Impacto da concorrência chinesa em terceiros mercados: uma análise por regiões e por categorias tecnológicas



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Impacto da concorrência chinesa em terceiros mercados: uma análise por regiões e por categorias tecnológicas

Débora Bellucci Módolo*

Célio Hiratuka§
Resumo:

A ascensão da China como potência econômica e sua presença crescente nos mercados mundiais têm sido motivo de grande atenção no debate internacional. Em especial, o aumento da competitividade chinesa no comércio internacional e a acentuada expansão de suas exportações de manufaturados levantam preocupações a respeito das exportações chinesas estarem substituindo exportações de outros países. Nesse sentido, este estudo busca, mediante a utilização do modelo gravitacional, verificar se ao longo dos últimos anos, de 2000 a 2009, as exportações chinesas têm deslocado as exportações de outros países em terceiros mercados, dialogando com outros estudos realizados sobre o tema. A contribuição deste trabalho consiste em fornecer uma análise geral da concorrência chinesa em terceiros mercados, contemplando diferentes regiões do globo e diferentes categorias tecnológicas de maneira comparativa. As evidências encontradas apontam que o efeito das exportações chinesas sobre as exportações mundiais é predominantemente negativo. Destaca-se o setor de manufaturados de média tecnologia como o segmento mais afetado pela competição chinesa. Os resultados também indicam que as economias em desenvolvimento experimentam o maior efeito negativo da concorrência chinesa, principalmente os países asiáticos emergentes.


Palavras-chave: China, Exportações Chinesas, Comércio Internacional


Abstract:

The rise of China as an economic power and its growing presence in world markets has received a lot of attention in the international debate. In particular, the rise of Chinese competitiveness in international trade and the dramatic expansion of its manufacturing exports raise concerns about the displacement of countries exports by China. Thus, this study seeks, through the use of gravity model, verify if in the past years, from 2000 to 2009, Chinese exports have displaced exports from other countries in third markets. The contribution of this paper is to provide an overview of Chinese competition in third markets, covering different regions and different technology categories in a comparative way. The evidences in the paper show that the effect of Chinese exports on global exports is mainly negative. At the same time, the manufacturing sector of medium technology is the segment most affected by Chinese competition. The results also indicate that developing economies are experiencing the most negative effect of Chinese competition, especially the emerging Asian countries.


Keywords: Chinese Exports, Chinese Competition, International Trade

Área 6: Economia Internacional

JEL: F10, F13

Introdução

A posição de destaque alcançada pela economia chinesa no cenário econômico mundial dos últimos anos tem sido motivo de grande atenção internacional. Esse resultado, em grande parte, é reflexo de um crescimento do PIB chinês de aproximadamente 10% a.a. nas últimas três décadas, acompanhado de uma rápida integração do país ao comércio internacional. De 1980 para 2009, a participação chinesa no comércio mundial cresceu de 1% para aproximadamente 10%, permitindo que a China se consolidasse em 2009 como a maior exportadora mundial e a segunda maior importadora global1.

Segundo Winters e Yusuf (2007), a expansão econômica chinesa afeta os outros países do globo por uma série de canais, mas a via que atinge mais diretamente e com maior intensidade as outras economias é o comércio internacional. Nessa direção, este estudo se concentra na análise dos impactos da emergência chinesa sob a esfera comercial. Na literatura dos impactos da expansão chinesa no âmbito comercial podem-se identificar quatro tipos principais de impactos2 que, por sua vez, têm influência sobre as trajetórias de crescimento econômico e desenvolvimento nacional de inúmeros países. Daí decorre a importância de avaliá-los, identificando as oportunidades ou ameaças derivadas desse processo.

O primeiro desses impactos diz respeito às oportunidades de exportação dos países para a China, graças à crescente demanda chinesa por commodities primárias, componentes e bens de capital. O segundo efeito refere-se às oportunidades de importações de produtos chineses, com destaque para os manufaturados intensivos em mão de obra e, crescentemente, manufaturados do complexo eletrônico, de informática e de telecomunicações. O terceiro tipo de impacto corresponde à competição das exportações chinesas com exportações de outros países em terceiros mercados, dada a possibilidade de os países de destino substituírem seus fornecedores em favor da China. Por fim, a quarta modalidade engloba os impactos comerciais indiretos, como por exemplo, a expansão dos preços globais de commodities primárias agrícolas, minerais, metálicas e energéticas, e a redução dos preços das manufaturas intensivas em trabalho no mercado mundial.

