Imagem e escrita de si: o corpo em revista



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IMAGEM E ESCRITA DE SI: O CORPO EM REVISTA

Nilton MILANEZ (PPG-UNESP/CAr - bolsista CAPES)




“Meu buraco é mais em cima

Nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito hôme”

PAGU, Rita Lee & Zélia Duncan
Fazendo sentido...

Percorrendo os segredos que iluminam a silhueta de nossos corpos, encontramos um invólucro repleto de próteses, fazendo-nos pensar sobre sua natureza, ou melhor, o modo como vivemos o corpo que temos, hoje em dia: um corpo de natureza muito mais marcadamente fabricado do que o de um passado próximo, deixando-se entrever a perenidade de uma materialidade que se deseja longa e rija, escrevendo uma história de materializações dadas pelas condições de possibilidades de nossa contemporaneidade.

Dessa natureza fabricada, ou seja, dessa constituição de um corpo que se assemelha à construção de um monumento citadino, tenta-se disfarçar a morte eminente indesejada e reprovada pela ontologia do nosso presente de vida eterna bíblicos numa coqueteleira batidos com adoçante dietético e instrumentos cirúrgicos eternamente disfarçando a insatisfação de não se ter o que não se e é. Talvez isso aponte para a busca de uma individualidade rara que estaria (?) em algum lugar sombrio demais para se determinar exatamente de onde vem, porém certamente rarefeita nos incontáveis micropapéis de poder e saber que desempenhamos, dando-nos a possibilidade de exercer nossos andares pelas ruas que nos levam de volta para dentro do si, de um cuidado de si, à morada do dentro do nós, casas que se construíram por Outros, com uma matéria prima que o tempo já não pode mais contabilizar e, às vezes, nem mesmo rememorar.

Estamos e somos subjetivados. Tal diferença de estado dependeria do grau de estabilizações ou desestabilizações das quais estivéssemos atrelados. No entanto, na incapacidade de estabelecer essas linhas, comecemos a pensar o desenrolar de nossas vidas pelos nossos próprios entornos: o do corpo, que oferece e nos oferece imagens, e o espaço urbano, que tanto nos amplia, delimita ou inverte posições. Disso, corpo e espaço urbano, criam-se vidas/vias únicas e memórias inscritas que poderão ser lidas como discursivização de subjetividades levando em conta o caráter da relação entre os ambientes e desejos, pois todo ambiente sócio cultural é feito de um conjunto dinâmico de universos. Tais universos afetam as subjetividades, traduzindo-se como sensações que mobilizam um investimento de desejo em diferentes graus de intensidade” (Rolnik, 2001: 25).

Nessa linha, o intrincamento entre o homem que caminha e o espaço da cidade no qual labirinta, evidentemente, parle. Ça parle. E, de longe, ou de uma esquina, essa enunciação revela os sentidos do corpo e suas movências pelo espaço urbano, fazendo sentido, porque o sujeito pensa levantar, por instantes, o véu da compreensibilidade e enxerga, no isso, uma evidência do sentido que lhe aparece, concreta diante dos olhos. (Gregolin, 2001:9). Da prática do homem de simplesmente viver o cotidiano rodeado, de dentro, atrelado, sufocado e também liberto por um espaço materializam processos discursivos em irrupções históricas que nos constituem.

Daí brotaria a subjetividade? Talvez uma das suas rotas de chegadas até nós, porque sabemos que ela está em toda parte, no aqui e no alhures,e não se restringe somente aos espaços geográficos ou na existência dos corpos que neles habitam. Assim, de uma identificação do sujeito com o texto, mediando a sua incompletude, iludindo-se com uma possível completude e transparência que nos alicia como leitores quando, eroticamente, devaneamos nos diálogos que, como sujeitos, travamos com os textos de uma cidade fragmentária extrapolando, na descontinuidade, suas fronteiras e seus limites.

Por isso, buscarei por meio de uma aplicação na revista, meu objeto reitor, autuar espaço, corpo e língua, produzindo história, agora, de um sujeito urbano, não mais visto nas nuvens do céu ou no desenho da árvore que não tem raízes de um exame psicotécnico - como se fosse possível dizer que a memória não estivesse ali devido a essa aparente exclusão (desculpem-me os psicologistas). O eu urbano, portanto, se apresenta nas relações reais e simbólicas desse nosso mundo-espaço-urbano, projetando sempre no espelho o espanto do todo que não pode abarcar, pois é um mero reflexo do devaneio de ser completo, sendo, decididamente, aquilo que nos move a procurar respostas e colocar questões. Eleito meu objeto, posso discuti-lo, mas não sem antes deixar claro também a minha insatisfação de que os momentos de reflexões e aparentes sentidos (i)lógicos constituídos por meio dos textos capturam
(...) e transformam a infinitude dos sentidos em uma momentânea completude. Só por instantes, até que o leitor, perseguindo as pegadas inscritas na materialidade textual, na prática da interpretação, devolve-lhes sua natural incompletude e eles alçam vôo, novamente, devolvidos à agilidade das asas que os suspedem. Inserido na história e na memória, cada texto nasce de um permanente diálogo com outros textos; por isso, não havendo como encontrar a palavra fundadora, a origem, a fonte, os sujeitos só podem enxergar os sentidos no seu pleno vôo.(Gregolin, 2001, 10).

