Iii seminário Linguagem e Identidades: múltiplos olhares



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III Seminário Linguagem e Identidades: múltiplos olhares

LINGUAGENS DE AMOR: A FEITIÇARIA COMO MEIO DE CONQUISTA AMOROSA NO BRASIL COLONIAL.

Fernanda Cristina Vale*

RESUMO:

Neste breve trabalho analisaremos a feitiçaria amorosa no Brasil Colonial em relação aos discursos católico sobre sexualidade e controle do corpo. Utilizaremos como metodologia a leitura e análise de documentos inquisitoriais referentes ao Brasil do século XVI ao XVIII, buscando perceber como aconteciam os rituais e como se enquadravam no contexto de repressão da eclesiástica. Temos como linhas teóricas a História das Mentalidades e História do Imaginário.


PALAVRAS – CHAVE: feitiçaria amorosa, mulher, Igreja.
ABSTRACT:

In this brief work we will think the sexual sorcery in Colonial Brazil related with catholic discourse about sexuality and control of body. We will use the methodology of the reading and analyze of inquisitorial documents about Brazil in XVI century until XVIII century, we are trying to perceive like the rituals of sorcery happened in context of ecclesiastic repression. We will use like historical methods the History of Mentalities and History of Imaginary.


KEY WORDS: sexual sorcery, woman, Catholic Church.
INTRODUÇÃO:

O período colonial no Brasil foi marcado pelo uso de diversas práticas heterodoxas aos dogmas do Catolicismo. Dentre essas práticas estava a feitiçaria, utilizada para múltiplos fins, sendo a conquista amorosa um dos principais deles. O controle do corpo, que sempre consistiu uma das grandes preocupações da Igreja mais uma vez foi reafirmado e em busca dele foram combatidos os banhos, encompridados os trajes e, claro, regulamentado o sexo e os relacionamentos amorosos. Na América Portuguesa as tentações à moral católica eram redobradas devido à nudez indígena, à servidão africana, às dificuldades para a realização de matrimônios e, sobretudo, à precária vigilância eclesiástica.

Para facilitar seus encontros amorosos vários colonos sofisticaram uma tradição européia com influências indígenas e africanas, utilizando-se da fauna e flora nativa, além de invocações aos anjos e demônios, por exemplo; trata-se da magia amorosa, utilizada para juntar ou separar casais, fazer querer bem e amarrar um pretendente.

Segundo o historiador português Francisco Bethencourt (BETHENCOURT, 2004, pp. 98 e 99), a acentuação do individualismo no Renascimento acompanhou a exacerbação do sentimento amoroso e erótico no início da Idade Moderna, o qual fora favorecido também pelo número superior de mulheres ao de homens em Portugal e pelo maior rigor que a Igreja exigiu para a realização dos matrimônios. Fatores que justificam a importância que a magia erótica adquiriu nas mentalidades das mulheres portuguesas nesse momento. O número significativo de feiticeiros e clientes deste tipo de magia na Colônia indica que as preocupações amorosas da Metrópole tiveram reflexo na América Portuguesa, encontrando aqui outros elementos que vão acentuar e facilitar as amarrações de amor.

Desse modo, aqueles indivíduos que recorriam a este tipo de magia pecavam duplamente, enquadrando-se no que a Igreja denominava desvios morais – pecados contra a moral cristã, como bigamia, fornicação e sodomia, por exemplo – e desvios de fé­ – pecados contra o catolicismo em si, como judaísmo e protestantismo.

A partir de 1536, o Santo Ofício da Inquisição fora instituído em Portugal, e tanto os desvios de fé como os desvios morais passaram a ser combatidos pelo Tribunal através de inquirições, prisões, confiscos de bens, açoites, degredos e até mesmo a humilhação pública e morte nos autos de fé, muito embora os crimes contra o Catolicismo merecessem, aos olhos dos inquisidores, punição mais rigorosa que os pecados contra a moral.

A presença de documentação onde são denunciadas as práticas de feitiçaria demonstra que foram muitos os arrolados por se desviarem dos princípios morais católicos. Nas confissões e acusações feitas sobre esses sortilégios temos detalhes da produção e do imaginário que as pessoas devotavam a eles no período, bem como da religiosidade colonial brasileira, na qual os colonos buscaram aproximar o sagrado do terreno em seu cotidiano, inclusive, no âmbito amoroso e sexual de seus anseios. Desse modo, o presente trabalho pretende analisar as práticas de magia amorosa no Brasil Colônia, enfocando os usos dos feitiços de amor como uma forma de sociabilidade e expressão das relações entre os sujeitos do período.

Utilizaremos como abordagens teóricas a História das Mentalidades e História do Imaginário, sendo nossa principal finalidade analisar a magia erótica colonial, tendo em vista o imaginário da feiticeira, o controle do corpo pregado pela Igreja e a perseguição inquisitorial às práticas mágicas, apresentando a magia amorosa como um meio de expressar crenças religiosas sincréticas e facilitar os desejos dos colonos, os quais a partir desses fatores ritualizaram o corpo, a natureza e os objetos buscando um contato cotidiano com o divino em nome do profano.



Igreja e controle da sexualidade na Colônia:

Durante o período colonial a Igreja no Brasil, seguindo as diretrizes do catolicismo na Europa, buscou tolher o máximo possível o contato das pessoas com o corpo – tanto com o delas como com o de terceiros – isso porque acreditava-se que, assim como a alma, o corpo também deveria ser casto e puro para que os fiéis alcançassem a salvação.

Banhos, alimentação, toques e, sobretudo, o sexo, foram regulamentados pela Igreja para evitar a corrupção dos colonos. As relações sexuais, por exemplo, só poderiam ocorrer dentro do casamento e ter por finalidade a procriação; aquelas que não seguiam essa lógica confundiam-se com a prostituição e eram pecaminosas (PRIORE, 2011, p. 48).

Nesse sentido, a mulher mereceu vigilância especial, tendo o corpo coberto, os desejos amorosos e sexuais reprimidos e sendo o casamento e a maternidade os únicos lugares sociais dignos a ela aos olhos da sociedade daquela época. Essa concepção atribuiu-se a crença de que o pecado entrou no mundo através da mulher – Eva, e, por outro lado, a redenção da humanidade só foi possível pela maternidade de outra mulher – Maria, mãe de Jesus Cristo (LE GOFF, 2005, p. 285). Como coloca a historiadora Mary del Priore (PRIORE, 2011, p. 35) :

Venenosa e traiçoeira, a mulher era acusada pelo outro sexo de ter introduzido sobre a terra o pecado, a infelicidade e a morte. Eva cometera o pecado original ao comer o fruto proibido. O homem procurava uma responsável pelo sofrimento, o fracasso, o desaparecimento do paraíso terrestre, e encontrou a mulher. Como não desconfiar de um ser cujo maior perigo consistia num sorriso? Nesse retrato, a caverna sexual tornava-se uma fenda viscosa do inferno.

A mulher, considerada uma presa fácil às tentações demoníacas, era identificada como uma das formas do mal na terra pela Igreja nos séculos XVI e XVII, além de ter seu sexo considerado, segundo os pregadores do período, como a porta do inferno (Idem, pp. 32- 35).

Como dissemos acima, o espaço social ideal para a mulher era o casamento e, consequentemente, a maternidade, de modo que os matrimônios aconteciam bem cedo na vida das jovens, que muitas vezes ainda adolescentes eram obrigadas a casarem-se com homens bem mais velhos e experientes que elas, em função de conveniências familiares.

Ainda que dentro dos casamentos, única forma de união aceita pelo Clero como legítima, a Igreja continuava a interferir na intimidade de seus fiéis, regulamentando dias e períodos anuais, práticas e posições apropriadas para o sexo de um casal cristão. Até mesmo a medicina interferia no cotidiano íntimo dos cônjuges, definindo o prazer como algo negativo e fazendo crer que as relações sexuais enfraqueciam, emburreciam e até mesmo encurtavam o tempo de vida dos indivíduos, de modo que os desejos sexuais eram vistos como doença (Idem, pp. 31 – 34).

