Iii simpósio nacional de historia das religiõES



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III SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTORIA DAS RELIGIÕES




A PRESENÇA DOS AMULETOS NAS TRADIÇÕES EVANGÉLICAS

Reginaldo José de Pinho Borges

Seminário Teológico Batista Nacional

regi.borges@bol.com.br

INTRODUÇÃO

A palavra AMULETO vem do latim “amuletum”, que significa "uma salvaguarda contra determinada coisa”. No geral os amuletos são símbolos ou instrumentos de concentração de energia para determinado fim específico, tais como: o sucesso nos empreendimentos, na vida romântica, na vida profissional, etc. A presença dos amuletos na vida pessoal tem como objetivo esconder a crença do poder que cada um tem em si mesmo mas que por algum motivo desconhecido prefere transferir para algo inanimado o poder individual que possui.

A presença dos amuletos não é algo recente. Escritos antigos do oriente já continham referências sobre a utilização dos ícones que produziam situações de proteção pessoal como por exemplos:


  • I CHING – Que tem origem mítica na China e possui símbolos adivinhatórios. Embora parece de fácil compreensão ainda não foi totalmente interpretado pelo homem é formado por diversos hexagramas (junção de seis caracteres) e/ou triagramas (junção de três caracteres). Conta-se que o filosofo chinês Confúcio em sua velhice disse que se vivesse mais cinqüenta anos, ia se dedicar ao estudo do I Ching. Segundo a lenda, este amuleto foi escrito pelo o imperador chinês Fu Hsi , que viveu 4500 anos passados no Livro das Trocas ou Mutações. Para os crentes no I Ching não importa sua datação o importante é a utilidade do texto que até hoje serve de amuleto responsivo nos momentos de dúvidas. 

  • RUNAS – É uma antiga linguagem do mundo celta, entre os povos germanos. É uma forma de expressão dos povos eslavos que com o passar dos anos se transformou em um tipo de amuleto de adivinhação. Foi empregado para conhecer os destinos dos indivíduos, das famílias e das tribos. Este antigo sistema de adivinhação é utilizado com bastante freqüência nos nossos dias, por conta do advento da New Age.

FORMAS DE AMULETOS

Assim como sua diversidade, os amuletos têm uma multiplicidade formas e são construídos e constituídos de diferentes materiais que objetivam personalizar a sorte ou o sucesso pessoal. Pode se apresentar na forma de um trevo de quatro folhas, de uma figa, de um pé de coelho, uma ferradura, uma carranca do São Francisco, plantas como: arruda, comigo- ninguém-pode, pinhão-roxo, etc.

Às vezes vem em forma de uma pequena bolsa, como os escapulários, que contém elementos naturais provenientes das plantas, dos minerais, etc. Um dos amuletos mais famoso das histórias em quadrinhos é a “moeda número 1” do Tio Patinhas, Quem não se lembra dela? A moeda que transformou um pobretão num arquimilionário, é que até hoje surge que se tenha uma também, com o propósito de se conseguir também sucesso financeiro.

Um outro tipo de amuleto é o incenso, que está presente em diversas culturas e faz um caminho permanente desde a antigüidade e chega aos nossos dias com bastante força e aceitação, não só no mundo Oriental mas também no mundo Ocidental. É costume em nossa sociedade o uso de incenso com maior freqüência nos dias de Natal e Ano Novo. Sua utilização tem como finalidade proteger dos maus fluídos e olho grande, a casa, a família e os negócios no ano que está iniciando.

Os números de amuletos desenvolvidos pelos povos são incontáveis e todos têm um único objetivo proteger de algo , aquele que o possui.

DIFERENÇA ENTRE AMULETO E TASLISMÃ.
AMULETO é qualquer coisa que sirva com “caixa de força” diante de alguma dificuldade a ser enfrentada. Pode se apresentar instrumentalizado por qualquer objeto. Na antigüidade a escolha de um amuleto passava por um teste que determinava o “seu poder”. Era preciso que determinado objeto tivesse participação pelo menos em três ocasiões de proteção ao seu usuário para ser reconhecido como amuleto.
TALISMÃ é alguma coisa fabricada com propósito definido e tem caráter pessoal. No geral é construindo de acordo com as informações tanto positivas como negativas da vida do futuro usuário, e terá objetivo de proteção e vida bem sucedida para quem o usa.


PRESENÇA DOS AMULETOS NA TRADIÇÃO EVANGÉLICA


Desde o passado mais remoto que os homens criaram para si símbolos de sorte ou de proteção e é interessante que estes símbolos se tornaram amuletos – objeto de poder - relacionados com a religiosidade do ser humano. Na construção da religiosidade os povos sentiram necessidades de ter algo “divino ou poderoso” ao seu alcance e assim desenvolveram os amuletos.

Os amuletos passaram a exercer um fascínio sobre o ser humano que se tornaram elementos de poder contra agouro, mal olhado, inveja, cobiça, etc. É impossível delimitar o tempo inicial do seu uso mas é certo que o mesmo atravessa a barreira do tempo e hoje está fortemente presente nas nossas sociedades principalmente por que estarmos no limiar do terceiro milênio. Ajudado pela difusão dos conceitos e idéias da Nova Era os amuletos tronaram-se bastantes conhecidos e foram assimilados com maior intensidade no mundo cristianizado.