Vôo, então. Voemos?

No emaranhado da teia discursiva de cuja ordem pretendo adentrar, deparei-me com a seção SUPERZOOM da revista Super Interessante, de janeiro de 2003, veiculando uma matéria denominada VIAGEM NAS PLACAS1, que apesar dos estranhamentos que nos causa, não nos distancia dela, mas num efeito reverso nos cola a essa imagem. Em espanto. Desde já, a foto de uma banca, será o ponto de partida para minhas reflexões sobre o espaço urbano, os percursos no qual seus caminhantes se contemporizam com esse espaço, utilizando-se de uma forma calcada no visual para apreendê-lo nos seus olhares para dentro deles, na constituição de corpos flanando pelas ruas da modernidade, com olhos de raios-x, para poder enxergar a opacidade da linguagem que cobre a todos – espaço e homens – indistintamente, pois indissociáveis.

Temos, primeiramente, certamente intrínsecos, três eixos temáticos: primeiro, a realização de um lugar, a banca, como uma prática de espaço, que pressupõe o contexto no qual se insere - a própria cidade; segundo, o pedestre caminhante leitor, que em decorrência dessa sua maneira particular de assimilar seu espaço vive um terceiro momento, o espetáculo de ver a revista, na banca, como uma prática de leitura (discursiva ou não), gerando subjetividades, aqui com um investimento nos cuidados de si e o imbricamento dos fazeres da vida cotidiana. Apesar das enumerações, esses deslocamentos se sobrepõem, se substituem e se atualizam na interação que faz emergir a identidade/subjetividade na contemporaneidade dentro de um espaço específico, seja o da cidade, da banca, da revista, seja do nosso próprio corpo em relação a outros corpos, talvez inanimados, mas vivos sempre.
Um pouco de disciplina

Indispensável ressaltar que o discurso geográfico, pelas suas origens militares, fazendo eclodir um campo semântico de linhas de forças, pontos de confrontos, tensões, além de ser tomado por metáforas espaciais tanto geográficas quanto estratégicas, produz efeitos de sentidos que se entrelaçam com relações de poder baseadas na disciplina. Portanto, o espaço tanto quanto o corpo sofrem e constituem disciplinaridades com tudo que isso possa ter de normativo e regulador; porém, ambos são figuras de resistência no dia-a-dia dessa descontinuidade espacial e da corporalidade social. Nessa linha, chuviscam as relações entre o saber pelo qual funciona um poder exercido não sem coerções, mas com a possibilidade de se escolher, pelo menos, a cor do pirulito que nos foi ‘oferecido’. Nessa arte de distribuição espacial dos indivíduos, a disciplina é, sobretudo, a análise do espaço e dos corpos que nele mexem, rebolam, pulam, estacam na busca para individualizar-se por meio do espaço, resistindo, enxertando seus corpos num espaço que assim se torna, ao mesmo tempo, individualizado, classificatório e combinatório. Por isso, saber, poder, ciência, formação discursiva, um olhar épistemè e um tanto de arqueologia, permitirão delinear um discurso que me parece depreender o lugar no qual pisamos e volatizados existimos.

Começarei, primeiramente, portanto, lançando um olhar sobre a imagem a ser analisada e, depois, passar pela questão que envolve a prática de espaço urbana, do ponto da sua concretização pelo elemento que mais fielmente poderia captar a alma do dizer, que identificado pela sua falta, num ato mudo, não deixaria de evidenciar a sua verdade histórica. Repleta, porém, de intervenções descontínuas dos outros campos que a constituem, amalgamando regularidades e dispersões. O nosso objeto de leitura, de leitores e pedestres e de pedestres-leitores, nessa abordagem, apresenta a revista da Feiticeira, Joana Prado, na capa da Playboy, pendurada numa banca. Verifique como ficou a edição da foto de José Eduardo de Camargo.

Dentre as inúmeras irônicas e risíveis pinturas da realidade de placas espalhadas pelo nosso Brasil, apresentadas na revista, fui atraído em especial por uma que nos colocará em conflito com o nosso papel de leitor, atrelando-nos, acima de tudo ao espaço da banca de jornal, fazendo dessa nossa leitura em pé, mesmo que fosse descompromissada, uma emissão ao vivo de nós mesmos.2

Então, olhe, veja, leia. Certamente, a produção de sentidos da imagem acima evocará sensações e a tomaremos ora como pressuposto ora como posto para discutirmos a constelação discursiva que envolve esse enunciado3.

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PRÁTICAS DE ESPAÇO



Na cidade estou.

A cidade, como espaço praticado pelo pedestre, passa a ser uma cidade-panorama, constituída como espaço para ser visto num vôo pleno, mesclando-se aos paralelepípedos ou asfaltos esburacados, muros e canteiros – um espaço tomado como real: o simbólico que se faz entrever na cidade, por meio da banca e sua revista segurada por um prendedor de papel. Teríamos uma cidade-simulacro, se assim entendermos o espaço no qual caminhamos. Dessa maneira, densificam-se as redes da ordem que rege a administração pública e simbólica da cidade, das quais eclodem as anomalias, as doenças, os desvios, as normas, ou seja, tudo aquilo que é produzido em subjetividades na interação entre o homem contemporâneo e seu mundo neo-futurista-primitivo, desabonando os julgamentos dos comportamentos, práticas de viver, nos limites imaginários desse território.

