Início de Século



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Início de Século

Instituto de Engenharia nasce junto com os principais engenhos e teorias humanos



Da esquerda para direita, Francisco Pereira Macambira, Antonio Francisco de Paula Souza, João Pedro da Veiga Miranda e Rodolpho Baptista de S. Thiago, membros da diretoria provisória do Instituto de Engenharia, eleita no dia 13 de outubro de 1916, no Anfiteatro de Química da Escola Politécnica. Paula Souza havia criado a Poli em 1893.

Aquela foi uma década em que o mundo assistiu o sepultamento brutal da era da inocência vitoriana. Os anos 1910 a 1919 foram palco da violência até então sem precedentes da Primeira Guerra Mundial, com seu cortejo de bombardeios arrasadores e a macabra introdução de armas químicas – primeiro os gases clorídrico e lacrimejante e depois os letais de mostarda e fosgênio – que acrescentaram um fator novo e diabólico à consagrada arte de matança em massa.

Mas também foi o decênio que viu nascer a nova era da produção industrial em massa quando Henry Ford organizou em Highland Park, Michigan, Estados Unidos, sua primeira linha de montagem começando a fabricar o automóvel Modelo T.

Nesse período, em que teve início o denominado mundo moderno, mais precisamente em 1917, era fundado, em São Paulo, o Instituto de Engenharia, visceralmente ligado à Escola Politécnica de São Paulo, inaugurada 23 anos antes.

Num desses momentos da história pródigos em gestar acontecimentos, os primeiros anos do século já haviam visto surgir o automóvel, o telefone, o avião, o submarino e o cinema. E por trás do engenho e arte das máquinas e teorias estava um tipo especial de participação humana, a dos engenheiros das mais diversas especializações.

Se o cenário externo era de impasse, após uma virada de século eufórica, com a consolidação do motor de combustão interna, do dínamo, da eletricidade em lugar do carvão e do aproveitamento do aço, no Brasil festejava-se o "boom" das obras públicas, vinculado a uma efervescente dança industrializante, originado dos investimentos carreados pelos célebres "barões" do café.

Ao mesmo tempo o grande pœblico começava a ser beneficiado com o acesso fácil a jornais e livros, possibilitado com o aparecimento das máquinas rotativas e do linotipo. Dessa forma, os leitores da época puderam tomar conhecimento das então recentes descobertas de que existiam diferentes tipos de sangue humano e de que era possível desvendar os mistérios do coração por intermédio do recém-inventado eletrocardiograma.

Poderiam saber, também, das geniais formulações da teoria quântica de Max Planck que revolucionaram a física e forneceram as bases para Einstein explicar o efeito fotoelétrico e Bohr anunciar sua teoria atômica; e mergulhar nas profundezas do inconsciente por meio das idéias de Sigmund Freud, cuja teoria psicanalítica permaneceria presente nos meios de comunicacão ao longo de todo o século.




Os engenheiros

A construção de Salvador coloca a engenharia na História do Brasil

Nesses tempos trepidantes, em que começava a circular em São Paulo o primeiro bonde elétrico (1900), mas Paris já estreava seu metrô – uma das primeiras grandes inovações que a arquitetura e a engenharia introduziram no conceito de transporte urbano – os engenheiros especializados passavam a representar um papel cada vez mais importante no palco dos acontecimentos.


No Brasil, o reconhecimento de sua importância remonta ao país colônia. Em documento concebido em 1949, a pedido da Federação Brasileira de Engenharia, Francisco Saturnino de Brito Filho registra que "a primeira manifestação construtiva dos colonizadores, realizada em maior escala, foi a fundação da cidade de Salvador (Bahia), com o fito de se tornar sede do governo". O objetivo era poder contar com uma fortaleza para "dar ajuda e socorro às demais povoações da costa". As plantas e desenhos da futura construção foram feitos em Portugal.


Planta da cidade de São Paulo em 1890,onde se observa a reduzida mancha urbana.

O "hábil construtor" desse quartel-cidade foi Luiz Dias, conforme registro de Teodoro Sampaio em estudo realizado, em 1923, sobre a engenharia na Bahia nos seus 100 anos de independência. No entender de Sampaio, "Dias foi o primeiro construtor nesta terra", auxiliado por Miguel Martins, "para o fabrico de cal", e Diogo Peres, como pedreiro. Prossegue Sampaio em seu estudo: "Com esses haviam chegado oficiais e aprendizes que, na organização corporativa de cunho medieval ainda predominante, tinham diversas graduações, misteres e mercês, havendo sido recrutados no Reino, nas Canárias, na Galiza e em outras ilhas".

As obras no Brasil-colônia surgiam muito mais como fruto de dificuldades a serem superadas do que da imaginação genial de projetistas. Com o Rio de Janeiro também foi assim. A fundação da cidade, entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, deu-se quando das incursões colonialistas francesas, em 1567, o governador local mudou o eixo da cidade para o morro do Castelo, onde está hoje o aeroporto Santos Dumont.

A defesa da cidade estava então garantida, mas surgiu o complicador de falta de água. Construiu-se, então, entre 1659 e 1675, um aqueduto nas encostas do morro de Santa Teresa. Segundo documento de Brito Filho, no entanto, isso não foi o suficiente: "Proveio a execução do aqueduto na bela arcaria dupla de 18 metros de altura e 300 de extensão, terminada em 1750".



Mudando o perfil

O desenvolvimento econômico profissionaliza a engenharia

Em 1888, ano da abolição da escravatura, foram fundadas duas usinas, em Minas Gerais, com dois altos fornos, capazes de produzir 12 toneladas por dia. Pesquisa do engenheiro Brito Filho revela: "a Companhia de Forjas e Estaleiros, que se tornara possuidora desses altos fornos e de outros em Monlevade, faliu. A produção regular de ferro-guza só começaa depois que, triunfando sobre obstáculos de toda espécie, o engenheiro J. J. Queiroz Júnior assume a direção da Usina Esperança e lhe dá orientação verdadeiramente industrial. Queiroz Júnior tornou-se assim o pioneiro no Brasil da moderna metalurgia de ferro regularmente estabelecida".




