Influências Filosóficas sobre a Psicologia o espírito do Mecanismo



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Influências Filosóficas sobre a Psicologia

O Espírito do Mecanismo

O Universo Mecânico

Os Primórdios da Ciência Moderna René Descartes (1596-1650)

O Mecanismo e o Problema Mente-Corpo

O Espírito do Mecanismo

Empiristas e Associacionistas Britânicos: Adqui rindo Conhecimento por Intermédio da Experiência

John Locke (1632-1704)

George Berkeley (1685-1753)

David Hume (1711-1776)

David Hartiey (1705-1757)

James Miii (1773-1836)

John Stuart Miii (1806-1873)

Contribuições do Empirismo à Psicologia

Nos jardins reais da Europa do século XVII surgiu uma extravagante forma de diverti mento entre as muitas maravilhas de uma época verdadeiramente estimulante. A água, corren do em tubulações subterrâneas, punha em operação figuras mecânicas que faziam uma varie dade de movimentos, tocavam instrumentos musicais e chegavam a produzir sons semelhantes a palavras. Placas de pressão ocultas, ativadas quando as pessoas inadvertidamente pisavam nelas, empurravam a água pelos encanamentos até o maquinário que movia as estátuas.

Essas diversões da aristocracia refletiam e reforçavam o fascínio seiscentista pelo mila gre da máquina. Toda espécie de máquina foi inventada e aperfeiçoada para uso na ciência, na indústria e nas diversões, O relógio mecânico — chamado por um historiador de “a mãe das máquinas” — é o exemplo mais importante por causa do seu impacto no pensamento científico (Boorstin, 1983). Os relojoeiros foram os primeiros a aplicar teorias da física e da mecânica à construção de máquinas. Além dos relógios, foram desenvolvidos bombas, alavancas, roldanas e guindastes para servir às necessidades humanas, e parecia não haver limites aos tipos de máquinas possíveis de se conceber, ou aos usos que lhes poderiam ser dados.

Você pode se perguntar qual a relação disso com a história da psicologia moderna. Referirno-nos, afinal, a uma época que precede em duzentos anos o estabelecimento da psicologia como ciência focalizando a tecnologia e a física, disciplinas que parecem bem distantes do estado da natureza humana. A relação, no entanto, é clara e direta, visto que os

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princípios personificados pelos relógios e figuras mecânicas do século XVII influenciaram a direção que a nova psicologia seguiria em quase toda a sua existência.



Falamos aqui do Zeitgeist dos séculos XVII a XIX, o solo intelectual que alimentou a nova psicologia. A idéia ou conceito básico do século XVII — a filosofia que iria alimentar a nova psicologia — era o espírito do mecanismo, a imagem do universo como uma grande máquina. Essa doutrina afirmava que todos os processos naturais são mecanicamente detemii nados e podem ser explicados pelas leis da física.

A idéia teve origem na física — então conhecida como filosofia natural — como resultado do trabalho de Galileu e, mais tarde, de Newton (que, talvez não tão por acaso, fora aprendiz de relojoeiro). Acreditava-se que a natureza de tudo o que existia no universo fossem apenas partículas de matéria em movimento. Segundo Galileu, a matéria se compunha de corpúsculos discretos ou de átomos que se afetavam uns aos outros pelo contato direto, como o fazem as bolas de bilhar. Mais tarde, Newton aprimorou a concepção mecânica de Galileu ao postular que o movimento não era transmitido pelo contato físico, mas por forças de atração e repulsão. Sua idéia, embora importante na física, não alterou radicahnente o conceito nem o modo como ele foi usado na psicologia.

Se o universo consistia de átomos em movimento, todo efeito físico (o movimento de cada átomo) seria conseqüência de uma causa direta (o movimento do átomo que colidira com ele), e estaria sujeito a leis de medida e cálculo, devendo ser, por conseguinte, previsível. Esse jogo de bilhar, a operação do universo físico, era organizado e sistemático, como um relógio ou qualquer outra boa máquina. O universo físico fora planejado por Deus com perfeição absoluta — no século XVII, os cientistas ainda podiam atribuir causa e perfeição a Deus — e, uma vez que os cientistas conhecessem as leis de funcionamento do universo, seria possível determinar como ele se comportaria no futuro.

