Iii simpósio nacional de história das religiões título: Espaços privilegiados do poder religioso evangélico



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III SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES

Título: Espaços privilegiados do poder religioso evangélico

Autor: José Querino Tavares Neto


Doutor em Sociologia pela UNESP-Araraquara, professor da UNAERP e membro do conselho fiscal da ABHR

Filiação institucional: Professor pesquisador da UNAERP – Universidade de Ribeirão Preto

Grupo de pesquisa: Pentecostalismo e Pentecostalismo

ESPAÇOS PRIVILEGIADOS DO PODER RELIGIOSO EVANGÉLICO


José Querino Tavares Neto1
A Igreja Evangélica, como qualquer outro grupo social, possui relações de subordinação e papéis representativos desta subordinação em todos os seus níveis. Ocorre que estes papéis nem sempre são bem definidos ou reconhecidos, visto tratar-se de espaço religioso que oferece variabilidade de intenções diferentes de outros espaços, como por exemplo, no poder político, as relações de trabalho ou qualquer outro espaço que envolva relações entre pessoas. Dificilmente encontraremos um espaço nas relações humanas que não envolva algum tipo de subordinação e exercício de poder. No espaço evangélico, a busca pelo poder é declaradamente entendida como algo condenável e repugnante, uma vez que os motivos para o seu exercício, pelo menos teoricamente, são atrelados a elementos vocacionais fruto da escolha divina.

Qualquer realidade social seja ela institucional, informal, familiar etc., possui espaços privilegiados de poder.

Na política, existem os partidos, o Senado, as Câmaras, as Assembléias, os bastidores; na ideologia, o discurso, o aparato, a educação, os aparelhos ideológicos de Estado. Se vamos à Escola encontramos a sala de aula, a secretaria, a diretoria, os corredores. Mesmo no espaço público existem formas privilegiadas de poder como as favelas, as cidades, os meios de comunicação etc.

Diante das modernas concepções de poder, a teoria weberiana da dominação é uma das mais expressivas construções teóricas, para explicar a religião ou qualquer outra realidade em seus elementos ontológicos e teleológicos.

Os meios de exercício de poder não se limitam ou restringem a realidades econômicas ou definições abstratas, sendo taquigrafados em estruturas concretas, expressas jurídica, política, econômica, simbólica, e socialmente, e por que não religiosamente.

Em Economia e Sociedade Weber, em princípio, não define religião, mas indica claramente sua posição:

Não é da essência da religião que nos ocuparemos, e sim das condições e efeitos de determinado tipo de ação comunitária cuja compreensão também aqui só pode ser alcançada a partir das vivências, representações e fins subjetivos dos indivíduos - a partir do “sentido” – uma vez que o discurso externo é extremamente multiforme.

A ação ou o pensamento religioso ou “mágico” não pode ser apartada, portanto, do círculo das ações cotidianas ligadas a um fim, uma vez que seus próprios fins são, em sua grande maioria, de natureza econômica. (1991, p. 279)

O que Weber estabelece é que “nem toda dominação se serve de meios econômicos e ainda muito menos tem fins econômicos”. (Weber, 1991, p. 279)

Esta parece ser uma importante contribuição para nossa análise. O caráter do poder religioso não indica necessariamente algum benefício econômico pelo dominador (o que exerce o poder religioso, gozando ou não da aceitação do dominado). Este elemento torna o objeto do poder religioso extremamente complexo sob o ponto de vista de análise, visto possuir dinâmica própria, uma vez que os benefícios do poder nem sempre são econômicos.

A questão fundamental parece ser, como ocorre a caracterização ou identificação destes espaços privilegiados de poder, não nos interessando, pelo menos prioritariamente, avaliar se os atores em questão, tanto os que exercem o poder direta ou indiretamente como os que recebem os efeitos dele, reconhecem ou não as situações ou hipóteses da pesquisa. Interessa-nos apenas as relações de poder em si, e muito menos se as intenções dos atores em questão são boas ou ruins.