Vista da fachada da Escola Politécnica de São Paulo. A Poli teve como seu diretor, durante 25 anos, o engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza. Em 1916, Paula Souza presidiu a reunião em que foi eleita a primeira diretoria (provisória) do Instituto de Engenharia.


Na segunda metade do século 19, com o crescimento da cultura cafeeira e a construção da ferrovia Santos-Jundiaí, Santos passou a abrigar o principal porto do País, construído por José Pinto de Oliveira, que em 1888 venceu a concorrência das obras, organizando a Empresa Melhoramentos do Porto de Santos. Em 1892 a empresa foi transformada em Cia. Docas de Santos. A foto, de 1903, de uma visão parcial da faixa do cais do porto de Santos.

Foi por essa época que começou a mudar o perfil dos engenheiros. Até então, na classificação de Brito Filho, esses homens eram conhecidos como engenheiros "enciclopedistas", pela caracter’stica de aliarem conhecimento específico com cultura teórica universalista.

O ex-presidente do Instituto, Alfredo Mário Savelli, lembra que "o desenvolvimento das lavouras cafeeiras propiciou a formação de poupanças que foram aplicadas, de forma impetuosa, num incipiente mas envolvente parque industrial, bem como no setor imobiliário, em escalada, o que reclamou a presença de um corpo de técnicos que, em campos diversos, pudessem prosseguir a tarefa desenvolvimentista, na qual, até então, se empenhava reduzido número de elementos nacionais, em marcante porcentagem formados em escolas do exterior, colaborando com grande maioria de estrangeiros.


Conexão Poli-Instituto de Engenharia

A engenharia ramifica-se em especialidades

Em pouco tempo, a atividade que era chamada genericamente de engenharia civil se ramifica em especialidades: civil, mecânica, eletricista, de minas, metalúrgica, química, entre outras. Isso ocorre, segundo registros de Brito Filho, por força do grande desenvolvimento das obras e a consequente subdivisão de tarefas a executar. A engenharia civil, por sua vez, sofre desdobramentos em especializações – ferroviária, rodoviária, portuária, sanitária, urbanística, estrutural, etc..




O ano de 1929 foi marcante para o Instituto de Engenharia, que criou sua divisão de Engenharia Sanitária, quando a construção da represa Billings já havia começado. A foto foi tirada em 25 de janeiro daquele ano e mostra aspecto das obras da Barragem do Rio das Pedras, parte integrante do complexo da Billings, que só viria a ser inaugurado em 1949.

O mesmo professor que havia criado a Politécnica, em 1893, Antonio Francisco de Paula Souza, preside, em 13 de outubro de 1916, a reunião na qual, no Anfiteatro de Química dessa escola, se elegeu a diretoria provisória do Instituto de Engenharia. Nesse encontro ficou decidido que em 15 de fevereiro do ano seguinte seria realizada a Assembléia Geral de instalação da nova entidade. O estatuto aprovado definia as aspirções: "Estreitar as relações de boa camaradagem, a cooperção profissional e a defesa de interesses de classe e do bem público em geral".

Em 1917, foi eleito como primeiro presidente da entidade Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Logo em seguida, Washington Luiz Pereira de Souza, então presidente do Estado de São Paulo, recomenda que o IE constitua uma comissão para estudar o novo código de obras da Capital. Os resultados do trabalho foram excelentes, o que levou vários prefeitos a aproveitá-lo nos seus municípios.

O ex-presidente do Instituto de Engenharia, Alfredo Savelli, recorda que tal fato ocorre num momento em que São Paulo passava a representar um grande pólo indutor de ações: "Esboçava-se, no princípio do século, sobretudo em São Paulo, reação ao predom’nio do bacharelismo que, com indubitáveis méritos, impusera à Nação a preponderância do jurídico sobre o econômico". Segundo Savelli, na confluência desses interesses estavam as raízes e a "razão histórica" da fundação do Instituto de Engenharia.

Todo esse processo se dá num ambiente de mutação. No seu primeiro editorial, a Revista do Brasil, fundada em 1916 por Júlio Mesquita, como um ponto de encontro da intelectualidade brasileira para pensar o Brasil, acusava as elites nacionais de subserviência aos valores estrangeiros. Aquilo que para muitos era o máximo de sofisticação – a comida, a moda e até o falar uma língua estrangeira em casa – foi criticado como falta de amor próprio nacional.

Em 1917, o Brasil é sacudido por uma onda de mobilizações operárias. Em vários Estados, o movimento adquire o caráter de greve geral. Em São Paulo, depois de várias paralisaçnoes parciais, em junho é deflagrada uma greve geral contra os baixos salários e as péssimas condições de trabalho, com jornadas de até 16 horas. A pintora Anita Malfatti, em 1918, provocava grande polêmica em São Paulo, expondo 50 de seus quadros mais recentes e preparando o terreno para a Semana de Arte Moderna de 1922.



Nova Estética

O País e a construção sofrem influências culturais

Os movimentos estéticos da década de 20 influenciaram largamente a nova geração de profissionais brasileiros. Nos Estados Unidos, os cinemas grandiosos e espalhafatosos, capazes de acomodar milhares


de fãs, representavam não só a atração pelos filmes, mas também o espírito heterogôneo que era a marca da nova cultura e massas.

O Brasil não queria ficar atrás: em 1920 era inaugurada no Rio de Janeiro a praça Cinelândia. Localizada próximo ao Teatro Municipal, no centro da cidade, a construção da Cinelândia contou com o apoio de empresários como Vivaldi, Ademar Leite Ribeiro e Francisco Serrador, dono da "Companhia Cinematográphica". A companhia financiou a construção de cinemas, teatros, confeitarias, cafés e restaurantes, que se tornariam ponto de encontro de atores, escritores, intelectuais e políticos.

