Imensa multidão de homens que surge, finalmente, entram na luz



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ANOEL BOMFIM E A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA EDUCACIONAL

Sonia Cristina Pimentel de Santana**



"imensa multidão de homens que surge, finalmente, entram na luz." Jaurés

Este trabalho faz parte da investigação de dissertação de mestrado do programa de pós- graduação em educação da Universidade Federal de Sergipe, sob orientação da prf¨ Dra. Marta Vieira da Cruz, acrescido pela grande contribuição do grupo de estudos história ,sociedade e educação em Sergipe e do -HISTEDBR.



"Que eu pude apreciar, pela primeira vez, num quadro geral, a instrução pública no Brasil. Foi tão profunda a impressão e pobreza patentes dos nossos recursos escolares, que nunca mais me pude furtar o desejo de observar e estudar o problema da instrução popular entre nós. De então para cá só tenho encontrado motivos para maior desconsolo" (1889).

Parece-me demais fecundo partir desta fala de Manoel Bomfim para pensar na história da psicologia educacional e para compreender o contexto e as razões do direcionamento da sua obra , sua idéias centrais e contribuições é relevante descrever sua biografia, o percurso intelectual e as questões da sociedade e do indivíduo que lhe forneceram o cenário inicial e as questões principais para sua teses. Assim a resumiremos o curso de sua vida e a maneira pela qual deu forma a sua luta.

Manoel Bomfim nasceu a 8 de agosto de 1868 em Aracaju, na então província de Sergipe, falecido em 22 de abril de 1932 no Rio de Janeiro. Fez seus estudos iniciais em Aracaju e aos dezessete anos foi para a cidade de São Salvador onde ingressou na faculdade de medicina, ainda estudante trabalhou no Jornal “O Correio do Povo” de Alcindo Guanabara no Rio de Janeiro local onde concluiu o curso de medicina em 1890 com a tese Das Nephrytes. Médico recém – formado no clima de efervescência política que se seguira à proclamação da República. Foi nomeado em 1891 médico da Secretária de Polícia e em 1892, torna-se tenente cirurgião da brigada policial. Casou, foi para o interior de São Paulo, teve dois filhos, Maria e Aníbal. Assistiu a morte de Maria sem que nada pudesse fazer para salvá-la. Bomfim decidiu retornar ao Rio de Janeiro, abandonando a Medicina e passou a dedicar-se a educação.

Escrever a respeito deste grande autor é reportamos-nos para o “Pedagogium” e a “Escola normal”. Em 1882 surgiu a idéia de se fundar o “Pedagogium”, com o “parecer do projeto de ensino primário”, elaborado pelo então Deputado Rui Barbosa. No ano de 1890, já na República, foi criado o “Pedagogium” pelo Decreto nº 667 de 16/08/1890. Em 1897 José Joaquim Medeiros e Albuquerque (1867/1933) foi nomeado Diretor da Instrução Pública, no Distrito Federal, transformando o “Pedagogium” num um centro de cultura superior aberto ao público, neste mesmo ano Bomfim era membro do Conselho Superior de Instrução Pública e como conselheiro deu um parecer no livro didático de Rocha Pombo, intitulado História da América..

Em 1896 foi nomeado professor de Educação Moral e Cívica da Escola Normal, dois anos depois passou a professor de Pedagogia, e, mais tarde, a cadeira de Psychologia Aplicada à Educação. Em 1901, era preocupado em dominar às técnicas da psicologia experimental, levou–o a Paris, onde estudou com George Dumas. Durante sua permanência em Paris, escreveu sua notável obra intitulada “A América Latina : Males de origem”, para ele os males são curáveis, “é questão de educação”, o autor revela que “armado dessas páginas, voltei ao Brasil, certo de que iria participar de um movimento de regeneração política e social de minha pátria”. E nos anos de 1905 e 1906 foi diretor da Instrução Pública.

Em 1907, consegue se eleger Deputado por Sergipe para um fim de Legislatura, na ocasião apresenta ementa ao projeto do Presidente Afonso Pena, apresentada pelo Ministro da Justiça e Negócios Interiores o Dr. Tavares de Lyra, porém o projeto como disse Bomfim foi “sepultado em qualquer comissão”.

Sustenta várias teses em suas obras como por exemplo a rejeição das teses racistas, segundo as quais a inferioridade do país se deveria a fatores raciais, contesta e centra sua explicação no conceito de parasitismo social. Bomfim é um pensador original tanto da interpretação da história do Brasil bem como de pedagogia e da psicologia, como diz Darcy Ribeiro que Bomfim “viveu ignorado como pensador, e sobretudo, como ele era, o grande intérprete do processo de formação do povo brasileiro”. Percebeu o caráter reacionário e anti-científico do chamado “darwinismo social” e desmascara , afirmando que é desonesto confundir as “alternativas históricas de um povo” com a suposta “inferioridade definitiva das raças”. Bomfim, desenvolve uma trilogia após 23 anos de sua grande obra, com os seguintes títulos: “O Brasil na América. Caracterização da Formação Brasileira” .Livraria Francisco Alves, Rio, 1929; “O Brasil na História. Deturpações das tradições: Degradação Política”, Livraria Francisco Alves, Rio, 1930 e “Brasil Nação: Realidade da Soberania Brasileira”, Livraria Francisco Alves, Rio, 1931.Resumindo o conteúdo dessa trilogia, ainda Publicou “O Brasil”, com nota explicativa de Carlos Maul, editada em São Paulo, pela Companhia Editora Nacional em 1940, livro síntese do seu pensamento social. Segundo Franklin de Oliveira, Bomfim

pensou democraticamente e que praticava a hoje denominada “história combatente”, escolheu para travar as suas lutas o esclarecimento do povo brasileiro sobre o processo de formação nacional, considerando a verdade a mais revolucionária de todas as armas”.

