios.
Fabrício, 22 anos. O entrevistado se autodeclara pardo. Congrega na Igreja Ramo da Videira. Tem como religião de origem o catolicismo. É homossexual desde 10 anos. Nesta fase foi morar no interior da Bahia, considerada pelo entrevistado como uma idade difícil, de descoberta, de aceitação da sua orientação sexual. Foi rejeitado pela família. A igreja pentecostal que frequentava na época, não o aceitava por ele ser “gay”. Sua mãe hoje, aceita sua opção sexual de forma branda. Contudo, seu pai prefere se ausentar dessa realidade. A relação com a família (tios e primos) foi muito conturbada no começo quando veio morar em Salvador no apartamento da mãe, devido a sua opção sexual. Conforme o entrevistado ele teve que morar com um tio. Este uma pessoa literalmente preconceituosa, não aceitando o fato de alguém da família ser “gay”, pois todos os homens da família segundo ele tem fama de ser reprodutor. O entrevistado já frequentou o candomblé, porém acredita que necessita ter um contato mais direto com Deus e resolveu seguir o evangelismo.

Junior 22 anos, pardo, de família evangélica, neopentecostal. O entrevistado foi criado pela avó materna. Em sua opinião, sua avó é a autoridade maior na família. Para Júnior devido a sua conduta sofreu ameaças e rejeição em um determinado momento de sua infância recorrente da sua orientação sexual e por conta da repressão preferiu burlar sua orientação sexual. Saiu de casa aos 18 anos. O entrevistado considera sua família homofóbica, pois segue rigorosamente os princípios religiosos, no combate ao homossexualismo. Ele declarou que até hoje, não assumiu sua orientação sexual perante sua família. Convive há dois anos com uma pessoa, porém sua família considera seu companheiro, apenas como amigo. O entrevistado relatou durante a entrevista o sofrimento sofrido, ameaças e rejeição em um determinado momento de sua infância.

Marcelo 50 anos, negro, cabeleireiro. De família de origem evangélica. Relata que nunca assumiu a sua opção sexual perante a família, bem como diante da sociedade. O entrevistado acredita que a homossexualidade é um castigo. Relata que desde a mais tenra idade, desde criança já se sentia diferente. Sempre teve boas relações com a família. Não consegue entender e acreditar que seja uma pessoa normal, já que conhece “a palavra” e “sabe que isso não é de Deus”. Pondera e acredita que pode encontrar a cura da sua homossexualidade. Pensa que um dia ele vai se casar com uma mulher. O entrevistado justifica que sua opção como homossexual seria um castigo, pois sua mãe “falava muito da vida das outras pessoas”. Ele discorre: “a mulher paga a língua com o ventre”. Apesar de ser independente, ele não se aceita como homossexual, mostrando na entrevista o seu sofrimento, justificado nos princípios confessionais de sua religião de origem e nos princípios bíblicos. O entrevistado relata que na Igreja Batista tem uma oração de libertação segundo para ele muito forte, de libertação desse espírito que faz o homem sentir desejo por pessoa do mesmo sexo.

Ricardo tem 17 anos. Pardo. É estudante, vive numa família conjugal – mãe e padrasto. Desde a infância, 06 anos, sua mãe segue os princípios da religião Batista Pentecostal, onde passou por momentos muito difícil para a aceitação da sua sexualidade. O ambiente familiar era de muitas brigas, julgamentos. Ele acredita que a religião interferiu na aceitação da sua mãe, pois ela é conhecedora da palavra e sempre cita trechos da Bíblia. Apesar da religião e da dificuldade de aceitação de sua mãe para ele o amor maternal foi mais forte. Contudo, a mãe do entrevistado não aceita sua escolha, porém procura conviver de forma branda e amigável. O entrevistado verbalizou durante a entrevista que o seu pai sempre declarou: prefiro ter um filho marginal do que um filho gay”.

O desejo por pessoas do mesmo sexo pode ser percebido desde a infância, os adolescentes não relacionam este desejo à socialização de adultos, mas ao sentido de relações sociais entre colegas, amigos, entre outros. Inclusive um deles não aceita o vinculo da sua escolha a abusos cometidos por adultos, parentes. Todos eles relatam que desde a infância sentiram desejo por pessoas do mesmo sexo precisamente três apresentam um entendimento semelhante entre eles.

Identificam-se os entrevistados como sujeitos pertencentes às camadas populares, reafirmaram o valor atribuído a família, o sentimento de não aceitação da definição sexual. Revelam nas narrativas como idade/geração, como etapa de vida, de percepção do homossexualismo. Todos já concluíram o segundo grau, mas não trabalham. Apenas um deles, por sinal adulto, já trabalha.

Apenas o entrevistado de 50 anos se autodeclara negro. Este lida com o sentimento de culpa pela sua orientação sexual, cujo sofrimento é fortalecido pela influencia dos valores confessionais. Evidente neste caso como o fator geracional pesa na in(compreensão) da sexualidade, tida como doença, fortalecida na perspectiva do casamento cristão, conjugal como recomenda a bíblia. Ve-se que o entrevistado adulto, considerando que já trabalha, independente da família de origem, permanece “ o si mesmo” numa conflituosa relação consigo mesmo, a sua não aceitação, a sua orientação afetivo sexual.

A cor se constitui em um diferencial geracional. Os adolescentes se autodeclaram pardo. A cor seria um estigma que acresceria ao corpo mais um diferencial, de exclusão? O entrevistado de 50 anos, considerando a adultez associada a responsabilidades, ocupação, emprego e saída de casa, aparenta contradições insuperáveis.

