Imagem, história e educaçÃO: O CINEMA COMO FONTE PARA A PESQUISA histórica em educaçÃO



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IMAGEM, HISTÓRIA E EDUCAÇÃO: O CINEMA COMO FONTE PARA A PESQUISA HISTÓRICA EM EDUCAÇÃO

Amélia Kimiko Noma

Discute-se a utilização do cinema como fonte de investigação em História da Educação por tratar-se de forma de expressão e registro fundamental da vida cultural, intelectual e informativa do homem contemporâneo. Visa a reflexão acerca da natureza dessa fonte, debater questões teórico-metodológicas e apontar possibilidades abertas ao educador na abordagem do seu objeto de estudo.

Pretende-se a inserção no debate feito por pesquisadores da área os quais estão se propondo buscar e refletir sobre a utilização de novas fontes e abordagens para analisar idéias e práticas educativas de dada época e lugar. Esse posicionamento resulta na defesa da importância da ampliação do universo da documentação e dos campos de análise do educador, visto que, para a pesquisa, a diversidade de fontes é fundamental, justamente pela riqueza que a complementariedade entre elas pode permitir.

Em função do caráter multifacetado da prática educativa, sua interpretação será tanto mais rica quanto forem as fontes que buscam explicá-la em sua totalidade. (Sousa, 1999, p 182). Investigar o fenômeno educativo incorporando diversos olhares cria condições para “complementar as explicações decorrentes de fontes tradicionais e colocar novas indagações ainda não incorporadas pela historiografia da educação.” (Nunes, 1990, p.28)

O diálogo com as fontes

Todo filme, qualquer que seja, é passível de ser utilizado como fonte da qual o educador pode valer-se em conformidade com suas necessidades, desde que saiba fazer-lhe as perguntas de forma adequada. No entanto, é preciso lembrar sempre que o filme é uma representação da realidade e que, ainda que aborde fatos reais, nunca abolirá a sua condição de representação, pois por mais que seus realizadores quisessem, um filme nunca poderia conter a verdade plena sobre um acontecimento histórico, nunca poderia recuperar a história tal como ela aconteceu.

A primeira questão a ser enfrentada por aqueles que trabalham com fontes fílmicas relaciona-se com a natureza das fontes utilizadas, visto que se trata de um tipo específico de registro humano que precisa ser decodificado e interpretado. Isso significa dizer que sua leitura não se dá de forma imediata, porque a imagem cinematográfica é uma construção, é a representação do real feita com a utilização de uma série de recursos e elementos próprios do cinema, através da manipulação de equipamentos, instrumentos, artifícios e técnicas, para produzir cenários, iluminação, sons, fotografia. Representação que opera com símbolos, idéias, valores e sentimentos, cujos significados são historicamente constituídos nas relações sociais nas quais ocorrem a produção e a recepção dos filmes. (Noma, 1998, p.21)

Evidentemente, é preciso ressaltar que um filme não tem a pretensão de abordar, de lançar um olhar sobre a totalidade da vida social. O olhar produzido pelo cinema é uma construção de uma determinada visão de mundo acerca de algumas dimensões do social. Desde a sua gênese, ele implica uma série infinita de escolhas, revelando sempre o ponto de vista que a equipe envolvida na produção (diretor, atores, roteirista, produtor etc) tem sobre a temática abordada. O que interessa para o educador é que, independentemente do tratamento dado ao tema, os filmes sempre lançam mão de e revelam dimensões da consciência coletiva que é produto social da experiência de viver em uma determinada sociedade.

Para discutir que postura o educador pode adotar na pesquisa ao utilizar-se de fontes cinematográficas, busca-se inspiração no filme Blade Runner, o caçador de andróides (EUA, 1982), do diretor Ridley Scott. Pensa-se, aqui, no pesquisador que trabalha de forma semelhante a um detetive, aquele que se torna um farejador de pistas, que se debruça sobre evidências, segue narrativas de acontecimentos, busca desvendar os personagens envolvidos, procura reconstruir um acontecimento e empenha-se em formular explicações para decifrar os problemas que está investigando. (Noma, 1998, p.23)