Esse emaranhado de letras metaforizadas em prédios, outdoors, pisca-piscas e rostos que se arrastam dentro dos carros ou a pé, produzem uma dimensão espacial do cotidiano, mistura de informação e comunicação, quando, então, o espaço se coloca como uma condição para a ação, trazendo seus objetos e atitudes, colocando juntos a localidade de cada lugar e o seu oposto, a globalidade que, no final, se confundem (Santos,1996). Estabelecem-se, assim, os laços do espaço com o simbólico, por meio do espaço-território, que se manifesta dialeticamente como territorialidade nova e cultura nova, que interferem reciprocamente, mudando-se paralelamente territorialidade e cultura e mudando o homem (ibidem), iniciando-se um processo de integrações e entendimento, causando no sujeito a ilusão de recuperar a parte do seu ser que parecia perdida, diante da fragmentação e impalpabilidade que representa o espaço urbano, pois é a fração de um todo. Nesse vôo panorâmico pela cidade, nota-se que o espaço do cidadão, segundo Santos (2000), é um espaço fragmentado. Esse processo fragmentário, portanto, vai nos deixando aturdidos, instáveis, recortados e reprogramados, com vontade de gritar “eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo”, uma vez que a percepção truncada que temos do espaço parece separar os homens ao invés de colocá-los juntos. Contraditoriamente, é também um espaço uno, possibilitando cada vez mais intensamente a sociabilidade entre as pessoas quanto maior a cidade. Uma verdadeira fábrica de relações, que se repete no cotidiano do sujeito instado pelas leis físicas e simuladas pela presença dos outros sujeitos e desse espaço disciplinar no qual se envolvem.

Como nos diz de Certeau (2000), o espaço é um cruzamento de móveis, que se faz pela lei do outro, ou seja, pela intervenção de poderes múltiplos exercidos por sujeitos na intervenção da cidade-espaço que dá o ritmo do repertório de linguagens que a constitui. Daí, cria-se um espaço cultural possibilitando a forma de comunicação do homem e de seu grupo com o universo, nada mais que o próprio processo do nosso viver. Nesses termos, a cidade se torna um espaço de revelação, pois esta epifania da vida urbana se nos mostra em cortes e montagens, que vai se desenrolando como uma novela cujo fim sempre adiado é intermediado pela sociabilidade dos sujeitos pedestres que nela se movem. É a sociabilidade, o prazer de estar com o outro que estabelece definitivamente a diferença urbana, a urbanidade (Le Goff , 1988).



A cidade, nesse sentido, é dada como uma constituição de linguagens pensada a partir da cultura que nela ventila e se aventura nas práticas cotidianas, revitalizando modos de significação, exercício e poder, de emergência e acomodação de conflitos. Por isso, a mente do caminhante pelo chão que pisa fala da sua subjetivação por meio de sua cultura quando pensada como constituição imaginária que envolve permanente e constante diálogo interno entre obras – presentes ou passadas - , em concomitância com a edificação de formas expressivas, tendo por suposto os modos de relacionamento e convivência dos agentes culturais (Arruda, 2001), nós, sujeitos, na batida cotidiana, à procura de um tempo perdido.

Igualmente, nós, pedestres leitores, preenchemos os espaços dos territórios nos quais nos movemos obedecendo aos cheios e vazios de um texto urbano que escrevem sem poder lê-lo. O susto torna-se, portanto, inevitável, porque o que buscamos - saber onde estaria a brecha pela qual podemos agir por nós mesmos! – e ainda usamos a capa da invisibilidade de um homem que é visível, mas que nunca avisa onde vai aparecer. Quero dizer que, podemos pensar a subjetividade, mas nunca ter a certeza se ela nos dá mesmo uma fresta de individualidade, que não seja vigiada e punida. No entanto, é preciso acreditar nessa rachadura da parede para que as realizações das práticas que vivemos façam sentido e não aceitemos a forma de espectro, fantasmas de criações cuja origem não se pode determinar. A subjetividade é, assim, também intermediada pelo espaço. E relembrando Baudelaire, parece que nossas cidades são metrópoles de onde confluem choques cotidianos e os conflitos do mundo civilizado.


Na banca, paro.


Tratarei agora de, pelo menos, três elementos que se misturam: a problematização da ruptura, sua relação com a História e a maneira descontinuada, segundo os postulados de Foucault. Façamos, então, um vôo raso, nesse momento, e olhemos isso com um pouco mais de atenção.

A banca, acima de tudo, é o lugar de um cotidiano que ocupa uma corporeidade ao mesmo tempo fluída e materialmente sensível na mesma medida que é um universo marcado por movimentos/deslocamentos difíceis de apreender. Esses deslocamentos compreendem tanto o espaço externo daqueles que a tocam com seus olhos, mãos e pés, quanto a força dos saberes subjetivos deslocados do conjunto de revistas, jornais, livros etc, em exposição do lado de fora, ou pedindo uma intrusão, quando do lado de dentro. Por isso, a banca parece-me dar conta de sistemas sociais no tocante aos sujeitos pedestres que nela passeiam e exercitam ali em páginas alheias uma identidade que esboce o que eles/nós temos de raro (individual). Dessa passarela do social e do individual, deflagra-se uma história geral além da globalidade do globo daquele grupo escolar, que hoje atinge e se pronuncia vorazmente pelos efeitos de sentidos murmurados pelos passantes que vêem, lêem, ou diria, holisticamente, incorporam essa leitura sem racionalizá-la, espumando História pela boca.

O ponto que está no centro dessa nova história, problematiza as séries, os recortes, os limites, enfim, as formas singulares de permanência, nos oferecendo tipos possíveis de relação e definindo, assim, a tarefa de uma história geral que é determinada pelas formas de relação que podem ser descritas em diferentes séries. Temos, assim, o espaço de uma dispersão.

Tomando o espaço como dispersão na História, começo a pensar a banca como um fenômeno de ruptura, desbancando a história dos fatos contínuos e causais, para dar lugar a irrupção de um acontecimento, que escapa a sistemas temporais determinados, pois deslocam-se constantemente seguindo ordens do discurso de uma história que se faz descontinuamente. Foucault nos traz, então, a noção de descontinuidade, delimitando o campo do objeto de pesquisa e permitindo individualizar os domínios dentro dos limites de sua oscilação, ou seja, o limiar de um funcionamento tictacteando o instante dos funcionamentos irregulares de uma causalidade circular. Ao trazer essa noção para meu objeto, verifico que a banca dá início a um espaço geográfico que se materializa em lugares, seguindo o limite pela geografia de tradição daquele terreno, mas que são oferecidas a elas dentro de seu limite espacial, pois tem uma abertura em que caiba sua realização e funcionamento, tida, por isso, como irregular, porque a priori não pertencia àquele espaço, mas se estabeleceria dentro dessa circularidade demarcada potencialmente. Nesse sentido, a banca, que poderia ser um objeto intruso, passa de obstáculo a ser transposto pelo pedestre – como uma raiz grande de árvore que precisa ser desviada para não se tropeçar e continuar nosso caminho – a uma prática. A prática de “se topar” com uma banca numa praça ou numa esquina de muito movimento que clamava o preenchimento daquele espaço ‘vazio’.

Indubitavelmente, um fato geográfico como este, a banca, responde às necessidades identitárias tanto da criação de um espaço quanto, conseqüentemente, de seus caminhantes, também, com suas necessidades materiais de alimentar-se (seja do outro), de residir (em outros mundos), de rodear-se de objetos (para se sentir menos só na sua busca de si?). Enfim, é um sítio que nasce num lugar já estabelecido, e se olharmos com aqueles olhos de quem passa, fica sempre a percepção de que aquela banca não existia ali antes ou, então, quando acostumados com ela, já está desativada. Obviamente, não desconsidero aquelas bancas que estão ali desde sempre, e cada um de nós deve ter a sua própria na memória dos cotidianos regulares de nossas vidas dispersas. De qualquer forma, a banca se infiltra num espaço já consolidado, se erguendo, conforme concebo, sob a forma de um lugar de passagem, que antes de fluxo livre, passaria a interromper o trajeto do pedestre, obrigando-o pelo menos a desviar-se dele, se não fosse a curiosidade de vislumbrá-lo como um documento, porque é uma prática do dia-a-dia urbano que a história desdobrou em monumento, talvez uma escultura, para ser descrita, definindo seus elementos, fixando-lhe limites e descobrindo tipos de relações que lhe são específicas. Além disso, se oferece como uma construção de resistência à normatividade disciplinar espacial, nos dando a pensar a subjetividade, antes ainda do corpo, no território,

Dessa forma, a banca causa uma ruptura num espaço geográfico já consolidado, incidindo como uma interrupção no deslocamento de uma regularidade. Aliás, o espaço passa a ser redistribuído e é isso que talvez emoldure a própria estrutura da cidade, da banca, de uma obra, de um livro, de um texto. Com a inclusão de uma banca num lugar onde o chão era apenas um quadro em branco, perturba-se a continuidade livre da passagem, permitindo um corte que multiplica as intervenções na geografia urbana da nossa História. Em suma, o que se leva em conta não é mais a tradição do lugar que sempre esteve ali, o rastro de um passado positivista, mas um recorte e um limite a mais. Recorte e limite constituirão, conseqüentemente, uma História que procura definir um documento que não se separa, na sociedade, da sua massa documental, tomada aqui, nesse contexto, pela realização da banca como um espaço outro que surge da terra como a irrupção de um vulcão venezuviano que não pode ser contido, dizendo-nos da emergência da história que se movimenta no interior das práticas cotidianas.

Caminhando... o espaço ocupado pela banca tem uma ordem própria, ocupar um lugar que é um estar aí. Mais especificamente, falo do espaço como construção de um sujeito histórico, porque parece que um movimento sempre condiciona a produção de um espaço e o associa a uma história (de Certeau, 2000: 203). Daí, estabelecer-se a relação do espaço com uma prática significante, flamejando dispositivos simbólicos do crível, do memorável e do primitivo. Temos, num sopro, o fôlego de uma memória que se apresenta silenciosa e fechada, esperando para desvelar o ser humano nas suas lembranças e sonhos, nomeando e impondo uma injunção que vem do outro. Refiro-me a uma história autorizada pela produção de um espaço segundo a lei do outro, que nos atravessa, nos insulta, nos constitui e nos faz dizermos que sabemos quem somos. Por isso, a banca, a cidade que nela se insere, os outros que nela falam e nós que para ela olhamos bocejam uma simbólica em sofrimento, que nos tiram o sono/sonho, além da ilusão de sermos donos do próprio nariz, sem deixar claro, também, que nossas narinas inspiram e podem ora ou outra escolher os odores que queiram respirar. No entanto, sem dúvida, há o sofrimento do medo do extermínio dessa escolha, que se dissipa da mente de, nós caminhantes, quando nos entretemos com as paisagens das quais fazemos parte e apreendemos como se estivessem fora de nós.