Até os casamentos eram vigiados pelo discurso católico, devendo ser desprovidos de paixão ou prazer e com finalidade principal na geração de prole. E se com os casamentos era assim, imaginemos a repressão aos namoros, adultérios e encontros casuais, todos concebidos como o pecado da fornicação e penalizados com o degredo para outras Colônias portuguesas, sobretudo na África.

Porém, a vigilância e repressão eclesiástica não foram tão eficazes. Devido ao vasto território da América portuguesa, do pequeno número de padres, das diversas influências nativas e africanas e da dificuldade para realizar-se matrimônios, os desvios sexuais na Brasil Colônia apareceram em grande número, sendo que, até mesmo clérigos caíram em pecados contra a moral da Igreja, tais como solicitação, e o pecado nefando da sodomia – nesse contexto equivalente, também, a relacionamentos homossexuais.

E para além da fiscalização moral e sexual, a Igreja ainda devia se preocupar em fiscalizar a fé dos colonos, que nas práticas cotidianas muito se distanciava dos doutrinamentos da Igreja. Em algumas regiões, como no norte da Colônia, catolicismo e rituais indígenas mesclaram-se no imaginário das pessoas, criando práticas híbridas e entendimentos deturpados dos dogmas da religião oficial; em outras houve o sincretismo do catolicismo com o culto às entidades africanas e havia ainda aqueles que professavam a religião católica publicamente, mas mantinham práticas judaizantes em seus lares, os cripto-judeus, para citar alguns exemplos de heresias coloniais.

Dentre as práticas combatidas pela Igreja, nos chama atenção a feitiçaria amorosa justamente por aglutinar dois tipos de desvio, o desvio moral – que se configurava na exacerbação do desejo amoroso e sexual, na maioria dos casos para fins libidinosos – e o desvio de fé – que buscava contato com o sobrenatural sem o intermédio da Igreja para alcançar seus objetivos.

Assim, a concepção eclesiástica, ensinada aos fiéis durante as missas, procissões e demais momentos de pregação, confere à feitiçaria amorosa a condição de ensinamento satânico, a qual foi combatida e proibida pelo sínodo diocesano de Salvador em 1707 (ARAÚJO, 2007, p.46), e mais tarde configurou razão suficiente para acusações e confissões arrependidas perante o Tribunal da Inquisição. Satânicas ou não, em tais práticas o ritualismo mágico, a fé e a tentativa de aproximar o sagrado do mundo terreno, mais especificamente no aspecto amoroso e sexual, permaneceram na colônia e suas raízes continuam até hoje no imaginário do brasileiro.

A magia como instrumento de conquista:

Saquinhos, arruda, chás, defumadores, rezas, pós, papeizinhos, incensos, raízes. São muitos os ingredientes da conquista amorosa, e já que, desde os primórdios da colonização o amor e o desejo sempre foram temas de especial importância no imaginário e na vida dos colonos, para facilitar a sedução, a conquista e a manutenção de uma relação, Deus e o diabo – e seus respectivos assistentes – foram convidados para darem uma ajuda nessas aventuras amorosas do Brasil.

Segundo Gilberto Freyre, em seu clássico Casa Grande e Senzala, o amor foi o grande motivo da bruxaria em Portugal, o que se estendeu ao Brasil, com seu clima tropical, seus embalos de rede e suas mulatas sensuais. O sincretismo resultante da magia portuguesa de origem medieval, das crenças indígenas e da influência africana encontrou na Colônia o ambiente propício para o florescimento dessas “expressões do satanismo europeu”, de modo que mulheres e homens, portuguesas, índios e escravos se utilizaram e praticaram esses conhecimentos na Colônia (FREYRE, 1995, pp. 323-324).