Um dos mecanismos de poder de grande eficiência no meio evangélico são os “espaços privilegiados do poder”, que podem ser concebidos na condição de liturgia e o próprio culto; o púlpito, enquanto local sagrado e inviolável da pregação; os concílios; a família etc.

Denominamos “espaços privilegiados de poder” aqueles espaços, situações, ou elementos onde o poder ou sua maneira de ser e ocorrer se concebe, articula, constrói, se exerce e se perpetua.

Nestes locais existe a produção de bens sagrados e simbólicos, visto que a experiência vem acompanhada de reconhecimento social. (Santa Ana, 1992, p. 14)

Entendemos estes espaços privilegiados de poder, na perspectiva de Pierre Bourdieu, em sua análise do pensamento weberiano sobre a importância da religião nos processos sociais, como um espaço comparável ao mercado com seu comércio de símbolos, denominando-os de O campo religioso. (Bourdieu, 1987, p. 57). Ali o fiel escuta testemunhos, orações etc., como dá os seus, ocorrendo, assim, a valorização das experiências como seres humanos.

O conceito de Campo religioso elaborado por Pierre Bourdieu, indica a existência de áreas específicas (religião e arte), onde aparecem relações simbólicas, como mercados segundo lógicas singulares e próprias.

Em qualquer lugar encontraremos tanto espaços privilegiados de poder quanto a luta declarada ou não para o seu exercício. Importa-nos a questão dos espaços privilegiados de poder na Igreja Evangélica.

Na religião, o fenômeno do poder encontra terreno fértil para seu desenvolvimento, afirmação e perpetuação, porque o saber religioso é capaz de produzir o direcionamento da ação dos fiéis, e isto, com raríssimas exceções, sem emprego da força, tendo em vista que se efetua a partir de valores e normas interiorizadas por instrumentos nem sempre usuais, como o poder convencional. (Gabriel, 1988, p. 49)

Neste sentido, consideramos essencial a perspectiva foucaultiana do fenômeno do poder que, com habilidade inigualável, consegue redescobrir o papel científico social sem aprisionar a análise. (Foucault, 1979. p. 175)

Em suas análises sobre o poder, Foucault não estabelece uma teoria geral sobre o poder; no entanto, o tema está presente em sua construção teórica. Para ele não há poder que designe alguma essência, existindo apenas relações de força que constituem situações de poder. (Macedo Jr, 1990, p. 152)

O poder não pode ser circunscrito ou setorizado apenas ao econômico, pois seus mecanismos, efeitos, relações e dispositivos são exercidos em níveis diferentes da sociedade e em domínios e com extensões variadas. (Foucault, 1979, p. 174)

A redução da questão do poder ao econômico, ao direito, ao Estado ou a seus aparelhos é empobrecer sua natureza. (TavaresNeto, 2001, p. 174)

O poder é mais complicado, muito mais denso e difuso que um conjunto de leis ou um aparelho de Estado. (Foucault, 1979, p. 221)

Foucault vê o poder em constante transformação, não existindo para ele Estado global, mas micro-sociedades, microcosmos.

Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalidade esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que são agentes da “consciência” e do discurso também faz parte desse sistema. (Foucault, 1979, p. 71)

Foucault denominou este fenômeno de microfísica do Poder. Foucault está preocupado com as estruturas e técnicas tipicamente modernas de poder, entendendo poder como “o efeito do exercício de relações sociais entre grupos e indivíduos” (Sheridam, 1980, p. 251).

O que Foucault examina na Microfísica do Poder (1979), é o deslocamento da visão economicista do poder, verificando que este permeia a vida real dos indivíduos. Este micro-poder está presente nos mais variados pontos da sociedade, e estando ou não relacionado com a economia e / ou o Estado, existe e precisa ser contemplado.

