InculturaçÃo josé Raimundo de Melo, S. J. A formaçÃo da liturgia cristã na igreja das origens



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INCULTURAÇÃO

José Raimundo de Melo, S.J.



A FORMAÇÃO DA LITURGIA CRISTÃ NA IGREJA DAS ORIGENS
Como a Igreja, também a liturgia tem uma sua história, que se foi formando e se desenvolvendo no decurso dos séculos cristãos. Trata-se de uma longa história, toda ela marcada por encarnações, adaptações, criatividades e inculturações, pois o cristianismo não nasceu já adaptado e assimilado aos diversos povos, mas teve necessidade de ir se encarnando nas várias culturas com as quais entrou em contato.

Desta forma, a Igreja, que vai surgir como um pequeno grupo em meio ao ambiente judaico, de início esteve profundamente marcada pelos modos e costumes próprios do judaísmo. E quando começa a se espalhar pelo mundo, por vezes sente necessidade de renunciar a alguns elementos judaizantes e, outras vezes, obedece ao imperativo de se adaptar aos costumes dos povos com quem se relacionou. Mas além de se adaptar aos povos, ela também teve que se adaptar às várias épocas culturais, aos vários séculos na evolução desses povos. Por ser a liturgia um dos aspectos mais exteriores e representativos da Igreja, capaz de apresentá-la como estandarte aos de fora (cf. SC 2), será ela a primeira a ter que realizar essa encarnação e adaptação na vida das gentes e nas várias épocas culturais.

A liturgia cristã que foi se estruturando na origem da Igreja e que conheceu inúmeras vicissitudes no decorrer dos anos, que a partir do Concílio de Trento e ao longo de quatro séculos se tornou rígida e intocável e que atualmente sente dificuldades de se encarnar nas culturas, sobretudo naquelas emergentes, como mesmo esta liturgia se formou e se organizou na Igreja? Responder a esta questão significa, de certa forma, ir colocando as bases de reflexão para um possível processo de inculturação da liturgia no hoje.

As práticas litúrgicas da Igreja das origens, como a celebração da eucaristia e os ritos sacramentais, a oração em comum e a pregação, estão ligados ao exemplo ou à recomendação de Jesus. Tais práticas, porém, não foram criadas por ele do nada, mas Jesus as tomou do culto hebraico de sua época. A Igreja apostólica segue nesta linha, e para as fórmulas não realizadas por Jesus, busca inspiração no culto dos hebreus. Já nas comunidades cristãs oriundas do paganismo, pouco a pouco vão entrar elementos provenientes inicialmente da cultura e mais tarde também da religião helênica e romana. É possível identificar a origem de muitas desses práticas. Vejamos a seguir que elementos na liturgia da Igreja provém do judaísmo, que outros provém do helenismo e o que nela é novo e original.

É de origem judaica, procedente do culto matutino da sinagoga, a Liturgia da Palavra composta por leituras, homilia e canto de salmos. Também a grande oração de Intercessão (ou Oração Universal) que precede a liturgia Eucarística, e que vem da oração judaica «dos 18 pedidos». O ciclo da semana de seis dias e a festa semanal, transferida logo cedo do sábado para o domingo. A festa de Páscoa e Pentecostes e ainda a idéia de santificação do curso anual do tempo e das estações com uma série de festividades religiosas: o Ano Litúrgico. A oração da manhã e da tarde (depois chamadas de Laudes e Vésperas), as horas diurnas (Terça, Sexta e Nona), as orações noturnas e ainda a contagem do dia litúrgico de uma tarde a outra ou de véspera a véspera. Ainda o uso de salmos de louvor na oração da manhã e as exortações que antecedem algumas orações, como “Corações ao alto”, “Oremos”, “Demos graças ao Senhor nosso Deus”; as doxologias e o uso litúrgico do “Santo, santo, santo”, que é tirado de Is 6,3; aclamações litúrgicas como Amém, Aleluia, Hosana, E com o teu espírito. A oração paradigmática, que implora ajuda e salvação apelando aos grandes modelos (paradigmas) da História da Salvação. O importante gesto da imposição das mãos. E ainda as lavagens, as imersões e emersões, os “batismos”, que eram conhecidos tanto pelo AT, como pela comunidade de Qumrã. João Batista os utilizou, Jesus mesmo se deixou batizar e os cristãos o assumem "no nome do Senhor Jesus", para participar de sua morte e ressurreição.