Os métodos e as descobertas da ciência nesse período se desenvolviam a passos largos ao lado da tecnologia, havendo entre elas uma combinação de extrema eficácia. A observação e a experimentação tomavam-se as marcas distintivas da ciência, seguidas de perto pela medição. Os pesquisadores logo iriam tentar definir ou descrever todo fenômeno por meio de um número — um processo vital para o estudo do universo como máquina. Nessa era da máquina, foram desenvolvidos e aperfeiçoados termômetros, barômetros, réguas de cálculo, micrômetros, relógios de pêndulo e outros dispositivos de medição, que serviram para reforçai a noção de que era possível medir todos os aspectos do universo mecânico.

O Universo Mecânico

O relógio era a metáfora perfeita para o espírito mecanicista do século XVII, tendo sid justamente considerado uma das maiores invenções de todos os tempos. Os relógios eram, n época, uma sensação tecnológica, não muito diferentes do que os computadores são no noss século. Nenhuma outra máquina tinha tido tal impacto sobre o pensamento humano em tode os niveis da sociedade. Nessa época os relógios eram produzidos em grande número e er variados tamanhos. Alguns eram pequenos o bastante para caber numa cornija de lareira. C maiores, alojados nas torres das igrejas e edifícios públicos, podiam ser vistos e ouvidos p todos os habitantes de uma cidade. Enquanto o espetáculo das figuras mecânicas movidas água nos jardins reais só era visto pela elite, os relógios eram acessíveis a todos, independei temente de classe ou de circunstâncias econômicas. O conceito do relógio mecânico

apossou da mente e do espírito de toda uma civilização como nenhuma outra máquina antes Raras vezes na história uma máquina expressou tão diretamente, e ao mesmo tempo afetou, clima intelectual de sua época” (Maurice e Mayr, 1980, pp. vii, ix).

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Devido à sua visibilidade, regularidade e precisão, os pesguisadores começaram a con siderar os relógios como modelos para o universo fisico, perguntando-se se o próprio mundo não poderia ser um vasto relógio construído e movido pelo Criador”. Muitos cientistas — incluindo o físico inglês Robert Boyle, o astrônomo alemão Johannes Kepler e o filósofo francês René Descartes — responderam à pergunta com uma afirmação e passaram a considerar o universo “um grande relógio” (Boorstin, 1983, pp. 71, 72). Eles acreditavam que a harmo nia e a ordem do universo podiam ser explicadas em termos da regularidade dos relógios, que é embutida na máquina pelo relojoeiro, assim como a regularidade do universo fora, segundo se pensava, embutida nele por Deus.



O filósofo alemão Christian von Wolff descreveu o relógio e o universo em termos simples: “O universo não se comporta distintamente do mecanismo de um relógio.” Seu aluno

Johann Cristoph Gottsched desenvolveu o princípio:

Na medida em que é uma máquina, o universo assemelha-se a um relógio; e é num relógio que podemos, numa escala menor, tornar mais evidente à compreensão aquilo que ocorre no universo em escala maior. As engrenagens do relógio representam as partes do universo; os movimentos dos ponteiros [ os eventos e as modificações que se processam no universo. Assim como no relógio todas as posições das engrenagens e dos ponteiros advêm do arranjo interior, da forma, da dimensão e da ligação de todas as suas partes de acordo com as regras do movimento, assim também tudo quanto acontece no univeiso produz o seu efeito (Maurice e Mayt, 1980, p. 290).

Quando visto como uma máquina semelhante a um relógio, o universo, uma vez cons truído e posto em movimento, vai continuar a funcionar com eficiência sem nenhuma interfe rência exterior. O uso da metáfora do relógio envolve a idéia do determinismo, a crença de que todo ato é determinado por eventos passados. Podemos prever as mudanças que vão ocorrer no relógio, bem como no universo, por causa da regularidade e da seqüência operacio nal de suas partes. Gottsched acrescentou: “Aquele que perceber perfeitamente a estrutura [ relógio] poderá ver toda coisa futura a partir do seu passado e do seu estado presente de organização” (Maurice e Mayr, 1980, p. 290).