A análise foucaultiana dos micro-poderes desemboca aparentemente, numa espécie de funcionalismo. O poder não é algo localizado no topo de uma hierarquia da qual se derivaria, mas é algo difuso, disperso na trama social. Contudo, contrariamente ao funcionalismo à la Parsons, o poder não tem essência, não é concebido como uma propriedade (não é como o dinheiro que dá poder a quem possui), nem está localizado em algum lugar. Ele é concebido como uma estratégia. (Macedo Jr., 1990, p. 159)

Há uma perspectiva plural do poder na concepção foucaultiana. Neste caso, parece-nos possível afirmar que Foucault se aproxima da visão weberiana de Tipo Ideal como instrumento provisório de análise, desfigurando toda pretensão de análise definitiva ou absoluta dos fenômenos sociais.

É assim que a análise da religião se reveste de importância no protestantismo brasileiro. Na religião, existem fortes indícios desse micro-poder, que, apesar de não visível e escancarado como o estatal, o econômico ou o jurídico, se apresenta sutil e aparentemente desfocado, mas não menos eficiente, contendo, como disse Foucault, um conjunto “de ação sobre ações possíveis” do tipo da incitação, indução, facilitação, limitação, impedimento etc. (1984, p. 313)

Bourdieu também indica este caminho de compreensão estabelecendo que “a racionalização da religião possui sua normatividade própria sobre a qual as condições econômicas podem agir apenas como linhas de desenvolvimento”. (Bourdieu, 1987, p. 36)

O que se faz nestes espaços se confunde com o próprio exercício do poder, porque é característica inerente destes espaços o mascaramento do caráter arbitrário de tais significações, como é o caráter arbitrário da dominação. (Miceli. In: Bourdieu, 1987, p. LIII)

Estes espaços privilegiados do poder podem ser concebidos na perspectiva de processo de reprodução de poder, e são aparelhos de reprodução das relações entre “sistemas simbólicos”, como por exemplo, as crenças religiosas, ou então, a indústria cultural. (Miceli. In: Bourdieu, 1987, p. LIV,)

Eles são importantes porque interiorizam no fiel os elementos capazes de produzir o ethos religioso:

Como vimos, entre estruturas e as práticas, coloca-se o habitus enquanto sistema de estruturas interiorizadas e “condição de toda objetivação”. O habitus constitui a matriz que dá conta da série de estruturações e reestruturações porque passam as diversas modalidades de experiências diacronicamante determinadas dos agentes. Assim o habitus adquirido através da inculcação familiar é condição primordial para a estruturação das experiências escolares, o habitus transformado pela ação escolar constitui o princípio de estruturação de todas as experiências ulteriores, incluindo desde a recepção das mensagens produzidas pela indústria cultural até as experiências profissionais. O objeto da análise não se restringe apenas às práticas dos grupos mas incide sobre os princípios de produção de que são o produto, vale dizer o habitus de classe e os princípios de produção de tal ethos, a saber, as condições materiais de existência. Nesta direção, todo problema consiste em captar o processo pelo qual as estruturas produzem os habitus tendentes a reproduzi-las, isto é, produzem agentes dotados de um sistema de disposições conducentes a estratégias tendentes por sua vez a reproduzir o sistema das relações entre os grupos e/ ou classes. (Miceli. In: Bourdieu, 1987, p. XLIII)

Nestes espaços é também possível encontrar a suposta dicotomização ou oposição entre sagrado e profano. São espaços sagrados, frutos do serviço divino, que opõem deuses e demônios, estabelecendo a oposição entre feitiçaria como “coerção mágica” e a religião como “serviço divino”. (Bourdieu, 1987, p. 91)

Eles funcionam como instrumento poderoso de sublimação do aspecto profano inerente ao poder, sacralizando o profano, tornando-o “ético” e “justificável”. Na perspectiva weberiana, estamos diante de “meios inigualáveis de domesticação dos dominados. (Bourdieu, 1987, p. 88)

Os espaços privilegiados de poder funcionam como elemento de “naturalização” das ações do poder.