Nossos sortilégios e filtros eram compostos pelo uso da botânica nativa aliada aos amuletos de origem africana, pós e orações portuguesas, estando as práticas sob a mentalidade da bruxaria européia, onde a demonização do sexo, da mulher, e obviamente da bruxa ou feiticeira – tratada como prostituta ou semi-prostituta –colocava na ilegalidade a magia amorosa (SOUZA, 1986, p.241), que aqui foi praticada não só pelas mulheres, vale observar, mas também por diversos homens, segundo aponta a documentação inquisitorial relativa ao tema.

Características importantes da feitiçaria amorosa no Brasil são o constante uso de líquidos corporais, sobretudo aqueles advindos dos órgãos genitais; e a erotização do sagrado, com invocações regulares dos santos católicos e do próprio Deus nas orações e rituais de conquista.

Quanto ao uso de líquidos e vestígios corporais, podemos dizer que tudo o que derivava do corpo humano era ingrediente para a magia de conquista: esperma, secreção vaginal, suor, unhas, sangue menstrual, por exemplo. Esses ingredientes revelavam o imaginário de que os líquidos expelidos dos genitais, os quais teriam o dom de gerar uma nova vida, tinham um poder mágico de cura e atratividade. Temos um exemplo disso no caso do frei Luís de Nazaré, que dizendo-se ser um exorcista, mantinha relações sexuais com as mulheres que deveria curar na Bahia setecentista, e depois recomendava-lhes que passassem o líquido seminal na barriga para, assim, obterem melhoras (Idem, pp. 15 - 16).

Os líquidos corporais foram utilizados, sobretudo, na fabricação de beberagens e filtros. Um exemplo clássico é o da feiticeira Antônia, “a Nóbrega”, que na Bahia do século XVI ensinava a suas clientes que pegassem três avelãs, fizessem nelas buracos e os enchessem com pêlos, unhas e raspaduras das solas dos pés, e as comessem para que quando as evacuassem “por baixo”, elas fossem misturadas ao vinho e dadas ao marido. A feiticeira garantia que assim os maridos ficariam irremediavelmente presos.

Quanto à erotização do sagrado, esta contou com o uso de citações bíblicas, invocações celestiais ou demoníacas, a presença de objetos e símbolos sacros nas ralações sexuais e a sexualização de Jesus e de Maria, por exemplo, estando bem presente nos rituais de conquista. O historiador Ronaldo Vainfas nos relata casos em que as palavras de consagração da hóstia – hoc est enim corpus meum – eram ditas na boca do amante no momento em que se dava o ato sexual, para que assim ele desejasse ainda mais a sua parceira. (VAINFAS, 2007, p. 127). Em outros casos as invocações eram feitas a anjos, santos ou demônios, figuras comuns do imaginário.

Temos ainda hoje um exemplo do misticismo romântico-sexual em torno de um santo, o que era corriqueiro no período colonial. As devotas de Santo Antônio, o santo casamenteiro, o maltratam ao mesmo tempo em que lhe dirigem orações em busca de um namorado ou marido, por exemplo; a diferença em relação à Colônia é que nessa época o santo mais procurado para esse tipo de finalidade era São Marcos, cuja característica seria marcar, no sentido de balizar o pretendido.

O vasto campo das orações com fins de conquista amorosa nos lança num universo repleto de citações bíblicas, demoníacas, pagãs e do imaginário medieval. Em algumas orações eram recitadas apenas palavras e versos que tinham o poder de encantar o amante, em outras, mais comuns, as invocações divinas ou infernais eram necessárias para o resultado positivo da mandinga.