É neste mundo cristianizado que vamos estudar a presença dos amuletos. Os Cristãos inicialmente criaram para si uma espécie de amuleto codificado. Diante das perseguições e não podendo se tornar público, eles adotaram o símbolo do peixe (IXOYE) para se identificar de forma protegida aonde chegava. Com o passar dos anos e o fim das perseguições os cristãos adotaram a cruz com elemento de poder em substituição ao peixe.

Com o acontecimento da Reforma Protestante do século 17, que provocou uma ruptura na Igreja Católica Apostólica Romana, fazendo surgir a Igreja Protestante. A Confissão de Fé Protestante, nasce com objetivo de produzir uma pureza espiritual nos fiéis. O interessante é que a divisão provocada pela reforma vai contribuiu para o surgimento de novos amuletos nos campos das duas confissões de fé.

Hoje temos os amuletos católicos como os símbolos religiosos. Mas na comunidade cristã católica brasileira os amuletos que foram mais assimilados são os signos pagãos como: pé de coelho, trevo de quatro folhas, ferradura, galho de pião roxo ou arruda. Já os amuletos protestantes, mas precisamente evangélicos, que estão relacionados ao simbolismo da religião professada. É em torno destes amuletos evangélicos que fixaremos nossa apresentação.

Quando interpelamos as pessoas que professam a confissão de fé protestante ou evangélica sobre o uso de amuletos elas imediatamente apresentam uma postura contrária ao seu uso. Isto ocorre porque elas se reportam a mística profana dos amuletos. Esquecendo-se de que no segmento de sua confissão de fé também há amuletos protecionistas e em bastante quantidade, aqui apenas nos reportaremos a apenas quatro deles, que são :a cruz, a caixinha de promessas, o salmo 91, e ultimamente os adesivos colados nos veículos.

Analisado-os


Cruz - A Cruz é um dos símbolos mais antigo nas culturas dos povos. Foi encontrado desenho dela no Egito com datação de mais de 4.000 anos. Na Babilônia , Nínive, Pérsia, Índia, China, Peru, México, América do Norte, entre os Nórdicos, todos estes povos antigos fizeram uso do simbolismo da cruz como amuleto sagrado. Os estudiosos da religião têm relacionado o símbolo da cruz como um símbolo de vida, isto é, um amuleto contra a morte .

O comentarista Gesenius analisando o texto de Ezequiel 9:4-6 no hebraico tardio explica que a letra Tav (T) simboliza a cruz.


"Vá, através da cidade, no meio de Jerusalém, e coloca uma marca (um T/tav) sobre as frontes dos homens que vêm e choram por todas abominações que são feitas naquele meio(...) "Sacrifique completamente jovens e velhos, mulheres e criancinhas, mas não se aproxime de nenhum homem sobre o qual estiver a marca(T)".

No contexto de Ezequiel a marca da Cruz ou Tav era o amuleto para se proteger contra a morte e assim prover a vida de seu usuário. Sir Gardner Wilkinson, em seu livro “Ancient Egyptians” escreve "a cruz era usada antes do século XV aC como amuleto pendurado no pescoço”. A cruz de Catalã é um amuleto em ametista que segundo a crença popular protege contra os maus negócios econômicos e sociais, assim como o casamento. Um amuleto também usado em forma de cruz é a Cruz dos Espíritos, ele é considerado na cabalismo o de maior força e o mais prodígio. É formado pelos nomes de diversas divindades em forma de cruz.


ADONIS

MOLOK

ISTAR


EROS

ANÚBIS, RÁ, AMON, OSIRES

SIVA

VICNU


AFRODITE

BAL

Segundo os cabalistas esta cruz deve ser usada somente nas ocasiões excepcionais, os homens devem usa-la no bolso esquerdo e a mulher, entre os seios, para poder serem favorecidos com: felicidade, amor, saúde e fortuna.

No passado não tão distante, nos círculos das tradições protestantes rejeitavam a cruz porque a mesma estava associada ao símbolo de maldição, como instrumento de execução, pois foi numa cruz que Jesus foi executado. Além de ser a mesma usada pelos católicos nos templos como forma de identidade cristã e também serem usadas como amuleto pelos fiéis católicos, carregando-a no pescoço. Estes fatores foram preponderantes para que a cruz sofresse rejeição no meio protestante brasileiro que teve como base de evangelização o protestantismo puritano dos americanos do norte.

Na tradição protestante de nossos dias já é possível contemplar com bastante freqüência a cruz nos templos, nos cânticos e nos impressos mostrando-nos uma espécie de adesão ao símbolo. Esta adesão não é apenas simbólica como se defende parte dos fiéis evangélicos, pois nos cânticos protestantes e evangélicos, que em sua maioria são textos de essência doutrinária e expressão dos elementos da fé professada, a cruz aparece como instrumento protetor. Como exemplo podemos tomar a letra do cântico que diz o seguinte:

“sim na cruz, sim na cruz... sempre me refugio”.