Em 1921, o Rio de Janeiro muda de cara. Preparando o cenário para a Exposição do Centenário da Independência, o prefeito Carlos Sampaio decide remodelar a cidade. Entre outras decisões, manda derrubar a Igreja de Santa Luzia, do século XVI, e o morro onde Mem de Sá erguera um Castelo no século XVIII. O prefeito decide abrir lotes nesses locais para vendê-los às companhias imobiliárias; depois inicia o saneamento da lagoa Rodrigo de Freitas e o alargamento da avenida Niemeyer.

A ruptura que os modernistas reclamavam com relação aos padrões de arte então vigente também incluía a arquitetura e atividades correlatas. A respeito disso, escreveu o historiador Arno Meyer:


"A arquitetura era o espelho cultural mais exemplar. Ao lado da estatuária pública e do espaço urbano, refletia e enaltecia, ao mesmo tempo, a ordem cultural e social estabelecida, ligada à terra e aos títulos de nobreza. A julgar pelo estilo da arquitetura oficial do século XIX e início do XX, o período foi de um rígido historicismo. Embora o capitalismo pós-mercantil continuasse a avançar aos poucos e com dificuldade, nunca encontrou ou inspirou uma linguagem arquitetônica própria. Como nas outras artes, exceto a literatura, as revoluções industriais compactas não conseguiram incitar novas visões, s’mbolos e cânones. Em particular, nas cidades maiores, até mesmo nas de rápido crescimento econômico, os edif’cios pœblicos continuavam a assumir uma variedade de estilos, puros ou ecléticos".



Nas primeiras décadas do século XX a superprodução de café no Brasil superava em muito sua demanda, o que motivou uma política de valorização artificial do produto, que a longo prazo teria efeitos desastrosos para a economia do País. Em 1931, Getúlio Vargas manda queimar ou jogar no mar mais de 18 milhões de sacas. O café vai cedendo lugar às máquinas e aos equipamentos da industrialização.


Regulamentação

A década de 20 assistiu à arrancada dos engenheiros

Em agosto de 1942 Getúlio Vargas também declara guerra às nações do Eixo, depois de cinco navios brasileiros terem sido torpedeados por submarinos alemães no litoral do País, entrando na Segunda Guerra, o que ocasionou o racionamento do combustível. Uma das alternativas surgidas foi o carro movido a gasogênio.




A foto, batida em 1942, mostra Lauro de Barros Siciliano com seu Ford movido a gasogênio, na Via Anhanguera.

Boa parte dos primeiros anos do Instituto de Engenharia foi ocupada com a luta pela regulamentação da profissão. Em 1921, Alcântara Machado apresentou projeto que englobava a atividade de engenheiros, arquitetos e agrimensores. O projeto foi sancionado pelo presidente de São Paulo, Carlos de Campos, em 1923, quando dirigia o Instituto de Engenharia o engenheiro Alexandre Albuquerque. Nacionalmente, a regulamentação só veio dez anos depois.

Marco da nova geração de profissionais, em 1923 era inaugurado, no Rio, o Copacabana Palace, hotel com área de 10 mil metros quadrados. Construído pela família Guinle a pedido do presidente Epitácio Pessoa para receber o rei Alberto, da Bélgica, o Copa foi a primeira grande construção entre a areia e o mar. Seu luxo – cada apartamento tinha cerca de 400 metros quadrados – projetaria o bairro de Copacabana, criando as avenidas Atlântica e Copacabana.

A década de 20 assistiu também à arrancada dos engenheiros, que passaram a se comunicar de forma muito mais estreita com amplos setores da sociedade. O IE, além de cuidar de seus interesses profissionais, instituía, em 1925, a Sociedade Auxiliadora dos Engenheiros, para captar recursos financeiros e construir sua sede própria. Realizou, também, a Exposição Ferroviária Brasileira, em conjunto com a Cia. de Estradas de Ferro do Estado, comemorando os 100 anos de invenção da locomotiva a vapor.

A ânimo geral da época era de entusiasmo, no Brasil, apesar da guerra. Em 1923, o governo britânico firma acordo com o governo brasileiro para investir 110 milhões de libras esterlinas. Em 1924 é inaugurada a primeira fábrica de cimento, a Companhia Brasileira de Cimento Portland. Na capital paulista, em 1925, o conde Giuseppe Martinelli mandava construir o primeiro arranha-céu da América Latina, o edifício Martinelli, que teria, depois de pronto, 30 andares, 105,5 metros de altura, 13 elevadores e 461.123 metros quadrados de área construída.

Também em 1925, quando era presidente do Instituto de Engenharia Francisco Salles Vicente de Azevedo, subsidiárias das grandes empresas estrangeiras anunciavam planos de expansão. No cenário político, Washington Luiz troca o governo de São Paulo pela presidência da República. Um dos seus assessores iniciava silenciosamente sua carreira política: Getúlio Dornelles Vargas. Por todo o País a população crescia vertiginosamente. O Brasil atingia 33 milhões de habitantes em 1925, contra pouco mais de dez milhões em 1872.



Treze engenheiros mortos

A sede do Instituto de Engenharia transforma-se em pólo de resistência ao golpe



Na foto, tirada em 1955, aparecem importantes colaboradores do Instituto. Em pé (esq./dir.): Adriano Marchini, José Amadei, Antonio Carlos Cardoso, João Soares do Amaral Netto, Carlos Engel, Frederico Abranches Brotero, Norberto de Arruda Camargo, Luiz Carlos Berrini e Eduardo de Souza Queiroz. Sentados, (esq./dir.) vários ex-presidentes: Francisco de Salles Vicente de Azevedo, Francisco E. da Fonseca Telles, Annibal Mendes Gonçalves, o então presidente Plínio de Queiroz, Heitor Portugal, Argemiro Couto de Barros, Amador Cintra do Prado e Henrique Pegado.