De origem helênica, em especial das religiões mistéricas, proveio a idéia que levou ao estabelecimento do rito da Iniciação Cristã com seus exorcismos, unções, celebração na noite pascal e, com isso, o uso das vigílias. Também a disciplina do arcano (isto é, não revelar aos de fora da Igreja o conjunto dos seus ritos e fórmulas sagradas). O submeter as fórmulas de oração às leis retóricas da simetria e conclusão rítmica do período. Expressões litúrgicas do tipo: eucaristia, eulogia, hino, vigília, anamnese, epiclese, mistério, prefácio, cânon, exorcismo, advento, ágape, epifania, doxologia, aclamação, e a própria palavra liturgia. Outras expressões como: Deo gratias, Kyrie eleison, Dignum et iustum est; e aquelas que reclamam a eternidade: em eterno, de eternidade em eternidade etc. Orações do tipo da ladainha e, de acordo com o exemplo judaico de rezar voltado para o templo de Jerusalém, o uso de rezar em direção ao Oriente e a conseqüente orientação das igrejas naquela direção.

Mas a Igreja apostólica, também cria formas novas de expressão: o batismo “no nome de Jesus”; a fração do Pão ou Ceia do Senhor, o memorial de sua morte; a imposição das mãos, mas com o sentido de conferir o Espírito, junto ao poder de presidir a comunidade eclesial; a unção dos enfermos.

Em resumo, na formação das primitivas expressões litúrgicas cristãs serviram como modelo, tipo e ponto de partida formas religiosas, rituais e culturais encontradas tanto no judaísmo, como no helenismo. Mas encontramos também formas novas, próprias dos cristãos. Por outro lado, algumas práticas do Antigo Testamento são abolidas, como o templo e os sacrifícios, o sábado, a circuncisão e muitas cerimônias. Assim pode-se dizer que a novidade do culto cristão não está na forma, mas no conteúdo. Muitas vezes conservando formas já existentes, os cristãos vão reinterpretá-las, dando-lhes um novo sentido. Este conteúdo, este significado diferente, encerra a novidade cristã. Jesus e cristãos tomando elementos do rito judaico e colocando-os para a comunidade cristã de “forma nova”, realizam uma verdadeira inculturação.

Ora, assim como a liturgia cristã se formou a partir de contribuições provenientes de tantas regiões, povos e épocas diversas e não passa pela cabeça de nenhum de nós a idéia de que os primeiros cristãos, acolhendo elementos já existentes ou realizando a adaptação do rito à cultura, foram infiéis ou irresponsáveis frente à Igreja que lhes foi confiada pelo Senhor, da mesma forma os cristãos hoje, edificados por tão belos exemplos, podem a justo modo, após examinarem diligentemente e com prudência as várias situações e respeitando a “substancial unidade do rito romano” (cf. SC 38), proceder a uma profunda e frutuosa adaptação do rito às culturas e índole dos vários povos. E isso se faz tanto mais exigente quanto sabemos ser verdadeiro direito de toda Igreja local exprimir o culto cristão mediante formas culturais próprias. A li­turgia é sempre ligada à expressão de uma Igreja local. Cada forma litúrgica é ligada a uma certa cultura, a um contexto cultural, e dentro deste contexto deve se exprimir. O desenvolvimento da forma litúrgica tem um valor relativo porque este desenvolvimento é contingente. Não se pode valorizar como imutável, definitivo, o que é simples resultante de um desenvolvimento.

Como “a liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes susceptíveis de mudança” (SC 21), trata-se de determinar aquilo que no rito romano constitui sua unidade substancial (e, portanto, não pode ser mudado) e aquilo que, por natureza, é passível de modificações, para atuarmos o necessário processo da inculturação litúrgica. Procedendo assim estaremos simplesmente sendo fiéis não só à inteira história da Igreja como, em especial, às exigências de inculturação já previstas pela reforma litúrgica do Vaticano II e resumidas nos artigos 37-40 da Constituição Sacrosanctum Concilium.




Como se deu a Inculturação da Liturgia ao longo dos séculos e

em contato com os povos com os quais a Igreja se relacionou?
No Suplemento de junho 1997 tratamos de como se formou na Igreja das origens os vários elementos que compõem a liturgia cristã. E vimos que a quase totalidade do seu complexo litúrgico proveio seja do culto dos judeus, seja da cultura e, um pouco mais tarde – quando não havia mais perigo de queda de cristãos na idolatria – também do culto dos pagãos. E isso bem indica que a Igreja já nas suas origens realiza uma verdadeira e própria inculturação. Ora, a partir de então e ao longo de toda a sua história a Igreja nada mais fez que ir se encarnando na existência das gentes com as quais se relacionou. Mas, como mesmo se deu tal processo? Vejamos a seguir alguns exemplos.

A Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, escrita por volta de 220, nos oferece um exemplo de inculturação quando descreve o rito de Iniciação Cristã do que entra a fazer parte da Igreja. Este recebe no momento da comunhão, além das espécies eucarísticas, leite e mel para significar “a realização da promessa feita aos patriarcas, de que lhes daria uma terra em que corre leite e mel”. O neófito, atravessando o rio Jordão por meio do batismo, entra na terra prometida e passa a gozar de seus frutos. Mas tal costume de dar leite e mel ao recém nascido já era usado pelos romanos antes do cristianismo para indicar que a criança era bem-vinda na família e como proteção contra os espíritos malignos. Temos aí um importante testemunho de inculturação nesta época.

Muitas outras inculturações vão aparecer a partir do Edito de Milão de 313, pelo qual Constantino deu paz à Igreja. É o caso da eucaristia, até então celebrada nas casas particulares dos cristãos ou domus Ecclesiae, que passa, sobretudo, às Basílicas, os edifícios públicos do império romano cedidos agora às novas necessidades de grandes espaços por parte da Igreja. Também os cerimoniais pontificais e as vestes litúrgicas passaram a ser uma adaptação daqueles utilizados na corte imperial. Mas não tardará a aparecer no Sacramentário Veronense, na oração de ordenação de bispos, presbíteros e diáconos, termos como grau, honra e dignidade, próprios do ambiente imperial romano. E ainda vemos a utilização pelos cristãos, mas só por algum tempo, do “refrigerium” dos pagãos, que consistia numa refeição realizada junto do túmulo, na qual uma quantidade de comida e bebida era reservada para o morto.

A Igreja desses primeiros séculos realiza a sua inculturação aos costumes dos povos seja pelo método da “assimilação” ou da “re-interpretação”, seja pelo da “substituição”. Pela “assimilação” ou “re-interpretação” ela simplesmente tomava práticas próprias dos pagãos nas quais podia inserir um significado cristão e as adotava na sua liturgia. Exemplos: o uso de orações do tipo das atuais ladainhas, provenientes do costume romano de invocar a divindade com muitas intercessões; o beijo do altar e de imagens sacras, derivadas de gestos de reverência pagãos; a utilização da veste branca e da vela batismal pelos recém-batizados, que deriva do uso desses símbolos pelos neófitos das religiões mistéricas; o costume de orar voltado para o Oriente, influenciado pelas religiões solares mediterrâneas.