Bomfim acreditava que a educação eqüivale a um terceiro período no processo de desenvolvimento do indivíduo ou seja gestação, aleitamento e educação. O homem teria que garantir tanto a condição de vida do bebê com a alimentação para a formação completa do seu organismo, como dar à criança a educação, que lhe nutre a inteligência e permite a formação de seu espírito para a vida moral. No livro “Lições de Pedagogia”, fornece dados históricos como a separação das disciplinas Psicologia e Pedagogia em 1897 na Escola Normal e saliente

que a educação deveria ser realizada por uma pedagogia que compreende que a missão da escola não é fazer sábios, nem tão somente, implantar no espírito do aluno, uma dose de conhecimentos, mas sim, tomando de uma inteligência qualquer, torná-la apta a aprender. Ela instrui ensinando a estudar. Os conhecimentos que confere são antes um meio que um fim”.

Na área da Psicologia, registramos diversos trabalhos: “O fato psíquico”; “As alucinações auditivas dos perseguidos”; “O respeito a criança”; “Noções de Psicologia” e “Pensar e Dizer: Estudo do símbolo no pensamento e na linguagem.” A que ressaltar nessas suas obras os aspectos sociais inerente às atividades humanas. Fundamentando essa tese, diz: “No homem, a atividade psíquica – a vida do espírito – é uma atividade formalmente socializada. Nem mesmo podemos abstrair o espírito do viver social”. Realizou pesquisas durante 12 anos no laboratório de psicologia experimental no “Pedagogium”, que foi muito freqüentado por um grupo de estudiosos interessados pelas questões de psicologia. No ano de 1909 visitou a França, a Inglaterra e a Alemanha para estudar a organização do ensino profissional, regressando em fins de 1911, conforme Ariosvaldo Figueiredo (1990).

Este pequeno resgate nos permite vislumbrar um homem reflexivo ,com compromisso intelectual e ético, um brasilianista e um professor de professores que dirigindo – se em 1906 a turma de normalistas de que foi eleito paraninfo, proferindo as seguintes palavras diz

São esses os cidadãos que realizam as democracias; são esses os cidadãos que deveis formar para o Brasil” e mais adiante “que quando os homens são privados dos benefícios da educação, só podem torna-se arremedos de cidadãos e com estes só poderiam obter arremedos de democracia”.

Poucos meses antes de morrer Bomfim encontrou forças suficientes para ditar seu último livro, “Cultura e Educação do povo brasileiro” lançado após sua morte pela editora Pongetti, esse livro seria premiado em 1933, pela Academia Brasileira de Letras, recebendo elogio do acadêmico e cientista Roquete Pinto: “trata-se de um notável ensaio de história da educação nacional”. E o autor consolida sua trajetória num processo histórico social e no prefácio registra:

Que o leitor encontrará, na substância destas páginas a justificação da minha intervenção neste pleito, a disputar o prêmio do concurso. E, sobretudo, porque adiei , por tanto tempo , a minha candidatura.

Por que me apresento agora ? Uma longa e deprimente enfermidade já me traz desconfiança de min mesmo, ao aproveitar as poucas forças que me restam. Além destes dois motivos mais imperiosos ainda : a oportunidade e vislumbre de possibilidade .

A hora é de crise extensa na vida política. Borbulha, como se subverte, mas apesar de tudo há um refazer incessante. Infelizmente , o problema da difusão do ensino não surgiu agora. Todavia é inegável que muito mais facilmente se obterá neste momento que uma qualquer das facções ou dos programas vá busca-lo. Além disso , nos últimos annos amontoarem- se recursos e processos ,fornecidos pela siência , e que bem aplicados, facilitarão enormemente a realização da obra.

A oportunidade aqui deixo às páginas que consubstanciam a minha collaboração.”

Apontado em sua obra a disputa entre conservadores e as tendências liberais, este último que postulava transição para a era do maquinismo ou seja uma nova percepção do potencial da educação na reforma da sociedade que começava ganhar forma.

Bomfim, trabalhou com o método de interpretação crítica, aliás recurso que utilizou ao longo de sua trajetória intelectual, colocando em evidência as torpezas de alguns educadores, resgatando o seu pensamento em prol da formação do cidadão. Tendo ficado ocultado todo um trabalho tecido ao longo da história do Brasil, questionando o ensino livresco, dogmático e artificial e mostrando a contradição da escola que se dizia nova que se utilizava de concepções de muitos pedagogos da educação nova, centrada n o indivíduo, seus interesses , sua espontaneidade, negligenciando os aspectos sociais e políticos da educação no qual se transformou esse movimento. Segundo wallon :

"O erro foi o de querer fundar a existência humana a existência e estrutura da sociedade sobre simples relações psicológicas entre indivíduos e não reconheceu sua realidade própria, nem as infra-estruturas matérias e históricas que dominam a existência dos indivíduos". ( apud Wereb e Nade,1986,p.22)

Lourenço Filho, ícone da psicologia educacional, curva-se às exigências oficiais se submete a perspectiva de neutralidade moral e política para favorecer o desenvolvimento institucional, mas desonroso aos olhos de Anísio Teixeira e outros. Ao longo da nossa pesquisa constatamos que a história da psicologia educacional foi recalcada pela história oficial



* Professora do Departamento de psicologia Universidade Federal de Sergipe. Mestranda em educação na UFS. Membro do grupo de trabalho história, sociedade e educação em Sergipe. e-mail pimentel34@hotmail.com

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