Este trabalho tem seu foco na análise do terceiro tipo de impacto. A hipótese que se pretende testar é a de que a expansão das exportações de manufaturas chinesas pode provocar o deslocamento das exportações de outros países que se destinariam ao mesmo mercado de destino. Segundo essa hipótese, os países importadores estariam substituindo seus fornecedores em favor de produtos advindos da China. Diferentemente dos outros trabalhos, este estudo procura identificar quais segmentos de produtos, classificados por intensidade tecnológica, têm sido mais afetados pela expansão comercial chinesa em terceiros mercados e também verificar quais regiões do globo têm enfrentado maior ameaça diante dessa concorrência. Neste trabalho, também se pretende avançar em relação à grande parte da literatura que utiliza a análise de indicadores diretos de comércio3 para avaliar a competição chinesa em terceiros mercados. Assim, realiza-se um teste econométrico a partir de uma aplicação do modelo gravitacional, controlando de maneira mais adequada o amplo conjunto de variáveis que afetam o comércio bilateral.

Para tanto, este artigo está dividido em cinco seções, além desta introdução e das considerações finais. Na primeira seção, apresenta-se um panorama da expansão comercial chinesa, na segunda realiza-se uma revisão da literatura sobre a concorrência chinesa em terceiros mercados. A terceira seção detalha a metodologia utilizada neste trabalho, especificando as equações estimadas. Na quarta e quinta seções são apresentados os resultados das estimações do modelo, levando por fim à exposição das conclusões deste trabalho.



1. A expansão comercial chinesa e seus efeitos globais

Esta seção tem por objetivo apresentar o notório desempenho comercial chinês nos últimos anos, apontando para os potenciais efeitos dessa expansão. Enquanto o PIB chinês foi capaz de crescer a uma taxa média de cerca de 10% a.a. de 1980 a 2010, as exportações chinesas partiram de US$ 18 bilhões em 1980 para alcançar US$ 1,6 trilhão em 2010, representando uma expansão média4 de 16% a.a. Como resultado, verifica-se o aumento da parcela das exportações no PIB chinês, finalizando 2010 em 29% do PIB, atingindo o pico de 39% em 2006, em contraste com os 11% de 1980.

A grandeza da expansão comercial chinesa se torna mais evidente quando comparada ao crescimento das exportações mundiais, conforme o Gráfico 1. Observa-se que até 2000, apesar do crescimento acumulado pelas exportações chinesas ter sido superior ao acumulado pelo mundo, a diferença entre eles não era tão grande quanto após 2000. No período de 2000 a 20085, as exportações mundiais pouco mais que dobraram, enquanto as exportações chinesas mais que sextuplicaram. Assim, se nos anos de 1990 o desempenho exportador chinês já se destacava, passa a chamar mais atenção ainda nos anos 2000, por isso a análise do impacto das exportações chinesas sobre as exportações mundiais deste trabalho será realizada a partir de 20006.

Gráfico 1 – Crescimento acumulado das exportações chinesas e mundiais, 1990 a 2010



Fonte: Elaboração própria a partir de dados do UN Comtrade.

Nota: Crescimento acumulado com base nos dados de exportações em dólares correntes.
Além do extraordinário crescimento do volume das exportações chinesas, também é importante destacar mudanças importantes na pauta de exportações. Rodrik (2006) enfatiza como importante determinante do crescimento econômico chinês o fato de a cesta exportadora chinesa ter se conduzido para produtos significativamente mais sofisticados que o esperado para seu nível de renda per capita7. Segundo ele, a cesta exportadora chinesa é compatível com um país de renda per capita três vezes maior.

Para Hanson e Robertson (2008) foi a alta especialização em manufaturas que fez da emergência chinesa no cenário mundial um fenômeno disruptivo. Portanto, dois fenômenos se sobressaem no desempenho comercial chinês: o extraordinário aumento da participação da China no comércio mundial e o forte crescimento da participação chinesa no comércio mundial de manufaturas, destacando-se em especial o os produtos de alta tecnologia. O primeiro fenômeno evidencia-se no crescimento da participação das exportações chinesas no total das exportações mundiais, passando de 0,9% em 1980 para 10,6% em 2010. O segundo fenômeno pode ser observado no Gráfico 2, que mostra a evolução da market share das exportações chinesas em termos de intensidade tecnológica, segundo a classificação proposta por Lall (2000). Essa classificação traduz os dados de comércio (SH a 6 dígitos) em produtos primários e produtos manufaturados com diferentes graus de intensidade e sofisticação tecnológica (manufaturados baseados em recursos naturais e manufaturados de baixa, média e alta tecnologia).