Tomando o mesmo filme como referência, trata-se de ressaltar e resgatar a potência das imagens na análise e compreensão da história. Na seqüência do esquadrinhamento da foto de Leon (um replicante fugitivo), Deckard (o detetive) incorpora à sua visão natural o acréscimo de poder que o universo da técnica lhe oferece: o olhar mecânico. Para revelar o olhar registrado pela câmera fotográfica, usa o Esper, máquina que lhe permite uma visibilidade para além da potência do seu olhar, uma sofisticada máquina computadorizada, capaz de realizar uma profunda e minuciosa análise de fotografias. Ao esquadrinhar a foto inserida no Esper, o detetive descobre os espelhos que o ajudam a investigar partes da habitação que, à primeira vista, não aparecem na foto. O espelho convexo da parede reflete a imagem de outro espelho de um armário, que por sua vez, reflete o rosto de Zhora (também replicante fugitiva) adormecida.

Deckard encontra vestígios do que, em princípio, estava fora do alcance de sua própria visão, que fugia da percepção do olhar humano, aquilo que Walter Benjamin (1993, p.198) chama de inconsciente ótico. Com a força da ampliação e o poder da técnica, o olhar mecânico e preciso da máquina, finalmente, revela os vestígios de Zhora, e a foto impressa pelo Esper transforma-se em prova documental que testemunha a existência e a presença, naquele local, dos replicantes procurados pelo detetive.

Esse olhar mecânico, que potencializa o olhar humano na apreensão da realidade, parece ser uma alusão perfeita ao poder do olhar do cinema. A enorme força do cinema está na sua faculdade característica de exprimir, por meios técnicos e com um incomparável poder de persuasão, elementos e dimensões da vida dos sujeitos sociais, muitas vezes não acessíveis ao olhar do espectador. Um olhar que, por ser externo aos homens, vê e dá a ver. Um olhar que captura, registra, expressa, representa, revela, exatamente por ser um olhar que é visualização do mundo. Um olhar cuja força consiste em inspirar os espectadores (inclua-se o educador) a arrancar a câmera das mãos dos cineastas, apontá-la para si mesmos e, agora, dotados de um novo olhar, ver o que antes parecia-lhes invisível. (Idem, p.152)



A relação entre cinema, história e educação

Foi a partir da década de 70, com o movimento iniciado pela Escola dos Anais, que o filme passou a ser considerado como um possível documento para a investigação histórica. Independentemente do gênero, o filme passou a ser visto como testemunho da sociedade que o produziu, como expressão de ideologias, costumes e mentalidades coletivas.

A relação entre história e cinema começou a ser formulada com os estudos de Marc Ferro, os quais visavam dar informações e elementos metodológicos para a utilização de filmes para a análise das sociedades. Para o autor, o filme não pode ser visto somente como obra de arte e sim, como produto histórico cujos significados não são apenas os cinematográficos. Um filme não vale somente por “aquilo que testemunha, mas também pela abordagem sócio-histórica que autoriza.” (1992, p.87)

A importância do cinema, segundo Walter Benjamin, não é dada apenas pela maneira como o homem se apresenta diante do aparelho, mas também pelo modo como ele representa para si o mundo que o circunda graças a esse aparelho. (1975, p.28) Por ser meio de representar e dar sentido ao mundo, a produção cinematográfica é meio de registro do conhecimento historicamente produzido e acumulado pela sociedade industrial. A importância do cinema para a pesquisa história em educação está nos sinais históricos captados e registrados em imagens que se constituem em testemunhas visuais da história. O que significa dizer que os filmes possibilitam, a partir da reconstituição feita do contexto e dos fatos tratados, apreender práticas concepções e processos educativos, valores, ideologias, mentalidades coletivas que permeiam e subsidiam práticas educativas.

Na análise de suas imagens prenhes de historicidade, o educador pode realizar sua investigação, apreendendo a educação como uma prática social constituída e instituída em uma determinada sociedade. Pode responder indagações sobre práticas e processos educativos, ou seja, como expõe Zaia Brandão (1998, p.100), refletir sobre o processo de direção e formação social dos grupos mais jovens, nos mais variados espaços e tempos sociais, que têm como parâmetro uma forma de agir coletiva objetivando desenvolver, nas crianças e jovens, habilidades, conhecimentos, formas de conduta, que facilitam o entrosamento com os membros da coletividade.