Fórmula muito comum nas orações amorosas coloniais era terminá-las com as seguintes palavras: “(...) que não poderás comer, nem beber, nem sossegar sem que tu venhas comigo falar.”, as quais eram acompanhadas de cruzes feitas com as mãos ou com os pés. O que indica sujeição, fidelidade e necessidade por parte daquele a quem se destina o resultado da oração. Implicações parecidas encontram-se nas orações da feiticeira Maria Joana de Azevedo, no Grão-Pará do século XVIII:

Fulano, tu me vês em cruz, e em mim vejas o Sol, e a Luz, outra coisa ao verás, para mim estejas manso, e humilde, e quiedo, assim como Deus se humilhou quando o houveram preso. Fulano, Deus pode, Deus quer, Deus acabe tudo contigo, e tu para comigo, tudo quanto eu quiser a mim. (SOUZA, 1986, p.231)

Passagens da vida de Cristo eram utilizadas como parâmetro de comparação ao que deveriam ser os amantes depois de enfeitiçados. Maria Joana oferecia o sangue de Cristo e o leite da Virgem para os amantes em suas orações e desejava que as mesmas dores sofridas pela Virgem Maria ao ver o filho morto fossem sentidas por eles quando estes não a fossem ver. (Idem, p.232)

Aspecto comum em todos estes tipos de oração era a sujeição que a pessoa desejada deve ter com o autor do feitiço. As orações demonstram não só a intenção de aproximar, mas também o interesse em prender, em criar uma relação de extrema necessidade com o sujeito por quem se ora.

Outro meio bastante utilizado para a conquista amorosa na colônia foram as cartas de tocar, que se tratavam de papelotes ou objetos, tais como ossos, favas, cordas e pedras, por exemplo, onde eram gravados nomes, orações, desenhos místicos ou conjuras demoníacas, e que serviam para atrair a pessoa desejada bastando que se encostasse as ditas cartas no corpo dela.

Seu uso é proveniente da tradição ibérica, e na colônia temos o exemplo de feiticeiras famosas que usavam e divulgavam as cartas de tocar, como Antônia, “a Nóbrega”, Agueda Maria, Maria “Arde-lhe-o-rabo e Isabel Roiz, “a Boca-Torta”, que inclusive as vendia na Bahia à época da Primeira Visitação Inquisitorial ao Brasil. Dentre os homens destacam-se as figuras de Crescêncio Escobar e Adrião Pereira de Faria, acusados de escrever as ditas cartas no Grão-Pará do século XVIII (Idem, pp. 229 e 230).

No caso de Adrião Pereira de Faria, delatado ao Tribunal da Inquisição por possuir pacto com o diabo, temos cartas onde havia conjuras demoníacas e blasfêmias, por meio das quais o acusado esperava conseguir facilidade com as mulheres e valentia. As cartas foram escritas por Crescêncio Escobar, e em alguns de seus depoimentos ao Santo Oficio Adrião disse não saber ao certo o que estava escrito nas mesmas, por não ter aprendido ler, porém sua assinatura constava nas tais cartas; em outros depoimentos Adrião confessou saber o que estava escrito, mas revelou que sua intenção não era a de fazer um pacto demoníaco, mas levado pela fraqueza da carne, tinha o intuito de conseguir apenas manter relações sexuais com as mulheres que desejasse através dos escritos, contando para isso com uma ajuda parcial do diabo.

Enfim, Adrião, assim como outros colonos, buscava apenas aproximar a religião tão ortodoxa, ascética e distante do seu cotidiano. E se Deus se mostrava tão severo e moralista quanto às questões sexuais, quem melhor que o inimigo d’Ele – oposto a Ele em tudo – para ajudar o jovem mameluco nas suas aventuras amorosas?

Um aspecto importante na confecção das cartas é que elas, obviamente, só poderiam ser escritas por letrados, sendo que em Portugal no período de 1750 a 1820 o analfabetismo atingia cerca de 60% da população, número que deveria ser bem maior no Brasil (VILLALTA, 1997, pp. 356 - 357), o que evidencia que os nossos feiticeiros, autores e escribas das cartas de tocar tinham um mínimo de instrução, possuíam o conhecimento da leitura e da escrita – apanágio das elites, segundo Villalta –, e tinham uma noção do imaginário mítico religioso medieval e judaico, os quais, supomos, tenham sido adquiridos por experiência e ensinamentos de outros feiticeiros.