No biênio 1927-1928, na gestão do presidente Alberto de Oliveira Coutinho, a entidade se concentra prioritariamente na emissão de pareceres sobre serviços e obras, tais como a crise dos transportes, o serviço de águas da capital e o congestionamento dos portos de Santos e de São Sebastião. A intenção, para esses anos e os próximos, era manter os engenheiros afastados de qualquer atividade político-partidária.

Mas isso durou pouco. Getúlio Vargas, então presidente do Rio Grande do Sul, marchava, em outubro de 1930, em direção aos Estados mais ao Norte, à frente de batalhões militares, para tomar à força a Presidência da República, conquistada nas urnas por Júlio Prestes, com total apoio da elite cafeicultora paulista. Estourava a Revolução de 1930 que levaria Getúlio ao poder, que ele exerceria como ditador nos 15 anos seguintes.

Os engenheiros de São Paulo se reuniram e transformaram a sede do Instituto de Engenharia num pólo de resistência ao golpe. Dessas fileiras profissionais saíram os integrantes das delegacias técnicas municipais – órgão auxiliar da Revolução Constitucionalista, deflagrada em 1932. Nos conflitos, treze engenheiros foram mortos e sete feridos.

Vitória do ditador Getúlio Vargas e grave crise financeira instaurada em São Paulo, ao final da disputa. Em 1933, Roberto Simonsen assume a presidência do Instituto de Engenharia e abre os canais da entidade em relação à indústria. Mais tarde, em 1942, Simonsen viria a ser o presidente da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que havia sido constituída em 1931, como expansão do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo.

Conquistas dos engenheiros na administração Simonsen: organização do código paulista para as construções em concreto armado; elaboração da regulamentação das caldeiras e de outros recipientes de pressão; traçado de normas e especificações para construção e conservação de estradas; estudo para a fabricação do extrato de café.

Na década de 30, o IE ajudou também na criação de entidades aglutinadoras de profissionais da área. Nasceram o Sistema Confea-Crea, o Sindicato da Construção Civil e o Sindicato dos Engenheiros.

 
Em tempo de guerra



Engenharia entra em época de novos desafio



No dia 18 de outubro de 1950, às 21 horas, entre no ar o primeiro programa da primeira emissora de TV da América Latina, a TV Tupi, comandada por Assis Chateaubriand. Ele enviou técnicos de rádio aos Estados Unidos para aprender a trabalhar com o equipamento. A RCA Victor forneceu a estação e 300 televisores, que Chateaubriand mandou espalhar estrategicamente pela cidade.

Na Europa, o intermezzo da paz durou até 1937, quando os nazistas de Hitler, com sua ultramoderna Legião Condor, bombardearam Guernica, na Espanha, a pedido do líder nacionalista espanhol Francisco Franco. O bombardeio de Guernica foi o mais selvagem e incessante ataque da história da guerra aérea e indignou o mundo. O pintor malaguenho Pablo Picasso produziu um mural emocionalmente devastador em memória das vítimas do bombardeio. Dois anos depois de Guernica, Hitler manda tropas à Polônia e tem início a Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, Getúlio implanta o Estado Novo. Mesmo com a política interna tropeçando em dificuldades e a Europa em guerra, a sociedade evoluía. Para os países afastados do "front", a ordem era racionalizar recursos e substituir importações.

No Instituto de Engenharia, a vida continuava. Em 1941, o presidente era Annibal Mendes Gonçalves. Nesse ano, foi criada a Comissão Nacional de Combustíveis e Lubrificantes e os Estados Unidos aprovavam empréstimo de US$ 20 milhões ao Brasil para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ).

O Brasil já tinha 130 mil carros em circulação, 30 mil dos quais em São Paulo. Com visão aguçada, Annibal coordena a Consultoria Técnica do Instituto e cria o prêmio "Eusébio de Queiroz Matoso" para o melhor projeto urbanístico. Os engenheiros Lauro de Barros Siciliano, Andres Stark e Melchiades Pereira da Silva são laureados pela realização de um trabalho sobre o aproveitamento do álcool e do gasogênio como combustível nos motores.

Em 1942 as tropas brasileiras estavam prontas para entrar na guerra, ao mesmo tempo em que começava a circular em São Paulo uma frota de caminhões movida a gasogênio. Os japoneses, sem prévio aviso, haviam realizado, em dezembro de 1941, um devastador bombardeio à base naval norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, empurrando os Estados Unidos para a guerra.


O fato trouxe reflexos econômicos e sociais negativos para o Brasil. Mas, em contrapartida, ocorreu a aceleração de seu processo de industrialização. Nos anos seguintes, em paralelo à implantação de complexos industriais de bens de capital e de consumo duráveis, surgiu a instalação da indústria petroquímica, a modernização do sistema financeiro e uma grande modernização de formas de consumo.
Esse processo iniciaria também as bases para uma longa cultura inflacionária, que só seria interrompida muito tempo depois, a partir de 1994, com o Plano Real, no governo Itamar Franco. A partir da década de 40 seria cada vez maior a influência norte-americana no País.

Os engenheiros, arquitetos e profissionais afins iam vencendo seus desafios como podiam, nos anos 40. Logo no início da década, por exemplo, era inaugurado, em São Paulo, o túnel Nove de Julho. Construído na avenida Nove de Julho, sob a avenida Paulista, o túnel, com 460 metros de extensão e decoração externa arte decô, seria uma das 12 mil obras realizadas em São Paulo em 1940.

Passaram pela presidência do Instituto de Engenharia, na década de 40, Cícero da Costa Vidigal (que faleceu dois meses depois de eleito), Heitor Portugal, Argemiro Couto de Barros, sob cujo comando começou a funcionar o Departamento Cultural do Instituto, e Álvaro de Souza Lima, promotor do I Congresso de Trânsito de São Paulo.