Bourdieu considera este aspecto como legitimação ou naturalização da ordem política. Falando sobre a naturalização do poder político pela religião, nos diz:

A Igreja contribui para a manutenção da ordem política, ou melhor, para o reforço simbólico das divisões desta ordem, pela consecução de sua função específica, qual seja a de contribuir para a manutenção da ordem simbólica: (I) pela imposição e pela inculcação dos esquemas de percepção, pensamento e ação objetivamente conferidas às estruturas política e, por esta razão, tendentes a conferir a tais estruturas a legitimação suprema que é a “naturalização”, capaz de instaurar e restaurar o consenso acerca da ordem do mundo mediante a imposição e a inculcação de esquemas de pensamentos comuns, bem como pela afirmação ou pela reafirmação solene de tal consenso por ocasião da festa ou da cerimônia religiosa, que constitui uma ação simbólica de segunda ordem que utiliza a eficácia simbólica dos símbolos religiosos com vista a reforçar sua eficácia simbólica reforçando a crença coletiva em sua eficácia; (II) ao lançar mão da autoridade propriamente religiosa de que dispõe a fim de combater, no terreno propriamente simbólico, as tentativas proféticas ou heréticas de subversão da ordem simbólica. (Bourdieu, 1987, p. 70)

Nos espaços privilegiados do poder evangélico, encontramos fortes elementos condicionantes e inculcadores de valores que justificam a situação, não apenas secular, denominada por estes de profana, mas sobretudo a situação religiosa.

Estes espaços são como Bourdieu estabeleceu Campo Religioso, que:

Têm função específica de satisfazer um tipo particular de interesse, isto é, o interesse religioso que leva os leigos a esperar certas categorias de agentes que realizam “ações mágicas ou religiosas”, ações fundamentalmente “mundanas” e práticas realizadas “a fim de que tudo corra bem para ti e para que vivas muito tempo na terra”, como diz Weber. (Bourdieu, 1987, p. 83-4)

Os espaços privilegiados do poder evangélico são fundamentais para afirmação do poder, enquanto difusão de valores, sobretudo para proceder à sucessão do poder. (Weber, 1991, p.162)

As estruturas religiosas não apenas produzem habitus, mas os produzem em grande escala. Este fenômeno não é característica somente dos meios evangélicos. Estes espaços privilegiados de poder são comuns a todas as religiões.

No catolicismo há o altar, o templo, o santuário (Roma, Aparecida do Norte, Juazeiro), o santo padroeiro, o pároco, o bispo etc. Na igreja evangélica, estes espaços são redefinidos sob a condição de não serem sagrados, mas exercendo a mesma função de dominação e legitimação, visto possuir uma dinâmica de dominação a partir de um corpo de especialistas (pastores, bispos, presbíteros, diáconos, presidentes de entidades etc.) que detêm o poder.

Enquanto resultado da monopolização da gestão dos bens de salvação por um corpo de especialistas religiosos, socialmente reconhecidos como os detentores exclusivos da competência específica necessária à produção ou à reprodução de um “corpus” deliberadamente organizado de conhecimentos secretos (e portanto raros), a constituição de um campo religioso acompanha a desapropriação objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por esta razão em leigos ou profanos (ou profanos, no duplo sentido do termo) destituídos do capital religioso (enquanto trabalho simbólico acumulado) e reconhecendo a legitimidade desta desapropriação pelo simples fato de que a desconhecem enquanto tal. (Bourdieu, 1987, p. 39)

O sacerdote, o pastor, o pai de santo, o bispo etc., como especialista da fé e do poder religioso têm, no espaço privilegiado de poder religioso, sua própria extensão profissional e existencial. Às vezes, ele se confunde com este espaço e encontra nele, forte aliado para legitimação da dominação religiosa. (Bourdieu, 1987, p. 32-4)

É um local cercado de mistérios, mas sagrado, porque consagrado, separado, santificado, e como tal possui magia própria. Ali, o sacerdote, o pastor, o pai-de-santo, não é retrucado ou questionado. É a literalização da literatura hebraica: “tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa”. (Êxodo, 3, versículo 5)

Este espaço é privilegiado, porque ele condiciona o profissional religioso e o fiel, visto tratar-se da dominação denominada por Weber de carismática. (Weber, 1991, p. 160-7)

Trata-se de dominação extracotidiana que se perpetua pelas qualidades do possuído do carisma e as provas de sua santidade.