Já pelo método da “substituição”, os cristãos faziam coincidir a data de certas práticas do culto pagão, sobretudo festas, com festividades cristãs, até que a comemoração cristã aí inserida acabava por abolir a pagã. Grande exemplo desta tática foi a substituição da festa do deus-sol invencível, celebrada pelos romanos em 25 de dezembro, pela festa do Natal do Senhor, posta pelos cristãos nesta mesma data. Também a festa da Cátedra de São Pedro, 22 de fevereiro, tomou o lugar de uma comemoração dos antepassados romanos, representados pela sua cadeira e a festa da Purificação de N. Senhora ou das Candeias substituiu as Lupercálias romanas, nas quais muitos giravam despidos e com tochas nas mãos numa corrida noturna que acabava em grandes excessos.

Mas um precioso exemplo de respeito e abertura diante dos costumes litúrgicos dos outros povos nos é referido numa carta endereçada pelo papa Gregório Magno (590-604) a Agostinho de Cantuária († cerca 605), evangelizador da Inglaterra, como resposta a uma outra em que Agostinho se lamenta ao papa pela independência demonstrada pelos bispos da Gália, que não observam uniformidade com a Igreja de Roma quanto à celebração da missa. Na sua resposta o papa mostra bem que fidelidade às tradições litúrgicas não se confunde com fidelidade ao rito romano. Ele, na verdade, não só não censura as diferentes práticas encontradas e relatadas por Agostinho, como ainda convida aquele evangelizador a assumir seja de Roma, seja da Gália ou de outra Igreja qualquer, os usos e costumes que considerar dignos de enriquecer ainda mais a liturgia da recém-criada Igreja inglesa, posta sob a sua direção.

A partir do séc. VIII dá-se a migração da liturgia romana para as terras franco-germânicas. Chegando lá esta liturgia prática, austera e breve dos romanos vai receber forte influxo daqueles povos, tornando-se uma liturgia dilatada e cheia de muitos simbolismos, bem ao gosto dos franceses e alemães de então. Voltando a Roma tempos mais tarde, tal liturgia ostentará um grande número de bênçãos, exorcismos, exposições, seqüências e, junto a isso, o declínio da participação ativa do povo, o hábito das missas privadas, devoções aos santos, orações pessoais, confissões durante a missa etc. A partir do séc. XIV e até o período do Barroco vai ainda marcar a liturgia o aparecimento em muitos países da Europa do drama litúrgico que, em meio à grande ignorância da liturgia, garante de qualquer modo uma certa catequese ao povo. Estas cenas, recitadas na igreja e até durante a Missa, interpretavam eventos comemorativos das festas litúrgicas, da Missa, do Ofício Divino etc. Mas quando cenas indecorosas começaram a aparecer, muitas dramatizações foram retiradas das igrejas e levadas para a praça pública. Algumas dessas cenas litúrgicas, através dos missionários espanhóis, alcançaram até mesmo a América Latina, onde sobrevivem ainda hoje.

Os séculos XVII e XVIII ofereceram também novidades em nível de desejo de uma maior participação do povo no culto. Foi o caso do Jansenismo, que apresentou uma certa retomada do conceito de assembléia e, entre outras coisas, lutou pelo uso da língua vernácula na liturgia. Identificado, porém, como um movimento atrás do qual se escondia a reforma protestante, foi desprezado e bem cedo condenado. Já o chamado Iluminismo católico, que teve a sua mais alta expressão no Sínodo de Pistoia (1786), lutou pela simplicidade e inteligibilidade dos ritos e dos textos e pelo valor da comunidade dos fiéis. Todavia, eivado de um exagerado racionalismo e de erros doutrinais, não só foi condenado, como também atrasou, por mais de um século e meio, o necessário processo de reformas, que enfim chegam com o Vaticano II.

Não podemos, porém, deixar de recordar, mesmo que só de passagem, a importante tentativa de inculturação por parte de jesuítas na China do século XVII. Estes missionários usaram palavras chinesas para exprimir conceitos cristãos e aproveitaram do culto que o povo prestava a seus antepassados para incluir aí a adoração ao verdadeiro Deus. Os jesuítas, porém, cedo são denunciados como promotores de atos de idolatria, iniciando-se uma longa controvérsia que dura mais de cem anos (começa, com efeito, em 1610, logo após a morte de Matteo Ricci e se conclui apenas em 1742, com a publicação da Bula papal Ex quo singulari) e teve como desfecho a proibição dos jesuítas desenvolverem suas atividades missionárias na China.