Conexão Poli-Instituto de Engenharia

A engenharia ramifica-se em especialidades



No ano de 1955, o então governador de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez, ao lado de Amador Cintra do Prado, durante a inauguração do Palácio Mauá, cuja construção foi realizada em parceria com a Fiesp.

Na década de 50, do pós-guerra, o mundo conheceria o maior "boom" econômico da história. No Brasil, Getúlio Vargas estava de novo no poder, desta vez eleito e prometendo lutar contra o imperialismo norte-americano e defender o petróleo nacional. Ao mesmo tempo, entrava no ar, em 1950, a primeira emissora de TV da América Latina, a PRF3, TV Tupi, canal 3.

No Instituto de Engenharia, primeiro presidente da década foi Amador Cintra do Prado e foi na sua gestão que o Instituto transferiu-se provisoriamente para o Palácio Mauá. Na gestão seguinte, de Henrique Pegado (1953/1954), a entidade passa a empreender uma série de pesquisas sobre a escassez de energia elétrica que começava a afetar a cidade de São Paulo.

Além disso uma equipe de engenheiros colabora com a Comissão de Comemorações do IV Centenário da cidade, festejado no dia 25 de janeiro de 1954. Esse período teve, também, seus sobressaltos. Getúlio Vargas, que décadas antes chegara ao poder dando um golpe de estado, desta vez apeou dele de forma igualmente violenta, cometendo suicídio. Havia perdido sua batalha da política interna, ainda que tivesse se valido da Segunda Guerra para firmar a opção pela indústria no Brasil.

Um ano depois, em 1955, o governador paulista, Lucas Nogueira Garcez, inaugurava oficialmente a sede do Instituto de Engenharia no Palácio Mauá. O então presidente da entidade, Plínio de Queiroz, fez alterações importantes no Regimento Interno, tornando-o mais aberto à participação dos profissionais do setor.

Preocupado com os problemas nacionais, o Instituto de Engenharia encaminha ao presidente eleito, Juscelino Kubitschek, uma análise sobre o transporte de minério para a Cosipa, empresa cuja idéia de criação surgiu no Instituto a partir de uma visita que 106 engenheiros ligados à entidade haviam feito à Companhia Siderúrgica Nacional, em abril de 1951. Queiroz decidiu enfrentar o desafio e lançar em São Paulo uma siderúrgica do mesmo porte. Ele coordenou uma sociedade que unia engenheiros a diversos setores para captar recursos que viessem a viabilizar o início do projeto. O primeiro presidente da Cosipa, fundada a 23 de novembro de 1953, foi justamente ele: Plínio de Queiroz.




Anos risonhos

Mas Instituto de Engenharia compra briga contra domínio estrangeiro



O presidente Juscelino Kubitschek inaugura Brasília, em abril de 1960, declarando que o Brasil democratizado alcançaria "o progresso de 50 anos em cinco". O urbanista Lúcio Costa, nascido na França e discípulo de Le Corbusier, planejou a cidade na forma de um avião, em que os edifícios públicos, a maioria projetada por um dos maiores arquitetos brasileiros, Oscar Niemeyer, formavam a fuselagem, e os complexos residenciais, as asas.

Entre 1955 e 1961, a produção industrial brasileira cresceu 80 por cento, com grande ênfase nas indústrias de bens de capital, automobilística e de eletrodomésticos. Tempos risonhos. O ano de 1956 é particularmente importante: forma-se a Comissão de Energia Nuclear e o Instituto de Energia Atômica. Além disso, acontece I Semana de Debates sobre Energia Elétrica, promovida pelo Instituto de Engenharia. Tinha início o Programa Nuclear Brasileiro.Em 1957, João Soares do Amaral Netto assume a Presidência da entidade e diversifica as atividades da instituição, seja estimulando a Politécnica a aumentar o número de vagas, seja prestando subsídios à criação do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico da Fiesp.

O poderio das empresas estrangeiras no Brasil, no entanto, aumenta. Começam os preparativos para a construção da Barragem de Três Marias e somente empresas estrangeiras participam do processo. O Instituto de Engenharia lança um manifesto à Nação: é contra a atitude discriminatória, forçando o governo federal a abrir o caminho que levaria à formação de consórcios que unissem as nacionais e as estrangeiras.

Em 1959, Augusto Lindenberg assume o comando do Instituto, dando continuidade à tônica administrativa de seu antecessor. Nesse ano é inaugurado o curso de Engenharia Mecânica do Instituto Mackenzie. Nessa mesma época o arquiteto alemão Friedrich Schultz-Wenk ergue a Volkswagen em São Paulo. Arquitetos e engenheiros trabalham a todo vapor, ajudando a construir os primeiros supermercados edificados do País.

A construção de Brasília foi o grande símbolo do governo Kubitschek, marcando seu espírito arrojado e entusiástico. O projeto, viabilizado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e pelo urbanista Lúcio Costa, mobilizou brasileiros de diferentes classes sociais, que viam na construção da nova capital no interior uma forma de levar o progresso à região. O escritor francês André Malraux chamou Brasília de "A Capital da Esperança".

O Brasil reclamava o direito de ser tratado como potência emergente, exibindo com orgulho a produção de petróleo, que chegava a 30 milhões de barris por ano, em 1960.



Jânio, Jango, ditadura

Época de grandes problemas e grandes empreendimentos

Os entusiastas imaginavam que a década de 60 seria "a década". Mas não estavam atentos, ainda, para o crescimento da inflação a partir de 1959. Esse fenômeno, aliado ao avanço célebre da dívida externa e ao desequilíbrio da balança de pagamentos, comprometeria as bases do Plano de Metas de Kubitschek e abalaria a estabilidade política e social do País.