Destaca-se o ganho de importância das exportações chinesas de alta tecnologia no mercado mundial, pois o market share das exportações chinesas desse segmento mais do que quadriplicou de 2000 para 2009. As exportações chinesas de média tecnologia mais do que triplicaram sua participação no comércio mundial e as exportações chinesas de baixa tecnologia dobraram seu market share no período. Vale ressaltar que apesar da maior expansão de market share ter sido experimentada pelas exportações chinesas de alta tecnologia, o market share nos produtos de baixa tecnologia é o maior de todos os segmentos, representando mais de 20% das exportações mundiais no segmento.

Gráfico 2 – Evolução da participação das exportações chinesas no total de exportações mundiais por segmento tecnológico, 2000 a 2009



Fonte: Elaboração própria a partir de dados do UN Comtrade.


Assim, diferentemente do que seria esperado pela teoria das vantagens comparativas, segundo a qual a China se especializaria em produtos intensivos em trabalho (típico de economias de baixa renda), este país tem exportado produtos sofisticados, que são normalmente exportados por economias mais ricas. Contudo, a evolução da pauta comercial a partir dessa classificação, assim como de qualquer outra classificação de intensidade tecnológica de produtos, deve ser analisada com cuidado, uma vez que, no contexto atual, o fato de um país exportar produtos classificados como sendo de alta tecnologia não significa necessariamente que as empresas deste país dominem os princípios tecnológicos e detenham os conhecimentos associados ao desenvolvimento e produção competitiva do produto final.

Como destacado por Hiratuka (2010), os fluxos de comércio internacional passaram nos últimos anos por um profundo processo de mudança em decorrência das estratégias de desverticalização da produção e de fragmentação da cadeia de valor levadas a frente pelas grandes corporações transnacionais. Com esse processo, as cadeias de valor se tornaram muito mais dispersas geograficamente, incorporando diferentes países em diferentes etapas da cadeia, anteriormente realizadas de maneira verticalmente integradas. O próprio início do processo de expansão das exportações de manufaturas chinesas esteve bastante associado às estratégias de terceirização das etapas mais intensivas em mão-de-obra em setores de baixa tecnologia, como têxteis, vestuário e calçados.

Na China, multinacionais do Japão, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan iniciaram o processo de realocação de suas indústrias tradicionais já nos anos 1980, transformando a China em base produtiva das empresas asiáticas (Gaulier, Lemoine e Ünal-Kesenci, 2004). Ao longo dos anos 1990, foram principalmente as grandes empresas americanas que transferiram grande parte de sua atividade produtiva para a Ásia, em especial para a China. Embora inicialmente bastante concentrada em setores tradicionais, a estratégia de desenvolvimento da China, passou por uma busca constante de upgrade, com a incorporação crescente de setores mais intensivos em capital, tecnologia e escala, diversificando rapidamente sua estrutura exportadora em uma ampla gama de indústrias, com destaque para o complexo eletrônico, automotivo e de máquinas e equipamentos em geral. Também vale destacar o importante upgrade que ocorreu dentro das etapas das cadeias de valor dos diferentes setores, buscando incorporar atividades e funções corporativas com maior conteúdo tecnológico, e não apenas as atividades intensivas em mão-de-obra (Hiratuka e Sarti, 2010). Assim, a escala e a velocidade do crescimento industrial chinês ao longo dos anos 2000 passaram a exercer impactos crescentes sobre os fluxos comerciais internacionais, inclusive sobre os preços das matérias primas.

Ao mesmo tempo, Medeiros (2006) destaca o papel da China favorecendo países avançados como Japão e Coreia, na medida em que a economia chinesa se coloca como grande importadora de partes e componentes, e bens de capital provenientes desses países, para usá-los como insumos nos seus processos de produção. Além da China se constituir em importante mercado consumidor para as indústrias japonesa e coreana, grande parte dos investimentos desses países na China destina-se à montagem da rede de produção e comércio intra-asiática. Desse modo, o peso da produção compartilhada intra-asiática contribui para que a estrutura de comércio na China esteja fortemente conectada aos fluxos de investimento estrangeiro direto, também associado à decisão de grandes corporações em consolidar na China uma base manufatureira mundial, em especial de bens eletrônicos de consumo (Medeiros, 2006).