Refúgio é lugar onde a pessoa se sente protegida. O refugiar-se na cruz mostra a idéia de proteção que a mesma pode dar. Essa busca de proteção não é outra coisa senão a transformação da cruz num instrumento de poder capaz de livramento de tudo aquilo que é mal.
Salmo Eleito – Há uma prática no meio evangélico de eleger o salmo 91 como um amuleto contra o mal por conta do texto que é o seguinte:

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio. Porque ele te livra do laço do passarinho, e da peste perniciosa. Ele te cobre com as suas penas, e debaixo das suas asas encontras refúgio; a sua verdade é escudo e broquel. Não temerás os terrores da noite, nem a seta que voe de dia, nem peste que anda na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia. Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios. Porquanto fizeste do Senhor o teu refúgio, e do Altíssimo a tua habitação, nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos. Eles te susterão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente. Pois que tanto me amou, eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque ele conhece o meu nome. Quando ele me invocar, eu lhe responderei; estarei com ele na angústia, livrá-lo-ei, e o honrarei. Com longura de dias fartá-lo-ei, e lhe mostrarei a minha salvação”.


A leitura deste texto como parte da revelação religiosa não o tornaria em um amuleto. Mas o uso dele aberto em diversos lugares começou a construir o ícone protetor. Em diversas ocasiões tivemos a oportunidade de encontrar um exemplar da Bíblia aberto no referido texto do salmo em residências, automóveis, escritórios, caixas de recebimento de valores, etc. Algumas Bíblias já estão com a página onde se encontra o texto do salmo 91 totalmente desfigura pela ação do tempo de exposição à luz do sol. Uma coisa que nos chama atenção é que esta prática iniciada pelos evangélicos vem dia a dia recebendo adesão de adeptos de outras confissões de fé. Certa ocasião tive a oportunidade de ouvir um testemunho através do rádio em que a testemunhante dizia ter sido vitima de um acidente de moto quando vinha da igreja e que foi protegida de um mal maior por conta do referido salmo. Chegando a relatar que durante o referido acidente o exemplar da Bíblia que trazia consigo caiu aberto do salmo 91. Este testemunho não é outra coisa senão a transformação do Salmo 91 em um amuleto protetor.
Caixa de Promessa – Um outro amuleto muito usado pelos evangélicos é denominado de “caixinha de promessa”. É uma caixa que contém uma série de poções retirada da Bíblia para elevação espiritual de seus usuários. Coincidência ou não todas as poções são textos agradáveis, que ao serem consultados “aumenta o astral do leitor”. A consulta da “caixinha de promessa” é feita diariamente pelos adeptos da prática. No geral quem usa a “caixa de promessa” logo no inicio do dia ou quando vão sair de casa pela primeira vez no dia vai até ela e retira uma das lâminas de papel que contem um texto bíblico e que serve de Oráculo do Senhor. O usuário habitual faz isso além de transformar a caixa de promessa, termina transformando um simples texto bíblico num horoscoporo religioso. Essa busca constante de uma resposta protetora para vida transforma a “caixinha de promessa” em uma espécie de amuleto evangélico .
Adesivo em automotores – De um certo tempo para cá é notável a proliferação de adesivos de caráter religioso fixados nos vidros dos carros. O que a princípio era instrumento de comunicação e venda de um determinado produto de repente se transforma muitas das vezes num instrumento de proteção. Os dizeres são diversos que chega até ser impossível de numerá-los pois todos os dias entram em circulação novos tipos de adesivos que exprimem conceito de fé dogmática. Aqui vamos destacar apenas os dois mais comuns: “Jesus” e “A Serviço do Rei Jesus”. Aparentemente parece que o uso de um adesivo desta natureza tem a finalidade de divulgar o nome de Jesus como elemento peculiar da fé particular. Mas na verdade o que está por traz disto é a busca incessante de uma proteção ou livramento. Já tive oportunidade de presenciar diversas vezes carros portadores destes adesivos, cometendo diversas inflações no transito. Em pesquisa feita na cidade de Jaboatão dos Guararapes com alguns Kombeiros sobre o uso do adesivo, muitos a princípio, diziam que eram para divulgar o nome de Jesus. Mas quando interrogados que se o nome de Jesus deve ser assim tão exaltado, porque o desrespeito à lei de transito? Agora a resposta era outra. A colocação do nome de Jesus ou outros dizerem tinha a finalidade de livrar o condutor de um acidente ou de multas. Este uso do nome de Jesus nos pára-brisas não é só um modismo muito menos tormar popular o nome dele, por trás vem um elemento de fé que este nome pode produzir. Enquanto verdade o adesivo passa a ser mais um instrumento de força mística que vai proporcionar ao adepto chances de não ser atingido. É um refugio, um abrigo, um escuro pronto para entrar em ação logo que o seu portador necessite de ajuda. O uso do adesivo pode ser um apelo evangelistico


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