Jânio Quadros, eleito em 1960 com 48 por cento dos votos, é empossado no dia 31 de janeiro de 1961. Herda de seu antecessor um país em processo de concentração de renda e crescimento inflacionário e segue a política de austeridade do FMI. Só agüenta as pressões das "forças ocultas" até o dia 25 de agosto do mesmo ano, quando renuncia de forma nebulosa.
Seu vice, João Goulart, estava na China e as Forças Armadas e a UDN queriam impedir sua posse. O governador gaúcho, Leonel Brizola, encabeça o movimento legalista que garantiria sua posse no dia 7 de setembro. Enquanto Goulart aproximava-se dos setores de esquerda e apoiava as chamadas reformas de base – urbana, agrária e educacional, Carlos Lacerda, governador da Guanabara, e Adhemar de Barros, de São Paulo, organizavam em 19 de março de 1964, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, manifestação contra o governo que reuniu mais de 500 mil pessoas.
Os ânimos foram se acirrando. Brizola chamava generais de "golpistas e gorilas". Deu no que deu. Golpe militar em 31 de março e longos anos de ditadura.


Carlos Lacerda, Castelo Branco e o general Ernesto Geisel: com a posse de Castelo Branco, a pretexto de proteger o Brasil do comunismo, tem início um período de fortalecimento do Poder Executivo, que produziria bons e maus efeitos.

Nessa época, por exemplo, foram construídos enormes centros de pesquisa, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, estatal que se tornou fundamental para os engenheiros agrônomos, tanto pelos mais de 20 confortáveis centros construídos, como pela possibilidade de gerir projetos avançados, como o da reprodução vegetal por intermédio da biotecnologia.

Em contrapartida, a sociedade civil foi manietada e assistiu, impotente, a escalada da dívida externa brasileira. Mas também se produziram reações isoladas. José Roberto Bernasconi, então vice-presidente do Instituto de Engenharia, contaria uma história particularmente simbólica, 19 anos mais tarde:

"Numa madrugada de abril de 1965, cinco engenheiros resolveram aceitar o desafio de projetar e produzir o primeiro avião de transportes brasileiro, que mais tarde se transformou no Bandeirante, marco real da engenharia aeronáutica nacional, e hoje considerado um novo DC-3 da aviação internacional para uso regional. Desse desafio acabou nascendo a Embraer".




Em 1966 foi iniciada a construção do primeiro shopping center em São Paulo, o Iguatemi. Nesse mesmo ano, o então presidente do Instituto de Engenharia, Hélio Martins de Oliveira, enviou ao então prefeito Faria Lima, documento protestando contra as exigências apresentadas para a construção do metrô, vedada às empresas nacionais a não ser em sistema consorciado. Sucederam-se na presidência do Instituto de Engenharia, na década de 60, Henry Maksoud e Eduardo Celestino Rodrigues.


O "milagre econômico"

O florescimento das estatais, com declínio do setor privado

O ano de 1970 marca o início do período do chamado "milagre econômico brasileiro". Empréstimos e investimentos estrangeiros alavancam o processo de desenvolvimento.


Novos empregos e inflação baixa trazem euforia à classe média e ao empresariado. Ao mesmo tempo, vive-se o auge da repressão, com censura à imprensa e violência contra a oposição.

É o momento da linha-dura no poder, que tem no presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, seu grande representante. Em seu governo, a inflação anual ficou abaixo dos 20 por cento e o crescimento do PIB em 1970 foi de 10,4 por cento, chegando a 14 por cento em 1974.




Na década de 70 foi realizado o I Encontro Nacional da Construção - Enco, presidido pelo então presidente do Instituto de Engenharia, Jan Arpad Mihalik. Nesse período, as empresas estatais cresceram significativamente, o que nunca foi um bom sinal. A indústria começava a experimentar certo declínio e muitas empreiteiras começavam a fechar as portas. Na foto, dirigentes do Instituto de Engenharia discutem a organização do evento.

Quando deixou a presidência do Instituto de Engenharia, em 1970, o engenheiro Celestino Rodrigues tinha como troféu o fato de ter entrado em contato com o Ministério das Relações Exteriores para pleitear o espaço necessário à engenharia brasileira no planejamento da Bacia do Prata. Depois disso, o Instituto criou um grupo de trabalho para estudar a regulamentação da indústria da construção.


Depois de Celestino, estiveram à frente do Instituto de Engenharia, Flávio de Sá Bierrenbach, Jan Arpad Mihalik (presidente do I Encontro Nacional de Construção - Enco), Bernardino Pimentel Mendes e Luiz Alfredo Falcão Bauer, fechando a década de 70. Nestes tempos, as estatais cresciam como cogumelos e a indústria privada declinava lentamente. Empreiteiras começam a encerrar atividades. Para refrescar a memória:entre 1960 a 1980, foram abertas 477 empresas estatais.

Proálcool

Crise energética e a luta pela democracia

Em 1975, quando Bernardino Pimentel Mendes assumiu a presidência do Instituto de Engenharia, o governo acabava de lançar um programa energético para enfrentar a crise mundial do petróleo. Tratava-se do Proálcool e o objetivo era o desenvolvimento de tecnologia para a fabricação de álcool anidro para ser misturado a gasolina e do álcool hidratado como combustível alternativo.

Como o assunto já havia sido estudado pelo Instituto muitas décadas antes, a entidade reabriu os debates técnicos na Divisão de Tecnologia Nacional e fez chegar suas conclusões à Presidência da República. O álcool começou a ser produzido em escala internacional, mas assim que o Oriente Médio afrouxou suas posições, os preços do barril do petróleo caíram de preço e produzir álcool deixou de ser fator estratégico.

O engenheiro Lauro Rios chegou à presidência do Instituto de Engenharia em 1981. Sua convicção era de que o Brasil precisava projetar com acuidade e executar com energia um trabalho que o tirasse da condição de dependência tecnológica em que estava enroscado.