Assim o espaço onde ele se encontra e onde ministra aos fiéis é carregado de mistérios e significações tornando-se até mesmo herói e mítico, visto carregar as emoções e sentimentos dos fiéis, suas frustrações e realizações.

Não se trata nem mesmo de discutir as intenções do detentor do carisma, neste espaço privilegiado do poder, ainda que este espaço seja naturalmente usado para defesa do especialista da fé e condicionado a suas intenções e objetivos, mas constatar que o especialista da fé assume uma dupla natureza “divino-humana”, porque nele se concentra o sagrado que se contrapõe com o profano. Sobre isto nos diz Bourdieu:

Destarte, cada uma das hierarquias – Papa, Cardeais, Arcebispos, Bispos, baixo clero, Imperador, Príncipes, Duques e outros vassalos – por constituir uma imagem fiel de todas as demais, constitui, em última instância, um aspecto da ordem cósmica estabelecida por Deus, sendo portanto, eterna e imutável. Ao instaurar uma correspondência tão perfeita entre as diferentes ordens, à maneira do mito que remete a diversidade do mundo (...) (Bourdieu, 1987, p. 71)

Estes elementos acompanham o profissional da fé a todo lugar, visto haver confusão entre ele e sua função ou vocação. Não é apenas no altar, mas na rua, em casa, já que não há dissociação plena nem do ponto de vista do fiel, nem do próprio especialista da fé. Neste caso, ocorre uma troca simbólica entre fiel e profissional o que nos leva à constatação da bilateralidade do poder religioso que se afirma no fiel e se projeta no profissional da fé.

O mesmo ocorre no Catolicismo, na Umbanda, no Candomblé e no Espiritismo, com o padre, o caboclo, o pai-de-santo, o guia, o médium etc.

Na realidade trata-se da “espiritualização, sacramentalização ou ritualização do poder”. É como o artista, no palco, que se traveste de elementos externos (papel a ser interpretado), mas que por vezes se interioriza e se confunde com o ator. No caso religioso, o profissional da fé deixa-se levar pelas falas e papéis do personagem, acabando por não se desvencilhar de sua segunda natureza que é o sujeito-religioso.

Este fenômeno não ocorre apenas com o profissional da fé, mas em geral também com os fiéis. Estes, depois de iniciados adquirem novas “vestes-religiosas” tomadas no sentido de uma “aura” que o transforma em irmão, em iniciado, em médium, crente, carola etc.

Estes elementos novos vão se materializando e tornando-se com o tempo, caricaturas estéticas de postura, vestimenta, linguagem etc. Não estamos falando apenas do êxtase-religioso que o fiel às vezes experimenta, mas do exercício diário da religiosidade, como a oração, a leitura de um texto denominado de sagrado, a evangelização2, o vestuário, a convivência com os de fora do grupo religioso, e outros aspectos.

Estamos afirmando que o exercício dos espaços privilegiados de poder religioso e, no caso em especial, evangélico, encontra-se não apenas nas articulações mais profundas e complexas, mas nas situações elementares do cotidiano. Até o falar religioso fica articulado a uma linguagem e um discurso que é fruto ou reflexo de elementos internos destes espaços privilegiados de poder. Nas nossas incursões ao objeto de pesquisa, encontramos nos fiéis expressões destes reflexos, pois mudam de voz para falar da realidade religiosa, possuem costumes, e vestimentas distintas dos usuais de seu cotidiano, visto a dualização entre o profano e o sagrado, torná-los padronizados. Por isso se cumprimentam com “a paz do senhor irmão”, “graças a Deus”, “louvado seja o senhor” etc.