Considerações Finais

Na prática cotidiana colonial a vivência religiosa se contrapôs ao modelo de religião racional, intelectual, fria e uniforme, que pregava ser o Catolicismo da Idade Moderna, de acordo com o ideal reformista e contra-reformista do período (BOSI, 1998, p.72). Mesmo diante dos preceitos de asceticismo e pureza corporal, muitos sujeitos conseguiram burlar as normas morais e religiosas da Igreja e da sociedade, ritualizando o corpo e a natureza em invocações do sagrado à procura de amor e sexo, namoros, adultérios e casamentos, relações de intimidade com o próximo que a Igreja condenava e reprimia fora do contexto matrimonial.

Para realizarem seus desejos pecaminosos, de acordo com o discurso eclesiástico, muitas pessoas recorreram à feitiçaria para conquistar ou manter seus relacionamentos, por isso são vários os casos referentes à magia amorosa, a maioria curiosos e inusitados aos olhos de nossa sociedade do século XXI, mas perfeitamente aceitáveis e realizáveis para muitos desses indivíduos que acabaram arrolados pela Santa Inquisição, fosse por livre e espontânea confissão, fosse por uma denúncia de algum fofoqueiro colonial.

Herdeira do fervoroso catolicismo ibérico, ainda cheio de raízes medievais e repleto de imagens e símbolos, a magia amorosa floresceu no Brasil ao lado do sincretismo religioso, bem como da inserção do sagrado no profano, e se firmou em nossa sociedade. Temos prova disso nas constantes menções aos santos e anjos nas cartas de tocar e nas orações, na presença de imagens e símbolos sagrados no ambiente do ato sexual, na devoção a santos como São Marcos e Santo Antônio. Porém essa mesma religiosidade se mostrava carregada de irreverência e muitas vezes de conteúdos sexual, e para alguns feiticeiros se associou a invocações satânicas e pagãs, tudo pelo desejo amoroso e sexual.

No Brasil Colônia, um universo inserido na sombra inquisitorial, em que a magia é associada ao diabo, e as praticantes da magia sexual vistas como prostitutas – pois cabia à mulher uma sexualidade tolhida e exercida timidamente apenas dentro do casamento e de acordo com as vontades dos maridos – a presença de feiticeiros e feiticeiras é também um ato de resistência e subversão, onde para além do amor, do desejo, do sexo, das orações, banhos e amuletos estava o anseio de sobrepor-se à hierarquia católica e senhorial e tocar o sagrado, adquirindo seus poderes através de uma erva, um papel, uma invocação e com isso ter seus problemas, pecaminosos, sujos e desonrosos aos olhos da igreja, solucionados sem a intercessão desta. Solucionados diretamente por Deus – ou pelo diabo.
REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Emanuel. A arte da sedução: Sexualidade feminina na colônia. In: PRIORE, Mary Del. (org.) História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2007, pp. 45 – 78.

BETHENCOURT, Francisco. O imaginário da magia – feiticeiros, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BOSI, Alfredo. A Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala. Rio de Janeiro: Record, 1995.

LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Trad. José Rivair Macedo São Paulo: EDUSC, 2005.

PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São Paulo: Contexto, 1992.

_______________. Histórias íntimas. São Paulo: Editora Planeta, 2011.

SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a terra de Santa Cruz – Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. - 1ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

VAINFAS. Ronaldo. Homoerotismo feminino e o Santo Ofício. In: PRIORE, Mary Del. História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2007, pp. 115 – 141.

________________. Moralidades brasílicas: deleites sexuais e linguagem erótica na sociedade escravista. In: SOUZA, Laura de Mello (org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, pp. 221 – 275.

VALE, Fernanda Cristina. Amarrações de amor: práticas de conquista e sincretismo religioso do Brasil colônia aos dias atuais. Caderno Universitário de História. Rio de Janeiro, Ano VI, nº 16. pp. 12 – 17, 2010.



* Graduanda do curso de História da Universidade Federal do Maranhão. Orientada pela Profª Dra. Marize Helena de Campos, pertencente ao DEHIS – UFMA.


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