Imagens da redescoberta: perspectivas educativas em torno de um monumento quinhentista



Baixar 29.57 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho29.57 Kb.
IMAGENS DA REDESCOBERTA: PERSPECTIVAS EDUCATIVAS EM TORNO DE UM MONUMENTO QUINHENTISTA.

Por Silvio Cordeiro

MAE USP - Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo
...cada lugar está sempre mudando

de significação, graças ao movimento social:

a cada instante as frações da sociedade que lhe cabem

não são as mesmas.

Milton Santos


Breve histórico
Velhas paredes de pedra e cal, muros de contenção e alicerces... Passados quatro séculos, pouco restou do conjunto arquitetônico quinhentista situado na cidade de Santos, Ilha de São Vicente no litoral do Estado de São Paulo.

Vista aérea do conjunto arquitetônico

remanescente do Engenho dos Erasmos.
Consideradas como remanescentes de uma das primeiras manufaturas de açúcar implantadas no Novo Mundo, as ruínas do Engenho São Jorge dos Erasmos estão entre as mais antigas construções coloniais brasileiras, contemporâneas do início do povoamento meridional europeu do território indígena, pelo capitão-mor Martim Afonso de Souza, que veio fundar em 1532 a Vila de São Vicente, primeira vila oficial do Brasil.
Martim Afonso, governador-donatário da Capitania de São Vicente, responsável pela sua colonização, incentivara a produção do açúcar, trazendo da Ilha da Madeira as primeiras mudas de cana e os mestres técnicos de produção.
Assim, o estabelecimento de engenhos em S. Vicente foi, como haveria de ser, muito incentivado pela crescente demanda e lucro que alcançara o açúcar, estratégia promissora que cobriria boa parte dos custos de implantação do projeto colonial, baseado na exploração dos extensos latifúndios lavrados pelas mãos dos indígenas e negros, a seu pesar, escravizados e produzindo para os mercados europeus.

Nos termos da colonização, a implantação de engenhos de açúcar alinhava a posse territorial ao comércio lucrativo do produto na Europa.


O próprio Martim Afonso fundara sua empresa produtora, junto a outros sócios, entre eles, seu irmão Pero Lopes de Souza, assim como o flamengo Johan Van Hielst, representante em Lisboa da casa mercantil dos Schetz, de Antuérpia: o chamado Engenho São Jorge, também conhecido como Engenho do Governador.
Pouco tempo depois, após a ida de Martim Afonso de Souza para as Índias, tal empresa é adquirida, em torno de 1540, pelo banqueiro e mercador flamengo Erasmus Schetz.

Antecedentes do projeto
Quatro séculos depois, as ruínas ainda oferecem generoso campo de estudo.
Sua história1 – de situação exemplar, tanto no quadro das estratégias do início da ocupação efetiva e exploração econômica deste território, quanto da própria formação da sociedade brasileira – permanece ainda pouco conhecida, o que vem possibilitando o amadurecimento da proposta educativa em meu projeto de mestrado no MAE USP - Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, intitulado A Paisagem Histórica do Engenho dos Erasmos: Perspectivas Educativas em torno do Monumento Quinhentista, sob orientação da Profª. Drª. Elaine Farias Veloso Hirata.
Nascido de minha trajetória, este projeto responde a duas motivações fundamentais:


  • Enquanto arquiteto e urbanista, o meu envolvimento nas discussões e estudos relativos as paisagens históricas e ao patrimônio cultural do Brasil provocaram o interesse em compreender a abordagem arqueológica na interpretação das expressões materiais da cultura.




  • Já a minha experiência acumulada em anos de trabalho com a linguagem videográfica, enquanto documentarista e educador, permitiu-me elaborar modos de inserção do vídeo em ações educativas.

E entre tais ações – base e alicerce de meu projeto de mestrado – releva-se uma Oficina de Vídeo, realizada em 2001, no Engenho dos Erasmos. Foram 10 meses de atividades junto a um grupo de jovens alunos e professores da escola pública2 vizinha do monumento. Desenvolvida na perspectiva de atuação do grupo de estudos audiovisuais OLHAR PERIFÉRICO3, esta Oficina de Vídeo foi inserida no contexto do módulo educativo Arqueologia, Patrimônio e Ação Educativa4.