Acima tivemos alguns exemplos de como se realizou ao longo da história a inculturação da liturgia aos costumes dos povos. Um tal processo, pois, não é novo na Igreja; ele tem mesmo a idade da Igreja! Que estes poucos testemunhos concorram para nos ensinar a inculturar com abertura, coragem e fidelidade, a liturgia aos costumes dos nossos povos e ao modo de ser próprio das pessoas do nosso tempo.



Princípios eclesiais para a Inculturação da Liturgia hoje
A inculturação da liturgia à índole e às tradições dos vários povos é um importante princípio inspirador da reforma litúrgica que, por sua relevância e extrema urgência, tem exigido nos últimos tempos grande atenção por parte de inúmeras igrejas particulares. De fato, em lugar da rigidez de culto que caracterizou a liturgia cristã pelos exatos quatro séculos que separam o Concílio de Trento do Vaticano II, este último Concílio anuncia a nova era da “unanimidade no pluralismo”. E ao proclamar a reforma litúrgica geral, reconhece ainda que a liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes suscetíveis de mudanças, as quais com o correr dos tempos podem e mesmo devem mudar (cf. SC 21).

As normas e critérios para a inculturação litúrgica encontram-se descritos nos artigos 37-40 da Constituição Sacrosanctum Concilium1. Convém recordá-los rapidamente, por serem fundamentais na promoção de qualquer inculturação da liturgia nos anos pós-conciliares. Podemos dividir estes artigos em três partes. O n° 37, baseando-se na Encíclica Summi Pontificatus de Pio XII2, dá os princípios gerais da inculturação. O artigo introduz toda a seção, sustentando a pluriformidade da Igreja no que não afeta a unidade da fé e o bem da comunidade e declara que a Igreja respeita e encoraja a cultura dos vários povos. A segunda parte, artigos 38-39, trata das variações legítimas que podem ser introduzidas na liturgia romana, com a condição de que a unidade do rito romano seja preservada dentro dos limites estabelecidos pelas edições típicas. Em tais edições, a Santa Sé propôs variações que as Conferências Episcopais podem aceitar e inserir nos livros litúrgicos locais, mas após receberem a confirmação da Sé Apostólica. Tais variações não tocam a unidade substancial do rito romano3 e podem ser muito úteis às necessidades das diferentes Igrejas locais. Esta parte nos fornece, pois, o primeiro grau da inculturação.

Já na terceira parte, SC 40, encontramos o segundo grau da inculturação, isto é, uma encarnação ainda mais profunda, que supera as variações normais concedidas nas edições típicas dos livros litúrgicos. Neste caso são as Conferências Episcopais que propõem à Santa Sé as inculturações, enquanto cabe a esta dar o seu parecer, seguindo o procedimento descrito nos três parágrafos que compõem este mesmo artigo: 1) obtenção do consentimento da Santa Sé [SC 40,1]; 2) período de experimentação em grupos escolhidos [SC 40,2]; 3) parecer de pessoas peritas na matéria em questão [SC 40,3].

As inculturações mais brandas, também chamadas adaptações, de certa forma já as realizamos. Elas começaram pela adoção da língua do povo na liturgia, a tradução dos livros litúrgicos, adaptando-se ao caráter do idioma e do lugar, a revisão dos ritos e muitas outras acomodações menores que continuam sendo constantemente inseridas nos livros oficiais das Igrejas locais. As inculturações mais intensas continuam sendo a maior exigência de nossas igrejas, já que além de completar de forma coerente todo o projeto da reforma, concorre para valorizar na celebração os elementos culturais próprios dos vários povos e nações. É inegável a urgência que temos deste tipo de inculturação, sobretudo em muitos países da América Latina, África e Ásia. Mas não podemos esperá-la como algo que venha do alto, como que por milagre, e que seja capaz de resolver todos os problemas da adaptação litúrgica. As propostas têm necessariamente que partir da base, das inserções concretas que já realizamos no meio da realidade do povo, para a partir daí serem analisadas e seriamente estudadas por pessoas capazes de dar uma segura opinião a respeito. Aliás, este é o caminho indicado pela SC 40.