O entrevistado Junior, 22 anos, relatou que a descoberta de sua homossexualidade aos 13 anos, foi motivo de muito sofrimento para ele e para sua mãe. O episódio expressa o dilema vivido no início de sua adolescência.

[...] 13 anos na 8° serie eu flertava com um garoto, [...] a professora no meio da aula pegou e achou aquilo horrendo, uma falta de respeito[…] e disse: menino tem que gostar de menina e vice versa, além de me criticar ao perguntar se eu era “boiola”? Esse bilhete chegou na mesa do diretor. O diretor em nenhum momento me chamou para conversar, mas chamou minha mãe no dia seguinte à escola e contou tudo a ela e (eu nunca fui aliciado por ninguém), mas o diretor disse que ao conversar comigo – uma conversa que nunca existiu – que um dos meus tios tinha me aliciado (Junior, 22 anos).

[...] Ao chegar em casa minha mãe triste chorando, não me chamou para conversar, simplesmente me deu três opções: uma pegar a mala que já estava pronta e ir embora; duas tomar um copo de água ao qual já estava com veneno de rato dentro, cujo o nome era chumbinho; três, poderia ficar se resolvesse ser HOMEM, (na mente deles gay não era homem), e ter uma vida normal. Daí em diante, o que um menino de 13 anos escolheria? (Junior, 22 anos).

O depoimento de júnior evidencia a dramaticidade, a pressão e a gravidade imputada a orientação sexual por instituições, profissionais e Estad. A professora como coresponsável pela socialização secundária impondo seus valores, criminalizando o adolescente. O diretor da escola se valendo da sua autoridade para reafirmar “estórias sobre pedofilia” e a mãe diante de tanta pressão, usando dos recursos da violência na tentativa de re(constituir) a identidade heterossexual de seu filho. Hoje com 22 anos o adolescente questiona o lugar imposto por essa tríade – Estado, escola, família – negar o seu desejo, esconder o crime praticado, não ser heterossexual.

Significativo analisar e debater, a questão das diferenças, seja de gênero, classe, raça, idade/geração e sexo, como problemática, a construção da subjetividade e da identidade para compreender a dinâmica de poder daferenciação social, de ser diferente e a diversidade impostas aos sujeitos pelas instituições conforme Avtar Brah (.

Como Louro observa, a primeira fronteira que Junior enfrentou foi a família, e decorrente da disposição de sua mãe ele resolveu seguir a religião da família e assim poder viver de forma “amigável”, como uma família que rejeita sua orientação sexual. Durante anos eles se camuflou em um noivado, para não ser rejeitado pela sua família e assim se tornar a vergonha de sua avó que o criava e como “todo pentecostal, não aceita o homossexualismo”. Apresentamos a seguir, a percepção sobre experiência religiosa, sexualidade e as relações familiares dos entrevistados:

[...]Minha família como todo verdadeiro pentecostal segue a Bíblia ao pé da letra. [...] minha família não me aceita como homossexual, ela é completamente homofóbica, não assiste nada que fala sobre homossexual. Porém não é favor que matem homossexuais, pois acredita ainda na salvação. (Junior,22 anos)
[...] Deus fez o homem para mulher e a mulher para o homem. Mas sinto que um dia vou me curar, sinto que Deus tem uma obra para mim. Eu conheço a palavra e sei que isso é obra do inimigo. (Marcelo, 50 anos)
[...] acho que se não fosse cristã teria relaxado mais com isso. Como ela é conhecedora da palavra, fica com isso no meio de nos dois. [...] minha mãe sofre por causa da religião, toda vez que falamos sobre isso ela cita a Bíblia. Mas Deus ama a todos igualmente. (Ricardo, 17 anos).
Finalizando, conclui-se que a orientação sexual na perspectiva dos entrevistados é vista como um impulso difícil de ser controlado. Como outros desejos, quase incoercível. Recorrente dessa conduta o evangelismo encara o sujeito homossexual como algo doente, fruto da ação de entidades demonizantes. As famílias, as instituições tem sido responsabilizadas pelo controle sobre o não possível.

Verificou-se neste estudo inicial que fazer parte de uma geração muda o modo de lidar com a orientação sexual. As gerações de adolescentes e jovens encaram a questão com naturalidade sem impingir graves sentimentos de culpa. O entrevistado adulto, negro, profissional ainda não consegue se aceitar e a sua opção sexual, permanecendo na expectativa de vir a curar-se da sua escolha. O estudo ainda aponta que as mães apresentam mais possibilidades de aceitação, diferente do pai que prefere não estabelecer relações de paternais com os filhos.

Há igrejas evangélicas que admitem a presença de homossexuais em suas fileiras de modo implícito sem expressão de afeto no público da instituião.
REFERÊNCIAS
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1 Mestre em Família na Sociedade Contemporânea do Programa de Pós-graduação da UCSAL. Doutoranda do PPGNEIM, UFBA. Email: vandecax@hotmail.com.

2 Assistente Social pela Faculdade Dom Pedro II. Trabalho de Conclusão de Curso “ A Homossexualidade de Jovens Evangélicos” 2013.

3 PRO HOMO PROGRAMA – Associação de Defesa e Proteção dos Direitos de Homossexuais

4 Bíblia: Pelo que Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E semelhante, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que vinha ao seu erro. (ROMANOS 1- 26:27).



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