Não era difícil perceber perfeitamente a estrutura do relógio. Qualquer pessoa poderia com facilidade, desmontar um, e ver exatamente como ele funcionava. Desse modo, o redu cionismo como método de análise foi propagado como um artigo de fé para nova ciência. O funcionamento de máquinas como os relógios podia ser compreendido por meio da sua análise e redução aos seus componentes básicos. Da mesma maneira, poder-se-ia compreender o universo físico — que era, afinal, apenas outra máquina — analisando-o ou reduzindo-o às suas partes mais simples: moléculas e átomos. O reducionismo como método de análise iria carac terizar todas as ciências em desenvolvimento, incluindo a nova psicologia.

Sendo úteis a uma explicação do funcionamento do universo físico, a metáfora do relógio e a análise científica também serviriam para o estudo da natureza humana? Se o universo era semelhante a uma máquina — organizado, previsível, observável e mensurável —, não poderiam os seres humanos ser considerados do mesmo modo? As pessoas e os animais também eram uma espécie de máquina?

A aristocracia intelectual e social do século XVII já tinha os modelos para essa noção nas figuras mecânicas dos seus jardins, e a proliferação de relógios fornecia modelos seme lhantes para todos. Em todos os níveis da sociedade, as pessoas só precisavam olhar ao seu redor para ver geringonças mecânicas chamadas autômatos realizando façanhas prodigiosas com precisão e regularidade.

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Esses bonecos automáticos podem ser vistos hoje nas praças centrais de muitas cidades européias, onde as figuras mecânicas no relógio da torre das prefeituras marcham e dançam, tocam instrumentos musicais e, com seus martelos, fazem soar imensos sinos para marcar os quartos de hora. Na Catedral de Estrasburgo, na França, as figuras dos Magos se inclinam de hora em hora diante de uma estátua da Virgem Maria, enquanto um galo abre o seu bico, põe a língua para fora, agita as asas e canta. Na Catedral de Wells, na Inglaterra, pares de cavaleiros em armadura giram uns em tomo dos outros, simulando um combate. Quando o sino bate a hora, um cavaleiro derruba o outro do cavalo. O Museu Nacional Bávaro de Munique, na Alemanha, abriga um papagaio de uns meros quarenta centimetros. Quando o relógio marca a hora, o papagaio assobia, move o bico, agita as asas, gira os olhos e deixa cair uma pelota de aço do seu rabo!



Na figura 2-1, você pode ver o mecanismo interno da figura de um monge com quarenta centímetros de altura, hoje pertencente à coleção do Museu Nacional de História Americana em Washington, D.C. O monge está programado para mover-se tio espaço de uma praça de pouco mais de sessenta centímetros. Seus pés parecem movimentar-se sob o hábito, mas na verdade a estátua se move sobre rodas. Ele bate no peito com um braço e acena com o outro, vira a cabeça de um lado para o outro, balança-a, abre e fecha a boca e movimenta os olhos.

Esse tipo de tecnologia mecânica, ao ver dos filósofos e cientistas da época, parecia capaz de realizar o seu sonho de criar um ser artificial. Na verdade, muitos dos primeiros bonecos automáticos davam claramente essa impressão. Poderíamos considerá-los os bonecos de Disney da época, e é fácil compreender por que as pessoas chegaram à conclusão de que os seres humanos e os animais não passavam de outras formas de máquina.

Observemos outra vez o mecanismo interno do monge. Podemos compreender, quase à primeira vista, o funcionamento das engrenagens, alavancas, catracas e outros dispositivos que produzem os movimentos da figura. René Descartes e outros filósofos adotaram esses bonecos automáticos, ao menos até certo ponto, como modelos para os seres humanos. Para eles, não era apenas o universo que se assemelhava ao mecanismo do relógio; as pessoas também. Descartes escreveu que essa idéia não iria parecer nada estranha para quem estí acostumado com os diferentes autômatos, ou máquinas que se movem, fabricadas pek engenho humano... essas pessoas vão considerar o próprio corpo uma máquina feita pela mãos de Deus, incomparavelmente mais bem organizada e adequada a movimentos mai admiráveis do que qualquer máquina inventada pelo homem” (Descartes, 1637/1912, p. 44 As pessoas podiam ser máquinas melhores do que as construídas pelos relojoeiros, mas erar máquinas mesmo assim.

