Imperialistas, fascistas, nazistas, racistas, reacionários, fundamentalistas, egoístas eles dominam o mundo?



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Encontro06.08.2016
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Imperialistas, fascistas, nazistas, racistas, reacionários, fundamentalistas, egoístas.... eles dominam o mundo?

Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer


Lendo os jornais e vendo a televisão  diariamente, a quantidade de más noticias é realmente surpreendente.  Parece que só  quem tem vez neste mundo são  os canalhas: imperialistas, fascistas, nazistas ,racistas, reacionárias, fundamentalistas, enfim, egoístas de todo tipo.  Tanto é o poder que tem e tanta sua capacidade de anular as boas iniciativas e os trabalhos positivos que se tem realmente a impressão  que tais pessoas ou grupos de pessoas dominam o mundo e  fazem desaparecer ou invisibilizam as pessoas de bem que desejam fazer algo de bom que realmente ajude a humanidade. Neste ano de 2005 o mundo  celebra o centenário de nascimento de um grande filosofo e escritor francês: Jean Paul Sartre.  Nascido no começo do século XX, Sartre marcou o pensamento francês e igualmente o do mundo inteiro com suas idéias, criando mesmo uma escola de filosofia, o existencialismo, que teve grande influencia nas novas gerações  do momento em que surgiu e muito especialmente esteve presente nos grandes eventos que abalaram a França e introduziram a humanidade em uma revolução cultural, em maio de 1968.

Sartre foi um intelectual de esquerda, agnóstico, que sempre viveu de acordo com seus princípios, ou melhor com sua ausência de princípios.  Proclamava a liberdade total de comportamento e recusava violentamente escalas de valores propostas pelas instituições , muito especialmente pela Igreja Católica, muito forte em seu pais.

Além de ensaios filosóficos, Sartre escreveu romances e peças de teatro.  Por essas talvez ficara mais na historia do pensamento ocidental do que por qualquer outra coisa que tenha produzido.  Sua produção  teatral, sobretudo, é instigante e tem peças que até hoje são  encenadas com grande sucesso.  Uma dessas e certamente o celebre " Huis Clos", que em português recebeu a tradução  de " A portas fechadas".

Vale a pena recordar a história.  Três pessoas, um homem e duas mulheres, depois de mortas vão  para o inferno.  Um era um Don Juan que acabou provocando a morte de uma de suas jovens amantes.  A mulher mais jovem é uma infanticida que matou o próprio bebê.  A mulher mais velha é uma adúltera contumaz que acabou assassinando o marido para ficar com seu dinheiro.  Os três estão  face a face, a portas fechadas e tendo que encarar-se um ao outro por toda a eternidade.

O gênio de Sartre leva o decorrer da trama em tensão  crescente até que o personagem central, o ex Don Juan , Garcin, grita, antes que o pano caia: " Então era isso!  Durante séculos nos enganaram com esse embuste.  Chamas, demônios, tridentes, enxofre, tudo mentira!  O inferno são  os outros! " Até hoje, os espectadores silenciam perplexos diante da audácia niilista do pensador e teatrólogo de colocar como anti-utopia justamente aquilo que a civilização  ocidental e cristã proclamou como o destinatário privilegiado do amor e do respeito: o semelhante, o outro ser humano , o irmão , aquele que partilha comigo a condição  humana e de quem o próprio Deus tomou a mesma carne no mistério de Jesus de Nazaré, filho de Deus e Verbo Encarnado.

Há mais de dois mil anos essa boa nova de que a salvação  nos vem através do outro procura abrir caminho entre nós e ganhar espaço e cidadania neste violento mundo.  Até hoje há homens e mulheres que deram e ainda dão  e estão  dispostos a dar sempre mais a vida pelo outro, para que ele tenha mais vida e vida em plenitude.  E até hoje há outros homens e mulheres que parecem se empenhar em massacrar o outro, aviltá-lo cada vez mais. Preocupantemente, chegamos a um ponto no qual parece que esta ultima categoria de pessoas domina o mundo.  E nos vemos diante da pergunta: teria razão Sartre?  Os canalhas, os egoístas de toda espécie dominam realmente o mundo?

No ano do centenário de Sartre, temos realmente a agradecer-lhe o fato de nos ter agudizado a consciência e alertado para o ponto aonde podemos cegar se nos esquecemos da ética e do amor.  Mas esperamos não ter que dar-lhe razão  quando afirma que o inferno são os outros.  Pelo contrário, queremos crer que, embora tenham mais visibilidade na mídia, sempre em busca de sensacionalismos muitas vezes baratos, esses opressores de toda espécie não  dominam  o mundo.



Nos subterrâneos da história, anonimamente muitas vezes, discretamente sempre, o bem continua a pulsar através de muitos e muitas que continuam acreditando na condição  humana e enobrecendo-a com sua vida e seu agir.  Graças a eles e a elas, podemos desmentir Sartre, afirmando que o inferno não são os outros.  O inferno, pelo contrário, e o EU enlouquecido que na busca desenfreada de auto-afirmar-se se torna opressor, fundamentalista, imperialista.  Dar a primazia ao outro em lugar do ego e o caminho para que Sartre não  tenha razão .


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