Era um ano de recordes na área energética. No mês de agosto desse ano, a produção de petróleo brasileiro chegava a uma média diária de 230 mil barris. Nesse mês, a Petrobrás também avançou fortemente em termos de perfuração de poços, com a marca de 96.784 metros cavados. Um claro exemplo brasileiro de tecnologia avançada.

Antes mesmo que o grito de guerra "Diretas-Já" fosse dado nas ruas, em 1984, pensar novos rumos para a sociedade brasileira tornou-se algo cada vez mais amplo no Instituto de Engenharia. Sucedendo Lauro Rios, assumiram Plínio Assmann (1983/1984) e José Roberto Bernasconi (1985-1989).

Assmann reuniu os candidatos à presidência da República no projeto denominado "Brasil em Debate". Tancredo Neves foi o último presidente eleito pelo voto indireto, mas ficou doente e morreu, em abril de 1985, antes de tomar posse. Em seu lugar, assumiu o vice, José Sarney.

Ainda na gestão de Assmann, o Instituto de Engenharia discutiu de forma ampla o Plano Habitacional do Município de São Paulo. Mário Covas, então prefeito da cidade, compareceu ao Instituto para apresentar seu projeto. O déficit habitacional do município, à época, era de um milhão de moradias.




Constituinte

Instituto de Engenharia concentra forças no plano institucional


O jubileu de ouro do Instituto de Engenharia foi comemorado na gestão de Henry Maksoud. Na mesa de honra, ao lado do presidente da entidade, aparecem Firmino Rocha de Freitas, Hélio Martins de Oliveira e Maria Aparecida San Thiago, entre outros.

Na gestão de José Roberto Bernasconi, o PMDB consegue vitória estrondosa elegendo, por via direta, 22 governadores e 53 por cento dos deputados federais. Além disso discutia-se uma nova Constituição por meio da Assembléia Constituinte. O Instituto tornava pública a divisa: "Precisamos engenheirar este País".

Mais que um bordão destinado a ampliar o mercado de trabalho, essa era a filosofia a ser seguida pela entidade, cujos dirigentes consideravam vital uma constituinte exclusiva. O Instituto de Engenharia abre um ciclo de debates que levou aos profissionais da área o pensamento das mais diversas correntes políticas, econômicas e filosóficas. Além disso, a entidade propõe alterações para o I Plano Nacional de Reforma Agrária.

Com tantos embates políticos como pano de fundo, a instituição, porém, não deixou de lado as preocupações técnicas. No dia 20 de janeiro de 1985 foi inaugurado o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, o que levou um grupo de oito engenheiros a publicar artigos sobre sua validade, na revista Engenharia.

Em 1988 seria lançado o Projeto Memória, pelo Instituto de Engenharia, com a finalidade de registrar os depoimentos de eminentes profissionais que tivessem contribuído de forma efetiva para o desenvolvimento da engenharia ou participado de seus momentos mais significativos.


Eleições livres

O Instituto amplia seu papel social

"Eu quero votar para presidente" foi a frase mais ouvida entre os brasileiros em 1984. O motivo: o Congresso votaria no dia 25 de abril desse ano a emenda que restabelecia as eleições diretas para a Presidência da República, suprimidas pela ditadura militar desde 1964, com a deposição do presidente João Goulart.




A campanha "Diretas-Já" provocou grandes comícios em todo o País, como o da foto, na Praça da Sé, em São Paulo.

Em 1989, a Democracia brasileira entrou em festa. Pela primeira vez, desde 1960, seriam realizadas eleições livres para presidente da República – canceladas durante a ditadura militar. Os comícios levaram milhares de pessoas às ruas. Nas urnas, o escolhido foi Fernando Collor de Mello.

Nesse ano, o engenheiro Maçahico Tisaka estava no início de sua primeira gestão no Instituto de Engenharia. Em seu discurso de posse, ele destacava a importância do movimento pela melhoria da produtividade, encampado, depois, pelo governo federal. Sob o comando de Tisaka o Instituto abriu-se para a integração com as mais representativas instituições da sociedade civil, como CNI, Fiesp, Associação Comercial/SP, Ordem dos Advogados, Centrais de Trabalhadores, entre outras.

O Instituto lutava para ampliar a abrangência da discussão – além da defesa da profissão de engenheiro – para os grandes temas nacionais. Ainda em seu discurso de posse, dizia Tisaka: "Falta engenharia na nossa economia". O Instituto de Engenharia passou a se engajar com mais garra na defesa da busca de produtividade. A partir de 1989 o tema ganhou mais espaço e diretrizes. De suas formulações participou o engenheiro aeronáutico Ozires Silva, um daqueles engenheiros que, em 1965, havia participado do projeto do avião Bandeirante.

Com a posse de Fernando Collor, também Ozires foi levado a Brasília, como ministro da Infra-Estrutura. Sua proposta era a mesma que já externara em palestras feitas em várias entidades de classe: "O Brasil tem regulamentação demais, isso é querer fazer as cachoeiras correrem para cima. Os órgãos que cuidam de regulamentações devem ser extintos". Além disso, o novo ministro defendia um amplo programa de privatizações incluindo a Previdência Social, o Banco do Brasil, as siderúrgicas e outras estatais. O Instituto de Engenharia se debruçou diariamente na análise do assunto.

A então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, no entanto, não ficou sensibilizada. Superministra, com mais poder que os ministros do tempo da ditadura, Zélia não se mostrou disposta a seguir as idéias de um homem prático e experiente como Ozires.

O governo Collor preferiu adotar o maior choque econômico da história do País. O chamado Plano Collor mudou a moeda, reintroduzindo o cruzeiro e confiscou, por 18 meses, as contas correntes e poupanças superiores a US$ 600. No primeiro mês do plano, a inflação caiu de 84 por cento para 3%. Em um ano, porém, o país voltaria ao caos.