Desse modo, os relógios abriram caminho para a idéia de que os seres humanos sã mecânicos e que os mesmos métodos experimentais e quantitativos, que tinham alcançad tanto sucesso no estudo dos segredos do universo físico, podiam ser aplicados à pesquisa natureza humana. Em 1748, o médico francês Julien de La Mettrie (que morreu de un overdose de faisão e trufas) afirmou: Tenhamos a coragem de concluir que o homem é mi máquina.” Isso se tomou uma força propulsora do Zeitgeist, não somente na filosofia, m em todos os aspectos da vida, e alterou drasticamente a imagem da natureza humana viger até então.

E assim surgiram, entre os séculos XVII e XIX, a concepção dos seres humanos coi máquinas e o método — o método científico — mediante o qual era possível investigai natureza humana. As pessoas se tomaram máquinas, o mundo modemo foi dominado p perspectiva científica e todos os aspectos da vida passaram a ficar sujeitos a leis mecânica

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Os Primórdios da Ciência Moderna



Observamos que o século XVII testemunhou desenvolvimentos científicos de longo alcance. Até então, os filósofos tinham procurado respostas no passado, nas obras de Aristó teles e outros sábios antigos, bem como na Bíblia. As forças que governavam a busca do conhecimento eram o dogma e as figuras de autoridade. Nesse século, uma nova força assumiu predominância: o empirismo, a obtenção do conhecimento por meio da observação da nature za. A sabedoria vinda do passado tornou-se suspeita. A idade de ouro seiscentista foi iluminada pelas descobertas e percepções de estudiosos que, com sucesso, criaram ou refletiram a atmosfera propícia a mudanças em que a pesquisa científica florescia. Embora esses pesquisa- dores tenham importância para a história da ciência, a maior parte do seu trabalho não tem relação direta com a evolução da psicologia.

Um deles, no entanto, René Descartes, contribuiu diretamente para a história da psicolo gia moderna. Mais do que ninguém, ele libertou a pesquisa dos rígidos dogmas teológicos e tradicionais que a haviam controlado durante séculos. Ele simbolizou a transição da Renascen ça para a moderna era científica, ao aplicar a idéia do mecanismo do relógio ao corpo humano. Muitos acreditam que, com isso, ele inaugurou a psicologia moderna.

René Descartes (1596-1650)

Descartes nasceu na França em 31 de março de 1596. Seu pai era conselheiro no parlamento da Bretanha, e dele Descartes herdou recursos suficientes para sustentar uma vida de estudos e viagens. Ao contrário de outras pessoas em circunstâncias semelhantes, ele não se tomou um diletante, o que é possível atribuir ao seu gênio, à sua curiosidade e à sua fome de saber, bem como à sua indiferença pela autoridade dogmática e ao seu desejo de evidências e provas.

De 1604 a 1612, foi aluno de um colégio jesuíta, onde estudou humanidades e matemá tica. Também exibia um considerável talento para a filosofia, a física e a fisiologia. Como Descartes tinha uma saúde frágil, o reitor o dispensou dos serviços religiosos matinais e permitiu que ficasse na cama até o meio-dia, hábito que ele manteve por toda a vida. Era ne calma das manhãs que ele estudava e produzia suas idéias mais criativas.