Anima-nos o fato de que neste processo, a própria história da Igreja vem em nosso auxílio, pois demonstra com inúmeros exemplos que a inculturação litúrgica foi firmemente realizada durante todo o tempo pela Igreja e continua ainda hoje mutíssimo necessária. A história, além de mostrar que a inculturação faz parte da tradição da Igreja, ensina ainda como proceder diante das novidades, que modelos imitar e quais erros evitar no processo e ainda como enfrentar os inevitáveis riscos de percurso.

Inúmeros fatos estão, assim, a nos mostrar que a Igreja não deseja que a liturgia seja acolhida pelos diversos povos como um corpo estranho, como algo que nada tem a ver com suas culturas, mas que seja sentida e vivida em harmonia com as próprias características que lhes distingue. João Paulo II observa mesmo que o problema da inculturação da liturgia não é novo na Igreja (carta de 4/12/88, Vicesimus Quintus Annus, n. 16), idéia que é ainda reforçada na encíclica do mesmo papa, Redemptoris Missio (de 7/12/90, n. 3). Sabendo que a conformação da liturgia às várias culturas é velha como a própria história da Igreja e sempre foi uma sua constante, fazendo parte integrante de sua já longa tradição, não nos deve alarmar a necessidade que hoje se faz imperiosa e mais que urgente de adaptar a liturgia à índole dos povos e das culturas.

Não se trata de um desejo efêmero ou de uma moda passageira. Inculturar a liturgia significa, em definitivo, ser fiel à mais pura tradição eclesial e responder positivamente às urgentes necessidades pastorais de nossos tempos, que nos exigem apresentar o culto cristão em conformidade com a linguagem de cada cultura e com o modo próprio de ser de cada povo.



É no Sínodo de 1977 sobre a catequese, que a pa­lavra in­culturação apareceu na aula sinodal pelo cardeal Sin, de Ma­nila, e pelo pe. Arrupe que, anos depois, terá uma definição feliz a respeito: “é a encarnação da vida e da mensagem cristã numa área cultural concreta, de sorte que esta expe­riência não somente chegue a expressar-se com os elementos pró­prios da cultura em questão (o que não passaria de adap­tação superficial), mas se converta no princípio inspirador, normativo e unificador, que transforme e recrie esta cul­tura, dando assim origem a ‘uma nova criação’“.4 Caracte­rizou-se assim a especificidade teológica da palavra incultu­ração. Ela é obra prin­cipal da Igreja particular: “esta ex­periência cristã é a do povo de Deus que vive numa área cul­tural de­terminada (...), é a experiência de uma Igreja lo­cal”.5 Dois anos depois do Sínodo, em 1979, a pa­lavra in­cultura­ção aparece junto com o termo acultu­ração na Exorta­ção Catechesi Tra­dendae de João Paulo II, para expressar uma das componentes do grande mistério da encarnação (CT 53) e o atual pontífice a usará com uma certa freqüência. É dele esta defi­nição: é “a encarnação do Evangelho nas cultu­ras au­tóctones e, ao mesmo tempo, a introdução dessas cul­turas na vida da Igreja”.6
O teólogo jesuíta Nicolas Standaert faz notar, porém, como na última década tem prevalecido, nos documentos do Ma­gistério, a leitura do Vati­cano II feita pela corrente mais conservadora na Igreja, leitura que ele qualifica de ‘minimalista’, marcada pelo temor de que as experiências pro­postas e reali­zadas pelas Igrejas particulares sejam um perigo para a tradi­ção da única Igreja. Segundo estes seto­res, a inculturação “é a contribuição com a qual o Evangelho enriquece as culturas, que permite elevá-las e transformá-las”, mas não reconhece sua contri­buição “à descoberta, à in­terpretação e à realização deste Evangelho”.7
A palavra inculturação recebeu sua consagração pelo Ma­gistério na última Carta Encíclica de João Paulo II, Redemp­toris Missio: a ela são dedicados os números 52-54, da se­ção dedicada aos Caminhos da Mis­são.8 O Papa recolhe a de­finição dada pelo Sí­nodo Extraordinário de 1985 e parece cor­rigir a visão minimalista, que podia notar-se nas decla­ra­ções precedentes, ao falar que “a Igreja universal se en­riquece com novas expressões e valores nos di­versos setores da vida cristã, tais como a evan­geli­zação, o culto, a teolo­gia, a caridade; conhece e exprime cada vez me­lhor o misté­rio de Cristo, e é estimulada a uma renovação contí­nua” (RM 52).9 Significativo é o fato de que a En­cíclica fale que os missionários devem “inserir-se no mundo sócio-cultural daqueles a quem são envia­dos”, e não incul­turar-se, e que a inculturação é obra “das comunida­des eclesiais em formação, (...) em comunhão entre si e com toda a Igreja” (RM 53); isto é, “deve en­volver todo o povo de Deus, e não apenas al­guns pe­ritos, (...) deve ser uma expressão de vida comunitá­ria, ou seja, amadurecida no seio da comuni­dade, e não fruto exclusivo de investigações erudi­tas” (RM 54).
“A inculturação do Evangelho é um imperativo do seguimento de Jesus e é necessária para restaurar o rosto desfigurado do mundo” (Santo Domingo, 13)