O cinema é fonte privilegiada que coloca à disposição do educador registros e conhecimentos criando condições para que ele trabalhe com um conceito de educação mais amplo, para além do que se denomina educação escolar. O que implica, segundo Zeila Demartini (1998, p.70), ampliar o estudo histórico da educação tendo como referência não apenas as experiências e propostas escolares formais mas, também, apreender as diferentes estratégias e processos de socialização (e as instituições envolvidas) desenvolvidos pelos grupos sociais para incorporar suas crianças e adolescentes ao seu modo de vida. Assim, o educador pode investigar experiências variadas que se constituíram em contextos educativos informais ou que mantiveram escolas não reconhecidas oficialmente. Uma abordagem que permite, também, captar diferenciações sociais existentes na complexa realidade social presente nos vários momentos históricos, admitindo a possibilidade de práticas e problemas educacionais terem sido vivenciados de modos distintos pelos grupos sociais.

Ao expressarem e deixarem registrado para a posteridade sinais históricos captados em imagens em movimento, os filmes, enquanto documentos audio-imagéticos, possibilitam, a partir da reconstrução feita de gestos, vestuários, vocabulário, arquitetura, apreender concepções e processos educativos, costumes, valores, ideologias, mentalidades coletivas da época tratada. Assim sendo, o cinema abre perspectivas para o pesquisador apreender como e por que os homens se educam, fornecendo, portanto, subsídios para a reconstrução histórica do objeto educação.

Conclusão

Ao estabelecer a relação entre cinema, história e educação, o educador pode realizar a investigação do seu objeto de estudo que lhe permite o entendimento das questões sociais, políticas e econômicas que originam e fundamentam as diversas práticas educativas que, necessariamente, assim como os filmes, são sempre datadas.

A análise fílmica, que se processa na mediação estabelecida entre o olhar que produz a imagem e a do educador que a interpreta, permite estabelecer uma analogia com o objeto educação, tratando-a, também, como mediação, referência por meio da qual as relações na sociedade e na cultura são constituídas por instâncias educativas instituídas em muitos espaços e processos educativos (incluindo a escola). Em outras palavras, a importância do cinema advém do fato de ele ser um dos meios que permitem aos sujeitos sociais expressarem, registrarem e conhecerem melhor a sua realidade e a de outras épocas do passado.

Em suas imagens estão os sinais históricos que instrumentalizam a apreensão da educação como parte do processo de transformação social, pois não há como esta se produzir de modo autônomo da história que os homens fazem como resultado de suas lutas. Por ser tecnologia e meio de produção, transmissão, reprodução e registro de imagens, portanto, de conhecimentos que expressam o movimento e a velocidade das relações humanas constituídas e instituídas na prática social, o cinema é fonte de fundamental importância para o ensino e a pesquisa histórica em educação.


REFERÊNCIAS


BRANDÃO, Zaia. A historiografia da educação na encruzilhada. In: SAVIANI, Dermeval; LOMBARDI, José Claudinei; SANFELICE, José Luis (Orgs.). História e história da educação: o debate teórico-metodológico atual. Campinas: Autores Associados; HISTEDBR, 1998.

DEMARTINI, Zeila. Algumas reflexões sobre a pesquisa histórico-sociológica tendo como objeto a educação da população brasileira. In: SAVIANI, Dermeval; LOMBARDI, José Claudinei; SANFELICE, José Luis (Orgs.). História e história da educação: o debate teórico-metodológico atual. Campinas: Autores Associados; HISTEDBR, 1998.

FERRO, Marc. Cinema e história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

NOMA, Amélia. Visualidades da vida urbana: Metropolis e Blade Runner. 1998.200f. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1998.

NUNES, Clarice. Guia preliminar de fontes para a história da educação brasileira: reconstituição de uma experiência. Em Aberto, Brasília, p.7-31,1990.

SOUSA, José Vieira. Educação no Brasil Colônia, Império e 1ª República: os textos literários como fonte alternativa de pesquisa. In: FARIA FILHO, Luciano Mendes (Org.) Pesquisa em história da educação: perspectivas de análise, objetos e fontes. Belo Horizonte: HG Edições, 1999. p.181-199.



BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era sua reprodutividade técnica. In: ____. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993. (Obras ecolhidas, v.1.)


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