Depois de completar sua educação formal, Descartes foi provar as delícias da vida etr Paris. Com o tempo, acabou se cansando e resolveu recolher-se para estudar matemática. Eu 1617, tornou-se cavalheiro voluntário dos exércitos da Holanda, da Bavária e da Hungria atitude estranha para alguém de natureza tão contemplativa. Gostava de dançar e jogar e devido aos seus talentos matemáticos, era um jogador de sucesso. Era também aventureiro espadachim e, segundo contam, conheceu todos os vícios e prazeres humanos. Seu únic vínculo romântico duradouro foi um caso amoroso de três anos com uma holandesa que, eI 1635, deu à luz a uma filha. Descartes adorava a criança e ficou arrasado quando ela morre aos cinco anos de idade. Ele descreveu essa perda como o mais profundo sofrimento da sua vid

Descartes tinha profundo interesse em aplicar o conhecimento a questões práticas. Pe:

quisou técnicas que evitassem o embranquecimento do cabelo e realizou experimentos sobre

uso de cadeiras de roda por pessoas fisicamente deficientes.

Em novembro de 1619, ainda no exército, Descartes teve uma série de sonhos q modificaram a sua vida. Segundo seu relato, ele passara o dia 10 de novembro sozinho, nu quarto aquecido por uma estufa, meditando sobre idéias relacionadas com a matemática e ciências. Descartes adormeceu e, em sonhos, de acordo com a sua interpretação posterior, 1 repreendido por seu ócio. Ele havia sido visitado pelo Espírito da Verdade, que se apossou

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sua mente. Essa experiência profunda o persuadiu a dedicar a vida à proposição de que a matemática podia ser aplicada a todas as ciências e, assim, produzir a certeza do conhecimento.



Voltou a Paris em 1623 para prosseguir a sua obra matemática e mais uma vez viu que

a vida ali era demasiado dispersiva. Vendeu as propriedades herdadas do pai e mudou-se para

o interior da Holanda em 1628. Sua necessidade de solidão e de reclusão era tarnanha que, nos

vinte anos seguintes, viveu em treze cidades e em vinte e quatro casas diferentes, só revelando

o seu endereço aos amigos mais próximos com quem mantinha copiosa correspondência. Suas

únicas outras exigências parece que foram ficar próximo de uma igreja católica romana e de

urna universidade.

Quase todas as suas obras mais importantes foram escritas durante os seus anos na

Holanda, onde a liberdade de pensamento era garantida. No entanto, foi vítima de certa

perseguição religiosa. Num dado momento, os livreiros foram proibidos de vender suas obras,

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Dentre as contribuições do matemático e filósofo francês René Descartes à psicologia estão a doutrina das idéias inatas, a noção da ação reflexa e uma teoria da interação mente-corpo.



e ele foi levado diante dos magistrados para responder às acusações feitas por Teólogos de duas cidades holandesas, de ser ateu e libertino, acusações sérias para um católico devoto.

A fama crescente de Descartes chamou a atenção da rainha Cristina da Suécia, que o convidou a ensinar-lhe filosofia. Embora relutante em renunciar à sua liberdade e solidão, ele tinha grande respeito pelas prerrogativas reais. Um navio de guerra foi enviado para buscá-lo, e ele embarcou para a Suécia no outono de 1649. A rainha, que fora descrita como uma aluna não muito boa, insistiu em iniciar as aulas às cinco horas da manhã numa biblioteca mal- aquecida durante um inverno incomumente rigoroso. Descartes suportou levantar-se cedo e enfrentar o frio extremo por quase quatro meses, antes de morrer de pneumonia em 11 de fevereiro de 1650.

Um interessante pós-escrito à morte de um homem que dedicou boa parte da vida ao estudo da interação entre a mente e o corpo é a história do que se passou com seu próprio corpo. Dezesseis anos depois de sua morte, os amigos decidiram que seus despojos deveriam voltar à França. Infelizmente, o ataúde que enviaram à Suécia era pequeno demais para conter os seus restos mortais. A solução a que chegaram as autoridades foi cortar a cabeça e conservá la em Estocolmo até que pudessem ser tomadas providências para devolvê-la a Paris.

Enquanto o cadáver estava sendo preparado para a viagem à França, o embaixador francês na Suécia decidiu que queria uma lembrança e cortou o indicador direito. O corpo, agora sem cabeça e com um dedo a menos, foi sepultado novamente em Paris em meio a grande pompa e esplendor. Algum tempo depois, um oficial do exército desenterrou o crânio e, por 150 anos, ele mudou de mãos, de um colecionador sueco para outro, até fmalmente chegar a Paris, onde hoje está em exibição no Museu do Homem.