ACULTURAÇÃO


Processo graças ao qual elementos que sejam compatíveis com a liturgia romana possam ser incorporados nela, ou como substituição ou como ilustração de elementos eucológicos e rituais do próprio rito romano. Uma aculturação da liturgia romana deve tomar em consideração tanto os elementos formais quanto os teológicos do rito romano. Os elementos formais referem-se ao seu espírito de simplicidade, sobriedade, brevidade e cunho prático. Elementos teológicos do rito romano são, por exemplo, o uso de dirigir-se ao Pai pelo Filho no Espírito Santo. Concretamente falando, aculturação seria introduzir uma mudança ou modificação num ou noutro ou em ambos estes elementos, com vantagem para a índole de um povo.
INCULTURAÇÃO
Processo graças ao qual um rito pré-cristão passa a ser dotado de significado cristão. A estrutura original do rito, junto com seus elementos rituais e celebrativos, não deve sofrer mudança radical, mas a igreja modifica o seu significado, a fim de poder exprimir o mistério cristão. O processo de inculturação é uma forma de conversão à fé, de metanoia dos ritos pré-cristãos.

1  A SC 23 já havia tratado da necessidade de conservar uma sã tradição, unida à abertura a um legítimo progresso. Daí a SC 21 assinalar que antes de proceder a qualquer revisão, necessário se faz a realização de uma pesquisa teológica, histórica e pastoral sobre as partes em questão. A SC 34 pede que os ritos sejam simples, breves e claros. Mas os artigos 37-40 da SC vão além disso, ao permitir a adaptação da liturgia à cultura dos vários povos.

2  Summi Pontificatus: Carta encíclica de Pio XII: AAS 31 (1939) 413-453; ver especialmente 429.

3  Trata-se aqui das “formas litúrgicas mutáveis que por si podem e devem mudar, como a história comprova. Algumas delas, porém, se tornaram a estrutura substancial do rito romano, e a legislação vigente exige que sejam conservadas (SC 38). No entanto, outras são mais variáveis e quase não expressam o uso permanente da Igreja Latina (cf. SC 29-30)” (As conclusões de Lima, n. 43.2, CNBB 1984). Não é fácil, porém, determinar exatamente o que vem a ser a unidade substancial do Rito Romano, como fazem observar vários autores.

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