Estes elementos funcionam como um discurso de identidade, estando presente ainda, nos carros dos fiéis, por meio de adesivos que sempre trazem uma dose de triunfalismo, exclusividade e segregação religiosa. Um adesivo muito usado, atualmente, pelos evangélicos é o que diz: “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo, povo de Deus declare isto”.

Esta realidade é que se verifica externamente, mas o fenômeno encontra ainda mais ressonância no ambiente específico do ritual religioso (igreja, templo, cultos, comunidades, missas, concentrações, dentre outros). Ali fica latente a postura externa que já é reflexo dessa interiorização, pois no espaço privilegiado de poder, encontra-se ambiente ideal para a fusão dos elementos interno e externo. Na convivência religiosa, existe uma macro-afirmação deste fenômeno que contamina os presentes numa atmosfera de auto-afirmação e projeção religiosa, especialmente em eventos de grande porte como concentrações, marchas para Jesus, e outras.

Concluindo, podemos conceber que o poder religioso como qualquer outro tipo de poder, passa pela via da imposição de vontade e aceitação do dominado. Neste sentido, para Weber a dominação passa necessariamente pela transformação em relações de dominação. A legitimidade da dominação se dá pela obediência às prescrições legais e normas de qualquer espécie por um grupo de pessoas, como é o caso da religião em especial institucionalizada. O poder religioso e, no caso, evangélico, consegue com grande eficiência se perpetuar, porque se legitima pelas relações de fé dos membros ao exercerem pouca resistência devido à contribuição da teologia já que a liderança é sempre encarada como vocacionada e escolhida por Deus3, ainda que com voto dos fiéis4. A autoridade se legitima pela via da escolha espiritual, sempre após orações, onde se “implora a vontade de Deus”, privilegiando o uso da Bíblia como um elemento de convencimento, que se operacionaliza e se torna eficiente, pela veiculação dos espaços privilegiados do poder evangélico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, P. A Economia das trocas simbólicas. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 1987.


FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de janeiro: Edições Graal, 1979.
______. Deux essays sur le sujet et le pouvouir. In: DREYFUS, L. H & RABINOW, P. Michel Foucault. Un parcours philosophique. Paris: Gallimard, 1984.
GABRIEL, Karl. L'Exercice du pouvoir dans l'Église actuelle à travers les théories sociales du pouvoir. In: Concilium n. 217, 1988.
MACEDO JR., R. P. O poder e o direito. Revista Sociologia Tempo Social, USP, São Paulo: 2(1): 151-176, 1. sem. 1990.
TAVARESNETO. Poder, pluralidade e heterogeneidade para além do Estado e do Direito. Revista Paradigma. Ribeirão Preto, UNAERP, n.9 e 10, p. 169-177, 200.
SANTA ANA, J. Igreja e seita: reflexões sobre um antigo debate. Revista Estudos de Religião. São Bernardo do Campo, UMESP, Ano VI, n.8, p. 11-34, out. 1992.
SHERIDAN, A. Discours, sexualité et pouvoir, Initiation à Michel Foucault. Bruxelles: Pierre Mardaga, 1982.
MAX, W. Economia e sociedade. Brasília: editora Universidade de Brasília, 1991.



1Doutor em Sociologia pela UNESP-Araraquara, professor da UNAERP e membro do conselho fiscal da ABHR.



2 Estes fenômenos são comuns no Catolicismo e entre os Evangélicos. Por meio do proselitismo, tais religiões procuram se diferir da Macumba, do Candomblé, da Umbanda e do Espiritismo, consideradas por estas como religiões inferiores e heréticas.

3 Para os evangélicos, existe uma vocação, ou um chamado divino para o ministério. Trata-se de uma escolha divina que abençoa o escolhido para ser pastor, presbítero, líder, bispo etc.

4 Situação rara.



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