O Mecanismo e o Problema Mente-Corpo

O mais importante trabalho de Descartes em favor do progresso da psicologia é sua tentativa de resolver o problema mente-corpo, objeto de controvérsia durante séculos. Ao longo das épocas, os eruditos têm discutido sobre o modo como a mente, ou as qualidades mentais, podia se distinguir do corpo e de todas as outras qualidades físicas. A questão básica e enganosamente simples é: a mente e o corpo — o mundo mental e o mundo material — são essências ou naturezas distintas? Desde a época de Platão, a maioria dos pensadores tinha assumido uma posição dualista; sustentava-se que a mente (ou alma, ou espírito) e o corpc tinham naturezas diferentes. Mas aceitar essa posição traria outros problemas: se a mente e ( corpo têm naturezas diferentes, qual é o relacionamento entre eles? Um influencia o outro o eles são independentes?

A teoria aceita antes da época de Descartes dizia que a interação tinha essencialment uma direção: a mente podia exercer uma enorme influência sobre o corpo, mas este tinh pouco impacto sobre ela. Um historiador contemporâneo sugeriu que, antes de Descarte concebia-se que a relação entre mente e corpo era a mesma que entre a marionete e o se manipulador (Lowry, 1982). A mente é como o manipulador, movimentando os cordões do corp

Descartes aceitou essa posição dualista. A seu ver, a mente e o corpo eram de fa essências diferentes. Mas ele se desviou da tradição ao definir o relacionamento entre os do Em sua teoria da interação mente-corpo, Descartes sugeriu que a mente influencia o corpo que este pode exercer sobre ela uma influência maior do que antes se supunha. A relação n é unilateral, mas sim uma interação mútua. Essa idéia, radical no século XVII, teve importani implicações.

Depois que Descartes propôs sua doutrina, muitos estudiosos descobriram que já r

podiam sustentar a idéia de que a mente era o mestre das duas entidades, o titereiro furic

nando quase independentemente do corpo. Este, a essência material, passou a ser visto co

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mais central, e certas funções antes atribuidas à mente passaram a ser consideradas pertenceu tes ao corpo. Na Idade Média, por exemplo, acreditava-se que a mente era responsável não só pelo pensamento e pela razão, mas também pela reprodução, pela percepção e pela locomoção. Descartes alegava que a mente só tinha uma função: a de pensar. Todos os outros processos eram funções do corpo.



Desse modo, ele introduziu uma abordagem do problema mente-corpo que focalizava a atenção numa dualidade física/psicológica. Ao fazê-lo, desviou a atenção do conceito abstrato da alma para o estudo da mente e suas operações. Como resultado, os métodos de pesquisa deixaram a análise metafísica e abraçaram a observação objetiva. Enquanto só se podia especular sobre a existência da alma, era possível observar a mente e os seus processos.

Logo, mente e corpo são duas entidades distintas. Não há semelhança qualitativa entre o corpo (o mundo material ou físico) e a mente (o mundo mental). A matéria, a substância material do corpo, tem extensão (ela ocupa espaço) e opera de acordo com princípios mecâni cos. A mente, contudo, é livre, não tem extensão nem substância. Mas a idéia revolucionária é a de que mente e corpo, embora distintos, são capazes de interagir dentro do organismo humano. A mente pode influenciar o corpo e o corpo pode influenciar a mente.

Examinemos com mais atenção a concepção cartesiana do corpo. Sendo composto de matéria física, o corpo deve ter as características comuns a toda a matéria — extensão no espaço e capacidade de movimento. Se ele é matéria, as leis da física e da mecânica que explicam o movimento e a ação no mundo físico também têm de aplicar-se a ele. Quando considerado à parte da mente — e é possível fazê-lo porque corpo e mente são entidades distintas — o corpo é como uma máquina cuja operação pode ser explicada pelas leis mecânicas que governam o movimento de objetos no espaço. Seguindo essa linha de raciocínio, Descartes passou à explicação do funcionamento fisiológico em termos de física.

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