Tal especialização da produção dentro da Ásia levou a um aumento da parcela das importações da China provenientes da região de tal forma que as importações chinesas deixaram de ser feitas majoritariamente a partir dos países centrais, como era na década de 1980, e passaram a se concentrar nos vizinhos asiáticos semi-periféricos (Nogueira, 2008). Ainda assim, o Japão e os NIEs (Newly Industrialized Economies)8 continuam como importantes fornecedores de bens de capital e bens intermediários sofisticados para países menos desenvolvidos da região asiática, tanto para a China como também para os países da ASEAN9 (Gaulier, Lemoine e Ünal-Kesenci, 2004).

Já nas exportações chinesas, as economias em desenvolvimento é que representavam o destino dominante na década de 1980. A partir de 1993, entretanto, a participação dessas economias como destino das exportações chinesas foi superada pela participação dos países desenvolvidos. Essa mudança deveu-se, em grande parte, ao fato de os EUA terem aumentado consideravelmente o volume de importações provenientes da China e, em menor escala, ao fortalecimento do comércio chinês com a União Europeia (Chernavsky e Leão, 2010).

Portanto, a análise dos impactos da concorrência chinesa deve ser analisada, levando em conta essas transformações no comércio mundial, em que a produção compartilhada tornou-se um elemento importante com a China exercendo papel crescentemente destacado nesse processo, com impactos diferenciados sobre diferentes regiões do mundo. A seguir, busca-se realizar uma breve análise dos estudos que procuraram verificar em que medida a expansão comercial chinesa deslocou competidores em terceiros mercados.

2. Breve revisão da literatura sobre os impactos comerciais da expansão chinesa sobre os competidores mundiais

O surpreendente crescimento da economia chinesa e sua presença crescente nos mercados mundiais têm sido motivo de grande atenção no debate internacional. Especialmente com a inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 e a subsequente eliminação das cotas de importação de produtos têxteis e de vestuário10 em 2005, as consequências da expansão chinesa e de sua integração ao comércio internacional passaram a gerar maiores preocupações (Jenkins, 2008a). Assim, ao longo dos anos 2000, têm surgido diversas questões a respeito dos impactos da competição chinesa em terceiros mercados, tanto sobre países desenvolvidos como em desenvolvimento (Jenkins e Peters, 2009).

Nesse sentido, Husted e Nishioka (2010) se preocuparam em investigar quais países desenvolvidos e em desenvolvimento perderam espaço devido à expansão comercial chinesa. Ao aplicarem o método de constant market share11 para dados de exportação de produtos manufaturados (SITC Rev. 3, indústrias de 5 a 8)12 e utilizarem uma amostra de 24 países de 1995 a 2005, os autores encontraram evidências de que os países em desenvolvimento não experimentaram quedas de market share como consequência dos ganhos da China. Países em desenvolvimento, como Malásia e México, especializados na produção de produtos semelhantes aos chineses apresentaram variações de market share no período positivamente relacionadas a mudanças do market share chinês em terceiros mercados, sugerindo que tais países não competem significativamente com a China. Pelo contrário, os resultados de Husted e Nishioka (2010) sugerem que o crescimento do market share da China ocorreu às custas da redução do market share de países avançados como Japão e Estados Unidos.

Outro estudo que se pode citar sobre a concorrência chinesa em terceiros mercados, no âmbito da economia mundial, é o trabalho de Dimaranan, Ianchovichina e Martin (2009). Esses autores, observando que o crescimento da China, ao mesmo tempo em que cria oportunidades para seus parceiros comerciais, também gera forte competição nos mercados internos e externos, buscaram identificar quais países e indústrias enfrentam a competição chinesa de forma mais severa e quais seriam as maiores oportunidades encontradas. Utilizaram uma versão modificada do modelo padrão GTAP13, fazendo simulações para o período de 2005 a 2020. As simulações revelaram que o crescimento da China intensifica a competição nos mercados de manufaturados, especialmente nas indústrias têxtil e de vestuário, e que as indústrias manufatureiras de diversos países são afetadas negativamente pela competição chinesa, principalmente dos países de baixa e média renda do Sul e Sudeste Asiático. Também verificaram que uma expansão da variedade e melhorias na qualidade das exportações chinesas têm potencial para trazer ganhos de bem-estar ao mundo, mas ainda assim países que não se esforçarem para acompanhar o ritmo da China sofrerão erosão do market share de suas exportações e dos setores manufaturados de alta tecnologia. Ao mesmo tempo, como a China tem produzido novas manufaturas mais sofisticadas, abrem-se oportunidades para países se expandirem em indústrias de processamento.