Nosso andar pelas ruas se faz, portanto, de acontecimentos raros e de acontecimentos repetitivos. Raros porque são vividos somente por mim no espaço que o corpo limita e aceita o meu meio; repetitivo, porque são muitos corpos, diferentes sim, mas que passam pelos mesmos lugares, sapateiam as mesmas pedras e repetem as vozes da cabeça de um louco (?) que escuta muitas pessoas falando ao mesmo tempo dentro dele mesmo. Uma visão da loucura para a subjetivação... De qualquer forma, meu objetivo é capturar o pedestre e suas enunciações a partir da sua urbanidade. Peço que ampliemos, então, a cena urbana para passar, em seguida, a olhar mais acuradamente o homem caminhante dessa cidade que tem nas suas curvas ou debaixo de suas árvores uma banca a sua/nossa espera.


Eu, pedestre, enuncio.

A cidade tem, como vimos, uma fisiologia tanto quanto nosso corpo pedestre, que é potencialmente um leitor andante e, por isso, seu caminhar se torna um espaço de enunciação, fazendo realizar-se espacialmente o lugar caminhado, ou seja, um processo de de apropriação do sistema tipográfico por aquele em que ali anda. São essas enunciações pedestres, retomando de Certeau (2000), portanto, que fazem interagir a descontinuidade, o presente e “fático”.

A descontinuidade se faz pelo caminhar irregular e inesperado do pedestre por calçadas e ruas, à medida que efetua triagens nos significantes da “língua” espacial - sons etéreos da cidade à procura de uma forma - e se desloca pelo uso que faz desses significantes. O caminho percorrido é o do presente, do momentâneo, daquilo que se vê (ou não pode se ver) no momento próprio da caminhada. Esse perfume mágico, com tudo que ele tem de sedutor e destruidor, faz o pedestre ser levado nas andanças, constituindo um aspecto que possibilita a movimentação e também sua interrupção, faticamente, esforçando-se para assegurar a comunicação dos corpos com seu espaço. Dessa forma, o descontínuo, o presente e o fático permitem circulações e proibições, proximidades e distanciamentos do caminhante em relação a sua posição para a constituição dos significantes espaciais que a cada meia dúzia de passos podem se transformar em outra coisa.

É a enunciação da caminhada empreendida pelo pedestre-flâneur.



Os flagrantes de descontinuidade se dão por meio de ficar olhando ao redor, panoramicamente, como um detetive, que tem na sua flânerie a melhor chance para fazer isso (Benjamin, 1991). O pedestre-flâneur seria também um detetive, que se constitui das reações adequadas ao ritmo que a metrópole lhe impõe, colhendo as coisas em pleno vôo, além de exercer um papel como resistência no tocante à disciplina espacial, pois dela zomba, tripudia, ri pelas costas, quando se dá o direito de pisar na grama, atravessar fora da faixa de pedestres, pular o muro. Nesse sentido, a comunicação do espaço urbano com o pedestre poderá ser ligada ou desligada a qualquer momento, porque o flâneur é um nochalante, deixando-se levar por um pedaço de papel voando com o vento, momento em que a perseguição pode levá-lo a um crime, realização ainda sem forma dos espectros urbanos apreendidos pelo olhar. O pedestre-flâneur-leitor habita as ruas, habita lugares, espaços que fazem-no defrontar-se com experiências inebriantes, uma mil e uma noites de aventuras, e dentre elas, num lugar de passagem, o cara-a cara do pedestre com a revista na banca. Tal fato nos enlaça a uma outra discussão, aquela que compreende o “ver” e a vontade de saber do pedestre cambaleante, ora se detendo aqui ora ali, um e um constitutivos de metáforas do olhar.
Vejo o mundo”, o mundo está “sendo visto” 4