Golfo e Gorbachev

Inicia-se a supremacia global norte-americana


Alfredo Mário Savelli assina o termo de posse, no seu segundo mandato, ladeado pelo governador do Estado de São Paulo, Mário Covas, e o secretário da Prefeitura do Município de São Paulo, Reynaldo Egydio de Barros.

Na madrugada do dia 17 de janeiro de 1991, dois anos e meio após o fim da guerra entre o Irã e o Iraque e seis meses depois da invasão do Kuwait pelas tropas do ditador Saddam Hussein, do Iraque, novo conflito eclodiu na região do Golfo Pérsico.


Comandantes norte-americanos deram o tiro de partida que detonou a Operação Tempestade no Deserto. Mísseis cruise, bombas "inteligentes" e outras armas dos aliados, autorizados pela ONU, castigaram a infra-estrutura do Iraque e suas tropas. No fim de fevereiro, grande parte do Iraque estava em ruínas. Saddam perdeu a guerra, a primeira guerra televisionada ao vivo da história do Homem.
Esse mesmo ano marcaria outra derrota: a do regime instalado na Rússia em 1917 por V. I. Lenin e seus seguidores. Boris Ieltsin comandou a resistência ao golpe que os conservadores soviéticos tentaram aplicar em Mikhail Gorbachev.
O objetivo era reafirmar a supremacia do Partido Comunista e impedir a fragmentação da União Soviética. O verdadeiro poder passou para as mãos de Yeltsin. Estimulado por ele, Gorbachev dissolveu o Partido Comunista e libertou as repúblicas. Em dezembro, como líder de um país que já não existia mais, Gorbachev renunciou.

Enquanto isso, no Brasil, voltavam a circular algumas boas notícias. Diminuía, em 1991, o número de analfabetos entre crianças em idade escolar, de 3,6 milhões para 3,3 milhões, segundo o IBGE. O governo Collor iniciava o Programa Nacional de Desestatização. A primeira empresa a ser leiloada foi a Usiminas, vendida por US$ 1,12 bilhão; logo em seguida a Celma, vendida por US$ 91 milhões; e a Mafersa, por US$ 48,8 milhões.

A par disso, o Instituto de Engenharia não descuidava dos assuntos técnicos eminentemente ligados às áreas urbanas e firmou convênio com a Câmara Municipal de São Paulo, para assessorá-la em projetos que envolvessem aspectos ligados à engenharia. Motivo para comemoração.


Collor sai, Ulysses morre

Instituto de Engenharia combate clientelismo político e defende iniciativa privada


O presidente Fernando Collor tornou-se o primeiro chefe de Estado na história da América Latina a ser constitucionalmente removido do cargo em pleno mandato. Ele renunciou em dezembro de 1992, após início dos procedimentos para o seu impeachment. As acusações de tráfico de influência e desfalques surgiram em maio daquele ano, feitas pelo próprio irmão caçula do presidente, Pedro Collor, e desembocaram numa minuciosa investigação, conhecida como "collorgate".


Em 12 de outubro, o "Sr. Diretas", deputado federal Ulysses Guimarães, sua esposa Mora, o senador Severo Gomes, sua mulher Henriqueta e o piloto que os conduziam morrem em desastre de helicóptero na região de Parati (RJ). O corpo de Ulysses nunca foi encontrado.
Em 1993 é realizado um plebiscito para decidir a forma e o sistema de governo no Brasil. A república é escolhida como forma de governo e o presidencialismo obtém a maioria, como sistema.


Tetra, Plano Real e FHC

E aposta na qualidade industrial e na estabilização econômica


A diretoria executiva de 1993/97: José Geraldo Baião, Cláudio Dall'Acqua, Alfredo Mário Savelli (presidente), João Machado Neto, Rui Leme Alvarenga e Ettore Bottura (da esq. p/ dir.). 

Sob a direção do técnico Carlos Alberto Parreira, a Seleção Brasileira de Futebol conquista, em julho de 1994, o tetracampeonato mundial, nos Estados Unidos, em dramática partida final, decidida na cobrança de pênaltis, contra a "esquadra azzurra", da Itália.

Em abril, o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, anuncia o Plano Real, para controlar a inflação, ampliar o poder de compra da população e incentivar a estabilização da moeda. É criada a Unidade Real de Valor (URV) um indexador de preços que antecedeu a implantação da nova moeda, o real. Em 1o. de março a URV entre em vigor, valendo um dólar. Em 1º de junho, entre em cena o real, valendo também um dólar.

Em 3 de outubro, realizam-se no País eleições para presidente, governador, senadores e deputados federais e estaduais. O ex-ministro Cardoso, da coligação PSDB/PFL/PTB, é eleito em primeiro turno, com o apoio de 54,3 por cento dos eleitores. Começa a era FHC.




Com o sucesso do Plano Real,  Fernando Henrique Cardoso, ministro que o implantou, é eleito Presidente da República com 54,3% dos votos, no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994.O Plano Real reduziu a inflação a índices baixíssimos. Restava saber por quanto tempo e a que preço.

O discurso do Instituto de Engenharia era pela "valorização dos investimentos empresariais com qualidade, contrapondo-se com a já conhecida falta de planejamento público, que prejudica o desenvolvimento de setores avançados e eficazes, foi a tônica do discurso do discurso."


Em 1996, a mudança monetária implementada dois anos antes, continuava dando bons resultados e finalmente controlava a desandada inflação brasileira. O então presidente do Instituto de Engenharia, Cláudio Dall'Acqua, em editorial da revista Engenharia, destaca a conquista de estabilidade monetária. A aposta do Instituto é que, na virada do milênio, o Brasil poderá estar em pé de igualdade com economias emergentes como as dos Tigres Asiáticos.

Esta luta encontra suas forças na esperanças de uma política de desenvolvimento econômico e social para o Brasil.


Seus desdobramentos presentes ditarão o que será o futuro...


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