Grande parte dos estudos sobre os impactos da expansão comercial chinesa se concentra na região da Ásia, uma vez que as exportações chinesas tendem a deslocar mais intensamente as exportações dos outros países asiáticos em terceiros mercados (Blázquez-Lidoy, Rodríguez e Santiso, 2006). Ahearne et al. (2003), por exemplo, realizaram um estudo para os seguintes países asiáticos: NIEs (Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan) e ASEAN-4 (Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia). Os autores encontraram uma correlação quase sempre positiva (apesar de poucas vezes significativa estatisticamente) entre o crescimento das exportações chinesas e o crescimento das exportações dos NIEs e ASEAN-4 de 1981 a 2001, sugerindo que há uma relação de complementaridade entre a China e os demais países asiáticos. Por outro lado, ao analisar a evolução do market share das exportações das economias asiáticas e da China para o mercado dos EUA de 1989 a 2002 divididas por tipo de indústria, os autores constataram que a China ganhou market share nos EUA em quase todas as indústrias14, enquanto o market share dos NIEs declinou e o market share do ASEAN-4 experimentou ganhos somente em cerca da metade das indústrias, revelando evidências de competição entre a China e os países asiáticos, especialmente os NIEs.

Eichengreen, Rhee e Tong (2007), também preocupados com a competitividade dos países asiáticos diante da emergência chinesa no mercado mundial, realizaram um estudo para estimar os impactos das exportações chinesas sobre as exportações asiáticas de 1990 a 2002. Os autores derivaram, por meio de modelos gravitacionais, as implicações da expansão chinesa sobre as exportações dos países asiáticos destinadas à China, bem como obtiveram os efeitos do crescimento das exportações chinesas sobre as exportações dos outros países asiáticos com destino a terceiros mercados. A conclusão de Eichengreen, Rhee e Tong (2007) foi de que o crescimento econômico da China teve impacto positivo para as exportações de países de alta renda como Japão, Cingapura e Coreia do Sul que são exportadores relevantes de bens de capital. Para países com renda média, como Malásia e Filipinas, que exportam grande variedade de produtos, o efeito da expansão chinesa foi pouco conclusivo. Já para países asiáticos de baixa renda, como Bangladesh, Sri Lanka, Paquistão e Vietnã, cujas exportações são principalmente baseadas em bens de consumo intensivos em mão de obra, o impacto comercial da expansão econômica chinesa foi negativo e mais intenso. Portanto, os autores constataram que as exportações chinesas apresentam tendência de competir com exportações de bens de consumo dos outros países asiáticos.

Além dos estudos que investigaram as implicações do poderio industrial-exportador recentemente alcançado pela China sobre os países asiáticos, há pesquisas que abrangem outras localidades do globo, como a África (Broadman, 2007), a Europa (Martin, Ianchovichina e Dimaranan, 2008), a Rússia (Ianchovichina, Ivanic e Martin, 2009), o México (Gallagher, Moreno-Brid e Porzecanski, 2008), entre outros países e continentes. Nesse sentido, Ianchovichina e Martin (2006) apontam que a concorrência chinesa em terceiros mercados é importante não apenas para os países do Sul e Sudeste Asiático, como também para a América Latina, podendo haver perdas relevantes para esses países.

No caso da América Latina, grande parte do debate sobre essas questões tem encontrado evidências de que a China representa uma ameaça às exportações latino-americanas, ainda que para alguns essa ameaça seja mais restrita, atingindo poucos países e/ou poucos setores, e para outros seja mais intensa e abrangente. Jenkins (2008a) consegue apontar um único estudo, o de Lederman, Olarreaga e Soloaga (2007), que conclui que não houve evidências de substituição das exportações da América Latina pelas exportações da China em terceiros mercados, em contraste com todos os estudos no tema que constataram pelo menos algum impacto negativo da expansão chinesa sobre as exportações latino-americanas para terceiros mercados.