O resultado desta experiência foi iniciar um novo processo de aproximação da comunidade com as ruínas quinhentistas do velho Engenho. Por muitos anos, aos ventos do abandono, o conjunto arquitetônico remanescente quase desapareceu, situação esta que levou a Universidade de São Paulo a cercar a área tombada.

Mas na mesma medida em que os muros levantados buscaram proteger, também não mais permitiram o contato da comunidade com o bem cultural ameaçado.


O desejo na elaboração da Oficina de Vídeo era evidenciar as contradições, resgatar parte de uma história já esquecida, provocando as pessoas que vivem no entorno do sítio histórico. Usando o vídeo como instrumental, o trabalho fluiu através de diversas atividades que estimularam as pessoas a perceberem e reconhecerem, com outros olhos, o conjunto de vestígios arqueológicos na paisagem histórica do lugar onde vivem.


Jovens alunos da Oficina de Vídeo entram pela primeira vez no sítio arqueológico do Engenho dos Erasmos.


Alunas em debate sobre o conceito de patrimônio histórico durante as atividades da Oficina de Vídeo.



O grupo durante os trabalhos de percepção da paisagem histórica do sítio arqueológico do Engenho.




Como uma (re)descoberta, estas pessoas assumiram uma nova postura diante do sítio considerado patrimônio histórico do Brasil, vendo-o como um testemunho vivo de uma história que se faz contínua e não mais presa ao passado. Assim, a Oficina de Vídeo no Engenho dos Erasmos teve por objetivo:
(...) promover a redescoberta das ruínas através da educação do olhar, permitindo que se ultrapasse o tom contemplativo e o reconhecimento do monumento apenas enquanto vestígio de um passado remoto; indo além, busca-se através da oficina com esses jovens o despertar de um olhar curioso e crítico, que desvende as narrativas por trás do objeto arquitetônico, possibilitando uma amplitude de compreensões e questionamentos acerca da história do lugar onde moram. (2001. CORDEIRO et COSTA).
A experiência resultou na montagem do videodocumentário Engenho dos Erasmos: Imagens da Redescoberta, como parte do conjunto didático desenvolvido para a escola pública vizinha do monumento, no contexto do referido módulo educativo.
O usufruto desta obra em atividades de ensino vem confirmando a importância da narrativa em vídeo e da exploração e experimentação dos recursos audiovisuais, enquanto instrumental didático e de estímulo ao debate. A partir de então, novos rumos se anunciavam pela continuidade da proposta de inserção deste instrumental no trabalho arqueológico desenvolvido no sítio histórico.

Entre abril e maio de 2003, durante as prospecções e escavações no Engenho, o vídeo fora incorporado como suporte às informações coletadas em campo, ao lado dos habituais tipos de registros, como a fotografia e o desenho (croquis).


Entretanto, distinguindo-se destes pela possibilidade de gerar uma documentação de outra qualidade, baseada em imagens e sons gravados de todo o processo de trabalho.


Registro da escavação no sítio arqueológico histórico do Engenho dos Erasmos.



Arqueólogo evidencia crânio no antigo cemitério descoberto no Engenho.



A datação obtida das amostras coletadas para análise em laboratório situam os achados em fins do século XVI.



Em outras palavras, o vídeo possibilita o registro de ações, bem como de opiniões dos envolvidos, formando um conjunto documental do processo, fonte de informações que podem ser editadas enquanto videodocumentário, além da possibilidade de edição do material como conteúdo em diversas mídias, de acordo com as intenções de trabalho das informações disponíveis.
Neste contexto, a gravação das escavações que revelaram o antigo cemitério do Engenho forneceu o material para a montagem do videodocumentário Arqueologia dos Erasmos.
Na perspectiva educativa em curso, o vídeo estenderia ainda mais suas funções.
No âmbito da própria pesquisa sobre a história do Engenho, os recursos audiovisuais se revelaram como instrumental investigativo, de busca e produção do conhecimento.
Nesse sentido, o vídeo fora utilizado em minha viagem à região flamenga da Bélgica, junto ao cineasta Andre Costa, em junho de 2003, com recursos do Fundo de Cultura e Extensão Universitária da USP, sob orientação do consultor convidado do projeto, o historiador belga Prof. Dr. Eddy Stols (Katholieke Universiteit Leuven).
O objetivo da viagem foi coletar informações sobre a história do proprietário flamengo do Engenho quinhentista – Erasmus Schetz – bem como do comércio do açúcar brasileiro nos mercados de Flandres, nos séculos XVI e XVII.