Ao nos entregarmos aos encantos, pelo menos, da capa da revista Playboy reproduzida anteriormente, aceitamos o feitiço do qual participam o leitor como que reduplicado, além de um/do outro. Olhando a revista o leitor se coloca ao lado dele mesmo, da mesma maneira como se confundíssemos o pintor com seu quadro. Nesse paralelismo, o pintor que acabaria de aparecer aos olhos do espectador, nos fala da revista como produtor de nós mesmos, se mostrando aos olhos do leitor numa sucessão de espetáculos. Isso me é, à primeira vista, mágico, pois o que parece acontecer, nessa capa, é que a Feiticeira nos olha com um certo espanto e pudor, uma vez que coloca (eroticamente) os dedos nos lábios, como que tapando a boca, pseudo-olhos assustados, mas sabemos que está nos incitando a descobrir o objeto de sua falsa pudicícia. Quando ela nos olha, como o faz um pintor, fixa um ponto invisível, mas que nós, espectadores, podemos facilmente determiná-lo como sendo nós mesmos: nosso corpo, nosso rosto, nossos olhos. Dessa maneira, a Feticeiria não é somente uma modelo dentro da capa, mas poderia ser também qualquer mulher/homem que estivesse do lado de fora da revista, contemplando-a. Nisso reside o papel da reduplicação, visto que a revista com num espelho repete o que lhe é dado de fora, mas no interior de um espaço irreal, modificado. Por isso, pode-se ver o que aparece em primeira instância na revista, porém decomposta e, depois, recomposta, segundo uma outra lei. Que fique, claro, portanto, que esse jogo de espelhos não é de mão única, mas uma mão dupla em que a revista pode ser o retrato do homem contemporâneo, que ao se ver e se reconhecer nela refletido, já não é mais o mesmo, pois a partir da percepção de si (mesmo que inconsciente), providencia sua mudança. Dessa maneira, o homem é dominado pela linguagem, pois sua existência concreta irá encontrar nela própria suas determinações, quer dizer, suas palavras, seu organismo e os objetos que fabrica.


Talvez não pudéssemos nos defrontar com um quadro diferente a este, uma vez que nosso movimento de busca deseja alcançar a interpretação, fazendo com que o texto se frature, se esqueça, para que possa ver emergir, em plena luz, esse outro sentido que ocultam (Foucault, 2000b: 419). Não somente na imagem, mas em todo e qualquer enunciado, o ser da linguagem ali oculto apresenta-se fragmentado, descontinuado, quebrando a possibilidade de uma univocidade da linguagem: é o ser fragmentado da linguagem, um feedback do nosso modus vivendi diante de nossos olhos, numa revista entre tantas outras que também nos falam a nós, em segredo, de nossa própria história.

Essa fragmentação, portanto, mantém o discurso, detendo a palavra que nela se quer reunir inteira, questão que aborda a linguagem numa questão nietzcschiana, como nos falou Foucault, colocando em xeque o quem fala? E na nossa corrida para nos apreendermos no espelho ao qual estamos atrelados, a capa da revista; o que buscamos é o que é falado, em nossa solidão, na imagem que se constrói de pré-construídos do qual ainda não podemos estar cientes. Com isso, nesse refletir-se enigmático, ao ver-se refletido na revista, sofremos o risco de, no fim de tudo, deixar emergir o si próprio de cada um, justamente no momento em que ali estamos representados como sujeito falante e interrogante, isto é, eu sou isto que vejo na capa da revista que olho e quem é este eu, que sou eu, que me vejo?

Foucault me inspirou e me impressiona com suas palavras e suas coisas, nesse trecho, que se apresenta originalmente entre parênteses, um daqueles adendos que do breu faz surgir um insight sobre nós mesmos:
(Que é linguagem? Que é um signo? O que é mudo no mundo, nos nossos gestos, em todo o brasão enigmático de nossas condutas, em nossos sonhos e em nossas doenças – tudo isso fala, e que linguagem sustenta, segundo que gramática? Tudo é significante, ou o que o é, e para quem, segundo que regras? Que relação há entre linguagem e o ser, e é realmente ao ser que sempre se endereça a linguagem, pelo menos aquela que fala verdadeiramente? Que é, pois, essa linguagem que nada diz, jamais se cala e se chama “literatura”?) (2000b: 421)

Diante desse quadro, o que se olha e o que é olhado permutam-se incessantemente, pois o sujeito e o objeto, o espectador e o modelo invertem seu papel ao infinito. Somos vistos ou vemos?, dúvida causada por um espelho de pura reciprocidade, que ao mesmo tempo olha e que é olhado. É como se nos olhássemos olhados pelo produto da lente de quem fotografou a modelo, seu fotógrafo, mas tornamo-nos invisíveis aos seus olhos por meio da mesma luz que proporcionou que fossemos por ele visto, porque essa invisibilidade se dá tanto pela estrutura da capa quanto pela sua existência de revista. Revista que, pregada na banca, ou circulando pelos escritórios, restaurantes, sofás das casas, nos mostra imagens que saem da revista, vem ao encontro de nossos desejos, uma vez que os reflete e como causa primeira, num susto, ao nos depararmos com nós mesmos, somos instados a nos comportarmos, agirmos, daquela maneira, que, num primeiro momento, nos parecia estranha, mas que diz de nós mesmos. No entanto, também é por nós reformulada, à medida que essas imagens se lançam sobre corpos do lado de fora que possuem particularidades históricas e sociais próprias, quero dizer, que injetam o mundo em suas veias como todos, mas reagem diferentemente apesar de receberem o mesmo remédio. Estaríamos nos aproximando de um momento no qual vislumbramos nossa possibilidade de agir na brecha que nos é deixada, não sendo totalmente controlados, massacrados, o tempo todo. Momentos de respiro? Difícil afirmar, mas necessário dizer que sim, acolhendo-se, então, essa marca intrínseca à subjetividade.



Uma imagem invisível

Ao longo dessa discussão, nos damos conta que a subjetividade na revista se apresenta por meio do simbólico no tocante às suas imagens. Acreditemos que essa iconografia afasta-se da sua referencialidade de real, nada mais que um cânone de uma memória iconográfica, memórias que adquirem um estatuto de possibilitarem o simbólico como algo concreto. Entretanto, apesar de essa se apresentar, nesse caso, a principal faceta de uma das funções da imagem – a função simbólica - teríamos ainda, segundo Flosch (?), três outras: a função epistêmica, objetivando uma condição que pertence ao campo do conhecimento e a função estética, trazida por um intermediador, em nosso caso, o fotógrafo, que nos apresenta a uma composição e gramática da sua arte. E, colocada aqui por último, a função de referencialidade da imagem, que nos chamaria a atenção para as questões que tocam o real.

Dessa maneira, pensando em termos de referencialidade do real, caímos num redemoinho, que nos tira o ar ao nos mostrar a ilusão, flagrando a irrealidade, logo no aviso/cartaz que cobre o corpo da Feiticeira: “Obs. Aviso ao consumidor artista com SILICONE. Esse aviso nos alerta para a irrealidade de um corpo cuja função estética na revista nos propõe como sendo nossos, desmascarando e frustrando nossa vontade de desejo de a termos como nosso modelo. Assim, as palavras do aviso agregam sentidos que visam despertar-nos para o real do uso que fazemos dos nossos corpos e do uso dos prazeres que dele vivenciamos. Nessa atitude expressam-se uma relação conflituosa entre um tratamento singular dado ao simbólico e a um elemento dado como código. No simbólico teremos o invisível causado pelo estético, que organiza um desenrolar discursivo em relação entre o lugar de onde sai, tido como sua origem a capa da revista, e o não-lugar que produz, no qual se instala nossa reflexão sobre a subjetividade. Por sua vez, o aviso desvela um código social que, historicamente, está sendo construído, pois seu uso define um fenômeno social pelo qual um sistema de comunicação encontra um canal para sua manisfestação remetendo à norma.

Assim, o estilo criado pela composição dessa capa da Playboy apresenta uma estrutura lingüística que se manisfesta no plano simbólico, visando uma “maneira de fazer”, no seu falar pela foto e no caminhar do leitor que a ela se atém. E como nos diz de Certeau (2001), ao falar do pedestre, sua caminhada não poderia ser descrita num quadro, nem os sentidos dos seus movimentos circunscrito num texto, pois a admiração do homem caminhante em sua maneira fundamental de ser um homem contemporaneizado se constitui por suas práticas de espaço, estilo e norma.


A “Feiticeira” e o cuidado de si

O aviso, portanto, cobrindo o corpo da Feiticeira, ao mesmo tempo que nos desilude quanto a apropriação do uso do silicone como uma prótese que se cola ao homem, enchendo corpos insatisfeitos, também mostra o cuidado destacado pelo momento histórico no qual nos inserimos, passando a ser um desejo mostrado, produzido por práticas sociais, porque está ali na revista aos olhos dos que passam, além de se colocar como uma técnica de auto-conhecimento de si e dos outros. Por isso, mais do que criar uma interdição sobre uma conduta, o aviso insiste na atenção que convém ter para consigo, solicitando um tipo de vigilância exata: o uso do silicone. Ainda, o papel em branco, com letras de forma assimétricas, nos reverencia o modo pelo qual o leitor estabelece seu relacionamento com ela em termos de obrigações e regras morais, fazendo a conexão entre código moral e o si de uma irrupção histórica particular, que nos coloca frente a frente com o como que o homem se depara em momentos históricos díspares, assujeitando-se pelos mesmos códigos de conduta, mas de maneiras diferentes. Esse modo de sujeição, dessa forma, permanece o mesmo, colocando, entretanto, a ética como um elemento mutante.


Revista e domínio de si

Essa prática que nos dá a ver na revista, mais as técnicas que alicia, produzem, assim, novas formas de sujeitos, que trabalham de si sobre si, percorrendo olhares sobre onde estariam as condições de possibilidade para que isso ocorresse. Esse caminhar para dentro da revista conceitualiza uma ética do corpo que se estende como uma ética do domínio, que é a de pertencer a si, numa escrita da história inscrita no presente como forma de subjetivação, quero dizer, a maneira como nossas próprias ações nos constituem como sujeitos. Repito: a austeridade dessa reflexão moral não estreita códigos que definem atos proibidos, mas intensifica a relação consigo pela qual o sujeito se constitui enquanto sujeito de seus atos.

Essa ontologia do presente, busca de sabermos quem somos nós, é conduzida pelas mãos do que os gregos chamaram de arte da existênciatechne tou biou (Foucault, 1985), fazendo despontar um ‘individualismo’, como também se nota no objeto discutido, que oferece espaço a aspectos “privados” da existência, seus valores de conduta pessoal e, acima de tudo, ao interesse que se tem por si próprio. Cria-se, então, uma atitude individualista atribuída ao indivíduo em sua singularidade e grau de independência tendo em conta sua relação com o grupo ou instituição a qual pertence. A intensificação das relações consigo, que é tomar-se a si próprio como objeto de conhecimento e campo de ação, exalta uma singularidade individual quando contraposta ao social. Daí, dizer-se da cultura de si, que nos fala insistentemente do princípio segundo o qual é preciso “ter cuidados consigo”, ou seja, uma idéia que se fundamenta na aplicação de aplicar-se a si próprio, ocupando-se consigo mesmo. Conseqüentemente, é esse princípio do cuidado de si que fundamentará a sua própria necessidade, comandando o seu desenvolvimento e organizando a sua prática.

Nesse imbricamento de si consigo próprio, as revistas que abordam o corpo parecem cumprir um papel bastante eficaz, corroborando formas de atitude de acordo com nosso momento histórico, apresentando uma maneira de se comportar e impregnando formas do nosso viver, que se desenvolvem, na revista, como uma prática que se utiliza da foto de modelos que criaram uma forma de identificação trabalhada no interior da mídia, a quem cabe dar receitas, aperfeiçoá-las e ensiná-las, a posteriori. Chega-se, assim, a uma prática social, estabelecendo relações interindividuais, trocas e comunicações, a fim de proporcionar um certo modo de conhecimento e a elaboração de um saber.

A revista pendurada na banca, num lugar de passagem, propicia esse intercâmbio fático por meio dos cuidados que nós, sujeitos, temos com o cuidado que os outros, aqui a revista, devem ter consigo mesmos, intensificando as relações socias. Parece-me, portanto, que em nossa época a cultura de si toca duas instâncias. Primeiro, a individual, o que teríamos de singular em nós no prazer tido consigo próprio e, segundo, o social, que viria, na esteira midiática, como normas e conduta, estendendo seus braços e distribuindo afetos como exercício de poder, na constituição de um modo de subjetivação, em termos de um dever-fazer. Nesse sentido, o cuidado de si coloca pontos como numa blusa de lã que liga o prazer do sujeito que vive sua experiência, a verdade histórica do seu momento e a individualidade que se possa atribuir a essa experiência no furacão das subjetividades.

No fim, a ética como trabalho de si sobre si encontrará formas das mais variadas de se fazer ver em descontínuas irrupções históricas, variando de acordo com seus povos. Mantém, assim, regras fixas de conduta moral, uma substância, que se deixa moldar por diferentes formas, estas sim, oscilando de acordo com o tipo de acorrentamento a que o homem esteja assujeitado no seu tempo, produzindo, fabricando, corpos que disputam um espaço no espaço sobre o qual circulam, pois na mesma medida que lhes dá mobilidade e frescor, cerceia seus andares, olhares e sentimentos.


Galeria de arte da existência

Nos entrelaçamentos numa discussão sobre o corpo e a natureza do espaço que o envolve, o “eu urbano” se mostra nas relações com objetos simbólicos no mundo, mesmo que de origem concreta, no caso da banca e da revista, porque o espaço, certamente, afeta o que se conhece do “sujeito urbano”, ambos dóceis e disciplinados. A banca para a qual o pedestre olha é parte do sentido, ou seja, uma maneira pela qual o sujeito estrutura e se estrutura numa realidade urbana, colocando sua vida e seus sentidos sob condições que formula sem dizer. Dentro dos limites da cidade, a banca poderia ser um espaço de exposição de obras de arte. Cada revista um espaço artístico, mostrando uma arte de viver com diferentes histórias - relatos de lugares, resíduos e detritos do mundo - uma arte da nossa existência em cada exemplar, formando uma galeria de arte da existência em plena rua, zumzunando o nosso comportamento e condutas contemporâneos. Extensivamente, apresenta obras normatizadoras, corpos marcados por números e letras, por meio da qual experenciamos uma possível individualidade vinda do simbólico tão próprio do artístico, num espetáculo gratuito em plena movimentação da cidade, transformando-a num local de exibição comunitária. Os passantes poderiam ser turistas acidentais, olhando ou comprando souvenirs de si próprios, ingenuamente numa tentativa de assegurarem-se , de ter em mão a si mesmos, num temor de perderem-se de si e, por isso, ocupando-se de si, levando-se para casa a fim de que possam continuar a contemplá-los (contemplar-se), ou deixando-os ali mesmo pendurados ou enfileirados sobre os móveis da sala, para ver-se de novo en passant, ou quando pára para amarrar o cordão dos sapatos depois de atravessar a rua e, levantando os olhos, se descobre no meio da correria do cotidiano praticado no intercâmbio do real com o simbólico. Na cidade, portanto, produz-se uma história por meio da banca que, apesar da efemeridade dos corpos - de condutas, normas disciplinares - não fala de escansão, mas sempre de devir.



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Super Interesssante, edição 184, janeiro 2003, p. 73


1 Esta é uma matéria de Rafael Kensli, editada por Joana Amador, sobre as fotos de José Eduardo Camargo, extraído de seu livro O Brasil das Placas.

2 Obviamente, as relações entre as demais imagens excluídas deste estudo constituem e ampliam efeitos de sentidos que convergem, absolutamente, para a questão do espaço e seu imbricamento com as subjetividades e poderão ser retomadas e, efetivamente, enfocadas, num estudo que compreenda toda essa seção como um enunciado, no sentido que lhe é atribuído por Foucault em sua Arqueologia do Sabe,r esperando um momento outro para ser abordado pelo leitor que se valha do seu exercício de autor.

3 Os conceitos de formação discursiva e enunciado ao quais me refiro são os postulados discutidos por Foucault em a Arqueologia do saber.

4 Frase atribuída a Dürer, célebre pintor húngaro do século XV.


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