Entre os trabalhos que consideraram a ameaça chinesa à América Latina mais restrita, podem-se citar: Freund e Özden (2009), Lederman, Olarreaga e Perry (2006) e Devlin, Estevadeordal e Rodríguez-Clare (2006). Freund e Özden (2009) e Lederman, Olarreaga e Perry (2006) mostraram que as exportações de poucos países latino-americanos foram afetadas negativamente pela competição chinesa em terceiros mercados: as exportações mexicanas e em menor extensão de alguns países da América Central. Segundo Freund e Özden (2009), esses impactos negativos se restringiram apenas a alguns setores de manufaturados: das 97 indústrias (HS2)15, apenas 16 indústrias experimentaram declínio estatisticamente significativo das exportações latino-americanas para terceiros mercados, concomitante à expansão das exportações chinesas. Para Devlin, Estevadeordal e Rodríguez-Clare (2006), o impacto também é mais concentrado na América Central e no México, apesar de reconhecerem que a competição entre China e América Latina tem se intensificado. Segundo eles, o México e os países da América Central e Caribe com estruturas de exportação especializadas em bens manufaturados leves são os mais afetados pelo impacto negativo da competição com exportações chinesas, especialmente no mercado dos EUA.

Por outro lado, trabalhos como de Lall e Weiss (2007), Moreira (2007) e Jenkins (2008a) mostram que os impactos negativos das exportações chinesas sobre as exportações dos países latino-americanos foram mais abrangentes em termos de setores e/ou países afetados. Lall e Weiss (2007) classificaram o comportamento do market share da América Latina em comparação ao da China em dois tipos de ameaça: o que denominaram de ameaça direta representando a situação em que a China experimenta ganhos de market share enquanto o país em análise apresenta queda de market share, e a chamada ameaça parcial quando tanto a China como o país analisado ganham market share, mas o ganho da China é maior. A partir daí, os autores concluíram que os países mais afetados de maneira geral (considerando ameaça direta e parcial) foram Costa Rica, El Salvador e Chile. Nos dois primeiros países, a parcela de exportações sob ameaça chinesa do total exportado para o mundo representava mais de 70% em 2002, e no Chile cerca de 60%. Ao se considerar apenas a ameaça direta, os países mais afetados foram Bolívia, Chile, Brasil, Colômbia e Uruguai em ordem decrescente, todos com mais de 20% de suas exportações para o mundo sob ameaça chinesa em 200216.

Para Moreira (2007), apesar de os países da América Central e México estarem mais expostos à competição chinesa em terceiros mercados por conta da similaridade das pautas exportadoras, os países da América do Sul foram os países da América Latina que experimentaram maiores perdas diante da competição chinesa de manufaturados no mercado mundial de 1990 a 2004. Esse resultado foi obtido por meio da metodologia de constant market share. A justificativa que o autor encontra para explicar porque os países da América Central e México acabaram sendo menos afetados pela competição chinesa foi de que utilizaram acordos preferenciais e proteção ao comércio. Outro aspecto tratado por Moreira (2007) refere-se à contestação da visão de que a competição chinesa está confinada a uma gama restrita de manufaturados. Apesar de as maiores perdas de market share da América Latina para a China terem sido em bens de baixa tecnologia e intensivos em trabalho, todos os níveis de intensidade tecnológica dos manufaturados sofreram perdas, desde bens de alta tecnologia até os baseados em recursos naturais.

Jenkins (2008a), por sua vez, utiliza uma extensão do modelo de constant market share para mensurar a ameaça competitiva da China para a América Latina. Dos 18 países analisados, todos sofreram perdas de market share de suas exportações para os EUA por conta da competição chinesa no período de 1996 a 2006, exceto Nicarágua e Peru O autor conclui que a maior parte da América Latina perdeu market share significativamente para a China no período de 1996 a 2006, sobretudo após 2001, evidenciando uma tendência de aumento da competição em terceiros mercados. Além disso, os autores, ao calcularem as perdas de market share nas exportações somente de manufaturados, concluíram que os impactos negativos são mais severos do que para o total das exportações, como seria esperado.

Constata-se, portanto, que a concorrência chinesa em terceiros mercados aparece como um aspecto importante na literatura, porém suas evidências são, em geral, bastante segmentadas por região geográfica, e muitas vezes conflitantes. Assim, neste trabalho busca-se uma análise geral do impacto da competição chinesa em terceiros mercados, que contemple as diferentes regiões geográficas de maneira comparativa, buscando ao mesmo tempo, diferenciar os impactos por categorias tecnológicas.

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