Assim, entre os diversos registros em vídeo, situa-se o interessante relato do Conde Baudoin D´Ursel – descendente dos Schetz, representando a 14ª geração – que, na ocasião, gentilmente forneceu imagens de seus ancestrais mercadores, sobretudo do próprio Erasmus, ainda inédita.




Silvio Cordeiro e André Costa (com a câmera) na gravação dos manuscritos flamengos sobre o Engenho dos Erasmos.



O Prof. Dr. Eddy Stols durante as gravações na Bélgica.


O Conde Baudoin D´Ursel com um dos manuscritos abrigados nos Archives Générales du Royaume, Bruxelas.



Oficina de Vídeo: perspectivas educativas junto a comunidade
As gravações belgas vêm contribuindo para o estudo histórico do Engenho na medida em que o situa no movimento maior da economia colonial do açúcar, envolvendo Brasil, Europa e África. Todo o material gravado até o presente forma um acervo que será disponibilizado para a nova Oficina de Vídeo aberta à comunidade do entorno do sítio arqueológico do Engenho, no contexto deste projeto de mestrado.
No momento da composição de narrativas a partir das diversas informações levantadas no processo investigativo da pesquisa, o vídeo – suporte destas mesmas informações – completa a sua função como ferramenta, tanto na construção, quanto na difusão do conhecimento.
Portanto, a nova etapa neste rumo busca amadurecer e ampliar a experiência audiovisual entre a comunidade que abriga, em seu lugar de morada, as ruínas do velho Engenho dos Erasmos.
A proposta é chegar a um possível método de uso da linguagem videográfica em ações educativas no contexto de trabalhos arqueológicos em campo, visando a participação da comunidade do entorno dos sítios arqueológicos de modo a propiciar as bases para a contribuição comunitária à preservação e conservação sustentável destes mesmos sítios.
Assim, o projeto caminha através de uma nova maneira de difundir o conhecimento gerado no âmbito da academia, tornando-o mais público e motivando as pessoas a participarem da construção deste conhecimento.


Bibliografia
CORDEIRO, Silvio et COSTA, Andre.

2001 Engenho São Jorge dos Erasmos - Imagens da Redescoberta. In Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. São Paulo-SP.


Videografia
CORDEIRO, Silvio.

2003 Arqueologia dos Erasmos. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo / OLHAR PERIFÉRICO: Grupo de Estudos Audiovisuais. Duração: 15 minutos. Formato: MiniDV / NTSC.


CORDEIRO, Silvio et COSTA, André.

2003 Engenho dos Erasmos: os flamengos na Capitania de S. Vicente. Material bruto preliminar. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo / OLHAR PERIFÉRICO: Grupo de Estudos Audiovisuais. Formato: MiniDV NTSC.



2002 Engenho dos Erasmos: Imagens da Redescoberta. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo / OLHAR PERIFÉRICO: Grupo de Estudos Audiovisuais. Duração: 21 minutos. Formato: MiniDV / NTSC.

NOTAS


  1. Para um contato com diversos aspectos da história do Engenho dos Erasmos ver REVISTA USP nº. 41, 1999.




  1. Escola Estadual Profª. Gracinda Maria Ferreira, Santos-SP.




  1. O OLHAR PERIFÉRICO, se constitui como um grupo de estudos audiovisuais, onde atuo no desenvolvimento e direção de videodocumentários, bem como na elaboração de projetos sociais, culturais e educativos junto as comunidades, com o usufruto participativo do vídeo.




  1. Módulo praticado na referida escola pública e coordenado pela Profª. Drª. Elaine Farias Veloso Hirata (MAE USP), vinculado ao Projeto Engenho São Jorge dos Erasmos: Estudos de Arqueologia da Paisagem (Processo FAPESP 00/03451-3).




©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal